Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 47 de 48

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Eu, primata

Uma Pitada de Ideologia

Os bonobos têm outra caracterís ca interessante que os liga a nós: são primatas “eternamente jovens”. Esse argumento da neotenia, como é conhecido, tem sido aplicado à nossa espécie desde 1926, quando um anatomista holandês fez a estarrecedora afirmação de que o Homo sapiens parece um feto de primata que a ngiu a maturidade sexual. Stephen Jay Gould considerava a manutenção de caracterís cas juvenis a marca registrada da evolução humana. Ele não sabia sobre os bonobos, cujos adultos conservam o crânio pequeno e arredondado dos chimpanzés jovens e os tufos brancos de pêlo no traseiro que os chimpanzés perdem depois dos cinco anos. As vozes dos bonobos adultos são tão agudas quanto as dos chimpanzés infantes, eles permanecem brincalhões a vida toda e até a vulva voltada para a frente nas fêmeas, caracterís ca também presente em nossa espécie, é considerada neotênica. A neotenia humana reflete-se em nossa pele glabra e especialmente em nosso crânio abalonado e rosto achatado. Os humanos adultos parecem grandes primatas não humanos muito jovens. A jóia da criação teria sofrido uma suspensão em seu desenvolvimento? Não há dúvida de que nosso êxito como espécie relacionase ao fato de que conservamos na idade adulta a inven vidade e curiosidade dos mamíferos jovens. Já fomos chamados de Homo ludens: o primata brincalhão. Jogamos até morrer, dançamos e cantamos, aumentamos nosso conhecimento lendo obras de nãoficção ou fazendo cursos na terceira idade.

Temos imensa necessidade de nos manter jovens em espírito. Uma vez que a humanidade não pode depositar suas esperanças na continuidade da evolução biológica, precisamos nos desenvolver tendo por base a herança primata existente. E essa herança, por ser apenas vagamente programada e ter bebido na fonte da juventude da evolução, é rica, variada e muito flexível.

 

UMA PITADA DE IDEOLOGIA

Graças à sua coordenação quase perfeita e ao sacri cio pelo todo, as colônias de formigas já foram comparadas a sociedades socialistas. Tanto estas como aquelas são paraísos da classe operária. Mas, perto da ordem de um formigueiro, até a mais bem treinada força de trabalho humana parece ineficiente e anárquica. As pessoas vão para casa depois do trabalho, bebem, falam da vida alheia, entregam-se à preguiça — nada do que uma formiga de respeito faria. Apesar dos imensos esforços doutrinários dos regimes comunistas, as pessoas se recusam a submergir em nome do bem comum. Somos sensíveis a interesses cole vos, mas não a ponto de abrir mão dos nossos interesses individuais. O comunismo ruiu devido a uma estrutura de incen vos econômicos em dessintonia com a natureza humana. Infelizmente isso só ocorreu depois de ter causado mortes e sofrimentos imensos. A Alemanha nazista foi um desastre ideológico bem diferente. Também nesse caso o cole vo (das Volk) foi posto acima do individual, mas, em vez de se basearem em engenharia social, os métodos de escolha foram o bode expiatório e a manipulação gené ca. As pessoas foram divididas em pos “superior” e “inferior”, e as do primeiro

po nham de ser protegidas da contaminação pelas do segundo. Na medonha

linguagem médica nazista, o Volk sadio requeria a remoção de elementos cancerígenos. Essa idéia foi levada a tal extremo que deu à biologia péssima reputação em sociedades do Ocidente.

Mas que não se pense que a ideologia selecionista fundamentadora do movimento se restringiu a essa época e lugar específicos. No começo do século xx, o movimento eugenista — que pretendia melhorar a humanidade com a “reprodução das linhagens mais aptas” — conquistou grande aceitação nos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Baseada em idéias que remontam à República de Platão, a castração de criminosos era considerada aceitável. E o darwinismo social, a idéia de que uma economia de laissez-faire levaria os fortes a vencer os fracos na compe ção, daí resultando a melhora geral da população, ainda inspira programas polí cos em nossos dias. Segundo essa idéia, não se deve ajudar os pobres para não subverter a ordem natural. Ideologia polí ca e biologia não casam bem, e a maioria dos biólogos prefere dormir em quarto separado. A razão do insucesso dessa união é o incrível atra vo das palavras “natureza” e “natural”.

