Eu, primata
Jovens Casadouras
As tensões entre os machos podem provocar cenas engraçadas. Vi certa vez um jovem macho chamado Dandy fazer inves das amorosas para uma fêmea, o tempo todo olhando em volta com medo de que outros machos o observassem. No exato momento em que ele exibia seu ardor sexual abrindo as pernas para mostrar sua ereção para a fêmea, um dos machos dominantes apareceu por ali. Dandy imediatamente escondeu o pênis com as mãos, como um garoto encabulado. Há também a “barganha sexual”, como eu a chamo: chimpanzés machos, em vez de lutarem por uma fêmea, dedicam-se a prolongadas sessões de grooming. Um macho passa longo tempo fazendo grooming no alfa antes de se aproximar de uma fêmea com intumescimento genital, que aguarda pacientemente ali perto. Se a fêmea es ver disposta a acasalar-se, o parceiro ficará de olho no macho alfa enquanto a monta. Às vezes, o alfa se ergue com os pêlos eriçados e balança o corpo de um lado para outro — encrenca à vista. O macho interrompe o contato com a fêmea e volta ao grooming com o alfa. Mas depois de uns dez minutos fará nova tenta va, voltando a convidar a fêmea enquanto observa atentamente o alfa. Já vi machos se fartarem do pagamento em grooming. Mantendo-se perto da fêmea, viraram-se para o alfa com a mão espalmada para cima, num gesto de súplica pico de humanos e outros grandes primatas, pedindo para acasalar-se sem ser perturbados.
O próprio alfa também precisa fazer grooming nos outros, especialmente quando a atmosfera entre os machos está tensa. Não é comum outros machos se aliarem contra o macho dominante, mas nunca se pode excluir essa possibilidade. Quanto mais frustrados os outros ficam com a possessividade do alfa, maior a chance de que uma tenta va de acasalamento provoque demonstrações ritualizadas de agressividade tão perto da cena que até para o alfa se torna di cil concentrar-se no sexo. Portanto, todos pagam o preço em grooming. Por estranho que pareça, os chimpanzés machos fazem mais grooming uns nos outros quando as tensões sexuais são mais fortes.
JOVENS CASADOURAS
Certa vez fotografei uma fêmea bonobo adolescente com os dentes arreganhados, guinchando durante a cópula com um macho que nha uma laranja em cada mão. A fêmea se apresentara assim que vira as guloseimas. E, como esperava, saiu dali com uma das frutas. Logo ficou claro o quanto achamos familiar esse padrão quando vi a reação de uma platéia de profissionais da área a essa foto. Em seguida à minha palestra, fomos almoçar em um restaurante. Um zoólogo australiano grandalhão pulou numa mesa com duas laranjas nas mãos. A gargalhada foi geral — nossa espécie é muito antenada para o mercado sexual.
