Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 36 de 48

Páginas do PDF

Eu, primata

Animal Tem Empatia?

Não pense que ajudar estranhos é sempre fácil. Quando Lenny Skutnik mergulhou no gelado rio Potomac em 1982 para salvar uma ví ma de um desastre de avião, ou quando civis europeus esconderam famílias judias durante a Segunda Guerra Mundial, correram riscos imensos. É comum, durante terremotos, pessoas entrarem correndo em prédios que estão desabando ou nas casas em chamas para rar estranhos lá de dentro. Uma recompensa pode vir depois na forma de elogios no no ciário da noite, mas esse não pode ser o mo vo. Nenhuma pessoa com sanidade mental arriscaria a vida por um minuto de glória televisiva. No caos do 11 de setembro em Nova York ocorreram numerosos atos de heroísmo anônimo.

Mas, apesar de ocasionalmente nós e outros animais sociais ajudarmos outros sem pensar em nós mesmos, eu ainda diria que essas tendências originam-se da reciprocidade e da assistência aos parentes. Jet, o cão herói, provavelmente considerava o menino um membro de sua ma lha. Sociedades humanas primi vas podem ter sido ó mos viveiros para a “sobrevivência dos mais bondosos” que ajudavam a família e os potenciais retribuidores. Uma vez surgida essa sensibilidade, seu alcance expandiu-se. Em algum momento, a solidariedade tornou-se um obje vo em si: o pivô da moralidade humana e um aspecto essencial da religião. Assim, o cris anismo nos exorta a amar o próximo como a nós mesmos, a ves r quem está nu, alimentar os pobres e cuidar dos doentes. É bom ter em mente, porém, que ao enfa zar a bondade as religiões estão recomendando o que já faz parte da nossa condição humana. Não estão invertendo o comportamento humano, apenas ressaltando capacidades preexistentes. Como poderia ser de outro modo? Semear moralidade em solo infér l é tão impossível quanto ensinar um gato a ir buscar o jornal.

 

ANIMAL TEM EMPATIA?

Era uma vez o presidente de um grande país conhecido por determinada expressão facial. Em um ato de mal controlada emoção, ele mordia o lábio inferior e dizia aos ouvintes: “Sinto a sua dor”. A questão não é se havia ou não sinceridade em sua expressão, e sim a possibilidade de alguém ser afetado pelo sofrimento de outro. Empa a e simpa a são nossa segunda natureza, tanto assim que vemos quem não as demonstra como uma pessoa mentalmente doente ou perigosa. No cinema, não escapamos de nos transferir para os personagens da tela. Nós nos desesperamos ao vê-los se afogarem no naufrágio do transatlân co, exultamos quando fitam os olhos da pessoa amada finalmente reencontrada. Todos ficamos de olhos marejados, embora estejamos apenas sentados olhando para uma tela. Todos conhecemos a empa a, no entanto demorou muito para que ela fosse levada a sério como objeto de estudo. Atributo meigo demais para os empedernidos cien stas, a empa a era classificada junto com a telepa a e outros fenômenos sobrenaturais. Os tempos mudaram, e recentemente meus chimpanzés provaram-no durante a visita de uma das pioneiras das pesquisas sobre empa a em crianças, Carolyn Zahn-Waxler. Carolyn e eu fomos ver a colônia de Yerkes. Entre os primatas havia uma fêmea chamada Thai que sente grande atração pelas pessoas. Ela se interessa até mais por nós do que por seus companheiros chimpanzés. Toda vez que apareço na torre de observação da colônia, ela vem correndo me saudar com grunhidos altos. Sempre a cumprimento e converso com ela, após o que ela se senta ali e fica me olhando até eu ir embora. Desta vez, porém, eu estava tão entre do na conversa com Carolyn que mal olhei para o outro lado. Como não cumprimentei Thai, nossa conversa foi interrompida por gritos estridentes que nos chamaram a atenção. Thai ba a em si mesma, como fazem os chimpanzés durante acessos de raiva, e logo foi cercada pelos outros, que a abraçaram, beijaram ou seguraram brevemente, tentando tranqüilizá-la. Percebi na hora a razão daquele escândalo e a saudei calorosamente, acenando-lhe de longe. Expliquei a Carolyn que Thai se sen ra negligenciada porque eu não a cumprimentara. Carolyn não teve dificuldade para reconhecer aquele comportamento. Thai con nuou a me olhar com um esgar nervoso até por fim se acalmar.

