Eu, primata
Eternamente Jovem
Tudo isso tem a finalidade de dizer que a vida social dos grandes primatas não humanos é marcada pela tomada de decisões inteligente. Por isso, comparações entre humanos, chimpanzés e bonobos vão muito além de “ins ntos” ou “módulos” em comum, independentemente de como estes sejam definidos. As três espécies enfrentam dilemas sociais semelhantes e precisam superar contradições parecidas quando buscam status, parceiros sexuais e recursos. Aplicam todo o poder de seu cérebro para encontrar soluções. É verdade que nossa espécie vê mais longe e pesa mais opções do que os outros grandes primatas, mas essa não parece ser uma diferença fundamental. Ainda que estejamos manejando o melhor computador para jogar xadrez, é xadrez que todos estamos jogando.
ETERNAMENTE JOVEM
Muitos acreditam que nossa espécie ainda está evoluindo para patamares mais elevados enquanto os outros grandes primatas simplesmente estacionaram. Mas nossos colegas primatas realmente pararam de evoluir? E nossa espécie ainda está avançando? Ironicamente, pode ser o contrário. Talvez nossa evolução tenha cessado, enquanto para nossos parentes o processo evolutivo pode ainda estar atuando. A evolução funciona por meio da sobrevivência de variantes que se reproduzem mais do que outras variantes. Há dois séculos isso ainda se aplicava à nossa espécie. Em lugares insalubres, como as áreas urbanas de crescimento rápido, a taxa de mortalidade humana era maior que a de natalidade. Isso significava que alguns nham famílias maiores do que outros. E que alguns não nham família nenhuma. Hoje, em contraste, a
porcentagem de filhos que chegam aos 25 anos de idade é quase 98%. Em tais circunstâncias, todos têm a chance de ver-se representados no pool genético. A boa nutrição e a medicina moderna eliminaram as pressões da seleção que impeliam a evolução humana. Por exemplo, antes as mulheres e bebês corriam sérios riscos durante o parto. Isso decorria, em parte, do canal do parto estreito (rela vamente ao nosso crânio avantajado), e significava que exis a uma pressão evolu va con nua para manter o canal largo. As cesarianas mudaram tudo isso. Nos Estados Unidos, 26% dos partos são por cesariana, e em algumas clínicas par culares brasileiras o índice chega a 90%. Sobreviverão cada vez mais mulheres com canais estreitos, transmi ndo uma caracterís ca que há algumas gerações era uma sentença de morte. O resultado inevitável será o número crescente de cesarianas até que o parto natural se torne a exceção. A evolução con nua requer uma danse macabre em torno dos que morrem antes de reproduzir-se. Isso ainda pode ocorrer no mundo industrializado, por exemplo, na forma de uma devastadora epidemia de gripe. Os dotados de imunidade superior sobreviverão e transmi rão seus genes, como ocorreu na época da peste negra, no século XIV, que segundo es ma vas matou em cinco anos 25 milhões de pessoas só na Europa. Alguns cien stas supõem que um vírus altamente infeccioso do po Ebola transmi u-se de pessoa para pessoa. A imunidade a tais vírus é encontrada mais na Europa do que em outras partes do mundo, possivelmente graças a esse momento substancial de seleção natural.
