Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 5 de 48

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Eu, primata

Filhinho de Mamãe

Não faz muito tempo, passei um dia ro neiro no Zoológico de San Diego com dois velhos amigos, Gale Foland e Mike Hammond, ambos veteranos tratadores de grandes primatas. O trabalho deles não é para qualquer um. É impossível lidar com as necessidades e reações desses animais sem recorrer ao mesmo reservatório emocional que usamos ao tratar com pessoas. Os tratadores que não levam esses primatas a sério nunca se darão bem com eles, e os que os levam a sério demais sucumbem à rede de intrigas, provocações e chantagem emocional que impera em todo grupo de grandes primatas.

Em uma área vedada ao público, nós nos debruçamos sobre uma balaustrada com vista para uma espaçosa jaula gramada. O ar nha o cheiro pungente caracterís co dos gorilas. No começo daquela manhã, Gale introduzira na jaula uma fêmea de cinco anos chamada Azizi, que ele próprio criara. Azizi viu-se em um grupo com um novo macho grandalhão, Paul Donn, recostado no muro. De quando em quando ele arreme a pela jaula batendo no peito, para deixar claro ao grupo de fêmeas que ele estava no controle, ou pelo menos costumava estar. As fêmeas, especialmente as mais velhas, discordavam: às vezes se juntavam e o perseguiam, para “mantê-lo na linha”, como explicou Gale. Mas por ora Paul Donn estava calmo, e viu Azizi aproximar-se dele vagarosamente. O macho agiu como se não a notasse; diploma camente, examinava os dedos dos pés e nunca olhava direto para a nervosa gorilazinha. Cada vez que Azizi chegava um pouco mais perto, consultava Gale, seu pai ado vo. Fitava-o nos olhos. Gale assen a com a cabeça e dizia frases como “Vá em frente, não tenha medo”. Para ele era fácil falar, mas Paul Donn era uma montanha de músculos e provavelmente pesava cinco vezes mais do que Azizi. Apesar disso, ela se sentia irresistivelmente atraída. Esses gorilas são conhecidos por sua inteligência. Gorilas normalmente não usam ferramentas. Na natureza, nunca usam. Mas três gorilas desse zoológico descobriram um novo modo de alcançar as folhas saborosas das figueiras. Fios eletrificados impedemnos de subir nas árvores, e para contornar o problema eles pegam um dos muitos ramos caídos no chão, ficam em pé sobre os membros posteriores e arremessam o galho de encontro a uma árvore. O projé l geralmente volta com algumas folhas. Uma fêmea foi vista quebrando uma vara comprida em duas e usando o pedaço mais adequado — uma escolha importante, pois indica que os gorilas são capazes de modificar suas ferramentas.

Um incidente ocorreu naquele dia envolvendo o mesmo fio eletrificado. É o po de cena que atrai minha atenção. Uma fêmea residente mais velha aprendera a introduzir o braço por baixo do fio sem levar choque para pegar ervas que crescem do outro lado da cerca. Ao lado dela sentava-se agora uma nova fêmea que, como Gale me contou, recentemente levara seu primeiro choque. Fora uma experiência penosa para ela, que se pusera a berrar e sacudir freneticamente a mão. A nova fêmea fizera amizade com a mais velha, e agora estava ali vendo-a fazer exatamente o que lhe causara tanta dor. Quando viu a amiga passar a mão por baixo do fio, pulou atrás dela e começou a puxá-la. Segurou-a pelo meio do tronco e tentou afastá-la da cerca eletrificada. Mas a amiga não arredou pé e con nuou a estender o braço. Após algum tempo, a fêmea mais nova desis u, sentou-se e ficou a observar atentamente, abraçando o próprio corpo com força. Parecia estar se preparando para o choque que a outra supostamente tomaria. “Imaginar-se no lugar do outro” era o que ela estava fazendo. Como os chimpanzés e os bonobos, os gorilas são conhecidos como grandes primatas. São quatro as espécies de grandes primatas não humanos; a quarta é o orangotango. Os grandes primatas não têm cauda. Essa caracterís ca e o porte avantajado dis nguem a família dos humanos e outros grandes primatas, conhecidos como hominóides, dos macacos. Portanto, nunca se deve confundir grandes primatas com macacos (não há melhor modo de insultar um especialista em grandes primatas do que dizer “adoro seus macacos!”). “Primata” é a designação mais abrangente, aplicada também a nós. Dos grandes primatas, nossos parentes mais próximos são o chimpanzé e o bonobo, nenhum deles mais próximo que o outro. Isso, porém, não impede que primatólogos debatam exaltadamente sobre qual dos dois é o melhor modelo para o ancestral humano. Derivamos todos de um único antepassado, e uma espécie pode ter conservado mais de suas caracterís cas do que a outra, tornando-se mais relevante para a evolução humana. Mas é impossível, atualmente, determinar qual das duas. Como seria de esperar, os especialistas em chimpanzés em geral votam nos chimpanzés, e os especialistas em bonobos, nos bonobos.

