Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 16 de 48

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Eu, primata

A Magna Carta dos Grandes Primatas

Não demorou, porém, para que se revelasse justamente tal cenário. Um belo dia, na primavera de 2003, logo ao acordar topei no jornal com a foto de três primeiros-ministros lado a lado, caminhando sorridentes em direção à sala do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Os ministros da França, Rússia e Alemanha haviam proclamado sua oposição à planejada invasão do Iraque encabeçada pelos Estados Unidos, e salientaram que a China também estava do lado deles. Franceses e alemães, assim como russos e chineses, não morrem de amores uns pelos outros, mas esses estranhos aliados se haviam associado depois que o governo americano abandonara a prá ca de buscar o consenso, que até então lhe havia permi do atuar como o mais poderoso ator mundial sem perturbar as alianças internacionais. Mas o isolamento estava se instalando. O fim da diplomacia americana ensejara um contra-alinhamento que dez anos antes teria sido absolutamente inimaginável.

 

A MAGNA CARTA DOS GRANDES PRIMATAS

Curiosamente, viver abaixo do nível do mar explica o etos igualitarista dos holandeses. As tempestades e enchentes que se abateram sobre a Holanda nos séculos XV e XVI incu ram no povo o senso do propósito comum. O menino que tapou com o dedo o furo do dique nunca exis u. Cada cidadão nha de contribuir para manter o país seco, carregando pesados sacos de argila no meio da noite se um dique es vesse prestes a ruir. Uma cidade podia ser totalmente engolida pelas águas num á mo. Quem pusesse o status acima do dever era malvisto. Mesmo hoje em dia, a monarquia holandesa é ambivalente na questão da pompa e circunstância. Uma vez por ano, a rainha anda de bicicleta e serve chocolate quente a seus criados para mostrar que é do povo. A natureza das hierarquias é culturalmente variável. Abrange toda a gama que vai da formalidade militar germânica e as ní das divisões de classe britânicas às a tudes descontraídas e apreço pela igualdade dos americanos. No entanto, por mais informais que sejam algumas culturas, nada se compara à negação de status naqueles que os antropólogos chamam de “verdadeiros igualitaristas”. Estes vão muito além de ter uma rainha ciclista ou um presidente chamado Bill. A própria idéia de monarquia os deixa indignados. Refiro-me aos índios navajos, aos hotentotes, pigmeus mbu , !kung san, inuítes e outros. Afirma-se que essas sociedades em pequena escala, povos caçadores-coletores, hor cultores ou dedicados a outras ocupações, eliminam completamente as dis nções de riqueza, poder e status, mantendo apenas as de gênero e as entre pais e filhos. A ênfase é na igualdade e no compar lhamento. Acredita-se que nossos ancestrais imediatos viveram desse modo por milhões de anos. Nesse caso, seriam as hierarquias menos arraigadas do que supomos? Houve um tempo em que os antropólogos viam o igualitarismo como um arranjo pacífico no qual as pessoas mostravam o que nham de melhor, amando e valorizando umas às outras. Era um estado utópico em que leão e cordeiro, dizia-se, dormiam lado a lado. Não estou afirmando que tais estados estão fora de questão. De fato, no ciou-se que uma leoa nas planícies quenianas demonstrou afeição maternal por um filhote de an lope. Mas da perspec va biológica eles são insustentáveis. Em algum momento, o autointeresse erguerá sua hedionda cabeça: os predadores sen rão o estômago vazio e as pessoas brigarão pelos recursos. O igualitarismo não se baseia em amor mútuo, e muito menos em passividade. É uma condição a vamente man da que reconhece o universal desejo humano de controlar e dominar. Em vez de negarem o desejo de poder, os igualitaristas o conhecem bem demais. Lidam com ele todos os dias. Em sociedades igualitárias, os homens que tentam dominar outros são sistema camente boicotados, e o orgulho masculino não é bem acolhido. O ditado chinês “Peixes grandes comem peixes pequenos” é considerado impróprio. Quando regressa à aldeia, o caçador bem-sucedido simplesmente vai sentar-se à porta de sua choça, sem dizer palavra. Deixa que o sangue na lança fale por si. Qualquer insinuação de vanglória será punida com piadas e insultos sobre sua ínfima presa. Analogamente, se ocorrer a um aspirante a chefe a idéia de que ele pode mandar nos outros, estes claramente o informam do quanto é ridícula sua pose. O antropólogo Christopher Boehm estudou esses “mecanismos niveladores”.

