Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 24 de 48

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Eu, primata

O Grande Inseminador

Mesmo que a família nuclear nem sempre se encaixe no modo como os biólogos ocidentais a vêem — um homem ajudando sua companheira em troca da fidelidade dela —, a idéia básica ainda é a mesma: as mulheres buscam o máximo de proteção e assistência que puderem conseguir, e os homens são atraídos para esse esquema pelas relações sexuais. Algumas mulheres acham que seus irmãos ajudam mais que os parceiros, mas o padrão humano mais pico é, de longe, a troca de sexo por comida entre um homem e uma mulher com filhos dependentes.

 

O GRANDE INSEMINADOR

Em Totem e tabu, Sigmund Freud imaginou que nossa história começou com o que ele chamou de “horda primal de Darwin”. Um pai ciumento e violento monopolizava todas as mulheres e expulsava os filhos homens assim que cresciam. Isso desencadeou a revolta contra a autoridade paterna. Os filhos uniram-se para matar o pai e depois o devoraram. Consumiram-no também metaforicamente, internalizando a força e a iden dade do pai. Durante seu reinado eles o haviam detestado, mas depois de sua morte eles finalmente puderam reconhecer o amor que também sen am. Veio então o remorso, seguido pela adulação e por fim a emergência do conceito de Deus. “No fundo” concluiu Freud, “Deus nada mais é do que um pai glorificado.” As religiões tendem a apresentar a moral sexual como uma determinação divina. Com isso, remontam a essa imagem de um macho alfa ancestral que, segundo Freud, sempre exerceu forte domínio sobre nossa psique. É fascinante pensar que padrões imemoriais de compe ção sexual são perpetuados por religiões sem que nos demos conta disso. Mas esses padrões perseveraram também na vida real. Os antropólogos deram-nos fartas provas de que homens poderosos controlam mais mulheres e têm prole maior. Um exemplo assombroso provém de um levantamento gené co em países da Ásia central. Fez-se um estudo dos cromossomos Y, encontrados apenas em homens. Nada menos que 8% dos homens asiá cos possuem cromossomos Y pra camente idên cos, e isso leva a crer que todos descendem de um mesmo homem. Esse ancestral teve tantos filhos que a es ma va é de que hoje existem 16 milhões de descendentes seus do sexo masculino. Determinando que esse grande inseminador viveu há aproximadamente mil anos, os cien stas apontaram Gengis Khan como o candidato mais provável. Khan, seus filhos e netos controlaram o maior império da história mundial. Seus exércitos dizimaram populações inteiras. Mas as mulheres bonitas não ficaram para os soldados; foram levadas para o soberano mongol.

