Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 21 de 48

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Eu, primata

Bonobobi

Os bonobos precisam realmente de todo esse sexo? E nós, humanos, precisamos? Por que se dar a esse trabalho, afinal? Essa pode parecer uma pergunta estranha. Como se

véssemos escolha! Mas em vez de aceitarem o sexo como um dado, os biólogos querem saber de onde ele veio, para que serve e se existem modos talvez melhores de reprodução. Por que simplesmente não nos clonamos? A clonagem tem a vantagem de replicar desenhos gené cos que funcionaram bem no passado, como você e eu (estar vivo depois de tanto tempo é uma façanha), sem misturá-los com imperfeições gené cas de outra pessoa.

Imagine o admirável mundo novo que habitaríamos, cheio de indivíduos sem gênero e de aparência idên ca. Nada de fofocas sobre quem ama quem, quem se divorciou, quem traiu. Nada de gravidez indesejada, nem de tolos ar gos de revista sobre como impressionar em um encontro amoroso, nada de pecados da carne. Mas também nada de paixão, de filmes român cos, de sex symbols do mundo pop. Talvez fosse um mundo mais eficiente, mas também seria o lugar mais maçante que se pode imaginar. Felizmente, os inconvenientes da reprodução sexuada são mais do que compensados pelos bene cios. Isso é bem demonstrado por animais que empregam ambos os métodos para se reproduzir. Peguemos um desses pulgões encontrados em plantas de jardim, por exemplo, e ponhamos no microscópio. Veremos, dentro de seu ventre translúcido, uma porção de minúsculos filhotes, todos idên cos à mamãe. Em geral, os pulgões apenas clonam a si mesmos. Mas em tempos di ceis, como outono e inverno, esse método não é bom o bastante. A clonagem não lhes permite livrarse de mutações gené cas aleatórias, que em sua maioria causam problemas. Os erros acumulam-se até que toda a população se afoga neles. Assim, os pulgões mudam para a reprodução sexuada, que traz a mistura de genes. A prole produzida sexualmente é mais robusta, do mesmo modo, por exemplo, que um vira-lata em geral é mais sadio do que um cão ou gato de raça pura. Após muitas gerações, a endogamia assemelha-se à clonagem, pois produz defeitos genéticos cada vez mais numerosos. O vigor do chamado “ po selvagem”, isto é, resultante de cartas gené cas reembaralhadas, é bem conhecido. Resiste melhor a doenças, por exemplo, pois consegue manter-se à altura da con nua evolução dos parasitas. Bactérias precisam de apenas nove anos para produzir as aproximadamente 250 mil gerações vividas por nossa linhagem desde que nos separamos dos bonobos e chimpanzés. A rápida rota vidade geral dos parasitas força os animais hospedeiros a mudar suas defesas. Só para combater os parasitas, nosso sistema imune precisa estar constantemente progredindo. Os biólogos, inspirados na personagem de Alice no país das maravilhas, referem-se a esse fato como a hipótese da Rainha Vermelha. A rainha diz a Alice: “Você tem de correr o mais que puder para se manter no mesmo lugar!” Para homens e animais, essa corrida fica por conta da reprodução sexuada.