Concluiu que os líderes que se tornam in midadores e jactanciosos, não distribuem os bens e lidam com forasteiros de modo a auferir vantagens pessoais logo perdem o respeito e o apoio da comunidade. Quando falha a habitual tá ca de ridicularizar, espalhar boatos e desobedecer, os igualitaristas não se furtam a medidas drás cas. Um chefe buraya que se apropriava do gado de outros homens e forçava as esposas destes a manter relações sexuais com ele foi morto, e des no igual teve um líder kaupaku que passou dos limites. Uma boa alterna va, é claro, seria simplesmente abandonar o mau líder. Deixá-lo falando sozinho.

Como é di cil sobreviver sem liderança alguma, muitos igualitaristas permitem que certos homens atuem como o primeiro entre iguais. A palavra-chave aqui é “permitem”, pois o grupo todo previne os abusos. Para isso, empregam instrumentos sociais que são encontrados em nossa linhagem, mas que também temos em comum com nossos parentes. Ao longo dos anos, minha equipe e eu registramos milhares de situações em que um terceiro intervém em uma luta, apoiando uma ou outra parte. Observamos essa prá ca em macacos e grandes primatas. Macacos tendem a apoiar os vencedores, e isso significa que os indivíduos dominantes raramente encontram resistência. Ao contrário: o grupo oferece-lhes ajuda. Não admira que os macacos tenham hierarquias tão estritas e estáveis. Os chimpanzés são fundamentalmente diferentes, pois com a mesma freqüência apoiam vencedores ou perdedores ao intervirem em lutas. Assim, um agressor nunca pode ter certeza de que será ajudado ou comba do. Essa é uma diferença crucial em relação à sociedade dos macacos. Como os chimpanzés também podem ir em socorro dos desfavorecidos, cria-se uma hierarquia inerentemente instável, na qual o poder no topo é mais precário do que em qualquer grupo de macacos. Um exemplo pico ocorreu quando Jimoh, o macho alfa de nosso grupo de chimpanzés na Estação de Campo Yerkes, desconfiou que estava ocorrendo secretamente o acasalamento entre uma das suas fêmeas favoritas e um macho adolescente. O jovem macho e a fêmea haviam sensatamente desaparecido, mas Jimoh saíra à procura deles. Normalmente, o velho macho se limitaria a perseguir o culpado, mas, por alguma razão — talvez porque essa fêmea se recusara a acasalar-se com ele naquele dia —, ele arremeteu contra o outro a toda a velocidade e não se abrandou. A perseguição con nuou por toda a jaula, e o jovem macho fugiu aos gritos, com diarréia de tanto pavor, caçado implacavelmente por Jimoh. Mas, antes que o alfa conseguisse concluir seu intento, fêmeas entraram em cena emi ndo gritos de indignação, um po de vocalização usado em protesto contra agressores e intrusos. A princípio, elas olharam ao redor para ver como o resto do grupo poderia reagir, e, quando outros juntaram-se a elas, especialmente a fêmea alfa, a intensidade dos gritos aumentou até que pra camente todas as vozes formaram um coro ensurdecedor. O começo disperso deu a impressão de que o grupo estava fazendo uma votação. Mas, assim que o protesto intensificou-se num crescendo, Jimoh, com um esgar nervoso, cessou o ataque. Tinha entendido o recado. Se não houvesse parado, sem dúvida haveria uma ação conjunta para dar fim ao tumulto.