Permanece até hoje a tendência de homens poderosos se apoderarem de uma fa a desproporcional da torta reprodu va. Mas a rivalidade masculina em estado bruto foi subs tuída por um sistema no qual potencialmente cada homem tem sua família e toda a comunidade sanciona e respeita o vínculo com sua companheira. Esse sistema pode estar presente entre nós há um bom tempo. O que nos leva a essa hipótese são a diferença de tamanho entre homens e mulheres e, por estranho que pareça, a dimensão dos nossos tes culos. Existem duzentas espécies de primatas, e, naquelas em que um único macho monopoliza várias fêmeas, os machos sempre são muito maiores do que elas. A horda primal de Freud faz lembrar um harém de gorilas, cujo temível pai tem o dobro do tamanho de suas numerosas parceiras. Ironicamente, porém, quanto mais dominador é o macho de uma espécie, menores são seus tes culos. Os do gorila pesam pouquíssimo em comparação com o peso total do corpo. Isso tem sen do, pois nenhum outro macho chega perto das fêmeas de um macho dominante. Como ele é o único responsável pela fer lização, bastam pequenas quan dades de esperma. Em contraste, entre os promíscuos chimpanzés e bonobos, muitos machos competem pelas mesmas fêmeas. Se uma fêmea se acasala com vários machos no mesmo dia, os espermatozóides de todos os seus parceiros apostarão corrida em direção ao óvulo. É a compe ção dos espermatozóides. Vence o macho que enviar os espermatozóides mais numerosos e mais saudáveis. Nesse caso, os machos não precisam ser tão grandes e tão fortemente armados quanto os senhores de harém do reino animal, como morsas, gorilas, cervos e leões, entre outros. Entre os animais nos quais vigora a compe ção de espermatozóides, as fêmeas não são muito menores do que os machos. Chimpanzés fêmeas pesam cerca de 80% do que pesam seus machos, e, para bonobos e humanos, a diferença de peso entre os sexos é ligeiramente menor. Essas três espécies, mas principalmente as duas úl mas, mostram sinais de reduzida compe ção masculina. Mas há uma grande diferença: chimpanzés e bonobos são muito mais promíscuos do que nós. Nossos tes culos refletem esse fato: são meros amendoins comparados aos cocos dos nossos parentes primatas. Guardadas as proporções, os tes culos do chimpanzé são cerca de dez vezes maiores que os do homem. Os do bonobo não foram alvo de mensurações cuidadosas, mas parecem ser maiores que os do chimpanzé, enquanto o corpo do bonobo é menor. Portanto, também nesse quesito os bonobos parecem ser campeões. A ciência tem gastado muito mais nta com o tamanho do nosso cérebro do que com o dos nossos tes culos. No entanto, no esquema mais amplo do comportamento animal, comparações de genitais são altamente instru vas. Sugerem que combinamos dois elementos não encontrados juntos em nenhum dos nossos parentes próximos: uma sociedade de múl plos machos com baixa compe ção de espermatozóides. Não obstante a história de Gengis Khan — que retrata principalmente a compe ção por mulheres fora do próprio grupo —, nossos pequenos tes culos indicam que, o mais das vezes, nossos ancestrais do sexo masculino não compe ram todos pelas mesmas fêmeas de seu grupo. Algo deve ter evitado a promiscuidade desenfreada. Algo deve têlos desviado fundamentalmente da compe ção aberta por parceiras que vemos em chimpanzés e bonobos. Esse “algo” sem dúvida é a família nuclear, ou pelo menos a existência da manutenção do par heterossexual estável. Nossa anatomia conta uma história de romance e vinculação entre os sexos que remonta a tempos imemoriais, talvez mesmo ao princípio da nossa linhagem. Essa idéia é corroborada por fósseis de Australopithecus, cuja insignificante diferença de tamanho entre machos e fêmeas sugere uma sociedade monógama.

