Eu, primata
Justiça Seja Feita
Descobrimos que, se o macaco A foi generoso com os pepinos, é maior a probabilidade de o macaco B compar lhar suas maçãs. Isso foi tão encorajador que adaptamos o experimento para um mercado de trabalho. Nesse mercado, você me paga pelo trabalho que faço para você. Imitamos essas condições colocando comida em uma bandeja móvel com um contrapeso que era pesado demais para ser movido por um único macaco. Cada animal, do seu lado da jaula, ficava pronto para puxar uma barra ligada à bandeja. Sendo verdadeiros cooperadores, eles coordenavam perfeitamente suas ações para puxar a bandeja. O truque era colocarmos a comida defronte a apenas um dos macacos, ou seja, todos os bene cios iriam para ele, o vencedor. O outro, o trabalhador, estava ali só para ajudar. O único modo de o trabalhador conseguir alguma coisa era o vencedor compartilhar a comida através da rede.
Os vencedores mostravam-se mais generosos após a cooperação do que quando ob nham a comida sozinhos. Pareciam perceber que a ajuda era necessária e recompensavam quem a fornecia.
JUSTIÇA SEJA FEITA
Onde estaríamos sem pagamento pelo trabalho? Parece surpreendente que esse princípio se revele em um laboratório de macacos, mas só para quem não sabe que os selvagens capuchinhos caçam esquilos gigantes. Apanhar presa tão ágil, que pode chegar a um quarto do peso de um macho capuchinho médio, é dificílimo no espaço tridimensional da floresta, tão di cil quanto a caçada de macacos por chimpanzés. Incapazes de capturar um esquilo sozinhos, os caçadores capuchinhos precisam de ajuda. Nosso experimento replicou a questão central da cooperação: fornecer compensações não só para quem fizer a captura, mas para todos os par cipantes. Os vencedores que não par lham não conseguem muita ajuda no futuro, como verificamos também no nosso experimento dos macacos que puxavam a barra. Mas e quanto à divisão do produto da caçada? O fato de os vencedores precisarem compensar os trabalhadores não significa que tenham de abrir mão de tudo. Quanto podem conservar para si sem contrariar os outros? As pessoas têm excelente percepção sobre a distribuição de recursos; sabem muito bem, por exemplo, a diferença entre ganhar uma porção grande ou pequena à mesa do jantar. Na série de televisão The honeymooners o problema é tratado com humor quando Ralph Kramden (o gordo), Ed Norton (o magro) e suas esposas decidem dividir um apartamento e comer juntos: RALPH: “Quando ela pôs duas batatas na mesa, uma grande e uma pequena, você logo pegou a grande sem perguntar qual eu queria”.
NORTON: “E você, o que teria feito?”.
RALPH: “Teria pegado a pequena, é claro”.
NORTON (incrédulo):”É mesmo?”
RALPH: “Teria, sim!”.
NORTON: “Ué, então por que está reclamando? Você ficou com a pequena!” Tudo se resume à eqüidade. Na verdade, essa é uma questão moral relacionada à díade ajudar/não prejudicar, embora nem sempre seja apresentada como tal. Nos Estados Unidos é comum a remuneração de altos execu vos ser mil vezes maior que a de um trabalhador médio. Esses execu vos podem estar prejudicando outros ao arrebatarem uma parte desproporcional do bolo da empresa, mas afirmam que isso é privilégio deles, ou que é assim que o mercado funciona. Apregoa-se o darwinismo social para jus ficar a desigualdade e se diz que é natural alguns ganharem mais do que outros. Esquece-se que o verdadeiro darwinismo tem uma concepção mais refinada sobre a divisão de recursos. Isso porque somos animais coopera vos entre os quais até os poderosos —e talvez especialmente eles — dependem de outros. A questão surgiu quando Richard Grasso, diretor da Bolsa de Valores de Nova York, revelou que o pacote de sua remuneração chegava a quase 200 milhões de dólares. Foi uma grita geral contra essa compensação estratosférica. Acontece que, no mesmo dia em que Grasso foi forçado a renunciar ao seu cargo, minha equipe publicou um estudo sobre a eqüidade entre macacos. Os analistas não resis ram