A punição para machos valentões pode ser severa. Em chimpanzés na natureza observou-se o ostracismo, com machos forçados a passar um tempo na zona de perigo na fronteira do território do grupo. Um relatório mencionou machos “indo para o exílio”. O ostracismo em geral é precipitado por um ataque em massa, como o desferido contra Goblin em Gombe Stream, quando ele foi atacado por uma coalizão numerosa e talvez não sobrevivesse sem tratamento veterinário. Goblin quase foi morto em duas ocasiões, o que levou os pesquisadores de campo a cogitar na possibilidade de que a violência com que ele foi deposto es vesse relacionada à natureza de sua liderança, que os estudiosos qualificaram de “tempestuosa”. Se os que estão no degrau inferior da escala social estabelecem cole vamente um limite e ameaçam graves conseqüências caso os do degrau superior o transponham, temos o princípio daquilo que, em termos jurídicos, chamamos cons tuição. Obviamente, as cons tuições atuais são ricas em conceitos refinados, demasiado complexos para ser aplicados a grupos humanos primários, quanto mais a sociedades de grandes primatas não humanos. No entanto, não devemos esquecer que a Cons tuição dos Estados Unidos, por exemplo, nasceu de uma revolução contra o soberano inglês. Sua magnífica prosa, “Nós, o povo...”, fala com a voz das massas. Sua predecessora foi a Magna Carta, de 1215, na qual os súditos do rei João, da Inglaterra, ameaçaram guerra e morte ao opressor se ele não desis sse de suas apropriações excessivas. Mais uma vez, o princípio foi o da resistência cole va contra um macho alfa despótico.

Se indivíduos no topo da hierarquia podem ser tão problemá cos, por que tê-los, afinal? Bem, antes de tudo, para resolver disputas. Em vez de todos precisarem tomar par do, o que é melhor do que lidar com o problema inves ndo de autoridade uma só pessoa, um conselho de anciãos ou um governo, e incumbi-los de servir ao bem comum mantendo a ordem e encontrando soluções para as desavenças? Por definição, as sociedades igualitárias não têm uma hierarquia social que imponha sua vontade nas disputas, portanto dependem de arbitragem. Imparcialidade é a chave. Adotada pelo judiciário na sociedade moderna, a arbitragem protege a sociedade contra seu maior inimigo: o alastramento da discórdia. Em geral, chimpanzés dominantes intervém em brigas apoiando o fraco contra o forte ou sendo imparciais. Podem postar-se com os pêlos arrepiados entre os dois combatentes até que eles parem de gritar, dispersá-los com uma demonstração ritualizada de agressividade ou efe vamente separar com as mãos os lutadores. Em todos esses casos, seu principal obje vo parece ser pôr fim às hos lidades, e não apoiar um lado ou o outro. Por exemplo, semanas depois de obter a posição de alfa, Luit, o mais imparcial líder que já conheci, adotou o que se conhece como “papel de controle”. Uma briga entre duas fêmeas acirrou-se demais e descambou para as vias de fato. Vários membros do grupo entraram na briga. Um tremendo emaranhado de primatas em luta rolava na areia aos berros até que Luit pulou no meio deles e os separou a pancadas. Ele não tomou par do, ao contrário de todos os demais. Em vez disso, desferia bordoadas em qualquer um que continuasse a lutar. Poderíamos supor que os primatas apoiassem seus parentes, amigos e aliados. Isso realmente ocorre com a maioria dos membros da sociedade, mas o macho dominante segue regras diferentes. Como alfa, Luit parecia colocar-se acima das partes conflitantes, e suas intervenções aparentemente visavam restaurar a paz, e não ajudar os amigos. As intercessões de Luit em favor de certos indivíduos não correspondiam ao tempo que ele passava com eles em sessões de grooming ou apenas em sua companhia. Ele era o único chimpanzé imparcial, ou seja, dissociava sua tarefa de árbitro das suas preferências sociais. Já vi outros machos fazerem o mesmo, e, quando Christopher Boehm passou da antropologia para a primatologia, também observou na natureza chimpanzés do topo da hierarquia que eram peritos em evitar, encerrar ou atenuar conflitos. Uma comunidade não aceita a autoridade de qualquer aspirante a árbitro. Quando Nikkie e Yeroen dominavam conjuntamente a colônia de Arnhem, Nikkie tentava intervir quando espoucavam disputas. Mas muitas vezes era ele quem acabava vi mado pela violência. As fêmeas mais velhas, especialmente, não aceitavam que ele viesse socar-lhes a cabeça. Uma razão para isso talvez seja que Nikkie estava longe de ser imparcial: ele tomava par do de seus amigos, independentemente de quem houvesse começado a briga. As tenta vas de pacificação de Yeroen, em contraste, eram sempre aceitas. Com o tempo, o macho mais velho arrebatou o controle de seu parceiro caçula. Quando irrompia uma briga, Nikkie nem sequer se dava ao trabalho de levantar-se; deixava a solução para Yeroen.