Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 28 de 48

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Eu, primata

Odeia Teu Inimigo

À noite, o antropólogo anotou em seu diário que testemunhara a invenção da bomba pelo homem neolítico.

 

ODEIA TEU INIMIGO

Para saber como os chimpanzés lidam com estranhos, é preciso ir para a floresta. Uma equipe japonesa liderada por Toshisada Nishida vem trabalhando há quatro décadas nas montanhas Mahale, na Tanzânia. Quando Nishida me convidou para uma visita antes de sua aposentadoria, não pensei duas vezes. Ele é um dos maiores especialistas do mundo em chimpanzés, e fiquei encantado em segui-lo pela floresta. Não entrarei nos detalhes da vida no alojamento de campo próximo ao lago Tanganica, que eu brincando chamava de Mahale Sheraton: só direi que não nhamos eletricidade, água corrente, banheiro nem telefone. Todo dia o obje vo era levantar cedo, tomar um café-da-manhã rápido e sair ao clarear. Era preciso encontrar os chimpanzés, e o acampamento contava com vários rastreadores para ajudar. Por sorte, esses primatas são incrivelmente barulhentos e, portanto, localizados com facilidade. Em um meio com baixa visibilidade, eles dependem de vocalizações. Quando seguimos um macho adulto, por exemplo, nós o vemos parar con nuamente e inclinar a cabeça para ouvir seus companheiros de grupo à distância. Ele decide como responder: emi r seus próprios chamados, deslocar-se silenciosamente em direção à fonte (às vezes com tanta pressa que nos faz tropeçar no emaranhado de cipós para segui-lo) ou con nuar alegremente seu caminho como se o que ouviu não vesse a menor importância. Sabe-se que os chimpanzés reconhecem as vozes uns dos outros. A floresta fervilha delas, algumas próximas, outras fracas e distantes, e grande parte da vida social desses primatas decorre em um mundo de vocalizações.

Os chimpanzés podem ser turbulentos e brigões. Ainda por cima, caçam. Fui ba zado quando estava embaixo de uma árvore na qual vários machos adultos e fêmeas com genitais intumescidos dividiam a carne de um cólobo ainda vivo. Soubemos da caçada por um súbito alarido: gritos ululantes e esganiçados de chimpanzés misturados a guinchos de macaco. Eu me esquecera de que, quando muito excitados, os chimpanzés têm diarréia. Para meu azar, fiquei na linha de fogo. No dia seguinte vi uma fêmea que levava uma lho nha nas costas. A filha balançava alegremente alguma coisa peluda: era um pedaço do pobre macaco. A cauda de um primata vira o brinquedo de outro. Embora os chimpanzés sobrevivam principalmente com frutas e folhas, são muito mais carnívoros do que outrora se pensava. Comem mais de 35 espécies de vertebrados. A ingestão diária de carne por um chimpanzé adulto em tempo de vacas gordas assemelha-se à do caçador-coletor humano em tempo de vacas magras. Na verdade, os chimpanzés são tão loucos por carne que nosso cozinheiro quase não conseguiu trazer um pato vivo da aldeia ao acampamento para variar nossa dieta de arroz com feijão. No caminho, ele enfrentou uma chimpanzé fêmea decidida a apropriar-se da preciosa ave que ele carregava debaixo do braço. O bravo cozinheiro rechaçou as ameaças, mas foi por pouco. Se houvesse encontrado um macho, nunca teríamos sentido o gosto daquele pato.

A situação é mais séria quando se trata de carne humana. Frodo, um chimpanzé que cresceu no auge das pesquisas no vizinho Parque Nacional de Gombe, perdeu totalmente o medo das pessoas. Ocasionalmente ataca pesquisadores, bate neles, arrastaos morro abaixo. Mas o pior incidente foi com uma mulher da região e sua sobrinha. Esta carregava um bebê de catorze meses. Ao atravessarem uma pequena vala, toparam com Frodo, que estava comendo folhas de dendezeiro. Quando ele se virou, era tarde demais para correr. Frodo simplesmente arrancou o bebê das costas da menina e desapareceu. Mais tarde foi encontrado comendo a criança, já morta. O roubo de bebês é uma extensão do comportamento predatório, e até então só fora observado fora do parque. Na vizinha Uganda tornou-se epidemia, e bebês humanos são pegos nas casas. Sem armas, as pessoas estão indefesas: chimpanzés adultos podem matar adultos da nossa espécie, e às vezes o fazem. Ataques fatais a humanos ocorreram também em zoológicos.