Mas isso apenas explica por que o sexo existe, e não por que o pra camos com tanta freqüência. Não nos reproduziríamos bem com apenas uma fração disso? Sem dúvida é assim que pensa a Igreja Católica quando prega que o sexo des na-se apenas à reprodução. No entanto, o lado prazeroso do sexo não refuta essa idéia? Se o único obje vo fosse a reprodução, com certeza o sexo não precisaria ser tão agradável. Seria para nós o que as verduras são para as crianças: recomendado, mas não empolgante. E isso, obviamente, não foi exatamente o que a Mãe Natureza nos reservou. Alimentados por uma infinidade de terminais nervosos em lugares conhecidos como zonas erógenas (8 mil só no pequeno clitóris), ligados diretamente aos centros de prazer do cérebro, o desejo e a sa sfação sexual evoluíram em nosso corpo. A busca do prazer é a razão número um de as pessoas fazerem mais sexo do que o necessário para a reprodução. A descoberta de que um dos nossos parentes mais próximos tem uma genitália que parece no mínimo tão desenvolvida quanto a nossa e pra ca ainda mais sexo “desnecessário” do que nós faz da sexualidade uma caracterís ca majoritária no trio de parentes próximos que estamos analisando. Os chimpanzés são a exceção. Sua vida sexual é pobre se comparada à das pessoas e à dos bonobos, e isso não só na natureza, mas também nos zoológicos. Comparando chimpanzés e bonobos em ca veiro que contam com o mesmo espaço para viver, recebem o mesmo alimento e têm o mesmo número de parceiros, os bonobos iniciam um ato sexual em média a cada uma hora e meia, e com muito maior diversidade de parceiros que os chimpanzés, que fazem sexo apenas uma vez a cada sete horas. Portanto, mesmo em ambientes iguais, a sexualização dos bonobos é muito mais acentuada.

Mas nada disso responde à nossa pergunta: por que humanos e bonobos são hedonistas sexuais? Por que somos dotados de ape te sexual além daquele necessário para fecundar um óvulo de vez em quando, e além dos parceiros que possibilitam isso? O leitor pode argumentar que não tem um interesse em parceiros sexuais tão variado quanto se está afirmando aqui, mas estou-me referindo a nós como espécie. Algumas pessoas são heterossexuais, outras são homossexuais, e há quem aprecie a variedade de parceiros. Além disso, essas classificações parecem arbitrárias. O pioneiro americano das pesquisas sobre sexo Alfred Kinsey situou as preferências humanas em um con nuum regular, opinando que o mundo não se divide em ovelhas e bodes e que nossas habituais dis nções não são obra da natureza, mas da sociedade. A idéia de Kinsey é corroborada por estudos comparativos de culturas, os quais indicam imensa variação nas a tudes relacionadas com o sexo. A homossexualidade, em algumas culturas, é livremente expressa, e até incen vada. Nesse sen do os gregos an gos são logo lembrados, mas podemos citar também a tribo aranda, da Austrália, onde um homem adulto vive sexualmente com um menino até que o primeiro esteja pronto para se casar com uma mulher. Ali também as mulheres massageiam o clitóris de outras por prazer. Para os keraki, da Nova Guiné, as relações sexuais com homens são parte dos ritos de puberdade de todo menino, e existem outras culturas nas quais os meninos pra cam a felação em homens mais velhos para ingerir esperma, que supostamente lhes dá força viril. Essas culturas contrastam com outras que cercam a homossexualidade de medo e tabus, especialmente para os homens, que a disfarçam ressaltando sua heterossexualidade. Nenhum homem heretossexual quer ser tomado por homossexual. A intolerância obriga todos a trinchar sua sexualidade e escolher entre as partes, dando a impressão de pos separados, muito embora, no fundo, possa exis r uma ampla gama de preferências, inclusive indivíduos sem preferência alguma. Saliento esse reves mento cultural para explicar por que uma questão evolu va comumente aventada — como a homossexualidade poderia ter surgido — talvez não tenha sen do. Já que os homossexuais não se reproduzem, diz o argumento, deveriam ter sido ex ntos há muito tempo. Mas isso é um enigma apenas se cairmos no engodo das modernas prá cas de rotulagem. E se as preferências sexuais declaradas forem apenas aproximações?

E se vermos sofrido uma lavagem cerebral para pensar que temos, excludentemente, de ser uma coisa ou outra? E quanto à premissa de que homossexuais não se reproduzem? É verdadeira? Eles certamente são capazes de se reproduzir, e na sociedade atual muitos vivem parte da vida casados. Existem muitos casais homossexuais criando filhos em nosso mundo. O argumento da ex nção também pressupõe um abismo gené co entre homossexuais e heterossexuais. É verdade que as preferências sexuais parecem cons tucionais, ou seja, parece que nascemos com elas ou pelo menos as desenvolvemos ainda bem jovens. Mas, apesar dos rumores sobre “genes gays”, até agora não há provas de que exista uma diferença gené ca sistemá ca entre homossexuais e heterossexuais.

