Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 27 de 48

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Eu, primata

Violência

Da guerra à paz

Se os chimpanzés tivessem revólveres e facas e soubessem manejá-los, eles os usariam como os

humanos.

Jane Goodall

Não sei com que armas se lutará na Terceira Guerra Mundial, mas na quarta será com paus e pedras.

Albert Einstein

De minha casa na Geórgia avista-se Stone Mountain, uma montanha famosa pela escultura de três homens a cavalo. A figura central, que representa o general Robert E. Lee, é tão enorme que tempos atrás, em uma ocasião fes va, os convidados tomaram café-da-manhã sentados a uma mesa instalada no ombro de granito da escultura do general. Tenho minhas ressalvas aos defensores do sul na época da Guerra de Secessão americana, mas já vivi o bastante para ques onar também seus oponentes. A identificação com o time da casa nasce facilmente em animais grupais como nós. “Só podia ser sulista”, dirá um nortista ao levar uma fechada de um motorista barbeiro. Lembretes da violência passada como esse Memorial aos Confederados existem no mundo todo. Hoje visitamos lugares assim por curiosidade, folheando o guia turís co, sem nos chocarmos com o horror. Na Torre de Londres nos dizem que o grande filósofo Thomas Morus foi executado e que sua cabeça ficou exposta por um mês na ponte de Londres. Na Casa de Anne Frank, em Amsterdã, ouvimos a história da menina que foi mandada para um campo de concentração e nunca voltou para casa. No Coliseu de Roma andamos pela mesma arena onde os prisioneiros eram trucidados por leões. No Kremlin, em Moscou, admirei uma torre de domo dourado construída pelo tsar Ivã, o Terrível, que gostava de empalar e fritar vivos seus inimigos. Gente matando gente sempre houve. E con nua a haver. As linhas de segurança nos aeroportos, os automóveis blindados e os telefones de emergência nos campi universitários são todos testemunhos de uma civilização com sérios problemas no departamento do viva e deixe viver.

 

PLANETA DOS MACACOS

Civilização que se preze tem Exército. Essa idéia para nós é tão inques onável que até a aplicamos a civilizações não humanas imaginárias, como a do filme Planeta dos macacos. O primatólogo assiste ao filme de 2001 horrorizado: o cruel líder parece um chimpanzé bípede (mas fareja como um coelho), os gorilas são retratados como criaturas obtusas e obedientes, um orangotango é traficante de escravos, e os bonobos, convenientemente, foram deixados de fora. Hollywood sempre está mais à vontade com a violência do que com o sexo.

A violência reina suprema nesse filme. Mas não há nada tão irrealista quanto os colossais exércitos de primatas uniformizados vistos na tela. Faltam aos grandes primatas não humanos a doutrinação, a estrutura de comando e a sincronização que nossas Forças Armadas empregam para in midar inimigos. Como a estrita coordenação dá a impressão de absoluta disciplina, não há nada mais atemorizante do que um exército bem treinado. Os únicos outros animais que têm exércitos são as formigas, porém sem uma estrutura de comando. Quando formigas de um exército se perdem, como ocorre quando forrageadoras se separam do grupo principal de ataque, às vezes se unem à extremidade posterior de sua coluna. Começam a seguir sua própria trilha feromonal, formando um moinho circular onde milhares de formigas marcham sem parar em um círculo denso até morrerem todas de exaustão. Graças a uma organização de cima para baixo, isso não aconteceria com um exército humano. Como invariavelmente os debates sobre a agressividade humana giram em torno da guerra, a estrutura de comando dos exércitos deveria nos levar a pensar duas vezes antes de traçarmos paralelos com a agressão animal. Mesmo se suas ví mas compreensivelmente virem as invasões militares como agressivas, quem garante que os perpetradores estão com disposição de ânimo agressiva? As guerras nascem da raiva? Muitos líderes têm mo vos econômicos, razões polí cas internas ou agem em autodefesa. Os generais obedecem a ordens, e os soldados podem não ter desejo algum de deixar sua terra e sua casa. Com indizível cinismo, Napoleão observou: “Um soldado lutará longa e arduamente por um pedaço de fita colorida”. Não acho exagero afirmar que a maioria das pessoas na maioria das guerras foi impelida por mo vos outros que não a agressão. A guerra humana tem método e sangue-frio, o que a torna um fenômeno quase novo. A palavra crí ca é “quase”. Tendências à iden ficação com o grupo, à xenofobia e ao conflito letal — todas encontradas na natureza — combinaram-se às nossas capacidades de planejamento altamente desenvolvidas e “elevaram” a violência humana a seu nível inumano. O estudo do comportamento animal pode não ajudar quando queremos analisar algo como o genocídio, mas, se deixarmos de lado as nações-Estado e inves garmos o comportamento humano em sociedades em pequena escala, as diferenças já não são tão grandes. Como os chimpanzés, as pessoas são acentuadamente territoriais e valorizam menos a vida de quem não pertence ao seu grupo do que a de quem pertence. Já se supôs que os chimpanzés não hesitariam em usar facas e revólveres caso os possuíssem; analogamente, povos pré-letrados provavelmente não teriam escrúpulos de intensificar a violência de seus conflitos se tivessem tecnologia para isso.

Um antropólogo contou-me o caso de dois chefes de aldeia eipo-papuas, da Nova Guiné, que estavam fazendo sua primeira viagem aérea em um pequeno avião. Os chefes não

veram medo de embarcar no aparelho, mas fizeram um pedido intrigante: queriam que

a porta lateral permanecesse aberta. Foram avisados de que era frio lá em cima e que eles congelariam, pois só estavam ves dos com suas tangas tradicionais. Os dois não se importaram. Queriam levar para bordo algumas pedras pesadas e, se o piloto fizesse a gen leza de sobrevoar a aldeia vizinha, eles as empurrariam pela porta aberta sobre seus inimigos.