Os chimpanzés são menores do que nós. De quatro, chegam à altura dos nossos joelhos. Por isso as pessoas tendem a subes mar sua robustez. Vemos como são for ssimos quando sobem com grande facilidade por uma árvore sem galhos. Homem nenhum consegue imitar tal proeza. A força de tração do braço de um chimpanzé macho foi avaliada em cinco vezes a de homens jovens atlé cos. Como esses primatas lutam com quatro “mãos”, é impossível vencê-los, mesmo se forem impedidos de morder. Certa ocasião, conheci um sujeito que viajava com um chimpanzé acompanhando um parque de diversões. Todos os machões se pron ficavam a enfrentar o chimpanzé, achando que seria moleza. Mas nem brutamontes do tamanho de lutadores profissionais conseguiam controlar o parceiro do homem.

Por isso, é fácil imaginar com que respeito dei passagem aos chimpanzés que passaram por mim em disparada, de pêlos eriçados, sacudindo pequenas árvores. Não fizeram isso para me impressionar. Estavam brigando entre si. Nada de especialmente ruim aconteceu, se comparado aos pos de combate que já foram observados entre comunidades. Os machos costumam patrulhar suas fronteiras. Às vezes acompanhados por fêmeas, deslocam-se em grupo até a periferia de seu território, andando quietos em fila indiana, alertas para quaisquer sons vindos do outro lado. Podem subir em árvores e ficar atentos a movimentos e sons por mais de uma hora. Seu silêncio parece ser a vamente imposto. Se um filhote que veio com a mãe inadver damente choraminga, podem ameaçá-lo. Todos os patrulheiros têm os nervos à flor da pele. O estalo de um graveto ou o ruído súbito de um porco selvagem a correr provoca esgares nervosos, e eles procuram tranqüilizar-se com abraços e contato sico. Só relaxam quando voltam para trechos mais seguros de seu território, e então extravasam a tensão batendo no peito e gritando.

Dado o modo como as comunidades de chimpanzés tratam forasteiros, eu também ficaria nervoso. Os machos matam outros machos com ações coordenadas contra indivíduos isolados de outra comunidade, que são perseguidos, derrubados e rapidamente dominados. Os que são capturados sofrem tantas pancadas e mordidas violentas que morrem ali mesmo ou são deixados sem chance de sobreviver. Alguns desses ataques de surpresa já foram observados, porém em geral as evidências consistem em restos medonhos achados na floresta. Em alguns locais de pesquisa não foram encontrados corpos, mas os machos saudáveis de uma comunidade foram desaparecendo um a um até sumirem todos. Nas montanhas Mahale, Nishida observou patrulhas de fronteira e violentos ataques a estranhos. Acha que todos os machos de uma das comunidades estudadas por ele foram gradualmente eliminados por machos vizinhos em doze anos. Os vencedores apoderaram-se do território vago e das fêmeas residentes. Inques onavelmente, os chimpanzés são xenofóbicos. Em uma tenta va de reintroduzir na floresta alguns chimpanzés ca vos, os chimpanzés locais reagiram com tamanha violência que o projeto teve de ser abandonado. Como seus territórios são enormes, raramente incidentes violentos entre comunidades de chimpanzés são testemunhados. Mas os poucos episódios que o são não deixam dúvida de que estamos diante de matança específica e deliberada — em outras palavras, “assassinato”. Percebendo o tamanho da polêmica que tal afirmação causaria, Jane Goodall perguntou-se de onde viria aquela impressão de intencionalidade. Por que a matança não poderia ser mero efeito colateral da agressão? Sua resposta foi que os atacantes demonstraram um grau de coordenação e maus-tratos nunca visto durante agressões a indivíduos da própria comunidade. Os chimpanzés agiram quase do modo como faziam com suas presas, tratando o inimigo como se pertencesse a outra espécie. Um atacante prendia a ví ma no chão (sentando-se em sua cabeça, segurando-lhe as pernas) enquanto os demais mordiam e golpeavam. Torciam um membro, rasgavam a traquéia, arrancavam unhas, bebiam o sangue que jorrava dos ferimentos. Em geral só paravam ao cessarem os movimentos da ví ma. Há relatos de atacantes que voltaram ao local semanas depois, aparentemente para verificar o resultado de seus esforços. Esse comportamento assustador lamentavelmente não difere do visto em nossa espécie. Costumamos desumanizar nossos inimigos. À semelhança dos chimpanzés, nós os tratamos como inferiores aos da nossa espécie. Nas primeiras semanas da guerra no Iraque, fiquei pasmo com uma entrevista de um piloto americano. Entusiasmado, ele contou que quando menino acompanhara a Guerra do Golfo e se fascinara com a precisão dos bombardeios. Agora, mal podia acreditar que ele próprio estava usando bombas inteligentes ainda mais avançadas. Para ele, a guerra era só tecnologia, como um videogame que finalmente lhe permitiram jogar. Pelo visto, o que acontecia na outra ponta nem sequer lhe passava pela cabeça, e talvez seja isso mesmo que o alto escalão militar deseja. Porque, assim que se passa a ver o inimigo como humano, as engrenagens começam a emperrar.

