Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 23 de 48

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Eu, primata

Cinto de Castidade

O fato de as bonobos fêmeas serem uma rara história de sucesso na MCI, a imaginária organização Mães Contra o Infan cídio, suscita questões sobre nós, humanos. As mulheres também são ativistas da MCI?

Em vez de seguir o modelo dos bonobos, nossa espécie escolheu seu próprio caminho. As mulheres têm dois elementos em comum com as bonobos: sua ovulação não permite a detecção imediata e elas fazem sexo durante todo o ciclo menstrual. Mas as semelhanças terminam aí. Onde está o intumescimento genital em nossa espécie, e onde está o sexo num estalar de dedos? Comecemos pelo intumescimento. Os cien stas se perguntam por que o perdemos, e chegaram a cogitar na hipótese de que nossas nádegas carnudas o subs tuíram. E não meramente porque as nádegas ocupam a mesma localização no corpo, mas porque elas também aumentam o sex appeal. Só que essa é uma idéia estranha, pois isso não teria conduzido a nádegas de pos diferentes em homens e mulheres? Connaisseurs que somos, não nos é di cil dis nguir entre nádegas masculinas e femininas, mesmo sob uma camada de roupas, porém ainda assim não se pode negar que são mais parecidas do que diferentes. Isso não nos traz vantagem como um sinal sexual. Parece muito mais provável que nunca tenha exis do o intumescimento genital em nossa espécie. Provavelmente essa foi uma caracterís ca que evoluiu depois que os humanos se separaram dos outros antropóides, e somente na linhagem Pan, já que não é encontrada em nenhum outro grande primata. Quando as mulheres começaram a ampliar sua recep vidade sexual, superando até a dos bonobos, que por sua vez é dez vezes maior que a dos chimpanzés, elas não precisaram prolongar nenhuma fase de intumescimento. Em vez de anunciar fraudulentamente, nosso método foi deixar por completo de anunciar. Por que nos bonobos não evoluiu também esse método mais conveniente? Minha hipótese é que, depois de o intumescimento surgir e os machos adquirirem fixação por ele, o processo não pôde ser rever do. As fêmeas com intumescimentos menores teriam perdido o páreo para as mais bem-dotadas. Essa é uma história bem conhecida no campo das caracterís cas sexualmente selecionadas, no qual se encaixa também o exemplo da sempre crescente cauda do pavão. A compe ção sobre quem é mais sexy costuma levar a sinais exagerados. O segundo aspecto em que divergimos dos bonobos é a maior restrição nas a vidades sexuais dos humanos. Ela nem sempre é evidente, pois em algumas sociedades existe uma liberdade extraordinária. Os povos do Pacífico eram um exemplo antes da chegada dos ocidentais, que lhes levaram valores vitorianos e doenças venéreas. Em Vida sexual dos selvagens, Bronislaw Malinowski relatou que as culturas dessa região nham poucos tabus ou inibições. E um comentário fez lembrar muito os bonobos: no princípio, entre os havaianos “o sexo era um bálsamo e uma cola para toda a sociedade”. Os havaianos cultuavam os genitais em músicas e danças e mimavam essa parte do corpo nas crianças. O leite do seio era espirrado na vagina das meninas recém-nascidas, e seus lábios eram moldados para que não viessem a separar-se. O clitóris da menina era es cado e alongado por meio de es mulação oral. O pênis dos meninos recebia tratamento semelhante, para aumentar sua beleza e prepará-lo para o prazer sexual quando mais velho.