Elas soam tão tranqüilizadoras que toda ideologia quer adotá-las. Com isso, os biólogos que escrevem sobre comportamento e sociedade arriscam-se a ver suas idéias serem sele vamente sugadas e deturpadas no turbilhão polí co. Isso ocorreu, por exemplo, após a publicação de nosso estudo sobre eqüidade entre os símios. Demonstramos que um macaco recusa pepino quando seu vizinho ganha uvas, e os jornais usaram nossas conclusões para clamar por uma sociedade mais igualitária. “Se até os macacos odeiam o tratamento injusto, por que deveríamos aceitá-lo?”, perguntavam os editoriais. Isso provocou estranhas reações, como um e-mail que nos acusou de comunistas. O autor achava que estávamos tentando solapar o capitalismo, que, depreende-se, não se importa com a eqüidade. Mas o crí co não notou que as reações de nossos macacos eram análogas ao funcionamento do livre mercado. Existe algo mais capitalista do que comparar o que você ganha com o que outro ganha e reclamar que o preço não está correto? Em 1879, o economista americano Francis Walker tentou explicar por que os de sua profissão eram “tão malvistos pelas pessoas reais”. Atribuía o fato à incapacidade de seus colegas para compreender por que o comportamento humano não obedecia à teoria econômica. Nem sempre agimos como os economistas acham que deveríamos agir, sobretudo porque somos menos egoístas e menos racionais do que eles nos julgam. Os economistas estão sendo doutrinados em uma versão ilusória da natureza humana, e a tal ponto acreditam nela que começam a comportarse segundo seus pressupostos. Testes psicológicos mostraram que estudantes de economia são mais egoístas que a média dos universitários. Aparentemente, a exposição a aulas e mais aulas sobre o modelo capitalista do auto-interesse aniquila quaisquer tendências pró-sociais que esses estudantes pudessem ter do ao ingressar na faculdade. Eles desistem de confiar nos outros, que por sua vez desistem de confiar neles. Eis porque são malvistos. Os mamíferos sociais, em contraste, conhecem a confiança, a lealdade e a solidariedade. Como os chimpanzés no Parque Nacional de Tai, eles não deixam os desvalidos para trás. Além disso, têm modos de lidar com potenciais aproveitadores; por exemplo, deixam de cooperar com quem não coopera. A reciprocidade permite-lhes construir o po de sistema de apoio que muitos economistas vêem como uma quimera. Na vida em grupo dos nossos parentes próximos, é fácil reconhecer tanto o espírito compe vo do

capitalismo como um avançado espírito comunitário. O sistema polí co que parece melhor adequar-se a nós teria, portanto, de equilibrar os dois. Como não somos formigas, o socialismo puro não nos é apropriado. A história recente mostrou o que acontece quando se sufoca a ambição individual. Mas, ainda que a queda do Muro de Berlim tenha sido aclamada como um triunfo do livre mercado, não há garan a de que o capitalismo puro terá mais êxito do que o socialismo. Não que essa forma de governo exista em algum lugar. Até os Estados Unidos têm uma profusão de freios, compensações, sindicatos e subsídios que restringem seu mercado. Mas, em comparação com o resto do mundo, os Estados Unidos vivenciam uma compe ção desenfreada, um experimento que fez dessa a nação mais rica da história da civilização. No entanto, vem acontecendo uma coisa estranha: a saúde da nação está ficando cada vez mais atrás de sua riqueza.

