Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 42 de 48

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Eu, primata

Valor Comunitário

“Uma noção egocêntrica de eqüidade” é uma descrição imaginosa para a inveja. Esta é a dor que sen mos ao ver alguém em melhor situação do que nós. Está longe de representar o sen do mais amplo de eqüidade, aquele que nos faz atentar também para os que estão em posição pior do que a nossa. Se os macacos são desprovidos desse segundo sen do, que dizer dos grandes primatas não humanos? Quando pedi a uma colega primatóloga, Sue Savage-Rumbaugh, estudiosa da linguagem em bonobos, que me desse exemplos de empa a, ela descreveu o que me pareceu ser esse sen do mais amplo.

Sue tratava de uma fêmea, Panbanisha, enquanto o resto de sua colônia de bonobos ficava aos cuidados de outros pesquisadores. Panbanisha estava recebendo comida diferente, como passas e leite adicional. Quando Sue levava essas guloseimas para sua bonobo, os outros viam e a chamavam. Obviamente, queriam a mesma coisa. Panbanisha notava e parecia incomodada, mesmo a situação lhe sendo favorável. Pedia suco, mas quando o suco chegava, em vez de o aceitar ela ges culava para os outros, agitando o braço e vocalizando para eles. Os outros respondiam com suas próprias vocalizações e depois se sentavam ao lado da jaula de Panbanisha, esperando para ganhar suco também. Sue disse ter a ní da impressão de que Panbanisha queria que Sue trouxesse para os outros o mesmo que ela estava ganhando. Isso não basta para concluir que o senso de eqüidade existe em outros animais. O que me fascina, porém, é a relação com o ressen mento. Para que se desenvolva o senso de eqüidade mais amplo, basta prever o ressen mento de outros. Há excelentes razões para evitar que maus sen mentos sejam despertados. Os que não compar lham são excluídos dos agrupamentos na hora da comida. Na pior das hipóteses, o alvo de inveja corre o risco de levar uma surra. Seria por isso que Panbanisha evitava o consumo conspícuo diante dos amigos? Em caso posi vo, estaremos chegando perto do que pode ser a fonte do princípio da eqüidade: a evitação de conflito. Faz-me lembrar a história de três meninos em Amsterdã que jogaram no canal duas notas de cem florins holandeses — uma quan a além da compreensão de uma criança — porque haviam encontrado cinco. Como não sabiam dividir equita vamente cinco notas, decidiram jogar duas fora para não brigarem.

Princípios nobres têm origens humildes. Tudo começa com ressen mento se você ganhar menos, torna-se preocupação sobre como os outros reagirão se você ganhar mais e termina com a desigualdade sendo generalizadamente declarada como algo ruim. Assim nasce o senso de eqüidade. Gosto dessas progressões passo a passo, pois assim deve ter funcionado a evolução. Analogamente, vemos como a vingança pode ter conduzido à jus ça em passos intermediários. A mentalidade de olho por olho dos primatas tem efeitos “educacionais” porque vincula custos ao comportamento indesejável. Embora as emoções em estado bruto sejam abominadas pelo sistema judiciário humano, não há como negar seu papel. No livro Wild jus ce [Jus ça selvagem], Susan Jacoby explica como a jus ça humana foi construída com a transformação da vingança. Quando sobreviventes de guerra ou parentes de uma ví ma de assassinato buscam jus ça, são impelidos pela necessidade de reparação, embora possam apresentar sua causa em bases mais abstratas. Para Jacoby, uma medida do grau de refinamento de uma sociedade é a distância entre os indivíduos que sofreram agravos e a sa sfação de sua ânsia por reparação pessoal, exis ndo “persistente tensão entre a vingança descontrolada, que é destruidora, e a vingança controlada, que é um componente inevitável da justiça”.