O mais interessante nesse incidente não foi Thai ofender-se com minha desconsideração, mas o modo como o grupo reagiu. Esse é exatamente o po de comportamento que Carolyn estuda em crianças. Os outros tentaram aliviar a aflição de Thai. Carolyn demonstrou que essa habilidade existe em animais, muito embora eles não sejam seu objeto de estudo. Quando sua equipe visitou lares para verificar como as crianças reagiam ao ver familiares fingindo tristeza (soluçando), dor (gritando “ai”) ou aflição (tossindo e sufocando), descobriu que crianças com pouco mais de um ano de idade já consolam os outros. Esse é um marco no desenvolvimento da criança: uma ocorrência adversa para alguém que ela conhece provoca uma reação atenciosa e preocupada, como afagar ou massagear o machucado da ví ma. Já que as expressões de simpa a emergem em pra camente todos os membros da nossa espécie, são uma realização tão natural quanto o primeiro passo. Até pouco tempo atrás, supunha-se que a empa a requeria a linguagem. Vários cien stas vêem a linguagem como fonte, e não produto, da inteligência humana. Como o comportamento de uma criança de um ano sem dúvida suplanta suas habilidades verbais, a pesquisa de Carolyn mostrou que a empa a se desenvolve antes da linguagem. Isso é importante para as pesquisas sobre animais, nas quais são estudadas criaturas não verbais. A equipe de Carolyn descobriu que animais de es mação, como cães e gatos, perturbavam-se tanto quanto as crianças com os membros da família que fingiam sofrimento. Os animais rodeavam essas pessoas, punham a cabeça em seu colo, dando a impressão de estar preocupados. A julgar pelos mesmos padrões aplicados às crianças, os animais também demonstraram empatia. Tal comportamento é ainda mais notável nos grandes primatas não humanos, e o chamamos de “consolo”. Medimos o consolo simplesmente esperando até que uma briga ocorra espontaneamente entre nossos chimpanzés e anotando quando circunstantes se aproximam da ví ma. Muitos circunstantes abraçam e fazem grooming nos contendores que sofrem. É comum algum filhote cair de uma árvore e gritar. Imediatamente ele é rodeado por outros, que o pegam no colo e o embalam. Foi exatamente a reação que a gorila Bin Jua teve com o menino no Zoológico Brookfield. Se um adulto perder uma luta contra um rival e se sentar numa árvore aos gritos, outros subirão até lá e o afagarão para acalmá-lo. O consolo é uma das reações mais comuns dos grandes primatas. Reconhecemos esse comportamento porque, com exceção dos ocasionais consolos sexuais dos bonobos, eles o fazem de modo idêntico a nós. A reação empá ca é uma das mais fortes que existem; é mais forte até do que o proverbial desejo dos primatas por bananas. Isso foi relatado pela primeira vez no começo do século xx por uma psicóloga russa, Nadie Ladygina-Kohts, que criava Yoni, um jovem chimpanzé. Todo dia ela precisava lidar com o comportamento indisciplinado de seu protegido. Descobriu que o único modo de rar Yoni do telhado de sua casa era apelar para a preocupação que ele sentia por ela: Se finjo chorar, fechando os olhos e gemendo, Yoni imediatamente pára a brincadeira ou qualquer outra a vidade e vem correndo. Chega todo agitado e preocupado dos lugares mais remotos da casa, como o telhado ou o teto de sua jaula, de onde eu não consegui

rálo apesar de meus persistentes chamados e súplicas. Ele corre à minha volta, como se

procurasse quem me fez mal; olha meu rosto, pega minha bochecha com carinho na palma da mão, toca suavemente meu rosto com um dedo, como se tentasse entender o que está acontecendo.