A autoconfiança de uma jovem fêmea flutua com o tamanho de seu intumescimento genital. Com ele, a fêmea não hesita em aproximar-se de um macho com comida. Acasala-se enquanto lhe ra das mãos todo o maço de folhas e ramos. Dificilmente dará ao macho a chance de salvar um ramo para si e, às vezes, agarra a comida em pleno ato sexual. Isso contrasta nitidamente com os períodos em que ela não tem intumescimento; nesse caso, espera pacientemente até que ele esteja disposto a compar lhar. Cenas semelhantes foram vistas na floresta. Quando cien stas japoneses atraíam bonobos para uma clareira com cana-deaçúcar, fêmeas adolescentes rodeavam os machos que estavam com a comida, apresentando seus genitais intumescidos. Alguns machos recuavam, tentando evitar essas inves das. Mas as jovens fêmeas sempre persis am até conseguirem uma cópula, que invariavelmente resultava em par lha. Os observadores comentaram que as jovens fêmeas pareciam saber que seriam “pagas” pelo sexo. Davam a impressão de estar forçando os machos a tais transações, pois não necessariamente os machos sentem atração por fêmeas tão jovens. As barganhas de sexo por comida também foram observadas em chimpanzés. Robert Yerkes, um dos pioneiros da primatologia, fez experimentos com o que chamou de relações “conjugais”. Depois de jogar um amendoim entre um macho e uma fêmea, ele observou que os privilégios da fêmea com intumescimento genital excediam os de outras sem esse instrumento de troca. As fêmeas de chimpanzé com intumescimento invariavelmente ficavam com o prêmio. Na natureza, muitos episódios de caça são seguidos de partilha da carne com fêmeas com intumescimento. De fato, quando há fêmeas nesse estado por perto, os machos podem caçar com mais avidez devido às oportunidades sexuais. Um macho de baixa posição hierárquica que captura um cólobo (espécie de macaco africano) automa camente se transforma em ímã para o sexo oposto, o que lhe dá a chance de acasalar-se em troca de carne se ele não for descoberto por outro de posição mais elevada na hierarquia. São muito diferentes as permutas entre os bonobos. Em vez do macho, é a fêmea bonobo que procura tais oportunidades, e não qualquer fêmea, apenas as jovens. Isso é compreensível, considerando o status elevado das fêmeas adultas, que torna obsoleta a barganha com sexo. O aspecto mais intrigante é o fato de os machos adultos só cederem com relutância a fêmeas adolescentes. Eles não gostam de jovens casadouras? E, em caso posi vo, como isso se encaixa no que os psicólogos evolucionistas dizem sobre as preferências humanas? A atração masculina por mulheres mais jovens é considerada universal. Uma pequena indústria de estudos emergiu em torno da teoria de que todo homem procura uma mulher jovem, de pele lisa e seios empinados no auge da fer lidade, e de que toda mulher quer saber mesmo é de dinheiro porque só se interessa por homens como provedores. Os dados em apoio a essa hipótese provêm de respostas a ques onários e reações a fotografias. Mas, obviamente, as únicas escolhas que de fato importam são as feitas na vida real e, mais precisamente, as que resultam em descendentes.
Os psicólogos evolucionistas afirmam que os homens têm um padrão sico preciso quando procuram uma parceira. O sapa nho que toda Cinderela precisa calçar é uma cintura com 70% da circunferência dos quadris. Essa proporção de 70% entre cintura e quadris supostamente está programada nos genes humanos masculinos. Mas isso supõe um gosto masculino imutável, enquanto o ponto forte da nossa espécie obviamente é sua adaptabilidade. A meu ver, a uniformidade da preferência sexual masculina é tão crível quanto a velha afirmação comunista de que um po de carro pintado de um po de cor satisfaria toda a nação.
A beleza está nos olhos de quem vê. O que hoje achamos belo pode não tê-lo sido sempre. Por isso Peter Paul Rubens nunca pintou alguém com uma silhueta de tábua como a das nossas supermodelos. Uma análise recente de coelhinhas da Playboy e de moças que foram Miss América (veja só a que ponto chegou a ciência!) derruba a hipótese de que a proporção ideal entre cintura e quadris é fixa. O estudo mostrou grande variação nessa proporção — de 50% a 80% — em ícones modernos da beleza. Se a proporção preferida mudou tão dras camente no úl mo século, podemos imaginar quanta flutuação pode ter ocorrido em períodos mais longos. Apesar disso, não deixa de ter sen do que em uma espécie como a nossa, na qual as