Eu, primata
De Joelhos
É di cil apontar uma descoberta isolada sobre o comportamento animal cujo nome desfrute de maior reconhecimento do que pecking order, ou “ordem das bicadas”. Mesmo que bicar não seja exatamente um comportamento humano, o termo é ubíquo na sociedade moderna. Falamos em ordem das bicadas no mundo empresarial ou no Va cano (com “primatas” no topo), reconhecendo assim tanto as desigualdades como suas origens an gas. Além disso, também estamos zombando de nós mesmos com a insinuação de que nós, seres humanos complexos e refinados, temos coisas em comum com aves domésticas.
A ordem das bicadas é algo que uma criança pode ver, e isso na acepção estrita do termo. A memorável descoberta da ordem das bicadas ocorreu no início do século xx, e foi obra de um menino norueguês, Thorleif Schjelderup-Ebbe, que se apaixonou por galinhas na tenra idade de seis anos. Sua mãe comprou-lhe um bando de galináceos e ele deu nome a cada uma das aves. Aos dez anos, Thorleif possuía cadernos com anotações minuciosas, e os manteve durante anos. Além de registrar quantos ovos elas botavam e quem bicava quem, ele se fascinava com as ocasionais exceções à hierarquia, “triângulos” em que a galinha A dominava B, B dominava C, mas C dominava A. Assim, desde o começo, como um verdadeiro cien sta, ele não se interessou apenas pelas regularidades, mas também pelas irregularidades da ordem hierárquica. Hoje em dia achamos tão óbvia a escala social que o pequeno Thorleif descobriu, e posteriormente descreveu em sua dissertação acadêmica, que não conseguimos sequer imaginar como alguém poderia deixar de notá-la.
Analogamente, quando se observa um grupo de pessoas nota-se logo quais indivíduos agem com maior segurança, atraem a maioria dos olhares e gestos de assen mento, relutam menos em entrar na discussão, falam baixo mas têm por certo que todos ouvirão (e rirão de suas piadas!), emitem opiniões unilaterais, e por aí vai. Mas existem indícios de status muito mais su s. Os cien stas costumavam considerar a banda de freqüência de 500 hertz ou menos na voz humana como barulho sem sen do, pois quando uma voz é filtrada, removendo-se todas as freqüências mais altas, ouve-se apenas um zumbido grave. Todas as palavras perdem-se. Descobriu-se, porém, que esse zumbido grave é um instrumento social inconsciente. Ele é diferente para cada pessoa, mas no decorrer de uma conversa as pessoas tendem a convergir. Ajustam-se a um zumbido único, e é sempre a pessoa de status mais baixo que se ajusta. Isso foi demonstrado pela primeira vez em uma análise do programa de televisão Larry King Live. O apresentador, Larry King, ajustava seu mbre ao dos convidados de status mais elevado, como Mike Wallace ou Elizabeth Taylor. Os convidados de status inferior, por sua vez, ajustavam seu mbre ao de Larry King. O mais claro ajuste à voz de King, indicando insegurança, foi do vice-presidente americano Dan Quayle. A mesma análise espectral foi aplicada a debates na televisão entre candidatos à presidência dos Estados Unidos. Em todas as oito eleições entre 1960 e 2000, o voto popular foi condizente com a análise da voz: a maioria das pessoas votou no candidato que manteve seu próprio mbre e não no que fez ajustes. Em alguns casos as diferenças foram extremas, como entre Ronald Reagan e Walter Mondale. E só em 2000 um candidato com padrão de voz ligeiramente subordinado, George W. Bush, foi eleito. Mas essa não foi realmente uma exceção à regra porque na verdade, como os democratas adoram ressaltar, o voto popular foi dado ao candidato com o padrão de voz dominante, Al Gore.
Sob o radar da consciência, portanto, comunicamos status toda vez que falamos com alguém, seja pessoalmente, seja ao telefone. Além disso, temos modos de explicitar a hierarquia humana, desde o tamanho do nosso escritório até o preço das roupas que usamos. Em uma aldeia africana, o chefe tem a choça maior e uma túnica dourada, e, nas cerimônias de formatura na universidade, os professores desfilam orgulhosos com suas insígnias acadêmicas diante dos estudantes e pais. No Japão, a inclinação do corpo durante a reverência sinaliza diferenças hierárquicas precisas não só entre homens e mulheres (estas inclinam-se mais), mas também entre membros mais velhos e mais novos da família. A hierarquia é ins tucionalizada ao máximo em bas ões masculinos como as Forças Armadas, com suas estrelas e listras, e a Igreja Católica Romana, em que o papa se veste de branco, os cardeais de vermelho, monsenhores de roxo e padres de preto.