Deixemos de lado a esfera sexual e falemos somente da atração por indivíduos do mesmo sexo, supondo que ela exista, em certo grau, em todos nós. Facilmente criamos laços com indivíduos que se parecem conosco, portanto essa parte não é di cil de entender. Uma vez que a atração pelo mesmo sexo não impede a atração pelo sexo oposto, sua evolução não teria encontrado obstáculos. Agora, acrescentemos a isso a idéia de que não existe uma ní da demarcação entre as áreas de atração social e as de atração sexual. Ou seja, a atração pelo mesmo sexo pode ter laivos sexuais que só afloram em determinadas circunstâncias. Se o sexo oposto ficar fora da vista por um longo tempo, por exemplo, como nos internatos, prisões, conventos ou navios, muitos vínculos entre indivíduos do mesmo sexo assumem caráter sexual, o que poderia não acontecer em outras circunstâncias. E assim que as inibições desaparecem, como quando homens bebem demais, eles de repente se penduram no pescoço uns dos outros. A idéia de que as atrações que não são invariavelmente sexuais ainda assim podem conter um lado sexual está longe de ser uma novidade, obviamente: Freud nos ressaltou essa noção há muito tempo. Temos tanto medo do sexo que tentamos trancafiá-lo numa caixinha com tampa, mas ele foge com grande freqüência e se mistura a uma infinidade de outras tendências. A atração pelo mesmo sexo não é um problema evolu vo, já que não conflita com a reprodução. Suponhamos, adicionalmente, que essa atração seja muito variável, com seu lado social prevalecendo na maioria dos indivíduos e seu lado sexual, na minoria. Essa minoria é pequena. A es ma va de Kinsey de que existem 10% de homossexuais na população é muito exagerada. Levantamentos mais recentes relatam menos da metade dessa porcentagem. Nessa minoria existe um grupo ainda menor com uma atração pelo mesmo sexo tão intensa que impede o sexo heterossexual e, portanto, a reprodução. O maior estudo randomizado realizado até hoje sobre o comportamento sexual, feito na década de 1990 nos Estados Unidos e Grã-Bretanha, concluiu que a parcela de pessoas exclusivamente homossexuais é inferior a 1%. Somente se essa ínfima minoria possuísse genes não encontrados em mais ninguém teríamos um enigma: como esses genes seriam transmitidos? Mas, como já afirmei, não existem provas incontestes da existência de tais genes. Além disso, os 99% da população com capacidade de reprodução pelo visto não têm dificuldade para transmi r a atração pelo mesmo sexo da qual a homossexualidade parece ser um subproduto.