Em sua descrição mais simples, empa a é a capacidade de ser afetado pelo estado de outro indivíduo ou criatura. Pode expressar-se apenas em movimento corporal, como quando imitamos o comportamento de outra pessoa. Pomos os braços atrás da cabeça se outros puserem e acompanhamos os colegas em uma reunião cruzando ou descruzando as pernas, inclinando o corpo para a frente ou para trás, arrumando o cabelo, apoiando os cotovelos na mesa e assim por diante. Fazemos isso inconscientemente, em especial com companheiros de quem gostamos, e isso explica por que muitos casais que já vivem juntos há muito tempo se parecem. Sua conduta e linguagem corporal convergiram. Conhecendo o poder da mímica corporal, pesquisadores podem manipular os sen mentos das pessoas umas pelas outras. Estar com alguém que adota posturas corporais dis ntas — porque foi instruído a fazêlo resulta em menos sen mentos bons a respeito dessa pessoa do que estar com alguém que copia cada movimento que fazemos. Quando pessoas dizem que “combinam” ou que estão apaixonadas, estão inconscientemente influenciadas pela quan dade de mímica corporal que pra cam reflexivamente, e também por outros sinais su s de recep vidade do outro, como manter as pernas afastadas ou fechadas, erguer ou cruzar os braços etc.

Quando criança, eu involuntariamente imitava os movimentos corporais dos outros, sobretudo se estivesse muito absorto, como durante os esportes. Quando me dava conta disso, tentava parar, mas não conseguia. Em uma fotografia minha jogando vôlei, estou saltando e cortando, embora seja um dos meus irmãos quem está com a bola. Eu estou apenas representando o que acho que ele deveria estar fazendo. Essa tendência é vista em muitos pais humanos quando alimentam o bebê. Ao aproximarem a colher de mingau da boca do filho, os adultos abrem a própria boca no momento em que o bebê deve abrir a dele, e muitas vezes acompanham o ato com movimentos da língua simultâneos aos da criança. Analogamente, quando os filhos estão mais velhos e vão representar na peça da escola, os pais na platéia movem os lábios dizendo a fala de seu rebentos.

A iden ficação corporal é comum em animais. Certa ocasião, um amigo meu quebrou a perna e precisou engessá-la. Dali a alguns dias sua cachorra passou a mancar da perna direita. Um veterinário examinou-a e não encontrou nada de errado. Semanas depois o gesso foi removido da perna do meu amigo e a cachorra voltou a andar normalmente. Outro exemplo: na colônia de Arnhem, Luit machucou a mão numa luta. Começou a apoiar-se no punho fechado, claudicando de um jeito esquisito. Logo depois, todos os jovens na colônia estavam andando do mesmo jeito. Con nuaram com a brincadeira por meses, muito depois de a mão de Luit estar curada. Uma iden ficação corporal mais imediata foi descrita em elefantes por Katy Payne: Certa vez vi uma mãe elefanta executar uma discreta dança com a tromba e as patas enquanto assis a, parada, ao seu filho que perseguia um gnu em fuga. Eu mesma já dancei enquanto assis a a apresentações de meus filhos — e um deles, não resisto a contar, é acrobata de circo.

Um macaco vê outro se coçar e o imita, e os grandes primatas bocejam quando assistem a um vídeo que mostra um grande primata bocejando. Também nós o fazemos, e não só ao ver alguém da nossa espécie. Certa vez assis a uma projeção de slides que mostravam animais bocejando e me vi cercado por uma platéia lotada de bocas abertas. Não consegui manter a boca fechada. Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Parma, na Itália, concluiu que os macacos têm células especiais no cérebro que se tornam a vas não só quando o macaco pega um objeto na mão, mas também se simplesmente vir alguém fazer isso. Como tais células são a vadas tanto quando ele faz alguma coisa como quando vê alguém fazendo, são conhecidas como neurônios-espelho ou “macaco vê, macaco faz”. Os animais sociais relacionam-se entre si em um nível muito mais básico do que os cien stas antes supunham. Somos estruturados para nos conectar com os que nos cercam e nos sintonizar com eles, inclusive no campo emocional. É um processo automá co. Quando nos pedem que vejamos fotografias de expressões faciais, involuntariamente copiamos as expressões que vemos. E o fazemos até se a foto for exibida no nível subliminar, ou seja, por apenas alguns milésimos de segundo. Nossos músculos faciais reproduzem a expressão, mesmo quando não a percebemos. Na vida real fazemos o mesmo, como bem diz a canção de Louis Armstrong: “Quando

você sorri, o mundo inteiro sorri junto”. {1} Como imitação e empa a não requerem linguagem nem consciência, não nos deveria surpreender que formas simples de relacionar-se uns com os outros existam em todos os pos de animais, até mesmo no tão malfalado rato. Já em 1959 foi publicado um ensaio com o provoca vo tulo