Os chimpanzés são tão formais quanto os japoneses em suas cerimônias de saudação. O macho alfa faz uma formidável demonstração ritualizada de agressividade, desfilando com os pêlos eriçados e batendo em qualquer um que não sair do caminho a tempo. A demonstração tem o obje vo de atrair a atenção para ele e impressionar seu público. Um macho alfa no Parque Nacional das Montanhas Mahale, na Tanzânia, adquiriu o hábito de mover pedras enormes e lançá-las ribanceira abaixo, produzindo estrondos. É fácil imaginar o temor reverente dos outros diante daquele espetáculo que eram incapazes de imitar. Em seguida o ar sta sentava-se e ficava à espera de que os espectadores se aproximassem. E eles o faziam, a princípio com relutância, mas depois em massa, fazendo-lhereverência (conhecida como bobbing), prostrando-se, proclamando ruidosamente seu respeito com grunhidos arfantes. Os machos dominantes parecem prestar bastante atenção nessas saudações, pois às vezes, na rodada seguinte de demonstração de agressividade, escolhem para “tratamento especial” os que deixaram de reconhecer seus méritos, assegurando assim que da próxima vez não se esqueçam de saudá-los.
Visitei a Cidade Proibida em Pequim — quatro vezes maior que Versalhes, dez vezes o palácio de Buckingham —, com suas construções primorosamente ornamentadas em meio a jardins e grandes praças. Não foi di cil imaginar um imperador chinês sentado no trono elaborado des nado a sobrancear as massas prostradas, in midando-as com seu esplendor. A realeza européia ainda transita pelas ruas de Londres e Amsterdã em carruagens douradas, uma demonstração de poder que, embora hoje pra camente apenas simbólica, ainda salienta a ordem social. Os faraós egípcios impressionavam a assistência em uma gloriosa cerimônia que só podia ser realizada no dia mais longo do ano. O soberano postava-se em um local específico no Templo Solar de Amon-Ra e a luz do sol, canalizada por um corredor estreito atrás dele, cobria-o com tamanho resplendor que cegava a platéia, confirmando a divindade do faraó. Em escala mais modesta, prelados com túnicas coloridas estendem a mão aos subordinados para que beijem seu anel, e a rainha é saudada pelas mulheres com uma mesura especial. Mas o prêmio de ritual de status mais estapafúrdio vai para Saddam Hussein, o rano deposto [e depois executado] do Iraque, cujos subordinados nham de saudá-lo com um beijo na axila. Quem sabe a idéia fosse fazê-los sentir o cheiro do poder. Os humanos permanecem sensíveis a indicadores sicos de status. Homens de baixa estatura, como o candidato americano à presidência Michael Dukakis ou o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, pedem um pedestal para subir durante os debates e fotos oficiais em grupo. Há fotos de Berlusconi sorrindo cabeça com cabeça com um líder que normalmente ele só veria à altura do peito. Podemos gracejar acerca desse complexo de Napoleão, mas os baixinhos têm realmente de se empenhar mais pela autoridade. Os mesmos preconceitos sicos que primatas e crianças usam para classificar seus conhecidos continuam vigentes no mundo humano adulto. Poucos se dão conta da comunicação não verbal, mas um inovador curso de administração de empresas chama a atenção para ela usando cães como “espelhos” para os execu vos. Estes dão ordens aos cães, cujas reações indicam o grau em que foram convincentes. O perfeccionista que tenta planejar cada passo e se perturba quando algo sai errado rapidamente perde o interesse do cão. A pessoa que dá ordens enquanto sua linguagem corporal dá sinais de incerteza acabará com um cão confuso ou cé co. Não surpreende que a combinação ó ma seja de afabilidade com firmeza. Quem trabalha com animais está habituado à extraordinária sensibilidade que eles demonstram para a linguagem corporal. Meus chimpanzés às vezes percebem meu humor melhor do que eu mesmo: é di cil enganar um primata. Uma razão disso é a ausência da distração proveniente da palavra falada. Atribuímos tanta importância à comunicação verbal que perdemos a noção do que nosso corpo diz sobre nós. O neurologista Oliver Sacks contou que um grupo de pacientes na ala dos afásicos caiu na gargalhada durante um discurso do presidente Reagan na televisão. Os afásicos, pacientes incapazes de compreender palavras, acompanham boa parte do que está sendo dito por meio das expressões faciais e dos movimentos do corpo. São tão atentos a indicações não verbais que é impossível men r para eles. Sacks concluiu que o presidente, cujo discurso parecia perfeitamente normal aos presentes que não eram afásicos, combinava tão astutamente palavras enganosas e tom de voz que só quem
nha lesão cerebral era capaz de perceber a verdade. Não somos apenas sensíveis às
hierarquias e à linguagem corporal a elas associada; simplesmente não podemos viver sem elas. Mesmo que alguns preferissem vê-las desaparecer, a harmonia requer estabilidade, e esta depende, em úl ma análise, de uma ordem social reconhecida. Podemos ver facilmente o que acontece na ausência de estabilidade em uma colônia de chimpanzés. Os problemas começam quando um macho que costumava sair do caminho e fazer reverência para o chefe transforma-se em desafiante, causando barulho e confusão. Ele parece aumentar de tamanho, a cada dia faz demonstrações de agressividade mais próximo do líder, exige a atenção do outro a rando-lhe galhos de árvores e pedras pesadas. De início, o resultado desses confrontos é incerto. Dependendo de quanto apoio cada rival receber dos outros, emergirá um padrão que poderá selar o des no do líder caso seu apoio seja menor que o do desafiante. O momento crí co não é a primeira vitória do desafiante, mas a primeira vez que ele ob ver a submissão. O macho alfa pode perder numerosas lutas, fugir em pânico, refugiar-se aos gritos no alto de uma árvore, mas enquanto se recusar a mostrar a bandeira branca na forma de vários grunhidos arfantes graves acompanhados do ato de curvar-se a seu oponente, nada estará decidido. O desafiante, por sua vez, não se abrandará enquanto o ex-alfa não se submeter. Efe vamente, o contendor está dizendo ao soberano deposto que o único modo de voltarem a ser amigos será ele emi r os grunhidos arfantes que admitem a derrota. É pura chantagem: o desafiante está esperando que o alfa peça água. Em várias ocasiões vi um macho que deixou de grunhir com submissão ao aproximar-se de um novo alfa acabar sozinho no local. O alfa simplesmente se afasta; por que incomodar-se com alguém que não reconhece sua posição? Seria como se um soldado saudasse seu superior sem fazer con nência. O respeito apropriado é a chave das relações tranqüilas. Só quando as questões hierárquicas forem decididas os rivais se reconciliarão e a calma será restaurada.
