Eu, primata
Mistura na Fronteira
Tanto humanos como chimpanzés são cordiais, ou pelo menos con dos, com os membros de seu grupo, mas podem ser monstros para os de fora. É claro que estou simplificando, pois os chimpanzés também podem matar dentro de sua comunidade, e o mesmo vale para as pessoas. Mas a dis nção entre o intragrupo e o extragrupo é fundamental quando se trata de amor e ódio. Isso também se aplica a primatas em ca veiro. No Zoológico de Arnhem, os chimpanzés adquiriram o hábito de patrulhar, embora não houvesse grupos inimigos. Todo fim de tarde, alguns machos punham-se a andar pela orla da grande ilha, e por fim os outros machos adultos e alguns mais jovens acabavam por segui-los. Obviamente, eles não mostravam as tensões vistas em patrulhas na floresta, mas esse comportamento indica que as fronteiras territoriais têm significado mesmo em circunstâncias artificiais. Em ca veiro os chimpanzés são tão xenofóbicos quanto na natureza. É quase impossível introduzir novas fêmeas em um grupo já existente em zoológico; novos machos só podem ser trazidos depois que os machos residentes forem removidos. Do contrário, ocorre um banho de sangue. Na última vez em que tentamos trocar os machos no Centro de Primatas Yerkes, as fêmeas expulsaram os primeiros recém-chegados. Atacaram-nos, e
vemos de re rá-los para salvar-lhes a vida. Vários meses depois, tentamos com dois outros machos. Um deles recebeu a mesma recepção hos l que os predecessores, mas ao outro, chamado Jimoh, elas permi ram ficar. Minutos depois da introdução de Jimoh, duas fêmeas mais velhas fizeram contato e grooming com ele, e depois disso o defenderam ferozmente de todas as outras fêmeas. Anos mais tarde, durante um exame de ro na em nossos chimpanzés, descobri que Jimoh não era tão desconhecido pelo grupo quanto pensávamos quando o introduzimos. Catorze anos antes de ele vir para o nosso grupo, Jimoh vivera em outra ins tuição com aquelas duas fêmeas que o protegeram. Não haviam se encontrado no período intermediário, mas o contato anterior de tanto tempo antes fora decisivo.
MISTURA NA FRONTEIRA
O fato de um dos nossos parentes mais próximos matar seus vizinhos significa que a guerra está em nosso DNA, como afirmou um documentário recente? Tal idéia dá a impressão de que estamos des nados a ser belicosos para sempre. Mas até as formigas, que inques onavelmente têm DNA guerreiro, não são tão violentas se verem espaço e alimento em abundância. Qual será o mo vo? Só quando os interesses de uma colônia colidem com os de outra esse comportamento tem sen do. A guerra não é um impulso irreprimível. É uma opção.
Apesar disso, não pode ser coincidência que sejam os humanos e os chimpanzés os únicos animais cujos machos formam gangues e expandem seu território exterminando deliberadamente os machos vizinhos. Qual a chance de tais tendências terem evoluído independentemente em dois mamíferos de parentesco próximo? O padrão humano mais semelhante ao dos nossos parentes primatas é conhecido como “raides letais”: grupos de homens desferem um ataque de surpresa quando estão em posição vantajosa, ou seja, havendo pouca probabilidade de eles próprios sofrerem. O obje vo é matar outros homens e raptar mulheres e crianças. Assim como a violência territorial entre os chimpanzés, os raides humanos não são exatamente atos de bravura. Surpresa, embuste, emboscada e ação noturna são tá cas favoritas. A maioria das sociedades de caçadores-coletores segue esse padrão e guerreia a cada dois anos. Richard Wrangham afirmou que “a violência semelhante à dos chimpanzés precedeu e abriu caminho para a guerra humana, transformando o homem moderno no aturdido sobrevivente de um hábito de agressão con nuo nascido há 5 milhões de anos”. A prevalência de raides letais seria prova disso? A palavra problemá ca aqui não é “aturdido”, mera hipérbole, mas “con nuo”. Para que isso seja verdade, seria preciso que nosso ancestral mais remoto fosse semelhante ao chimpanzé e que desde então houvéssemos trilhado o caminho da guerra. Não há indícios de nenhuma dessas hipóteses. Primeiro, desde a separação entre humanos e outros grandes primatas, estes
veram sua própria evolução. Ninguém sabe o que aconteceu durante esses 5 ou 6
milhões de anos. Como a fossilização em florestas é ruim, nossos registros sobre os grandes primatas ancestrais é superficial. O úl mo ancestral comum de humanos e outros grandes primatas pode ter sido semelhante ao gorila, ao chimpanzé, ao bonobo ou diferente de qualquer espécie viva. Não extremamente diferente, é claro, mas com certeza não temos prova de que esse ancestral foi um chimpanzé belicoso. E é bom lembrar que apenas um punhado de populações de chimpanzés foi estudado, e nem todas são igualmente agressivas.