Árvore da origem dos humanos e dos quatro outros grandes primatas baseada em comparações de DNA. OS números indicam há quantos milhões de anos as espécies divergiram. Chimpanzés e bonobos formam um único gênero: Pan. A linhagem humana divergiu do ancestral Pan há cerca de 5,5 milhões de anos. Alguns cien stas julgam que humanos, chimpanzés e bonobos são suficientemente aparentados para formar um único gênero: Homo. Como bonobos e chimpanzés divergiram entre si depois de separados de nós, há aproximadamente 2,5 milhões de anos, ambos são igualmente próximos dos humanos. O gorila divergiu antes, portanto é mais distante de nós, e o mesmo se pode dizer do único grande primata asiá co, o orangotango.

Como os gorilas se ramificaram da nossa linhagem evolu va um pouco antes dos chimpanzés e bonobos, já se argumentou que aquele que mais se assemelha ao gorila merece ser considerado o po original. Mas quem garante que os gorilas se assemelham ao nosso úl mo ancestral comum? Eles também veram muito tempo para mudar: mais de 7 milhões de anos, de fato. O que estamos realmente procurando é o grande primata que mudou menos ao longo do tempo. Takayoshi Kano, o maior especialista em bonobos selvagens, afirmou que, como os bonobos nunca deixaram a floresta úmida, enquanto os chimpanzés o fizeram em parte e nossos ancestrais completamente, eles devem ter encontrado menos pressões para mudar e, portanto, talvez se assemelhem mais ao grande primata das florestas de quem todos nós descendemos. O anatomista americano Harold Coolidge lançou a célebre hipótese de que o bonobo “pode ser mais próximo do ancestral comum do chimpanzé e do homem do que qualquer chimpanzé vivo”. A adaptação à vida arborícola é evidente no modo como os bonobos usam o corpo, um modo incomum para os padrões humanos. Os pés dos bonobos são usados como mãos: para pegar coisas, ges cular durante a comunicação, bater palmas para pedir atenção. Os grandes primatas às vezes são chamados de quadrúpedes, mas para os bonobos a designação mais apropriada seria quadrúmano. São grandes ginastas, mais do que qualquer outro grande primata; saltam, pulam de galho em galho e se balançam nas árvores com agilidade inacreditável. Andam nas duas pernas sobre uma corda estendida no alto como se es vessem pisando no chão. Esses talentos acrobá cos são prá cos para primatas que nunca se viram forçados, nem sequer parcialmente, a deixar a floresta e, portanto, nunca foram obrigados a abrir mão de seus hábitos arborícolas. O fato de estarem mais à vontade nas árvores do que os chimpanzés revela-se quando, na natureza, vêem cien stas pela primeira vez: os chimpanzés descem imediatamente das árvores e fogem corendo pelo chão, enquanto os bonobos fogem pela copa das árvores e só descem quando estão bem longe.

Suponho que o debate em torno de qual primata mais se assemelha ao nosso ancestral comum prossiga por algum tempo.

Por ora, no entanto, digamos que chimpanzés e bonobos são igualmente importantes para a evolução humana. O gorila destaca-se tanto deles como de nós por seu enorme dimorfismo sexual – a diferença de tamanho entre machos e fêmeas — e pelo sistema social que acompanha essa caracterís ca: um único macho monopoliza um harém de fêmeas. Tendo em vista a simplicidade, mencionarei os gorilas apenas ocasionalmente enquanto examinamos as semelhanças e diferenças entre bonobos, chimpanzés e humanos.