O pensamento “nós contra eles” nos ocorre com notável facilidade. Em um experimento psicológico, pessoas receberam aleatoriamente dis n vos, blocos de papel e canetas de cores diferentes e foram designadas simplesmente como os “Azuis” e os “Verdes”. Pediu-se apenas que avaliassem as apresentações uns dos outros. Gostaram mais das apresentações feitas pelas pessoas de sua própria cor. Em uma fabricação mais elaborada de iden dade grupal, estudantes foram designados para fazer papel de guarda ou de prisioneiro em um jogo de prisão. Deveriam passar duas semanas juntos em um porão na Universidade de Stanford. Mas em seis dias o experimento teve de ser cancelado, pois os “guardas” haviam se tornado cada vez mais arrogantes, violentos e cruéis, e os “prisioneiros” começaram a se revoltar. Os estudantes nham esquecido que era só um experimento e que seus papéis haviam sido decididos jogando cara ou coroa? O Experimento da Prisão de Stanford ganhou fama quando veio à luz que oficiais americanos haviam torturado detentos na prisão de Abu Ghraib, em Bagdá. Guardas americanos empregaram vasta gama de técnicas de tortura, entre elas encapuzar e ligar fios elétricos nos genitais dos prisioneiros. Parte da mídia americana tentou minimizar a gravidade desses atos chamando-os de “brincadeiras”, mas dezenas de prisioneiros morreram no processo. Além das marcantes semelhanças com a brutalidade e as alusões sexuais do Experimento da Prisão de Stanford, os guardas e prisioneiros de Abu Ghraib eram de raças diferentes, religiões dis ntas e não falavam a mesma língua. Isso facilitou ainda mais a desumanização. Janis Karpinski, general responsável pela polícia militar local, afirmou ter recebido ordens de tratar os prisioneiros “como cães”. De fato, uma das horrendas imagens saídas dessa prisão mostrava uma oficial arrastando pelo chão um prisioneiro nu com uma coleira no pescoço. O intragrupo sempre encontra razões para considerar-se superior. O exemplo histórico mais extremo dessa tendência é, obviamente, a criação de um extragrupo por Adolf Hitler. Retratado como sub-humano, o extragrupo intensificava a solidariedade e a auto-apreciação do intragrupo. É um truque tão velho quanto a humanidade, mas na verdade essa psicologia pode preceder nossa espécie. Além da mera iden ficação com o grupo, que é disseminada nos animais, existem duas outras caracterís cas que temos em comum com os chimpanzés. A primeira, como vimos, é a aversão ao extragrupo a ponto de desumanizá-lo (ou “deschimpanzá-lo”). O abismo entre intragrupo e extragrupo é tão enorme que a agressão enquadra-se em categorias: uma, con da e ritualizada; a outra, generalizada, gratuita e letal.

O outro fenômeno extragrupo ainda mais perturbador que emergiu em Gombe envolveu chimpanzés que se conheciam. Ao longo dos anos, uma comunidade dividiu-se em duas facções, a norte e a sul, e por fim acabaram formando duas comunidades dis ntas. Esses chimpanzés haviam brincado juntos, feito grooming uns nos outros, se reconciliado depois de brigas, par lhado carne e vivido em harmonia. Mesmo assim, as facções começaram a lutar. Os pesquisadores viram, chocados, an gos amigos beberem o sangue uns dos outros. Nem os membros mais velhos da comunidade foram deixados em paz. Um macho de aparência extremamente frágil, Goliath, foi arrastado e esmurrado durante vinte minutos. Qualquer associação com o inimigo mo vava o ataque. Se chimpanzés em patrulha encontrassem ninhos de dormir recentes em uma árvore na região de fronteira, começavam a fazer demonstrações de agressividade, arrancavam os ramos e destruíam todos os ninhos do inimigo. Portanto, o “nós contra eles” entre os chimpanzés é uma dis nção socialmente construída, na qual até indivíduos bem conhecidos podem tornar-se inimigos se por acaso andarem com a turma errada ou viverem na área errada. Nos humanos, grupos étnicos que costumavam se dar rela vamente bem podem repen namente voltar-se uns contra os outros, como hutus e tutsis em Ruanda e sérvios, croatas e muçulmanos na Bósnia. Que po de comutador mental é acionado para mudar as a tudes das pessoas? E que po de comutador transforma chimpanzés colegas de grupo em inimigos mortais? Desconfio que os comutadores atuam de modo semelhante nos humanos e outros grandes primatas. E também que são controlados pela percepção dos interesses compar lhados versus interesses concorrentes. Enquanto os indivíduos vêem um propósito comum, suprimem sen mentos nega vos. Mas, assim que o propósito comum desaparece, as tensões afloram.