Eu, primata
Qual Primata Habita em Nós?
Embora as circunstâncias tenham mudado e hoje manter a paz esteja muito mais di cil, um retorno à mentalidade que permi a relações mutuamente benéficas entre grupos talvez não seja tão complicado como pode parecer aos que ressaltam nosso lado guerreiro. Afinal, nossa história de harmonia com outros grupos é no mínimo tão longa quanto a de guerra. Em nós existem tanto o lado chimpanzé, que estorva as relações amistosas entre grupos, como o lado bonobo, que permite a mistura sexual e o grooming do outro lado da fronteira.
QUAL PRIMATA HABITA EM NÓS?
Quando perguntaram a Helena Bonham Carter em uma entrevista como ela se preparou para seu papel de Ari em Planeta dos macacos, ela respondeu que simplesmente entrou em contato com seu eu primata. Ela e os outros atores foram para uma chamada “academia símia” para adquirir posturas e movimentos de grandes primatas não humanos. Mas, apesar de a miúda Bonham Carter ter feito o papel de uma chimpanzé, na verdade acho que o que ela encontrou em seu ín mo foi uma sensual bonobo. O contraste entre esses dois grandes primatas faz lembrar a dis nção dos psicólogos entre personalidades “HE” e “HA”. A personalidade HE (hierarchy-enhancing, acentuadora da hierarquia) apóia a lei e a ordem e defende medidas drás cas para manter todos sob controle. A personalidade HA (hierarchy-a enua ng, atenuadora da hierarquia), por sua vez, procura nivelar as posições de todos. A questão não é qual tendência é a mais desejável, pois somente juntas elas criam a sociedade humana do modo como a conhecemos. Nossas sociedades equilibram os dois pos, com ins tuições que acentuam a hierarquia, como o sistema de jus ça criminal, ou a atenuam, como os movimentos pelos direitos civis e as organizações beneficentes. Cada pessoa inclina-se para um ou outro po, e podemos até classificar espécies inteiras desse modo: chimpanzés são mais acentuadores da hierarquia; bonobos, mais atenuadores. Quem sabe nosso modo de agir seja um híbrido desses dois primatas? Pouco sabemos sobre o comportamento de híbridos reais, mas eles são biologicamente possíveis e existem de fato. Nenhum zoológico que se preze promoveria intencionalmente o cruzamento de dois primatas ameaçados de ex nção, mas existe um relato sobre um pequeno circo i nerante francês que possui grandes primatas com vozes curiosas. Pensava-se que eram chimpanzés, só que para os ouvidos dos especialistas seus chamados são tão agudos quanto os dos bonobos. Acontece que o circo, sem saber, adquiriu tempos atrás um macho bonobo, ba zado de Congo. O treinador logo notou o insaciável ape te sexual desse macho, e o explorou recompensando os melhores desempenhos de Congo no picadeiro com encontros com fêmeas primatas do circo, todas chimpanzés. A prole resultante — que talvez pudéssemos chamar de “bonanzés” ou “chimpobos” — anda ereta com notável facilidade e causa admiração por sua brandura e sensibilidade.
Talvez tenhamos muito em comum com esses híbridos. Somos afortunados porque em nosso ín mo habita não um, mas dois grandes primatas. E os dois, juntos, nos permitem construir uma imagem de nós mesmos consideravelmente mais complexa do que a que a biologia nos tem apresentado nos úl mos 25 anos. A idéia de nós, humanos, como criaturas puramente egoístas e perversas, com uma moralidade ilusória, carece de revisão. Se em nossa essência somos grandes primatas, como eu suponho, ou se pelo menos descendemos da mesma linhagem dos outros grandes primatas, como todo biólogo supõe, nascemos com uma gama de tendências que vão das mais vis às mais nobres. Longe de ser produto da imaginação, nossa moralidade resulta do mesmo processo sele vo que moldou nosso lado compe vo e agressivo. O fato de uma
criatura assim poder ter sido produzida pela eliminação de genó pos malsucedidos mostra o poder da idéia darwinista. Se evitarmos confundir o processo com seus produtos — o erro de Beethoven —, veremos um animal com um ín mo conflitante como poucos no planeta. Ele é capaz de incrível destruição de seu meio e de sua própria espécie, mas ao mesmo tempo possui reservatórios de empa a e amor mais profundos do que jamais se viu. Como esse animal conquistou a dominância sobre todos os demais, é ainda mais importante que ele se olhe com hones dade no espelho para conhecer tanto seu arquiinimigo como seu aliado, pronto para ajudar a construir um mundo melhor.
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Frans de Waal
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