Eu, primata
Humanos com Cabeça de Jano
O fato de o comportamento de Bin ter causado tamanha surpresa aos humanos diz muito sobre o modo como os animais são retratados na mídia. Na verdade, Bin não fez nada inusitado, ou pelo menos nada que um grande primata não humano não fizesse por qualquer ser jovem de sua espécie. Em contraste com os atuais documentários sobre vida selvagem, que mostram principalmente animais ferozes (ou machões que lutam desarmados com eles), acho essencial indicar a real intensidade e abrangência de nossa ligação com a natureza. Este livro analisa os fascinantes e assustadores paralelos entre o comportamento dos humanos e o de outros grandes primatas, com igual consideração para com o bom, o mau e o feio.
Somos abençoados com dois parentes primatas que diferem entre si como o dia da noite. Um é do po brutamontes, ambicioso e de pavio curto. O outro é igualitarista, adepto de um es lo de vida livre, leve e solto. Todos já ouviram falar do chimpanzé, conhecido da ciência desde o século XVII. Seu comportamento hierárquico e violento inspirou a imagem dos humanos como “primatas assassinos”. É nosso des no biológico, dizem certos cien stas, arrebatar o poder derrotando outros e guerreando perpetuamente. Testemunhei muito derramamento de sangue entre chimpanzés, e só posso concordar que eles têm um lado violento. Mas não devemos ignorar nosso outro parente próximo, o bonobo, descoberto só no século passado. Os bonobos são boas-praças e têm um alentado ape te sexual. De natureza pacífica, desmentem a idéia de que nossa linhagem é puramente sanguinária. É a empa a que permite aos bonobos compreender as necessidades e desejos uns dos outros e ajudar a sa sfazê-los. Quando a filha de dois anos de uma bonobo chamada Linda choramingava para a mãe fazendo beicinho, estava indicando que queria mamar. Mas essa pequena bonobo nha sido man da no berçário do Zoológico de San Diego, e fora devolvida ao grupo muito tempo depois de o leite de Linda já ter secado. No entanto, a mãe entendia. Ia até o bebedouro, enchia a boca de água, sentava-se em frente à filha e franzia os lábios para que ela pudesse beber dali. Linda repe a o trajeto até o bebedouro três vezes até saciar a pequena. Adoramos esse po de comportamento — o que também é um exemplo de empa a. Mas a mesma capacidade de compreender os outros possibilita feri-los deliberadamente. Tanto a simpa a como a crueldade dependem da capacidade de imaginar como nosso comportamento afeta os outros. Animais de cérebro pequeno, como os tubarões, certamente podem ferir outros, mas o fazem sem ter a menor idéia do que os outros irão sen r. Nos grandes primatas não humanos, porém, o cérebro chega a ter um terço do tamanho do nosso, ou seja, é suficientemente complexo para possibilitar a crueldade. Como meninos que a ram pedras nos patos da lagoa, os grandes primatas às vezes infligem dor para diver r-se. Em uma brincadeira, chimpanzés jovens de laboratório atraíam galinhas com migalhas para perto de uma cerca. Toda vez que as crédulas galinhas se aproximavam, os chimpanzés ba am nelas com um pau ou as espetavam com um arame afiado. Esse “jogo de Tântalo”, do qual as galinhas eram estúpidas o bastante para par cipar (embora possamos estar certos de que para elas não se tratava de um jogo), foi inventado pelos chimpanzés para espantar o tédio. Refinaram-no a ponto de um deles só jogar a isca e o outro só bater.
Esses grandes primatas se parecem tanto conosco que receberam a designação de antropóides, palavra de origem la na que significa “com o formato do homem”. Ter parentesco próximo com duas sociedades acentuadamente diferentes é muito instru vo. O chimpanzé, brutal e sedento de poder, contrasta com o pacato e eró co bonobo; são como dr. Jekyll e mr. Hyde. Nossa natureza é um casamento incômodo dos dois. Nosso lado sombrio é dolorosamente óbvio: es ma vas indicam que 160 milhões de pessoas perderam a vida em razão de guerra, genocídio e opressão polí ca só no século xx — tudo decorrente da capacidade humana para a brutalidade. Mais arrepiantes do que esses números incompreensíveis são as expressões pessoais de crueldade humana, como o medonho incidente ocorrido em 1998 em uma cidadezinha do Texas: três homens brancos ofereceram carona a um negro de 49 anos, mas, em vez de levá-lo para casa, foram para um lugar deserto, espancaram o homem, amarraram-no ao caminhão e o arrastaram por vários quilômetros pela estrada asfaltada, arrancando-lhe a cabeça e o braço direito.
