Eu, primata
Autista e Gorila: Prazer em Conhecer
Trabalhei com um grupo de macacos Rhesus que demonstravam grande aceitação por Azalea, um filhote fêmea com retardo mental nascida em seu grupo. Como Azalea nha um cromossomo extra, sua condição lembrava a síndrome de Down humana. Os Rhesus normalmente punem quem viola as regras de sua severa sociedade, mas Azalea escapava impune das maiores transgressões, como ameaçar o macho alfa. Era como se todos percebessem que nada do que fizessem mudaria a inépcia de Azalea. Analogamente, em um grupo selvagem de símios do gênero Macacus nos Alpes japoneses havia uma fêmea com deficiência congênita chamada Mozu, que quase não conseguia andar e certamente era incapaz de subir em árvores, pois não nha mãos nem pés. Estrela freqüente de documentários japoneses sobre vida selvagem, Mozu era totalmente aceita por seu grupo, tanto assim que teve uma vida longa e criou cinco filhotes. Então não vale a sobrevivência dos mais aptos? Ela vigora em muitos casos também, é claro, mas não há necessidade de caricaturar a vida de nossos parentes como dominada pela desconfiança. Os primatas são imensamente beneficiados pela companhia uns dos outros. Dar-se bem com os outros é uma habilidade crucial, pois as chances de sobreviver fora do grupo, em meio a predadores e vizinhos hos s, são desalentadoras. Os primatas que se vêem sozinhos logo defrontam a morte. Isso explica por que gastam um tempo enorme — até 10% do seu dia—a serviço dos laços sociais, fazendo grooming nos outros. Estudos de campo mostraram que a prole das fêmeas de macaco com as melhores relações sociais tem maiores índices de sobrevivência.
AUTISTA E GORILA: PRAZER EM CONHECER
Criar vínculos é tão fundamental que uma americana com síndrome de Asperger, uma forma de au smo, sempre sofrendo com sua condição em meio aos humanos, encontrou a paz interior depois que começou a tratar de gorilas em um zoológico. Ou talvez fossem os gorilas que tratassem dela. Dawn Prince-Hughes contou que as pessoas a enervavam com seus olhares e perguntas diretas, querendo respostas imediatas. Já os gorilas davam-lhe espaço, evitavam contato visual e transmitiam uma calma tranqüilizadora. Acima de tudo, eram pacientes. Gorilas são criaturas “oblíquas”: raramente procuram o contato direto, face a face. Além disso, como todos os grandes primatas não humanos, eles não têm ao redor da íris a esclera, que faz do olhar humano quando nos fita intensamente um sinal tão perturbador. O colorido dos nossos olhos acentua a comunicação, mas também impede as su lezas de comunicação disponíveis aos outros grandes primatas de olhos totalmente escuros. E eles raramente fitam como nós fazemos; olham de relance. Têm excelente visão periférica e acompanham grande parte do que ocorre à sua volta pelo canto dos olhos. Para um humano, é di cil acostumar-se a isso. Muitas vezes pensei que meus primatas não estavam prestando atenção e depois vi que me enganara: não tinham deixado escapar nada. O modo como os gorilas mostravam empa a com Prince-Hughes, “olhando sem olhar e compreendendo sem falar”, como ela explicou, baseava-se em posturas e mímicas corporais, a imemorial linguagem animal da conexão. Congo, o imponente gorila de dorso prateado da colônia, era o mais sensível e tranqüilizador. Ele reagia diretamente aos sinais de aflição. Isso não surpreende, pois o gorila macho, apesar de sua reputação de “King Kong” feroz, é um protetor nato. Os horripilantes relatos de ataques de gorila que os caçadores coloniais costumavam contar em casa des navam-se a nos impressionar com a bravura dos humanos, e não a dos gorilas. Mas, de fato, um gorila macho que ataca está disposto a morrer por sua família. É notável que seja preciso uma pessoa au sta — alguém considerado deficiente em habilidades interpessoais — para captar a primazia do vínculo entre os grandes primatas não humanos, assim como o forte parentesco que sen mos com aqueles corpos peludos tão semelhantes ao nosso. Considerando o temperamento dos gorilas, compreendemos por que Prince-Hugues foi arrancada de sua solidão por eles, e não por chimpanzés ou bonobos. Os gorilas estão longe de ser extrover dos como os chimpanzés e bonobos. Vejamos o exemplo de um zoológico suíço que passou por tremendos apuros. Uma noite, os chimpanzés desse zoológico conseguiram remover o alçapão de seu alojamento e escapar para o telhado. Alguns foram para a cidade, pulando de casa em casa. Dias se passaram até que os primatas fossem capturados, e o zoológico teve sorte, pois nenhum dos chimpanzés levou tiros da polícia nem acabou eletrocutado nos fios de alta-tensão. Esse acontecimento deu a um grupo de defensores dos direitos dos animais a idéia de “libertar” os gorilas daquele mesmo zoológico. Sem refle r minimamente sobre o que seria melhor para os animais, subiram no abrigo dos gorilas uma noite e removeram uma clarabóia. Mas os gorilas, que veram horas para escapar, não o fizeram. Na manhã seguinte os tratadores encontraram todos lá, sentados como sempre faziam, olhando espantados para o alto, fascinados pela abertura sobre a cabeça deles. Nenhum vera a curiosidade de subir e sair, e a clarabóia simplesmente foi recolocada. Eis, em suma, a diferença de temperamento entre chimpanzés e gorilas. Na nossa linhagem, vínculos e apoio são o estado natural, em um grau capaz de ser percebido até por um portador de au smo. Ou talvez precisamente por uma pessoa assim, considerando que nossa obsessão pela palavra falada nos impede de avaliar plenamente as pistas não verbais como posturas, gestos, expressões e tom de voz. Sem indicações corporais, nossa comunicação perde seu conteúdo emocional e se torna mera informação técnica. Obteríamos o mesmo efeito usando cartões que lampejam mensagens de “eu te amo” ou “estou zangado”. É fato bem conhecido que as pessoas cujo rosto perde a expressividade em razão de algum distúrbio neurológico, e por isso não conseguem demonstrar sintonia com as emoções dos outros (sorrindo ou franzindo o cenho, por exemplo), mergulham em arrasadora solidão. Nossa espécie não vê graça em viver sem a linguagem corporal que nos aglu na. As hipóteses sobre nossas origens que negligenciam essa profunda conexão retratando-nos como solitários que se uniram relutantemente ignoram a evolução dos primatas. Pertencemos a uma categoria de animais conhecida entre os zoólogos como “obrigatoriamente gregários”, ou seja, não temos alterna va senão viver juntos. É por isso que o medo do ostracismo espreita nos recônditos de toda mente humana: ser expulso é a pior coisa que pode nos acontecer. Assim era nos tempos bíblicos, assim con nua a ser hoje. A evolução incu u a necessidade de pertencer a um grupo e sentir-se aceito. Somos essencialmente sociais.