Em vez de ser uma “preferência”, como alguns conservadores esperançosamente o denominam, esse subproduto ocorre de modo natural para certos indivíduos. É inerente a quem eles são. Em algumas culturas, são livres para expressá-la; em outras, precisam ocultá-la. Como não existe povo sem cultura, é impossível saber como nossa sexualidade se manifestaria na ausência dessas influências. A natureza humana pura é como o Santo Graal: eternamente procurada, mas nunca encontrada. Entretanto, temos o bonobo. Esse primata é instru vo, pois desconhece proibições sexuais e tem poucas inibições. Os bonobos demonstram uma rica sexualidade na ausência dos invólucros culturais que criamos. Isso não quer dizer que bonobos são pessoas peludas; claramente, eles são uma espécie separada e diferente. Em uma escala Kinsey de 0 a 6 de heterossexual a homossexual, os humanos podem se situar mais na extremidade heterossexual, mas os bonobos parecem ser totalmente “bi”, ocupando o ponto 3 da escala. Eles são, literalmente, pansexuais, designação que, por uma feliz coincidência, remete à do seu gênero. Pelo que sabemos, não existem bonobos exclusivamente heterossexuais ou homossexuais: todos pra cam sexo com pra camente todos os pos de parceiro. Quando se divulgou essa no cia sobre nossos parentes mais próximos, fui arrastado para uma discussão em um site gay na internet na qual alguns argumentaram que isso significava que a homossexualidade era natural, enquanto outros protestaram que a idéia fazia a homossexualidade parecer primi va. Com “natural” soando como algo bom e “primi va” como algo ruim, a questão era se a comunidade gay deveria ou não alegrar-se pela no cia sobre os bonobos. Eu não nha resposta para isso: os bonobos existem, quer as pessoas gostem, quer não. Mas sugeri que interpretassem “primi va” com a acepção que o termo tem na biologia, ou seja, a forma mais ancestral. Nesse sen do, a heterossexualidade é obviamente mais primi va do que a homossexualidade: no início havia a reprodução sexuada, que levou aos dois sexos e ao impulso sexual. As aplicações adicionais desse impulso, inclusive as relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo, devem ter surgido posteriormente. O sexo com alguém do mesmo sexo decerto não se limita a humanos e bonobos. Macacos cobrem indivíduos do mesmo sexo para demonstrar dominância ou apresentam o traseiro para pacificar. Nos símios do gênero Macacus, fêmeas unem-se como fazem os pares heterossexuais, e uma delas sempre monta a outra. Exemplos e mais exemplos de relações homossexuais têm sido documentados no reino animal, de elefantes machos sendo montados e amassos entre girafas às cerimônias de saudação dos cisnes e carícias mútuas entre baleias. Mas, mesmo que alguns animais passem por períodos nos quais tais comportamentos são comuns, abstenho-me de empregar o termo “homossexual” e sua implicação de uma orientação predominante. Orientações exclusivamente para o mesmo sexo são raras ou ausentes no reino animal. Os bonobos às vezes são descritos como animais gays e inspiraram um “Bar Bonobo” em quase toda cidade cosmopolita. É verdade que eles fazem sexo homossexual com freqüência, se usarmos esse termo apenas para designar o ato. Fêmeas fazem-no entre si o tempo todo, e de fato seu GG-rubbing é o cimento polí co da sociedade. Essa prá ca é, claramente, parte da vinculação entre as fêmeas. Os machos também se envolvem em comportamento sexual entre eles, embora menos intensamente do que as fêmeas. Mas nada disso é suficiente para que classifiquemos os bonobos como gays. Não conheço nenhum bonobo que restrinja sua a vidade sexual a membros do próprio sexo. Ao contrário: eles são inteiramente promíscuos e bissexuais.

O aspecto mais significa vo do sexo entre os bonobos é ser absolutamente trivial e integrado à vida social. Usamos as mãos para cumprimentar, com um aperto de mãos ou tapinhas no ombro, por exemplo, enquanto os bonobos cumprimentam com os genitais. Descrevo a seguir uma cena no Wild Animal Park, a nordeste de San Diego, quando os tratadores e eu demos aos bonobos uma refeição para par lharem enquanto uma câmera filmava suas maneiras à mesa para um programa de divulgação cien fica. Nós os filmamos em uma jaula espaçosa, com gramado e palmeiras. Embora um macho adulto e musculoso chamado Akili es vesse presente, o grupo era dominado por Lore a, que na época nha 21 anos. Os primatas fizeram exatamente o que costumam fazer: resolveram com sexo as tensões provocadas pela comida. Quando lhes foi posto na frente um grande maço de folhas de gengibre, que eles adoram, Lore a se apoderou de tudo imediatamente. Depois de algum tempo, permi u que Akili comesse algumas folhas, mas uma fêmea adulta jovem, Lenore, hesitou em juntar-se a eles. Não por causa de Lore a, mas porque Lenore e Akili por alguma razão não se davam bem. O tratador me disse que esse vinha sendo um problema constante. Lenore con nuou a olhar para Akili, evitando os movimentos dele. Apresentou a genitália algumas vezes, à distância. Quando Akili não deu resposta, ela se aproximou e esfregou seus genitais intumescidos no ombro dele, que aceitou o ato. Depois disso, permi ram-lhe unir-se ao grupo, e todos comeram juntos pacificamente, embora Lore a ainda controlasse a comida com firmeza.