As emoções pessoais são cruciais. Combinadas ao entendimento de como nosso comportamento afeta os outros, elas criam princípios morais. Essa é a abordagem de baixo para cima: da emoção ao senso de eqüidade. É o oposto da idéia de que a eqüidade foi uma noção introduzida por homens sábios (fundadores de nações, revolucionários, filósofos) após uma vida de reflexão sobre o certo, o errado e nosso lugar no universo. As abordagens de cima para baixo, que começam uma explicação pelo produto final, quase sempre são erradas. Perguntam por que somos os únicos a possuir eqüidade, jus ça, polí ca, moralidade etc, quando a verdadeira questão é quais são os

jolos da construção. Quais são os elementos básicos necessários para construir eqüidade, jus ça, polí ca, moralidade etc? Como o fenômeno maior derivou dos mais simples? Assim que refle mos sobre essa questão, torna-se óbvio que temos em comum com outras espécies muitos dos blocos construtores. Nada do que fazemos é realmente único. A grande questão da moralidade humana é como passamos das relações interpessoais para um sistema centrado no bem maior. Tenho certeza de que não foi porque temos em mente, acima de tudo, o bem da sociedade. Não é o grupo o primeiro interesse de todo indivíduo, e sim ele próprio e sua família imediata. Mas com a crescente integração social afloraram interesses em comum, e a comunidade como um todo tornou-se uma preocupação. Podemos ver os primórdios do processo quando primatas não humanos abrandam relações entre outros. Servem de intermediários em reconciliações (unindo as partes após uma luta) e apartam lutadores de maneira imparcial a fim de promover a paz à sua volta. Isso ocorre porque todos têm interesse em uma atmosfera coopera va. Fascina-me ver esse senso comunitário em ação, como na ocasião em que Jimoh foi impedido de perseguir um macho mais jovem pela gritaria de toda a colônia de chimpanzés. Foi como se ele trombasse com um muro de dissensão. Outro incidente na mesma colônia ainda está vivo em minha memória. O pivô foi Peony, uma fêmea mais velha. Após a morte da fêmea alfa do grupo, durante um ano não soubemos qual das fêmeas era a nova líder. Normalmente é uma das mais velhas, por isso apostávamos em três fêmeas cujas idades iam de trinta a 35 anos. Ao contrário dos machos, é raro as fêmeas demonstrarem abertamente uma rivalidade em torno do posto supremo.

Um dia, eu observava de minha sala uma pequena altercação entre fêmeas jovens que começou a envolver machos adultos e acabou parecendo gravíssima. Os chimpanzés estavam gritando tão alto, e os machos movendo-se tão rápido, que eu nha certeza de que iria correr sangue. Mas de repente a comoção cessou. Os machos sentaram-se, ofegantes, rodeados por várias fêmeas. A atmosfera estava muito tensa, e claramente nada fora acertado. Estavam só fazendo uma pausa. Foi nesse momento que vi quem era a fêmea alfa. Peony levantou-se do pneu onde estava descansando e todos os olhos voltaram-se para ela. Alguns indivíduos mais jovens andaram em sua direção, alguns adultos grunhiram baixinho, como fazem para alertar outros, enquanto Peony se encaminhou lenta e deliberadamente para o centro da cena, seguida por todos os que haviam permanecido de lado. Parecia uma procissão, como se a rainha viesse misturar-se aos plebeus. Peony simplesmente fez grooming em um dos dois machos, e logo outros seguiram-lhe o exemplo, fazendo grooming uns nos outros. O segundo macho juntou-se à turma do grooming. A calma voltou. Era como se ninguém ousasse recomeçar tudo depois de Peony tão gentilmente ter posto um ponto final na situação. Peony, que informalmente chamamos de “nossa máquina de grooming”, pois ela passa um tempo enorme fazendo grooming em todos, resolve os problemas sendo doce, calma e tranqüilizadora, o que talvez explique eu não ter notado que era ela a fêmea alfa. Presenciei depois outros incidentes que confirmam sua posição central incontestável, análoga à de Mama em Arnhem, mas sem a mão de ferro. Nesses momentos, vemos que um grupo de chimpanzés é uma verdadeira comunidade, e não um bando de indivíduos agrupados a esmo.