parcerias são prolongadas, os homens tenham uma queda por parceiras jovens. Mulheres mais jovens são mais disponíveis e mais valiosas devido à vida reprodu va que têm pela frente. Esse viés talvez ajude a explicar a eterna luta das mulheres para parecer mais jovens: botox, silicone, plás ca facial, ntura no cabelo etc. Ao mesmo tempo, devemos perceber que esse viés é excepcional. Bonobos e chimpanzés machos tendem a preferir companheiras totalmente maduras. Se houver uma oferta de várias fêmeas com intumescimento genital ao mesmo tempo, os chimpanzés machos invariavelmente cortejarão as mais velhas. Não fazem o menor caso das adolescentes, mesmo das que já têm idade para acasalar-se e conceber. Também entre os bonobos as fêmeas jovens imploram por sexo, enquanto as mais velhas só precisam esperar que os machos venham até elas. Os machos dos grandes primatas não humanos pra cam a discriminação etária inversa. Talvez prefiram parceiras experientes, que já tenham alguns filhos saudáveis. Na sociedade deles, tal estratégia teria sentido. Existe, porém, uma limitação que animal nenhum pode contornar. Para colher os bene cios da reprodução, é necessário evitar a endogamia. Nos grandes primatas não humanos, a solução da natureza é a migração das fêmeas: as jovens deixam o grupo. Separam-se de todos os machos aparentados com elas: aqueles que elas podem saber que são parentes, como seus irmãos pelo lado materno, e aqueles que elas não têm como saber se o são, como o pai e os irmãos do lado paterno. Ninguém supõe que os grandes primatas não humanos, ou qualquer outro animal, tenham alguma idéia dos efeitos danosos da endogamia. As tendências migratórias são produto da seleção natural, e não de uma decisão consciente: durante a história evolu va, fêmeas que migraram produziram descendentes mais saudáveis do que as que não migraram. As bonobos não são expulsas por sua comunidade nem raptadas por machos vizinhos. Simplesmente se tornam andarilhas, permanecem cada vez mais na periferia do grupo, rompendo o vínculo com a mãe. Entram em um estado de apa a sexual, sem dúvida um estado estranhíssimo para um bonobo. Desse modo, evitam o sexo com os machos da comunidade. Partem por volta dos sete anos de idade, época em que surge seu primeiro intumescimento genital. Equipadas com esse passaporte, tornam-se “turistas”, visitando várias comunidades vizinhas antes de se fixar em uma delas. E então, subitamente, sua sexualidade floresce. Pra cam GG-rubbing com outras fêmeas e copulam com novos machos que encontram em florestas estranhas. Nessa fase seu intumescimento genital ocorre regularmente, é quase con nuo e aumenta de volume a cada novo ciclo, até a ngir o tamanho máximo aproximadamente aos dez anos. Elas podem emprenhar de seu primeiro bebê entre treze e catorze anos. Para os machos, a situação difere radicalmente. No árido jargão cien fico, o inves mento na prole é “assimétrico” entre os sexos. O macho emprega uma gota de sêmen, que ele possui em abundância. A fêmea, em contraste, investe um óvulo, que, se fer lizado, resulta em uma gestação de oito meses que requer muita comida adicional. Seguem-se cerca de cinco anos de lactação, que demandam ainda mais comida extra. Se todo esse esforço fosse desperdiçado em filhos doentes ou deformados resultantes de endogamia, o custo seria enorme. Os machos têm muito menos a perder. Como as irmãs de um macho e outras fêmeas com quem ele poderia ter parentesco foram todas embora ou estão de par da, o risco de endogamia é mínimo. Somente com a mãe dele isso poderia ocorrer, e, como seria de esperar, essa é a única combinação de parceiros sexuais ausente na sociedade bonobo. Quando o filho é muito novo, com menos de dois anos, uma mãe pode ocasionalmente pra car a fricção dos genitais nele, mas logo encerrará a prá ca. Não conseguindo nada com a mãe, os machos jovens buscam fazer sexo com outras fêmeas. Muitas das fêmeas com intumescimento genital sa sfazem os desejos dos pequenos domjuans, que as solicitam com as pernas abertas e o pênis balançando. Mas, quando esses jovens machos chegam à puberdade, os machos adultos começam a vê-los como rivais e os relegam à retaguarda dos grupos que saem para buscar alimento. Só muitos anos depois esses indivíduos estarão prontos para reivindicar uma posição elevada na hierarquia. A essa altura, suas irmãs mais velhas já terão partido, ficando assim assegurado que eles só fertilizarão fêmeas não aparentadas.