Não ficamos esperando para ver o que aconteceria entre Azizi e Paul Donn. Sem dúvida fariam contato, mas poderia levar horas, ou mesmo dias. Os tratadores perceberam que isso mudaria para sempre a a tude de Azizi: ela nunca mais seria a mesma gorilazinha dependente que Gale nha alimentado com mamadeira e carregado nas costas até ela ficar pesada demais. O novo des no de Azizi era viver nesse grupo, em torno de uma fêmea grande de sua própria espécie, e talvez cuidar das crias. Passamos pela jaula dos bonobos, e Lore a me saudou com gritos agudos. Embora já

vessem se passado quase vinte anos desde o período em que eu trabalhara como

pesquisador nesse zoológico, ela ainda se lembrava de mim: o reconhecimento é permanente. Eu não poderia me imaginar esquecendo um rosto que via todos os dias; então, por que seria diferente com Lore a? E os gritos que ela emi a eram dis ntos. Os chamados dos bonobos são inconfundíveis: o modo mais fácil de diferenciar chimpanzés e bonobos é ouvi-los. O grave huu-huu do chimpanzé não se ouve no caso do bonobo. Este tem a voz tão aguda (soa mais como hiihii) que, quando o Zoológico Hellabrunn, em Munique, recebeu seus primeiros bonobos, o diretor quase os mandou de volta. Ele ainda não olhara sob a lona que cobria as jaulas reme das de Bolobo, e não acreditava que aqueles sons proviessem de grandes primatas. Lore a apresentou seus genitais intumescidos, olhando-me de cabeça para baixo por entre as pernas, acenando convida vamente com o braço. Acenei em resposta enquanto perguntava a Mike sobre um dos machos que não estava lá fora. Mike levou-me ao alojamento noturno. O macho estava sentado na parte coberta da jaula, com uma jovem fêmea para fazer-lhe companhia. Ela claramente se aborrecia toda vez que Mike falava comigo. O que aquele estranho estava fazendo ali, e por que Mike não dava a ela atenção exclusiva? A fêmea tentou me agarrar através das barras. O macho manteve certa distância, mas apresentou as costas e o ventre para Mike tocar, enquanto mostrava, como faria qualquer bonobo macho em tais circunstâncias, uma impressionante ereção. Tanto para os machos como para as fêmeas bonobos, não existe linha divisória entre sexualidade e afeição.

Esse macho precisava ser man do fora do grupo de bonobos devido a sua posição hierárquica inferior. Embora já fosse completamente crescido, não era capaz de se defender de um grupo inteiro de fêmeas. A hos lidade das fêmeas contra os machos vinha sendo um problema crescente nos zoológicos. No passado, a comunidade dos zoológicos cometera um erro fundamental realocando bonobos machos. Quando era preciso mandar primatas a outro zoológico para reprodução, sempre escolhiam machos. Embora isso funcione a contento para a maioria dos animais, é um desastre para os bonobos. Na natureza, quem migra são apenas as bonobos fêmeas, que na puberdade deixam seu grupo original. Os machos permanecem no grupo onde nasceram, desfrutando a companhia e a proteção de sua mãe. Machos com mãe influente ascendem na hierarquia e são tolerados perto da comida. Os zoológicos aprenderam do modo mais penoso que precisam seguir esse exemplo. Infelizmente, o macho em questão fora trazido de fora. Como são filhinhos de mamãe, os machos saem-se melhor no grupo em que nasceram.

Portanto, a agressão não está ausente entre os bonobos. Quando fêmeas atacam, é um deus-nos-acuda. De um estridente novelo de braços e pernas, invariavelmente é o macho que emerge ferido. Embora os bonobos costumem ser grandes conciliadores, têm essas habilidades por boas razões: eles não se furtam totalmente a lutar. São um eloqüente exemplo de harmonia social precisamente porque as tensões básicas permanecem visíveis. Esse paradoxo aplica-se também a nós. Do mesmo modo que o supremo teste para um navio é o modo como ele suporta uma tempestade, só confiamos de fato em uma relação se ela sobreviver a conflitos ocasionais. Depois de presenciar mais alguns contatos sexuais entre os bonobos, Mike não resis u a mencionar a recente afirmação de um cien sta do zoológico de que ali os bonobos raramente faziam sexo, talvez apenas algumas vezes por ano. Seria possível que os bonobos não merecessem sua reputação de criaturas eró cas? Estávamos agora do lado de fora, no meio do público. Comentamos gracejando que, como havíamos contado seis relações sexuais em apenas duas horas, isso significava que nhamos reunido o equivalente a dois anos de observações. Por um momento, eu me esquecera de que Mike e Gale estavam de uniforme, o que levara todo mundo em volta a prestar atenção em nossa conversa. Em voz um tanto alta demais, gabei-me do meu estudo anterior: “Na temporada que passei aqui, ve setecentas relações sexuais num único inverno”. Um homem que estava do nosso lado agarrou a filha pelo braço e saiu de perto, mais que depressa.