Eu, primata
Eterna Gratidão
véssemos alguma razão. Em relacionamentos próximos, os favores são trocados quase sem pensar. Em geral, tais relacionamentos são marcados por alto grau de reciprocidade, mas também têm lugar para desequilíbrios temporários, ou alguns permanentes, como quando um dos cônjuges adoece. Só no caso de relacionamentos mais distantes se faz a contabilidade. Como os chimpanzés, retribuímos a um conhecido ou colega que demonstrou bondade inesperada, mas não necessariamente ao nosso melhor amigo. A ajuda deste também é apreciada, porém faz parte de um relacionamento mais profundo e flexível.
Como escriturários anotando o movimento portuário, prestamos atenção a todas as entradas e saídas de bens e serviços. Retribuímos com ajuda a ajuda recebida, e com prejuízo o prejuízo recebido, mantendo o equilíbrio do ajudar/não prejudicar com todos os que nos cercam. Não gostamos de desequilíbrios desnecessários. Essa mesma aversão explica por que as duas chimpanzés adolescentes foram punidas: haviam provocado desequilíbrio com muitos de uma vez. Precisavam receber uma lição: a maior lição da vida, na opinião de Confúcio.
ETERNA GRATIDÃO
Um dos ditos espirituosos que Mark Twain nos deixou foi: “Se você pegar um cão faminto e o tornar forte, ele não o morderá. Essa é a principal diferença entre um cão e um homem”.
Cri car defeitos humanos é diver do, especialmente em comparações com animais. Mark Twain pode mesmo ter razão. Em minha casa, adotamos alguns animais abandonados, e devo dizer que eles me parecem eternamente gratos. Um ga nho magricela e pulguento que pegamos em San Diego transformou-se num magnífico felino chamado Diego. Ao longo dos seus quinze anos de vida, Diego ronronou profusamente toda vez que lhe demos comida — mesmo quando ele quase não comeu nada. Parecia mais grato que a maioria dos bichos de es mação, talvez porque em pequeno soubera muito bem o que é ter o estômago vazio. Mas não tenho certeza de que devemos chamar isso de “gra dão”. Talvez fosse mera felicidade. Em vez de se dar conta de que devia a nós aquela vida confortável, pode ser que Diego gostasse mais de comida do que a média das nossas paparicadas mascotes.
Agora vejamos uma história de grandes primatas. Dois chimpanzés haviam ficado fora do abrigo durante uma tempestade.
Wolfgang Kõhler, o alemão pioneiro dos estudos sobre uso de ferramentas, passou pelo local e os viu ensopados, tremendo na chuva. Abriu a porta para eles. Mas os dois, em vez de passar pelo professor e entrar correndo na área seca, primeiro o abraçaram em um frenesi de contentamento. Isso já se parece muito mais com gratidão. Tenho minha própria experiência nesse campo, e volto a citar Kuif e Roosje, cuja introdução na colônia de Arnhem descrevi no primeiro capítulo. Tínhamos duas razões para dar Roosje a Kuif para adoção. Roosje nascera de uma mãe surda, Krom. Não queríamos que Krom criasse outros filhotes, pois os anteriores haviam morrido. Para saber o estado de seu bebê, uma grande primata depende dos débeis sons de sa sfação e desconforto que ele emite. Mas Krom, caso sentasse em cima da cria, não notaria seus gritos. A cadeia de feedback estava rompida. Removemos Roosje no quarto dia depois do parto. Em vez de entregar a recém-nascida a uma família humana — uma solução comum —, decidimos mantê-la na colônia. Jovens primatas criados em lares humanos perdem o referencial de sua espécie e não têm habilidades para conviver bem com seus semelhantes. Kuif era a candidata perfeita para a adoção. Perdera algumas de suas crias por lactação insuficiente, por isso não havia filhotes para compe r com Roosje. Kuif interessava-se imensamente por bebês primatas. De fato, havíamos notado que às vezes, quando Krom não dava atenção ao choro de seu bebê, Kuif também desatava a chorar. Todas as vezes que perdera uma cria, Kuif entrara em profunda depressão. Balançava-se fechada em um auto-abraço, recusava comida e gritava de par r o coração. Enquanto a treinávamos para dar mamadeira a Roosje, a infante permaneceu firmemente em nosso poder, embora Kuif desejasse desesperadamente segurála. O treinamento deve ter sido muito frustrante, pois não permi amos que Kuif bebesse também o leite da mamadeira. Para dá-la à pequenina, que ficava em nosso colo, ela precisava passar o braço através das grades. Após semanas nesse treinamento, ficamos sa sfeitos com o desempenho de Kuif e fizemos a transferência, colocando a esperneante Roosjie na palha da jaula noturna de Kuif. De início, Kuif olhou bem de perto o rosto de Roosjie, sem tocá-la; achava que o bebê nos pertencia. Pegar o bebê de alguém sem permissão não é coisa que se faça entre os chimpanzés. Kuif aproximou-se das barras, onde o tratador e eu observávamos. Deu um beijo em cada um de nós e olhou para Roosjie, depois de novo para nós, como se pedisse permissão. Nós a incen vamos, ges culando na direção do bebê e dizendo: “Vá em frente, pegue-a!”