No entanto, não é provável ter exis do o hedonismo irrestrito em alguma cultura humana. Alguns antropólogos, como Margaret Mead, baseados em informantes e não na observação em primeira mão, criaram uma ficção român ca que permanece entre nós ainda hoje. Mas até as culturas mais sexualmente liberadas não estão livres do ciúme e da violência como reação à infidelidade. Universalmente, as relações sexuais acontecem em local privado e a região genital tende a ser escondida. Que a cas dade era conhecida mesmo entre os havaianos mais an gos é indicado pela palavra malo, que significa tanga, cuja origem mais provável é malu, “vergonha” na língua malaia. A maioria das sociedades também limita o sexo a poucos parceiros. A poligamia pode ser pra cada e aceita, mas na realidade a imensa maioria das famílias no mundo inclui só um homem e uma mulher. A família nuclear é a marca registrada da evolução social humana. Dada a exclusividade dos nossos contatos sexuais, optamos pelo oposto do plano dos bonobos, aumentando a capacidade do homem para dis nguir quais filhos são dele. Até o advento dos progressos da ciência moderna, ele podia nunca ter certeza, mas tinha uma chance muito maior que o bonobo de fazer a suposição correta. A seleção natural moldou o comportamento humano em resposta a pressões muito diferentes das enfrentadas pelos outros grandes primatas. Nossos ancestrais precisaram adaptar-se a um ambiente incrivelmente hos l. Deixaram a proteção da floresta e foram para a savana plana e seca. Não acredite naquelas histórias de primatas assassinos criadas por Robert Ardrey e outros, que mostram nossos ancestrais dominando a savana como os supremos predadores. Nosso ancestral foi presa. Decerto vivia em constante temor das hienas que caçam em bando, dos dez diferentes pos de grandes felinos e de outras feras. Nesse lugar assustador, as fêmeas com filhos pequenos eram as mais vulneráveis. Incapazes de correr mais depressa que os predadores, nunca podiam aventurar-se muito longe da floresta sem a proteção de machos. Talvez bandos de machos ágeis defendessem o grupo e ajudassem a carregar os pequenos para um lugar seguro durante as emergências. Isso, porém, nunca teria funcionado se houvéssemos adotado o sistema social dos chimpanzés ou o dos bonobos. Machos promíscuos não são nada bons em matéria de comprome mento. Sem esperança de iden ficar seus descendentes, não têm mo vo para inves r em cuidados com as crianças. Para conseguir o envolvimento dos machos, a sociedade precisaria ter passado por uma transformação. A organização social humana caracteriza-se por uma combinação única de vínculos masculinos, vínculos femininos e famílias nucleares. Dessas caracterís cas, temos a primeira em comum com os chimpanzés, a segunda com os bonobos e a terceira é nossa exclusividade. Não é por acaso que em todos os lugares as pessoas se apaixonam, sentem ciúme sexual, sentem vergonha, procuram a privacidade, buscam figuras paternas além de figuras maternas e valorizam uniões estáveis. A relação ín ma entre homem e mulher implícita em tudo isso, ou manutenção do par, como dizem os zoólogos, é inata em nós. A meu ver, isso, mais do que qualquer outra coisa, nos dis ngue dos outros grandes primatas. Nem mesmo os “selvagens” hedonistas de Malinowski deixavam de apresentar a tendência a formar unidades familiares exclusivas, nas quais tanto homens como mulheres cuidavam dos filhos. A ordem social da nossa espécie gira em torno desse modelo, que deu aos nossos ancestrais um alicerce para construírem sociedades coopera vas nas quais ambos os sexos contribuíam e se sen am seguros. Já se supôs que a família nuclear teria surgido originalmente de uma tendência do macho a acompanhar a fêmea com quem se acasalou para manter rivais infanticidas à distância. Essa prá ca poderia ter se expandido de modo a incluir o cuidado paterno com a prole. Por exemplo, o pai poderia ajudar a companheira a localizar árvores com frutos maduros, capturar e par lhar presas ou carregar os filhos. Ele próprio poderia ter se beneficiado do talento feminino para usar instrumentos de precisão (as fêmeas dos grandes primatas não humanos são mais hábeis do que os machos) e da coleta pela fêmea de nozes e frutas silvestres. A fêmea, por sua vez, pode ter começado a oferecer sexo para impedir que seu protetor fosse embora atrás de qualquer rabo-de-saia. Quanto mais ambos os lados inves am nesse arranjo, mais passava a estar em jogo. Assim, tornou-se cada vez mais importante para o macho que a prole de sua companheira fosse dele, e só dele.

Na natureza não há almoço grá s. Se as bonobos fêmeas pagaram por seu arranjo com intumescimentos genitais quase con nuos, as mulheres pagaram pelo delas com a diminuição da liberdade sexual. E a mo vação para o controle masculino só fez aumentar quando nossos ancestrais deixaram a vida nômade e passaram a acumular bens materiais. Além de transmi rem genes à geração seguinte, agora também legavam riqueza. Considerando a diferença de tamanho entre os sexos aliada à excelente cooperação entre os homens, é provável que a dominância masculina sempre tenha caracterizado nossa linhagem; portanto, a herança provavelmente acompanhou a linha paterna. Com cada homem tentando assegurar que as economias de toda a sua vida terminassem nas mãos certas, as de seus descendentes, tornou-se inevitável a obsessão por virgindade e cas dade. O “patriarcado”, como é conhecido, pode ser visto simplesmente como uma conseqüência da ajuda masculina na criação da prole. Muitas das restrições morais a que estamos acostumados —incluindo as que mandariam os bonobos para a cadeia se vivessem entre nós — são concebidas para manter essa ordem social específica. Nossos ancestrais precisavam de machos coopera vos que não cons tuíssem ameaça para as fêmeas e seus filhos e que es vessem dispostos a fornecer ajuda à companheira. Isso significava pares exclusivos e separação entre as esferas pública e privada. Precisávamos refrear as tendências promíscuas imemoriais que devem ter permanecido por algum tempo e ainda permanecem. O resultado foi não só a sobrevivência, mas um maior crescimento populacional comparado ao dos outros grandes primatas. As chimpanzés fêmeas dão à luz uma vez a cada seis anos, enquanto as bonobos, que vivem em um ambiente mais rico, aproximadamente a cada cinco. A taxa de natalidade entre estas úl mas talvez seja a melhor que os grandes primatas não humanos podem ter, já que eles amamentam a cria por quatro ou cinco anos e a carregam por tempo aproximadamente igual. Algumas bonobos dão à luz em tão rápida sucessão que acabam amamentando duas crias. Como não têm carrinho de bebê nem calçadas, sobem nas árvores da floresta com um infante agarrado na barriga e um filhote às costas. Parece um fardo insuportável. As bonobos levaram ao limite o sistema de família uniparental.