Apesar dessa herança, os efeitos da dominância e privilégio dos machos permanecem presentes em nossas sociedades. Vemos isso no fato de que certos homens arrogam-se o direito a mais parceiras sexuais do que outros, e também no tratamento dispensado às mulheres. Quando machos dominam, têm meios de extrair sexo: “estupro” nos humanos e “cópula forçada” em animais. Quero deixar bem claro, porém, que o fato de tal comportamento ocorrer não significa que é ditado pela biologia. Um livro recente no qual se afirmou que o estupro é natural provocou tremenda comoção sobretudo porque foi visto como uma tenta va de jus ficar tal comportamento. A idéia originalmente derivou de pesquisas com insetos, dos quais algumas espécies possuem caracterís cas anatômicas — uma espécie de tenaz — que ajuda os machos a forçar fêmeas a fazer sexo. Os homens obviamente não possuem caracterís cas desse po, e, embora a psicologia básica do estupro (como predisposições violentas ou falta de empa a) possa ter um lado gené co, pensar que o estupro em si está codificado em nossos genes eqüivale a supor que algumas pessoas nascem para incendiar casas ou escrever livros. A espécie humana é programada de forma demasiadamente imprecisa para que um comportamento tão específico seja genético. Tanto nos humanos como nos outros grandes primatas, a relação sexual involuntária é, na verdade, uma opção disponível a qualquer macho que deseje uma fêmea e seja capaz de controlá-la. Os machos bonobos não têm essa opção: como as fêmeas são dominantes, eles jamais recorrem a algo mesmo remotamente parecido. Já os chimpanzés machos não são avessos a forçar fêmeas ao sexo. Em ca veiro isso é raro, graças à eficiência das alianças entre fêmeas. Já vi machos blefarem e in midarem fêmeas relutantes em acasalar-se, mas quase sempre existe um ponto em que as outras se põem a ajudar a companheira e cole vamente interrompem as inves das indesejadas. Também nas sociedades humanas o estupro e o assédio sexual são menos comuns sempre que as mulheres estão cercadas por uma rede de apoio familiar. As chimpanzés fêmeas na natureza, por sua vez, são vulneráveis porque freqüentemente se deslocam sozinhas. Os machos podem afastar-se da tensa atmosfera com outros machos levando uma fêmea com intumescimento genital para um “safári”. Levamna para a periferia do território da comunidade por vários dias, às vezes por meses. Isso é perigoso porque, estando tão perto dos vizinhos, correm o risco de ataques mortais. A fêmea pode acompanhá-lo voluntariamente, mas com freqüência é uma relação forçada. Não é raro machos atacarem fêmeas para coagi-las a ficar perto deles. A mais reveladora ilustração desse fato foi a descoberta de equipamento de “surrar esposa” em uma comunidade de chimpanzés. Na floresta ugandense de Kibale, alguns machos adquiriram o hábito de espancar fêmeas com porretes de madeira. A primeira vez que se observou um desses ataques foi com uma fêmea com intumescimento genital, Outamba, que foi espancada pelo macho alfa Imoso. Os pesquisadores de campo viram Imoso bater umas cinco vezes em Outamba com um pedaço de pau. Exausto, ele descansou por um minuto e recomeçou a surra. Desta vez com dois porretes, um em cada mão, em dado momento ele se pendurou em um galho acima da ví ma e a chutou. Por fim, a filha pequena de Outamba, não suportando mais a cena, veio em socorro da mãe, esmurrando as costas de Imoso até ele desistir.

Sabia-se que os chimpanzés usavam galhos de árvore e gravetos para golpear predadores, como os leopardos, mas até recentemente ataques armados a membros da própria espécie eram considerados exclusividade dos humanos. E o hábito de espancar fêmeas parece ter se disseminado, porque depois disso vários outros machos de Kibale foram vistos fazendo o mesmo. A maioria dos ataques é contra fêmeas com intumescimento genital e sempre envolve armas de madeira, o que, supõem os estudiosos, é sinal de contenção. Os machos também poderiam usar pedras, mas isso talvez ferisse gravemente ou matasse as parceiras, o que não interessa a eles. Querem forçar a obediência e geralmente acabam por acasalar-se com as fêmeas que espancam. A disseminação por imitação desse hábito abominável mostra o grau em que os grandes primatas são influenciados socialmente. Muitos seguem o exemplo de outros. Portanto, devemos ter o cuidado de não rar conclusões precipitadas sobre a “naturalidade” desse comportamento. Os chimpanzés machos não são programados para espancar fêmeas. Ocorre que são capazes de fazê-lo em determinadas circunstâncias. Comportamento inato é coisa rara em nossos parentes mais próximos, e ainda mais rara em nós. Existem poucos exemplos de comportamentos humanos que sejam universais e se desenvolvam cedo na vida — os dois melhores critérios para definir o que é inato. Toda criança normal ri e chora, portanto rir e chorar parecem enquadrar-se na definição. Mas a grande maioria dos comportamentos humanos não se encaixa. É claro que a coerção sexual seria desnecessária se as fêmeas se dispusessem a acasalar-se com qualquer macho. Isso não ocorre: as chimpanzés fêmeas têm francas preferências em matéria de parceiros. Uma fêmea pode preferir acasalar-se com um macho de posição inferior na hierarquia apesar da presença do macho alfa, que tenta controlá-la. Por dias o alfa procura se manter perto dela, sem comer, com pouco tempo para beber, guardando ciumentamente seu objeto de desejo. Assim que, exausto, ele vai rar uma soneca no meio do dia, a fêmea se anima e tenta encontrar-se à socapa com o amante. Este, astuto, se mantém à vista aonde quer que ela vá. Já vi machos alfa desis rem depois de reconhecer que a missão é impossível.