Quanto mais clara a hierarquia, menor a necessidade de reforço. Para os chimpanzés, a hierarquia estável elimina tensões, e com isso os confrontos tornam-se raros: os subordinados evitam conflito, e os superiores não têm mo vos para buscá-lo. Todos saem ganhando. Podem andar juntos, fazer grooming uns nos outros e brincar descontraídos porque ninguém se sente inseguro. Quando vejo chimpanzés na folia, atropelando-se com “cara de brincadeira” (boca escancarada e vocalizações semelhantes a uma gargalhada), puxando as pernas e cutucando uns aos outros, sei que têm certeza absoluta sobre quem domina quem. Como tudo está decidido, eles podem relaxar. Mas, assim que um deles resolve desafiar a ordem vigente, brincar é o primeiro comportamento posto de lado. Subitamente, eles se vêem com um assunto mais sério para tratar.
Portanto, os rituais de status entre os chimpanzés não se relacionam apenas com o poder, mas também com a harmonia. O macho alfa ergue-se imperioso com os pêlos arrepiados após uma caprichada demonstração de agressividade, mal prestando atenção nos subordinados que se prostram com vocalizações respeitosas, beijam-lhe o rosto, o tronco ou os braços. Com grunhidos, corpo vergado, olhando de baixo para o alfa, o subordinado deixa claro quem está no topo, e isso abre caminho para relações pacíficas e amistosas. Além do mais, o esclarecimento da hierarquia é essencial para a colaboração eficaz. É por isso que as organizações 8º humanas mais coopera vas, como as grandes companhias e as Forças Armadas, possuem as hierarquias mais definidas. Uma cadeia de comando sobrepuja a democracia toda vez que uma ação decisiva se faz necessária. Espontaneamente passamos para um sistema mais hierárquico, dependendo das circunstâncias. Em um estudo, meninos de dez anos em um acampamento de férias foram divididos em dois grupos para compe ção. A depreciação do grupo rival — a tudes como tapar o nariz ao encontrar membros do outro grupo — logo se tornou prá ca comum. Por outro lado, a coesão intragrupo aumentou paralelamente ao fortalecimento de normas sociais e do comportamento de obediência ao líder. Esse experimento demonstrou a qualidade vinculadora das hierarquias de status, que foram reforçadas tão logo surgiu a necessidade de ação coordenada. Isso me leva ao maior paradoxo: embora as posições em uma hierarquia nasçam da compe ção, a estrutura hierárquica propriamente dita, uma vez estabelecida, elimina a necessidade de mais conflitos. Obviamente os que se encontram mais abaixo na escala prefeririam estar mais acima, mas contentam-se com a segunda melhor alterna va, que é ser deixados em paz. A troca freqüente de sinais de status assegura aos superiores que não precisam confirmar sua posição pela força. Mesmo quem acredita que os humanos são mais igualitários que os chimpanzés tem de admi r que nossas sociedades não poderiam funcionar de modo algum sem uma ordem reconhecida. Ansiamos pela transparência hierárquica. Imagine as confusões em que nos meteríamos se ninguém nos desse o menor indício de sua posição em relação a nós, seja com base em sua aparência, seja no modo como se apresenta. Os pais entrariam na escola do filho e não saberiam se estão falando com a faxineira ou com a diretora. Seríamos forçados a sondar os outros continuamente, torcendo para não ofender a pessoa tomando-a por outra. Seria como convidar clérigos para uma reunião na qual decisões de suma importância precisassem ser tomadas e eles viessem com trajes idên cos. Com uma gama de funções variando de padre a papa, ninguém seria capaz de dis nguir quem é quem. O resultado provavelmente seria uma indecorosa atrapalhação, com os “primatas” superiores sendo obrigados a espetaculares demonstrações de in midação — dependurar-se no lustre, talvez — para compensar a ausência da codificação por cores.