Os Estados Unidos nham a população mais sadia e mais alta do mundo, mas hoje ocupam o úl mo lugar entre os países industrializados em longevidade e altura, e o primeiro em gravidez na adolescência e mortalidade infan l. Enquanto a altura média na maioria dos países vem aumentando mais de dois cen metros por década, isso não ocorre nos Estados Unidos desde a década de 1970. Por isso, agora os europeus setentrionais estão em média sete cen metros mais altos que os americanos. Isso não se deve às recentes imigrações para os Estados Unidos, já que os imigrantes cons tuem uma fração muito pequena para influir nessas esta s cas. Também na expecta va de vida os Estados Unidos não vêm acompanhando o resto do mundo. Nesse crucial índice de saúde, os americanos nem sequer se encontram entre os 25 primeiros. Como explicar isso? O primeiro culpado a surgir na mente é a priva zação da medicina, que deixa milhões de pessoas sem garan a de assistência médica. Mas o problema pode ser mais profundo. O economista britânico Richard Wilkinson, que coligiu dados globais sobre a ligação entre status socioeconômico e saúde, atribui o fato à desigualdade. A disparidade de renda nos Estados Unidos, país que tem uma gigantesca classe de despossuídos, assemelha-se à de muitas nações terceiro-mundistas. Na pirâmide socioeconômica, os americanos do topo, 1% da população, têm mais renda para gastar do que os 40% da base juntos. É uma disparidade colossal, se comparada à encontrada na Europa e no Japão. Wilkinson argumenta que grandes diferenças de renda erodem a estrutura social. Induzem ao ressen mento e solapam a confiança, estressando ricos e pobres. Ninguém se sente à vontade com tal sistema. O resultado é que a nação mais rica do mundo hoje registra seus piores níveis de saúde. Independentemente da opinião que tenhamos a respeito de um sistema polí co, se ele não promove o bem-estar sico de seus cidadãos, algum problema ele tem. Assim, do mesmo modo que o comunismo caiu por terra devido ao descompasso entre ideologia e comportamento humano, o capitalismo implacável pode ser insustentável, pois celebra o bem-estar material de poucos em detrimento do resto. Nega a solidariedade básica que torna a vida suportável. Com isso, contraria a longa história evolu va de igualitarismo, que por sua vez se relaciona com a nossa natureza coopera va. Experimentos com primatas demonstram que a cooperação acaba se os bene cios não forem par lhados por todos os par cipantes. Provavelmente o comportamento humano obedece ao mesmo princípio.

Assim, o livro da natureza oferece páginas que agradarão igualmente a liberais e a conservadores, aos que acreditam estarmos todos no mesmo barco e aos que têm fé na promoção do autointeresse. Quando Margaret Thatcher menosprezou a sociedade como mera ilusão, é claro que não estava retratando os primatas acentuadamente sociais que somos. E quando Petr Kropotkin, príncipe russo do século XIX, julgou que a luta pela vida só poderia conduzir cada vez mais à cooperação, estava fechando os olhos à livre compe ção e seus efeitos es mulantes. O desafio é encontrar o equilíbrio certo entre as duas.

Nossas sociedades provavelmente trabalham melhor quando imitam o mais possível as comunidades em pequena escala dos nossos ancestrais. Certamente não evoluímos para viver em cidades com milhões de pessoas onde topamos com estranhos por toda parte, somos ameaçados por eles em ruas escuras, sentamo-nos ao lado deles em ônibus e lhes dizemos desaforos no trânsito. Como os bonobos em suas comunidades coesas, nossos ancestrais viviam pra camente cercados por pessoas que conheciam e com quem conviviam todo dia. É de admirar que nossas sociedades sejam tão organizadas, produ vas e rela vamente seguras como são. Mas os responsáveis pelo planejamento urbano podem e devem fazer um trabalho melhor, procurando uma aproximação com a vida comunitária de outrora, na qual todos conheciam o nome e o endereço de cada criança.

A expressão “capital social” refere-se à segurança pública e ao senso de segurança derivado de um meio previsível e de uma densa rede social. Os bairros mais an gos de cidades como Chicago, Nova York, Londres ou Paris produzem esse capital social, é verdade, mas só porque foram projetados para que ali as pessoas residam, trabalhem, façam suas compras e estudem. Desse modo, elas passam a conhecer umas às outras e começam a ter valores em comum. Uma jovem que volte para casa à noite estará cercada por tantos moradores interessados na segurança de suas ruas que ela poderá sen r-se protegida. A moça conta com a tácita vigilância do bairro. A tendência moderna de separar fisicamente os lugares onde as necessidades humanas são sa sfeitas desrespeita essa tradição e nos obriga a morar em um lugar, comprar em outro e trabalhar ainda em outro. É um desastre para a formação da comunidade, sem falar no tempo, estresse e combustível necessários para o deslocamento de toda essa gente. Nas palavras de Edward Wilson, a biologia nos mantém “na correia”, e só nos permi rá afastar-nos até certo ponto daquilo que somos. Podemos projetar nossa vida como bem entendermos, mas se prosperaremos ou não dependerá do quanto essa vida é adequada às predisposições humanas.