. Por fim ela a pegou, e dali por diante foi a mãe mais cuidadosa e protetora que se possa imaginar. Kuif criou Roosje como esperávamos. A reintrodução de Kuif na colônia vários meses depois teve seus percalços. Não só precisamos lidar com a hos lidade de Nikkie, mas também a mãe biológica de Roosje zangou-se. Krom tentou algumas vezes rar Roosje de Kuif, algo que eu nunca nha visto uma fêmea fazer e que nunca mais vi. Mas, como Kuif nha posição hierárquica mais elevada, pôde defender-se, e além disso Mama também a ajudou. É possível que Krom ainda reconhecesse Roosjie, embora não a visse desde sua remoção? Tive minhas dúvidas quanto a essa hipótese até o dia em que ouvi a história de uma mãe que encontrou a filha. Aconteceu em 2004, na Filadélfia. A filha dessa mulher desaparecera num incêndio aos dez dias de vida. Mas a mãe nunca aceitou a morte da criança. Encontrara uma janela aberta na casa incendiada e estava convencida de que alguém invadira o local. Anos depois, essa mulher foi a uma festa infan l, avistou uma menina e imediatamente achou que fosse sua filha. Conseguiu rar alguns fios de cabelo da criança. A mãe e a filha, então com seis anos de idade, foram reunidas com base em prova de seu DNA em uma amostra de cabelo. Uma vizinha admi u ter roubado o bebê e incendiado a casa para encobrir as pistas. Esse notável caso de iden ficação (a mãe afirmou ter reconhecido as “covinhas” na bochecha da filha) é apenas uma digressão para mostrar que as mães examinam atentamente seus bebês. Pela mesma razão, Krom deve ter percebido quem era Roosje. Mas para mim o mais importante foi o efeito que a adoção teve sobre a relação de Kuif comigo, o que me leva de volta ao tema da gra dão. Nós dois véramos até então um relacionamento neutro, mas desde a adoção, decorridas hoje quase três décadas, Kuif me cobre de afeto sempre que me vê. Nenhum outro grande primata no mundo reage à minha pessoa como se eu fosse um membro da família perdido há muito tempo, querendo segurar minhas mãos e choramingando se eu tentar par r. Nosso treinamento permi u a Kuif não só criar Roosje, mas também alguns de seus próprios filhos, com mamadeira. E ela ficou eternamente agradecida. A gra dão pauta-se por um balancete. Ela nos faz ajudar quem nos ajudou. Essa deve ter sido sua função original, embora hoje apliquemos esse sen mento com mais abrangência, como, por exemplo, quando nos sen mos gratos pelo tempo esplêndido ou pela boa saúde. O fato de a gra dão ser uma virtude pode explicar por que ela recebe muito mais atenção do que sua irmã feia, a vingança. Também a vingança se baseia em um balancete, mas este é associado ao outro elemento da díade ajudar/não prejudicar. O rancor contra quem nos prejudica é comum, e também nesse caso os sen mentos traduzem-se em ações como o ajuste de contas. Não só nos sen mos vinga vos, mas também nos preocupamos com tal sen mento naqueles a quem ofendemos, pois sabemos que quem semeia vento colhe tempestade. Conhecemos tão bem o mecanismo que podemos até propor vingança contra nós mesmos, vendo a aceitação do castigo como o único modo de restaurar a paz. Ilustremos com um exemplo da ópera, espetáculo que gosto de ver e ouvir quando não estou observando primatas. A ópera, com suas relações humanas drama zadas, retrata o lado do comportamento humano que muitos filósofos não levam em conta e muitos cien stas sociais consideram secundário à nossa aclamada racionalidade. Mas a vida humana, ou pelo menos a parte à qual damos maior importância, é totalmente emocional. Além de amor, consolo, culpa, ódio, ciúme e assim por diante, na ópera nunca faltam a vingança e a doce satisfação que ela sabidamente proporciona. Vende a é o grande tema de Don Giovanni [Don Juan], de Wolfgang Amadeus Mozart. Nessa ópera, o vil protagonista, após uma vida de sedução e engano, enfrenta uma mul dão enfurecida e, por fim, seu criador. Em uma cena secundária, a camponesa