Somos capazes de tamanha selvageria apesar de nossa faculdade de imaginar o que os outros sentem, ou talvez precisamente porque a possuímos. Por outro lado, quando essa mesma faculdade combina-se com uma a tude posi va, impele-nos a mandar alimentos para os famintos, fazer corajosos esforços para salvar estranhos, como nos terremotos e incêndios, chorar quando ouvimos uma história triste ou par cipar de um grupo de busca se desaparece o filho de um vizinho. Com um lado cruel e um lado compassivo, é como se olhássemos o mundo com a cabeça de Jano: duas faces voltadas para sen dos opostos. Isso pode nos confundir a ponto de, às vezes, simplificarmos demais nossa iden dade. Ora nos consideramos a “jóia da criação”, ora os únicos vilões de verdade no mundo.
Por que não aceitar que somos tanto uma coisa como outra? Esses dois aspectos da nossa espécie correspondem aos dos nossos parentes vivos mais próximos. O chimpanzé demonstra tão bem o lado violento da natureza humana que poucos cien stas escrevem sobre qualquer outro lado. Mas também somos criaturas acentuadamente sociais, que dependem umas das outras e realmente necessitam de outros para levar uma vida sadia e feliz. Com exceção da morte, o confinamento em solitária é nosso cas go mais extremo. Nosso corpo e nossa mente não são estruturados para viver no isolamento. Caímos em profunda depressão na ausência de companhia humana, e nossa saúde deteriora-se. Um estudo médico recente constatou que voluntários sadios expostos a vírus de resfriado e gripe adoeciam mais facilmente se vessem menos amigos e parentes por perto.
Essa necessidade de contato é percebida naturalmente pelas mulheres. Nos mamíferos, a criação da prole não pode ser separada da amamentação. Durante os 180 milhões de anos de evolução dos mamíferos, as fêmeas que foram sensíveis às necessidades de sua cria superaram reprodutivamente as que foram frias e distantes. Sendo descendentes de uma longa linhagem de mães que acalentaram, alimentaram, limparam, carregaram, consolaram e defenderam seus filhos, não nos deveríamos surpreender com as diferenças de gênero no campo da empa a humana. Elas se manifestam muito antes da socialização. Os primeiros sinais de empa a – chorar quando outro bebê chora — já são mais caracterís cos nas meninas do que nos meninos quando bebês. E ao longo da vida a empa a con nua a ser mais desenvolvida no sexo feminino. Isso não quer dizer que os homens não têm empa a ou que não precisam do contato com outros, mas eles procuram esse contato mais com mulheres do que com outros homens. Um relacionamento de longo prazo com uma mulher, como no casamento, é o modo mais eficaz de um homem acrescentar anos à sua vida. O outro lado dessa moeda é o au smo, um distúrbio da empa a que nos tolhe o contato com os outros e que acomete quatro vezes mais homens do que mulheres. Os empá cos bonobos põem-se no lugar de outros com freqüência. No Centro de Pesquisa da Linguagem da Universidade do Estado da Geórgia, em Atlanta, o bonobo Kanzi foi treinado para comunicar-se com pessoas. Ele se tornou uma celebridade, conhecido por sua fabulosa compreensão do inglês falado. Percebendo que alguns de seus companheiros primatas não têm o mesmo treinamento, Kanzi às vezes assume o papel de professor. Uma ocasião, sentou-se ao lado de sua irmã mais nova, Tamuli, que teve pouquíssimo contato com a fala humana. Um pesquisador tentava fazer Tamuli atender pedidos verbais simples, mas ela, que não era treinada, não respondia. Enquanto o pesquisador se dirigia a Tamuli, Kanzi começou a representar o que estava sendo pedido. Quando foi dito a Tamuli para fazer grooming (prá ca social de limpar e arrumar os pêlos do corpo) em Kanzi, este pegou a mão de Tamuli e a pôs debaixo de seu queixo, um pouco acima do peito. Nessa posição, apertando-lhe a mão, Kanzi fitou Tamuli nos olhos com uma expressão que os humanos interpretaram como indagadora. Quando Kanzi repe u a ação, a jovem fêmea levou os dedos ao peito do irmão como se quisesse a nar com o que deveria fazer. Kanzi sabe discernir perfeitamente se os comandos se des nam a ele ou a outros. Ele não estava executando um comando dado a Tamuli, e sim tentava realmente fazê-la compreender. A sensibilidade de Kanzi ao desconhecimento da irmã e sua bondade em instruí-la sugerem um nível de empa a encontrado, pelo que sabemos, apenas em humanos e outros grandes primatas.