Em segundo lugar, quem garante que nossos ancestrais foram tão brutais quanto somos hoje? Sinais arqueológicos de guerra (muros protetores ao redor de habitações, cemitérios com armas incrustadas em esqueletos, imagens de guerreiros) remontam a apenas 10 a 15 mil anos. Aos olhos da biologia evolu va, isso é história recente. Por outro lado, é di cil acreditar que a guerra surgiu do nada, sem hos lidades prévias entre grupos humanos. Alguma inclinação deve ter exis do. Mais provavelmente a agressão territorial sempre foi um potencial, mas exercido apenas em pequena escala, talvez até o homem fixar-se e começar a acumular propriedade. Isso significaria que, em vez de ter guerreado por milhões de anos, conhecemos primeiro conflitos intergrupais esporádicos que só recentemente ganharam dimensões de uma guerra.
Entretanto, não surpreende que os cientistas da corrente que enfatiza o lado violento do homem tenham escolhido os chimpanzés como “prova decisiva”. Os paralelos são inegáveis e perturbadores. Mas um aspecto do comportamento humano que os chimpanzés não podem esclarecer é algo que fazemos muito mais do que guerrear: manter a paz. A paz é o estado pico entre as sociedades humanas, assim como a troca de mercadorias, a par lha da água dos rios e os casamentos intergrupais. Nesse aspecto os chimpanzés não nos dizem nada, pois não têm laços de amizade entre grupos. Só conhecem graus variados de hostilidade. Isso significa que, para compreender as relações intergrupais humanas em um nível primi vo, não podemos nos ater ao chimpanzé em nossa busca por um modelo ancestral.
Os famosos entomologistas Bert Hõlldobler e Ed Wilson fizeram uma afirmação intrigante no livro Journey to the ants [Jornada para as formigas]. Disseram que há dois
pos de cien sta. Um é o teórico, que se interessa por uma questão específica e procura o melhor organismo para resolvê-la. Os gene cistas escolheram a mosca-das-frutas, e os psicólogos, o rato. Não estão realmente interessados em moscas-das-frutas ou ratos, mas apenas nos problemas que querem resolver. O outro po é o naturalista, que se interessa por uma classe específica de animais em si, percebendo que cada animal tem sua história para contar, que se revelará dotada de interesse teórico se for suficientemente estudada. Hölldobler e Wilson consideram-se pertencentes à segunda dessas categorias, assim como eu. Em vez de me concentrar na agressão humana como a questão, e portanto nos chimpanzés como a espécie o que tem sido feito desde que surgiu a teoria do primata assassino —, volto minha atenção para um parente nosso menos brutal que está na margem desse debate. E o comportamento desse primata nos esclarece sobre uma capacidade diferente: a capacidade para a paz. Grupos de bonobos em convívio pacífico foram observados pela primeira vez na década de 1980, quando diferentes comunidades reuniram-se na floresta de Wamba, na República Democrá ca do Congo, e ficaram juntas por toda uma semana antes de se dividirem novamente. Pode não parecer nada espetacular, mas o acontecimento foi tão estarrecedor quanto a violência entre facções de chimpanzés que haviam sido amigos em Gombe. Aquilo contrariou a persistente crença de que nossa linhagem é naturalmente violenta. Certa ocasião, assis a um filme sobre a mistura de grupos no qual os bonobos primeiro se perseguiram ferozmente aos gritos, mas sem contato sico. Aos poucos, fêmeas de grupos dis ntos puseram-se a pra car o GG-rubbinge até a fazer grooming umas nas outras. Enquanto isso, suas crias brincavam e se engalfinhavam com os da mesma faixa etária do outro grupo. Por fim, até machos dos campos opostos pra caram breves fricções escrotais. Em mais de trinta encontros intergrupais em Wamba, membros do sexo oposto picamente se relacionaram com atos sexuais e amistosos. Por outro lado, os machos em geral mostraram-se hos s e arredios para com os machos do outro grupo. Cópulas entre machos e fêmeas de grupos dis ntos foram comuns durante os primeiros quinze minutos dos encontros. A tudes semelhantes foram observadas em outra área com bonobos, na floresta de Lomako. Machos de grupos dis ntos às vezes se perseguiam frene camente pela vegetação rasteira enquanto as fêmeas se penduravam nas árvores e gritavam. Os embates pareciam tão ferozes que os pesquisadores que assis am se arrepiaram. Mas depois os bonobos saíam ilesos e os grupos se misturavam. Começavam tensos e então se acomodavam, faziam sexo e grooming entre as duas comunidades. Só os machos de grupos distintos abstinham-se de contato amistoso. Mas às vezes os mesmos grupos não conseguiam entrosar-se. Os pesquisadores sobressaltavam-se com súbitos sons de percussão e de bonobos pulando das árvores. Os primatas arreme am na direção dos membros do outro grupo, gritando e fazendo estardalhaço. Na fronteira dos respec vos territórios, os grupos sentavam-se em árvores e gritavam um com o outro. Portanto, houve dias em que os bonobos não quiseram se misturar aos vizinhos e os man veram à distância. Mas cabe ressaltar que, apesar de ocasionais ferimentos depois de escaramuças entre comunidades, nunca se registrou uma fatalidade.