Analogamente, podemos prever crescente resistência ao vírus da imunodeficiência humana (HIV) na África subsaariana, onde quase 10% da população está infectada. Sabe-se que uma pequena minoria da população resiste à infecção e que em outra minoria a AIDS não se desenvolve mesmo quando a infecção ocorre. Os biólogos designam esses casos como “mutações adapta vas”. Tais pessoas se reproduzirão até que seus descendentes cubram o con nente. Mas o processo só se completará após enorme perda de vidas. Os chimpanzés selvagens da África talvez já tenham passado por isso: são portadores do vírus da imunodeficiência dos símios(SRV), proximamente aparentado com o HRV, mas não sofrem efeitos danosos. Além da imunidade, que provavelmente con nuará a sofrer ajustes, não sabemos que mudanças gené cas ainda podemos esperar em nossa espécie. A humanidade pode ter a ngido seu pico biológico, por assim dizer, o qual não conseguirá ultrapassar a menos que implementemos programas de reprodução deliberada (espero que nunca o façamos). Apesar de livros cômicos como O prêmio Darwin, apresentando pessoas que se re raram do pool gené co perpetrando atos de incompreensível estupidez (como o sujeito que roubou no supermercado duas lagostas vivas com garras enormes e as guardou no bolso da calça, sofrendo assim uma vasectomia não premeditada), um punhado de acidentes desse po não vai melhorar a raça humana. Se não houver relação entre a inteligência e o número de filhos que as pessoas têm, o tamanho do cérebro humano permanecerá igual ao atual. Mas o que dizer da cultura? Quando a mudança cultural ainda era lenta, a biologia humana acompanhava. Algumas caracterís cas culturais e gené cas eram transmi das juntas, fenômeno conhecido como “herança dual”. Por exemplo, nossos ancestrais tornaram-se resistentes à lactose quando começaram a criar gado. Todo mamífero jovem é capaz de digerir leite, mas a enzima necessária deixa de atuar após o desmame. Nos humanos, isso ocorre depois dos quatro anos de idade. Quem não tolera a lactose sofre diarréia e vômitos quando bebe leite de vaca fresco. Essa é a condição original da nossa espécie, e ocorre na maioria dos adultos do mundo. Só descendentes de pastores, como os europeus setentrionais e os povos pastores da África dependentes de gado leiteiro, são capazes de absorver a vitamina D e o cálcio do leite, uma mudança gené ca que remonta a 10 mil anos, quando foram domesticadas as primeiras ovelhas e vacas. Hoje, porém, o desenvolvimento cultural é rápido demais para a biologia acompanhar. Mandar mensagens de texto pelo celular não fará nosso polegar aumentar. Criamos teclados para mandar mensagens de texto adequados ao polegar que nossa espécie já possui. Tornamo-nos especialistas em mudar o meio em nosso bene cio. Por isso, não acredito em con nuidade da evolução da raça humana — certamente não uma evolução que afete a forma do corpo e o comportamento. Removemos a única alavanca que a biologia possui para nos modificar: a reprodução diferencial. Não sabemos se a evolução dos outros grandes primatas prosseguirá apesar de esses animais ainda estarem sujeitos a pressões reais. O problema é que eles estão sofrendo pressão excessiva, e dificilmente terão chance: encontram-se no limiar da ex nção. Por anos agarrei-me à idéia de que, havendo os grandes trechos de floresta pluvial ainda restantes no mundo, sempre teríamos grandes primatas não humanos nos acompanhando. Mas agora estou pessimista. Devido à colossal destruição do habitat, grandes incêndios, caça ilegal, comércio de carne selvagem (povos africanos comem grandes primatas) e, mais recentemente, ao vírus Ebola, que dizima populações de grandes primatas, talvez só existam 200 mil chimpanzés selvagens, 100 mil gorilas, 20 mil bonobos e igual número de orangotangos. Parece muito, mas compare esses números com a quan dade dos seus inimigos, os humanos, que chegaram à casa dos 6 bilhões. É uma batalha desigual, com a previsão de que por volta de 2040 pra camente todo habitat adequado aos grandes primatas terá desaparecido.
Será um descrédito para nós, humanos, se não pudermos proteger ao menos os animais que nos são mais próximos, têm em comum conosco quase todos os genes e só diferem de nós em grau. Se deixarmos que desapareçam, podemos muito bem deixar que tudo desapareça e tornar a idéia de que somos a única forma de vida inteligente no planeta uma profecia auto-realizável. Embora toda a vida eu tenha estudado grandes primatas em ca veiro, já vi um número suficiente deles na natureza para concluir que a vida que levam lá — sua dignidade, seu pertencimento, seu papel — é insubs tuível. Perder isso seria perder um enorme pedaço de nós mesmos. As populações selvagens de grandes primatas não humanos são ines máveis para esclarecermos a evolução passada. Mal sabemos, por exemplo, por que o bonobo e o chimpanzé diferem tanto. O que aconteceu há 2 milhões de anos, quando seus ramos se separaram? O grande primata original parecia-se mais com o chimpanzé ou com o bonobo? Sabemos que os bonobos hoje vivem em um habitat mais rico que o dos chimpanzés, um habitat que permite a grupos mistos de machos e fêmeas procurar comida juntos. Isso propicia maior coesão social do que a dos chimpanzés, que se separam em pequenos grupos para buscar alimento. A “irmandade” entre fêmeas não aparentadas que caracteriza a sociedade bonobo não teria sido possível sem fontes de alimento abundantes e previsíveis. Os bonobos têm acesso a enormes árvores fru feras que permitem a muitos indivíduos alimentar-se juntos; além disso, consomem ervas abundantes no chão da floresta. Como essas mesmas ervas também fazem parte da dieta dos gorilas, já se cogitou que a total ausência de gorilas no habitat dos bonobos deixou a estes um nicho que permaneceu fechado aos chimpanzés, pois estes competem com gorilas em todo o território que ocupam.