Encontrei um exemplo marcante em uma visita a um kibutz israelense na década de 1990, quando tomava chá com um jovem casal. Ambos haviam sido criados em kibutzim próximos na época em que as crianças eram separadas dos pais para crescerem junto com outras na coopera va. O casal explicou que a prá ca fora abandonada e que agora se permi a aos pais ficar com os filhos em casa depois da escola e durante a noite. A mudança fora um alívio, disseram, pois terem os filhos perto de si “parece ser o certo”. Óbvio demais! O kibutz sen ra o limite da correia. Hesito em prever o que nós, humanos, podemos e não podemos fazer, mas o vínculo entre mãe e filho parece ser sacrossanto porque está no cerne da biologia dos mamíferos. Deparamos com o mesmo

po de limite nas decisões sobre que po de sociedade construir e como garan r os direitos humanos em escala global. Estamos atrelados a uma psicologia humana moldada por milhões de anos de vida em pequenas comunidades, e por isso temos a necessidade de estruturar o mundo à nossa volta de algum modo reconhecível por essa psicologia. Se conseguíssemos ver as pessoas de outros con nentes como parte de nós, trazê-las para nosso círculo de reciprocidade e empa a, estaríamos agindo com base em nossa natureza, e não contra ela.

Em 2004 o ministro da Jus ça de Israel causou comoção polí ca por simpa zar com o inimigo. Yosef Lapid ques onou planos do Exército israelense para demolir milhares de habitações pales nas em uma zona ao longo da fronteira com o Egito. Comoverase com imagens do no ciário. “Quando vi na televisão a imagem de uma velhinha ajoelhada no chão nas ruínas de sua casa, procurando seus remédios debaixo dos azulejos, pensei: ‘O que eu diria se fosse minha avó?’.” A avó de Lapid fora ví ma do Holocausto. Os linhas-duras do país não gostaram de ouvir menção a tais sen mentos, é claro, e tudo fizeram para distanciar-se deles. O incidente mostra como uma emoção simples pode ampliar a definição que um indivíduo tem de grupo. Lapid subitamente se deu conta de que os pales nos também faziam parte do seu círculo de relações. A empa a é a única arma no repertório humano capaz de nos livrar da maldição da xenofobia. Mas a empa a é frágil. Em nossos parentes próximos, é a vada por eventos em sua comunidade, como jovens primatas em apuros, porém também se desa va com facilidade quando se trata de membros de outras espécies, como as presas. O modo como um chimpanzé bate o crânio de um macaco vivo num tronco de árvore para comer seu cérebro não é boa propaganda para a empa a. Os bonobos são menos brutais, mas também com eles a empa a precisa atravessar vários filtros antes de se expressar. Muitas vezes é barrada pelo filtro, pois nenhum grande primata pode dar-se ao luxo de ter pena de todos os seres vivos o tempo todo. Isso vale também para os humanos. Nosso design evolu vo dificulta-nos a iden ficação com estranhos. A evolução nos moldou para odiar os inimigos, desconsiderar as necessidades de pessoas que mal conhecemos e desconfiar de todos os que não se parecem conosco. Embora em nossas comunidades sejamos amplamente coopera vos, ao tratar com estranhos nos tornamos quase um animal diferente. Winston Churchill, muito depois de ter conquistado a reputação de bravo polí co guerreiro, resumiu tal a tude com estas palavras: “Guerra é a história da raça humana. Com exceção de breves e precários interlúdios, nunca houve paz no mundo; e antes de a história ter início a discórdia homicida era universal e interminável”. Como vimos, isso é um tremendo exagero. Ninguém nega nosso potencial guerreiro, mas Churchill inques onavelmente se equivocou quanto aos interlúdios. Grupos contemporâneos de caçadores-coletores coexistem em paz na maior parte do tempo. É provável que isso tenha ocorrido ainda mais com nossos ancestrais, que viviam em um planeta com muito espaço e rela vamente pouca necessidade de compe ção. Eles devem ter desfrutado longos períodos de harmonia entre grupos, interrompidos por breves interlúdios de confronto.