A sobreposição das áreas habitadas por comunidades de bonobos e a mistura nas fronteiras contrastam gritantemente com as prá cas observadas entre os chimpanzés. Quando se dissipar a neblina que encobre as pressões evolu vas formadoras da sociedade bonobo, quem sabe possamos compreender como eles conseguiram escapar ao que muitos consideram o maior flagelo da humanidade: nossa xenofobia e a tendência a depreciar a vida dos inimigos. Será porque os bonobos lutam — quando lutam — por um território que é dominado por fêmeas, e não por machos? Os machos de qualquer espécie tentam monopolizar as fêmeas, mas quando as fêmeas bonobos tornaram-se dominantes talvez os machos tenham perdido o controle, já que elas copulam com quem bem entendem, inclusive com vizinhos. Isso tornou obsoleta a compe ção territorial. Em primeiro lugar, fazer sexo com membros de outro grupo obviamente se traduz em reprodução, e isso significa que os grupos vizinhos podem conter parentes: machos inimigos podem ser irmãos, pais e filhos. Em segundo lugar, não tem sen do machos arriscarem o pescoço e a vida para conseguir fêmeas que já estão dispostas a fazer sexo com eles. Assim, os bonobos ilustram as condições em que é possível a evolução de relações pacíficas entre grupos. Condições semelhantes aplicam-se a nós. Todas as sociedades humanas conhecem o casamento entre membros de grupos dis ntos. Ele promove a troca de genes e torna contraproducente a agressão letal. Embora possa haver ganho quando derrotamos outro grupo para nos apoderarmos de território, há desvantagens, como a perda de vidas do nosso próprio lado e parentes mortos do lado oposto, além da redução das oportunidades de troca. Esta úl ma pode não se aplicar aos outros grandes primatas, mas para os humanos é um fator significa vo. Nossas relações intergrupais são, pois, inerentemente ambivalentes: um laivo de hos lidade com freqüência combina-se ao desejo de harmonia. Os bonobos ilustram bem essa mesma ambivalência. Suas relações de vizinhança estão longe de ser idílicas — eles parecem aproveitar todas as oportunidades de ressaltar as fronteiras territoriais. Mas mantêm aberta a porta para o abrandamento das tensões e o contato amistoso.
Mesmo que a migração das fêmeas promova a troca gené ca entre os chimpanzés, a hos lidade entre suas comunidades impede as livres relações sexuais que vemos nos bonobos. Ninguém sabe o que veio primeiro, a ausência de reprodução entre grupos ou a grave hos lidade. Mas as duas obviamente amplificam uma à outra, e com isso criam um perpétuo ciclo de violência entre os chimpanzés. O resultado é que os humanos têm comportamentos intergrupais em comum tanto com os chimpanzés como com os bonobos. Quando as relações entre sociedades humanas são ruins, são piores do que entre os chimpanzés; mas, quando são boas, são melhores do que entre os bonobos. Nossas guerras excedem a violência “animal” dos chimpanzés em grau alarmante. Mas ao mesmo tempo as compensações das relações de boa vizinhança são mais ricas do que entre os bonobos. Grupos humanos fazem muito mais do que se misturar e ter relações sexuais. Trocam bens e serviços, realizam banquetes cerimoniais, permitem que membros do grupo vizinho viajem por seu território e organizam defesas comuns contra terceiros hos s. Quando se trata de relações entre grupos, superamos nossos parentes próximos tanto do lado posi vo da escala como do negativo.