Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 33 de 48

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Eu, primata

Bode Expiatório

O bem comum não é coisa pouca. Ou, como disse Keith Richards para Mick Jagger quando os Rolling Stones quase se separaram: “Isso é maior do que nós dois, baby”.

 

BODE EXPIATÓRIO

Costuma-se dizer que a vitória tem cem pais, mas a derrota é órfã. Aceitar a responsabilidade por algo que deu errado não é nosso ponto forte. Em polí ca, o jogo da culpa é um pressuposto. Como ninguém a quer à sua porta, a culpa tende a viajar. Temos aí um modo lamentável de resolver disputas: em vez de reconciliação, celebração e mediação, os problemas surgidos no topo são jogados para baixo. Toda sociedade tem seus bodes expiatórios, mas os casos mais extremos que já vi estavam em grupos recém-formados de símios do gênero Macacus. Esses macacos possuem uma hierarquia estrita, e quando os do alto escalão estavam decidindo suas posições no topo, um processo em geral nada suave, nada lhes era mais fácil do que voltar-se em massa contra algum pobre subalterno. Uma fêmea chamada Black era atacada com tanta freqüência que chamávamos o canto para onde ela costumava fugir de “o canto de Black”. Ela se acocorava e o resto do grupo a rodeava, a maioria apenas grunhindo e ameaçando, mas alguns a mordiam e lhe arrancavam tufos de pêlo. Pela minha experiência com primatas, não adianta ceder à tentação de remover o bode expiatório, pois no dia seguinte outro indivíduo estará em seu lugar. Existe uma óbvia necessidade de um receptáculo de tensões. Mas, quando Black deu à luz sua primeira cria, tudo mudou, pois o macho alfa protegia o infante. O resto do grupo estendia a hos lidade à família de Black, portanto ameaçavam e grunhiam também para o macaquinho. Este, porém, como contava com proteção lá de cima, nada nha a temer, e parecia intrigado com todo o estardalhaço. Black logo aprendeu a manter o filho por perto quando surgiam problemas, pois assim não a maltratavam também.

O que torna tão eficaz o recurso a um bode expiatório é a dupla u lidade. Primeiro, permite aos dominantes extravasar tensões. Atacar um circunstante inocente e inofensivo obviamente é menos arriscado do que se atacarem uns aos outros. Além do mais, isso une os do topo em torno de uma causa comum. Enquanto ameaçam o bode expiatório, eles se ligam uns aos outros, às vezes se montam e se abraçam, um indicador de que estão unidos. Temos aí um grande enigma, é claro: muitos primatas escolhem inimigos pra camente insignificantes. Em um grupo de macacos, todos os membros corriam até sua bacia de água e ameaçavam o próprio reflexo. Ao contrário dos humanos e dos outros grandes primatas, os macacos não se reconhecem em sua imagem refletida. Assim, encontravam um grupo inimigo que convenientemente não revidava. Os chimpanzés de Arnhem nham uma válvula de escape diferente. Quando as tensões beiravam o desastre, um deles começava a gritar com os leões e guepardos do parque-safári vizinho. Os grandes felinos eram inimigos perfeitos. Logo toda a colônia se esgoelava contra aquelas feras pavorosas separadas deles por um fosso, uma cerca e uma faixa de floresta. E lá se iam as tensões. Um grupo bem estabelecido em geral não tem um indivíduo específico para ser acuado. A ausência de um bode expiatório é um sinal inconfundível de que está tudo acertado. Mas o deslocamento da agressão, como dizem os especialistas, não necessariamente termina no úl mo degrau da escala social. Alfa ameaça Beta, que imediatamente começa a procurar Gama. Beta ameaça Gama olhando Alfa de relance, pois o resultado ideal é que Alfa tome par do de Beta. O deslocamento da agressão pode descer quatro ou cinco degraus antes de esgotar-se. Costuma ter baixa intensidade — o equivalente a dizer palavrões ou bater portas —, mas ainda assim permite aos do topo descarregar a raiva. E todos do grupo sabem o que está havendo: os subalternos correm a esconder-se ao primeiro sinal de tensões próximo ao topo. A expressão “bode expiatório” deriva do An go Testamento, onde encontramos referência a um dos dois bodes usados em uma cerimônia do Dia do Perdão. Um deles era sacrificado, e ao outro permi a-se escapar vivo. Este recebia na cabeça todas as iniqüidades e transgressões das pessoas e era então mandado para um lugar solitário, um deserto nos sen dos real e espiritual. Dessa maneira, as pessoas libertavam-se do mal. Analogamente, o Novo Testamento descreve Jesus como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1,29). O homem moderno vê o bode expiatório como demonização, difamação, acusação e perseguição descabidas. O mais horrível exemplo de recurso ao bode expiatório pela humanidade foi o Holocausto. Mas extravasar as tensões à custa de outro abrange uma gama mais ampla de comportamentos, como a caça às bruxas na Idade Média, o vandalismo de torcidas de mes perdedores, os maus-tratos à mulher depois de conflitos no trabalho. E os esteios desse comportamento — a inocência da ví ma e uma violenta liberação de tensões — são notavelmente semelhantes entre humanos e outros animais. O clássico exemplo é a agressão induzida pela dor em ratos. Se pusermos dois ratos em uma grade de ferro e lhes aplicarmos um choque elétrico, no momento em que sen rem dor atacarão um ao outro. Como pessoas quando erram a martelada e acertam o dedão, os ratos nunca hesitam em “pôr a culpa” no outro.