a contrastar Grasso com nossos capuchinhos, sugerindo que ele poderia aprender com os primatas. Sarah Brosnan e eu testamos a eqüidade com um jogo simples. Se damos a um capuchinho um pedregulho e depois mostramos em nossa mão algo mais atra vo, como uma fa a de pepino, ele logo entende que precisa devolver o pedregulho para conseguir a comida. Aprende esse jogo sem dificuldade nenhuma, pois dar e receber é natural em sua espécie. Assim que o capuchinho aprende a trocar pedregulho por comida, Sarah e eu introduzimos a desigualdade. Pusemos dois macacos lado a lado e fizemos a troca 25 vezes seguidas. Trocávamos alternadamente com um e com outro. Quando ambos recebiam pepino, isso era chamado de eqüidade. Nessa situação, os macacos fizeram troca o tempo todo e comeram alegremente a comida. Mas, quando demos uvas a um deles e con nuamos a dar pepino ao outro, as coisas tomaram um rumo inesperado. Chamamos a isso desigualdade. As preferências alimentares dos nossos macacos refletem os preços no supermercado; portanto, uvas são a melhor recompensa. Ao notar o aumento de salário do seu parceiro, os macacos que haviam ficado perfeitamente sa sfeitos em trabalhar por pepino de repente entraram em greve. Não só mostraram relutância em par cipar, mas também ficaram agitados, jogaram os pedregulhos para fora da jaula de testes e até algumas fa as de pepino. Um alimento que normalmente não recusariam tornou-se menos do que desejável: tornou-se repulsivo! Essa sem dúvida foi uma reação forte, equivalente à que, com certa pompa, se designa por “aversão à desigualdade” quando falamos sobre pessoas. Admito que nossos macacos apresentaram uma forma egocêntrica dessa reação. Em vez de acatar o nobre princípio da eqüidade geral, zangaram-se por receber menos na troca. Se a eqüidade geral fosse a preocupação deles, os macacos que se viram em vantagem teriam trocado algumas uvas com o outro ou recusado totalmente as uvas, coisa que nunca fizeram. Alguns dos afortunados ganhadores de uvas até suplementaram sua refeição com as fa as de pepino rejeitadas pelo vizinho. E se mostraram alegres, em contraste com seus pobres parceiros, que, no fim do teste, estavam emburrados num canto. Quando Sarah e eu publicamos esse estudo com o tulo “Monkeys reject unequal pay” [Macacos rejeitam pagamento desigual], causamos sensação, pois muitas pessoas se vêem como comedoras de pepino num mundo de uvas. Todos nós sabemos como é duro ser preterido, razão pela qual nenhum pai ousa voltar para casa trazendo presente para um filho e não para o outro. Toda uma escola da economia está convencida de que as emoções — que os economistas curiosamente denominam “paixões” — desempenham papel crucial na tomada de decisão dos humanos. As mais intensas relacionam-se com a divisão de recursos. Essas emoções impelem-nos a ações que de início parecem irracionais — como deixar um emprego por ganharmos menos do que outros —, mas no longo prazo promovem regras do jogo eqüitativas e relações cooperativas. Isso é testado com o chamado “jogo do ul mato”, no qual uma pessoa recebe, digamos, cem dólares para dividir com um parceiro. A divisão pode ser meio a meio, mas também pode ser qualquer outra, como noventa-dez. Se um parceiro aceitar o trato, ambos recebem seu dinheiro. Se o parceiro recusar, os dois acabam sem nada. O que divide o dinheiro precisa ter cuidado, pois comumente os parceiros rejeitam ninharias. Isso contradiz a teoria econômica tradicional, segundo a qual os indivíduos são o mizadores racionais. Mas um o mizador racional aceitaria qualquer oferta, já que até uma quan a ínfima é melhor que nenhuma. As pessoas não pensam assim; detestam que lhes passem a perna. Grasso claramente subestimou esse sentimento. Nossos macacos apresentaram a mesma reação, jogando fora alimentos perfeitamente bons! Pepino seria ó mo se não houvesse mais nada, mas, assim que surgem outros comendo uvas, despenca o valor dos vegetais com baixos teores de açúcar.