A assistência do pai permite o desmame mais cedo, o que explica por que nós, e não os outros grandes primatas, colonizamos o planeta. Mas, como os homens só se dispõem a ajudar quando os filhos provavelmente são seus, domar a sexualidade feminina passou a ser a constante luta masculina. Recentemente, vimos os extremados esforços masculinos por esse controle sob o Talibã, no Afeganistão. Seu Departamento para a Preservação da Virtude e Prevenção do Vício determina o açoitamento em público para as mulheres que deixarem visíveis o rosto ou os tornozelos. Mas também no Ocidente não faltam regras para regulamentar o sexo, sempre aplicadas mais estritamente às mulheres do que aos homens. É devido ao nosso bem conhecido sistema de dois pesos e duas medidas que empresas de seguro-saúde cobrem o Viagra mas não a pílula do dia seguinte. Em todas as línguas, as designações para mulheres adúlteras são bem piores do que para homens aventureiros. Mulher é “puta”, homem é “garanhão”. Curiosamente, a evolução humana não tem sido nada coopera va na manutenção da pureza reprodu va da família. Imagine visitantes extraterrestres encontrando um cinto de cas dade e tentando imaginar para que serve. O disposi vo de ferro ou couro encaixa-se em torno dos quadris da mulher, desce até as regiões do ânus e vulva, deixando ori cios pequenos demais para o sexo, mas de tamanho suficiente para outras funções. O pai ou o marido fica com a chave. Não é preciso ser um cien sta vindo do espaço para compreender por que o cinto deixava o homem mais sossegado do que os códigos morais. A fêmea da nossa espécie é apenas moderadamente fiel. Se a fidelidade fosse o obje vo da natureza, o ape te sexual feminino seria limitado ao período fér l, e essa fase seria percep vel externamente. Em vez disso, a natureza criou uma sexualidade feminina que é quase impossível de controlar. O argumento comum de que os homens são naturalmente polígamos e as mulheres naturalmente monógamas é tão cheio de furos quanto um queijo suíço. O que vemos, na realidade, é um descompasso entre nossa organização social, que gira em torno da família nuclear, e nossa sexualidade.

Exames de sangue e DNA feitos em hospitais do Ocidente indicam que aproximadamente uma em cada cinqüenta crianças não é filha do pai mencionado em sua cer dão de nascimento. Em alguns estudos, a disparidade é consideravelmente maior. Com tantas “procedências duvidosas”, não admira que seja a semelhança de uma criança com seu pai a que as pessoas mais ressaltem. É notável como até as mães adoram comentar que o filho “puxou ao pai”. Todos sabemos qual dos genitores precisa ser tranqüilizado. Poucas sociedades toleram abertamente casos extraconjugais. Uma dessas raridades são os índios barí, da Venezuela, que possuem um sistema muito parecido com o dos bonobos: as mulheres têm relações sexuais com vários parceiros, de modo que a paternidade é indefinida. O lado humano desse sistema está no fato de que isso ajuda as mulheres a assegurar a assistência dos homens. Os índios barí acreditam que, quando um feto se forma, em geral de marido e mulher, precisa ser nutrido com sêmen. Por isso, tanto o marido como todos os outros parceiros da mulher contribuem para que o feto cresça. (Isso pode soar estranho a ouvidos modernos, mas devemos lembrar que só no século XIX vemos prova cien fica de que o óvulo é fer lizado por apenas um espermatozóide.) Quando nasce, o bebê é considerado produto não de um, mas de vários pais biológicos. A paternidade conjunta tem vantagens dis ntas em culturas com taxas elevadas de mortalidade infantil. Um pai, sozinho, tem dificuldade para sustentar a família. Se diversos homens sen rem que têm essa obrigação, isso ajudará a criança a sobreviver. Efe vamente, as mulheres compram o sustento do filho fazendo sexo com vários homens.