Obviamente, a força mais poderosa para gerar o espírito comunitário é a inimizade com forasteiros. Ela força a união entre elementos normalmente antagônicos. Isso pode não ser visível em um zoológico, mas sem dúvida é um fator para os chimpanzés na natureza. Em nossa espécie, nada é mais óbvio do que o fato de nos juntarmos contra adversários. Por isso se diz que a melhor garan a para a paz mundial seria um inimigo extraterrestre: poderíamos enfim pôr em prá ca a retórica orwelliana de “guerra é paz”. No decorrer da evolução humana, a hos lidade extragrupo intensificou a solidariedade intragrupo a ponto de fazer emergir a moralidade. Em vez de apenas melhorar as relações ao nosso redor, como fazem os outros grandes primatas, temos ensinamentos explícitos sobre o valor da comunidade e a precedência que ela deve ter sobre os interesses individuais. Assim, a profunda ironia é que a nossa mais nobre conquista, a moralidade, tem laços evolu vos com nosso mais torpe comportamento, a guerra. O senso de comunidade requerido por aquela foi fornecido por esta. Quando passamos do ponto em que defender nossos interesses individuais conflitantes deixou de ser mais vantajoso do que lutar por interesses comuns, distribuímos a pressão social de modo a garan r que todos contribuíssem para o bem comum. Desenvolvemos uma estrutura de incen vos com aprovação e punições — inclusive punições internalizadas, como a culpa e a vergonha — para es mular o que é certo e tolher o que é errado para a comunidade. A moralidade tornou-se nossa principal ferramenta para reforçar a estrutura social. O fato de o bem comum nunca se estender além do grupo explica por que as regras morais raramente mencionam o lado de fora: as pessoas sentem-se autorizadas a tratar os inimigos de modos inimagináveis para os de sua comunidade. Aplicar a moralidade além dessas fronteiras é o grande desafio da nossa época. Criando direitos humanos universais — mesmo para nossos inimigos, como faz a Convenção de Genebra — ou debatendo a é ca para o uso de animais, aplicamos fora do grupo, e mesmo até fora da nossa espécie, um sistema que evoluiu das razões intragrupo. A expansão do círculo moral é uma empreitada frágil. Nossa maior esperança de sucesso são as emoções morais, pois as emoções são desobedientes. Em princípio, a empa a pode vencer qualquer regra sobre como tratar os outros. Na Segunda Guerra Mundial, quando Oskar Schindler manteve judeus fora dos campos de concentração, por exemplo, havia ordens claras de sua sociedade sobre como tratar aquelas pessoas, mas os sen mentos de Schindler interferiram.

Emoções ligadas à solicitude podem levar a atos subversivos, como no caso de um guarda de prisão em época de guerra que nha ordens para dar apenas pão e água aos detentos, mas de vez em quando acrescentava fur vamente um ovo cozido. Por menor que tenha sido seu gesto, ficou marcado na memória dos prisioneiros como um sinal de que nem todos os seus inimigos eram monstros. Há também muitos atos de omissão, como nas ocasiões em que soldados poderiam ter matado inimigos capturados sem repercussões nega vas, mas decidiram não fazê-lo. Na guerra, conter-se pode ser uma forma de compaixão.

Emoções prevalecem sobre regras. É por isso que, quando nos referimos a pessoas que são modelos de moral, falamos sobre seu coração, e não sobre seu cérebro (ainda que um neurocien sta possa nos lembrar de que a idéia de que o coração é a sede das emoções está ultrapassada). Confiamos mais em nossos sen mentos do que no raciocínio quando resolvemos dilemas morais. A a tude cerebral do sr. Spock é de uma inadequação deplorável. Essa idéia foi admiravelmente expressa na parábola do Bom Samaritano, que trata da nossa a tude para com pessoas necessitadas. Um moribundo jazia à beira da estrada no caminho de Jerusalém para Jerico. Passaram direto pela ví ma um sacerdote e depois um levita — homens religiosos perfeitamente a par dos detalhes de todas as recomendações é cas já escritas. Eles não quiseram interromper sua jornada por uma ví ma que não conheciam, e trataram de passar depressa pelo outro lado da estrada. Só um terceiro viajante, um samaritano, parou, enfaixou as feridas do homem, colocou-o em seu burro e o levou para lugar seguro. O samaritano, um pária religioso, sentiu compaixão. A mensagem bíblica é um alerta: não nos deixemos guiar pela é ca dos livros em prejuízo da é ca do coração, e tratemos toda pessoa como nosso vizinho. Com a moralidade firmemente alicerçada no sen mento, é fácil concordar com Darwin e Westermarck sobre o modo como ela evoluiu e discordar dos que pensam que a resposta está na cultura e na religião. As religiões modernas têm apenas alguns milhares de anos. É di cil imaginar que a psicologia humana tenha sido radicalmente diferente antes do surgimento das religiões. Não que religião e cultura não tenham seu papel, mas os jolos construtores da moralidade claramente antecedem a humanidade. Nós os reconhecemos em nossos parentes primatas, sendo a empa a mais evidente nos bonobos e a reciprocidade, nos chimpanzés. Regras morais nos dizem quando e como aplicar essas tendências, mas as tendências em si têm estado presentes desde tempos imemoriais.