Zerlina, no dia de seu casamento com Mase o, quase sucumbe a Don Giovanni. Zelmira volta para o irado marido com grande necessidade de perdão. Em uma ária in tulada “Ba , ba , o bel Mase o” (“Bata-me, bata-me, ó belo Mase o”), a culpada suplica por um cas go. Promete que se quedará mansa como um cordeiro enquanto Mase o a espancar e lhe arrancar os cabelos e os olhos. Ela sabe que o único modo de fazer as pazes é deixar o marido acertar contas, e isso significa que parte da mágoa que ele sente tem de ser transferida para ela. Promete beijar as mãos que baterem nela. Talvez não seja uma mensagem poli camente correta, mas a atração da ópera está em mostrar as emoções em estado bruto. Mas Mase o ama demais Zerlina para aceitar sua oferta, e tudo termina bem. Westermarck via a retribuição como o cerne da moralidade humana e supunha que não éramos a única espécie a conhecê-la. Em sua época havia poucas pesquisas sobre comportamento animal, por isso ele precisou basear-se em relatos de casos como o que ouviu no Marrocos sobre um camelo vinga vo. Por ter virado na direção errada, o camelo fora excessivamente espancado por um garoto de catorze anos. O animal recebeu passivamente o cas go, mas alguns dias depois, estando desatrelado e sozinho com o mesmo condutor, ele “prendeu na boca monstruosa a cabeça do desafortunado rapaz, ergueu-o no ar e o jogou no chão com a parte superior do crânio totalmente arrancada e o cérebro espalhado na terra”.
Em muitos zoológicos ouvimos histórias de animais ressen dos, geralmente envolvendo elefantes, donos de proverbial memória, e grandes primatas. Todo estudante ou tratador novato que vai trabalhar com os grandes primatas precisa saber que não escapará impune se os atormentar ou insultar. O grande primata se lembra, e não se importará de esperar para vingar-se. Às vezes, não demora. Um dia, uma mulher veio reclamar na recepção do Zoológico de Arnhem de que seu filho fora a ngido por uma grande pedra vinda da jaula dos chimpanzés. Mas o filho, surpreendentemente, estava cabisbaixo e dócil. Testemunhas disseram depois que ele a rara primeiro aquela mesma pedra.
Nossos dados indicam que os chimpanzés acertam contas também entre si. Quando tomam par do em um confronto de outros, esses primatas opõem-se aos que costumam ficar contra eles. Mas é impossível fazer experimentos sobre esse tema sem incitar comportamentos perversos. Eis a razão de testarmos apenas o lado posi vo da reciprocidade, como em nosso trabalho com os macacos-capuchinhos. Os capuchinhos são bem diferentes dos grandes primatas. Macacos marrons de pequeno porte, mais ou menos do tamanho de um gato, eles têm cauda longa que lhes serve como um excelente órgão preênsil. São na vos do Novo Mundo, o que significa que se desenvolveram separadamente das linhagens do Velho Mundo por no mínimo 30 milhões de anos. Dos macacos que conheço, estão entre os mais espertos. Às vezes chamados de chimpanzés sul-africanos, têm o cérebro tão grande quanto o dos grandes primatas não humanos em proporção ao tamanho do corpo. Os capuchinhos usam ferramentas, têm uma polí ca complexa entre os machos, confrontos letais entre grupos e o mais importante: compar lham comida. Isso os torna ideais para estudos sobre reciprocidade e tomada de decisões econômicas. Nossos capuchinhos estão divididos em dois grupos nos quais se reproduzem, brincam, lutam e fazem grooming. Vivem em uma área cercada ao ar livre, mas são treinados para entrar individualmente em uma jaula de testes por breves períodos. Eles gostam tanto desses testes, nos quais sempre há comida, que alguns competem para ver quem vai par cipar. O mais das vezes preparamos um teste na jaula, ligamos uma câmera de vídeo e observamos os macacos numa tela instalada na sala ao lado. Em um experimento pico, pomos dois macacos lado a lado, oferecemos ao indivíduo A uma gela com fa as de pepino e depois damos a B uma gela com fa as de maçã. Avaliamos então como par lham o alimento. Como eles ficam separados por uma rede, um não pode roubar a comida do outro. Cada qual é forçado a esperar pelo que o outro puser perto da divisória para alcançar a comida compar lhada. A maioria dos primatas permaneceria em seu can nho e manteria ciumentamente toda a comida longe do outro. Mas não os capuchinhos. Nossos macacos põem bastante comida onde o outro possa alcançar, e alguns chegam a empurrá-la através da rede na direção do colega de experimento.