Cercamos tal processo de simbolismo e escolhemos as ví mas com base em caracterís cas como cor da pele, religião ou sotaque estrangeiro. Também temos o cuidado de nunca admi r a vergonha que é usar um bode expiatório. Nesse ponto, somos mais refinados que os outros animais. Mas não há como negar que o bode expiatório é um dos mais básicos, mais poderosos e menos conscientes reflexos psicológicos da espécie humana, também encontrado em tantos outros animais que pode muito bem ser um comportamento instintivo. O mí co Édipo morreu como bode expiatório durante uma comoção social em sua cidade, Tebas. Apontado como o culpado por uma seca prolongada, ele era uma ví ma perfeita: um forasteiro criado em Corinto. O mesmo se aplica a Maria Antonieta. A instabilidade polí ca combinou-se à sua linhagem austríaca e fez dela um alvo ideal. Hoje em dia, a Microso é o bode expiatório para a insegurança da internet, os imigrantes ilegais são vistos como culpados pelo desemprego crescente e a C IA foi responsabilizada por não terem sido encontradas armas de destruição em massa no Iraque.

A própria guerra no Iraque é outro bom exemplo. Como todos os americanos, fiquei chocado e estarrecido com o ataque terrorista em Nova York. Ao horror e consternação iniciais, logo somou-se a raiva. Eu podia sen -la à minha volta, infiltrando-se em mim. Não sei se em outras partes do mundo a sensação foi a mesma; horror e consternação talvez, mas não raiva. Talvez seja por isso que o que veio depois deixou os Estados Unidos em posição tão antagônica com os outros países. Da noite para o dia, o mundo teve de lidar com um urso ferido e furioso, acordado de seu sono por alguém que lhe pisou na cauda.

Depois de surrar o Afeganistão, o urso raivoso con nuou a procurar outro alvo, mais substancial, e lá estava Saddam Hussein, odiado por todos, sobretudo por seu próprio povo, lançando desaforos ao mundo. Independentemente de qualquer ligação comprovada com o 11 de setembro, o bombardeio de Bagdá foi um grande extravasamento de tensão para o povo americano, aclamado com fanfarra da mídia e bandeiras nas ruas. Mas imediatamente depois dessa catarse começaram a surgir dúvidas. Passados dezoito meses, pesquisas indicaram que a maioria dos americanos considerava essa guerra um erro.

Realocar a culpa não lida com a situação que a desencadeou, mas funciona: serve para acalmar os nervos e restaurar a sanidade.

Como disse Yogi Berra, famoso jogador de beisebol americano: “Nunca me culpo quando não acerto. Ponho a culpa no bastão”. É um bom modo de manter a si mesmo fora da equação, mas não se sabe exatamente como isso funciona. Um único estudo mediu a prá ca de um modo inovador: não em pessoas, mas em babuínos. Os primatólogos calcularam o que, em linhas gerais, é preciso para ser um babuíno macho bem-sucedido. A medida do sucesso é a quan dade de glucocor cóide no sangue, um hormônio regulador do estresse que reflete o estado psicológico do indivíduo. Níveis reduzidos indicam que ele suporta bem os altos e baixos da vida. Esta, para os babuínos machos, é cheia de luta por status, desfeitas e desafios. Descobriu-se que o deslocamento da agressão é uma caracterís ca de personalidade muito conveniente para um babuíno. Assim que um macho é vencido em um confronto, desconta em algum subalterno. Os machos que costumavam fazer isso nham vida rela vamente livre de estresse. Em vez de se retraírem emburrados depois de uma derrota, logo transferiam seus problemas para outros. Já ouvi mulheres dizerem que isso é coisa de homem, que mulheres tendem a internalizar a culpa, enquanto homens não têm escrúpulo de pôr a culpa nos outros. Homens preferem dar a receber úlceras. É deprimente saber que temos essa tendência —que cria tantas ví mas inocentes — em comum com ratos, macacos e outros grandes primatas. Evitar o estresse à custa da imparcialidade e da jus ça é uma tá ca profundamente arraigada.