Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 45 de 48

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Eu, primata

Contradições Domadas

Aprendi com um Dodge Dart de vinte anos de estrada que ve no passado que a parte mais importante de um carro não é o motor. Um belo dia, só consegui fazer o carro parar totalmente quando apliquei todo o meu peso no pedal do freio. Numa manhã tranqüila com pouco trânsito, levei o velho Dodge até a oficina mecânica mais próxima. Dirigi muito devagar e, embora chegasse ileso, a viagem foi atemorizante. Por meses depois disso sonhei estar dirigindo um carro que diminuía a velocidade, mas não parava. Os freios e compensações da natureza são tão essenciais quanto o freio de um carro. Tudo é regulado, tudo é man do sob controle. Mamíferos e aves, por exemplo, deram um salto evolu vo ao tornar-se animais de sangue quente, mas têm problemas toda vez que a temperatura do corpo sobe demais. Quando faz muito calor ou quando se exercitam, resfriam-se suando, batendo as orelhas ou arfando com a língua de fora. A natureza precisou pôr freios na temperatura do corpo. Analogamente, toda ave canora tem tamanho ó mo para seus ovos, ninhadas, presas, distância a percorrer para alimentar-se e assim por diante. As que se desviam pondo ovos demais ou procurando insetos longe demais do ninho perdem na corrida evolutiva. Isso também se aplica a tendências sociais conflitantes, como compe ção e cooperação, egoísmo e sociabilidade, antagonismo e harmonia. Tudo se equilibra em torno de um ponto ó mo. Ser egoísta é inevitável e necessário, mas até certo ponto. Foi o que eu quis dizer quando comparei a natureza humana à cabeça de Jano: somos produto de forças opostas, como a necessidade de defender os próprios interesses e a necessidade de dar-se bem com os outros. Se enfa zo a segunda, é devido à tradicional ênfase na primeira. Ambas são estreitamente inter-relacionadas e contribuem para a sobrevivência. As mesmas capacidades que promovem a paz, como a reconciliação após uma luta, nunca teriam evoluído na ausência de conflitos. Em um mundo bipolar, toda capacidade alude ao seu oposto.

Examinamos paradoxos específicos, como a relação entre democracia e hierarquia, família nuclear e infan cídio, eqüidade e compe ção. Em cada caso, vários passos são necessários para passar de uma coisa à outra, mas, para onde quer que nos voltemos, as ins tuições sociais resultam de interação de forças opostas. A evolução é um processo dialético.

A natureza humana também é inerentemente mul dimensional, e o mesmo se pode dizer da natureza dos chimpanzés e da dos bonobos. Mesmo que a natureza dos chimpanzés seja mais violenta e a dos bonobos mais pacífica, aqueles também resolvem conflitos, e estes também competem. De fato, a reconciliação entre chimpanzés é ainda mais impressionante diante do seu óbvio temperamento violento. Ambos os primatas possuem as duas tendências, mas cada qual atinge um equilíbrio diferente. Nós, humanos, mais sistema camente brutais do que os chimpanzés e mais empá cos do que os bonobos, somos, de longe, os mais bipolares dos grandes primatas. Nossas sociedades nunca são totalmente pacíficas ou compe vas, nunca são de todo regidas

pelo egoísmo nem perfeitamente morais. A natureza não costuma apresentar estados puros. O que vale para a sociedade humana também vale para a natureza humana. Vemos bondade e crueldade, nobreza e vulgaridade, às vezes até na mesma pessoa. Somos ricos em contradições, mas em geral são contradições domadas. Falar em “contradições domadas” pode parecer obscuro, até mís co, mas elas estão à nossa volta. O sistema solar é um exemplo perfeito. Ele resulta de duas forças opostas, uma voltada para dentro, a outra, para fora. A gravidade do Sol equilibra os movimentos centrífugos dos planetas tão perfeitamente que há bilhões de anos todo o sistema solar mantém-se coeso. Acima da inerente dualidade da natureza humana está o papel da inteligência. Costumamos superes mar nossa racionalidade, mas não se pode negar que o comportamento humano é uma combinação de impulso e inteligência. Temos reduzido controle sobre as pulsões primi vas ligadas a poder, sexo, segurança e alimento, porém habitualmente pesamos os prós e contras de nossas ações antes de executá-las. O comportamento humano é dras camente modificado pela experiência. Isso pode parecer óbvio demais até para ser mencionado, mas é um modo de ver as coisas muito diferente daquele que os biólogos outrora adotavam. Na década de 1960, quase toda tendência percep vel da espécie humana era rotulada como “ins nto”, e a Ins nktlehre (“doutrina do ins nto”, em alemão) de Konrad Lorenz incluía até um “parlamento” dos ins ntos que ligava todos eles. Mas o problema do termo “ins nto” é menosprezar o papel do aprendizado e da experiência. Tendência semelhante existe em certos círculos contemporâneos, só que com o termo “módulo”. O cérebro humano é comparado a um canivete suíço ao qual a evolução acrescentou, um a um, módulos para tudo: de reconhecimento de rostos e uso de ferramentas a cuidados com a prole e amizade. Infelizmente ninguém sabe direito o que é um módulo cerebral, e os indícios de sua existência são tão intangíveis quanto os dos ins ntos. É inegável que temos predisposições inatas, mas não vejo os humanos como atores cegos encenando programas gené cos da natureza. A meu ver, somos improvisadores, e nos ajustamos flexivelmente a outros improvisadores no cenário, com nossos genes oferecendo dicas e sugestões. O mesmo se aplica a nossos companheiros primatas. Ilustro essa idéia com o exemplo de Yeroen no Zoológico de Arnhem, quando ele feriu a mão numa luta. Yeroen estava trabalhando para formar uma coalizão com o emergente Nikkie, mas, nas lutas conducentes à parceria dos dois, Nikkie o mordera. O ferimento não fora profundo, porém Yeroen mancava acentuadamente. Decorridos alguns dias, vemos a impressão de que ele mancava sobretudo quando Nikkie estava por perto. Era di cil de acreditar, por isso decidimos fazer observações sistemá cas. Toda vez que víamos Yeroen mancar, registrávamos o paradeiro de Nikkie. Constatamos que o campo de visão deste era muito importante. Yeroen passava, por exemplo, de um ponto na frente até um ponto atrás de onde Nikkie estava sentado, e todo o tempo em que estava ao alcance da visão de Nikkie ele mancava de dar dó. Mas assim que saía do campo de visão do outro voltava a andar normalmente.

Yeroen parecia estar fingindo mancar para que o companheiro o tratasse com brandura, quem sabe até com alguma simpa a. Ferir um parceiro nunca é aconselhável, e Yeroen parecia estar ressaltando isso para Nikkie ao exagerar a dor que sen a. A dissimulação é nossa velha conhecida, e a pra camos o tempo todo. Um casal tenta parecer feliz em público para esconder problemas no casamento, subordinados riem de uma piada sem graça contada pelo chefe. Manter as aparências é uma das coisas que temos em comum com os outros grandes primatas.

Recentemente examinamos centenas de registros de lutas corpo-a-corpo entre chimpanzés jovens para verificar em que ocasiões eles riam mais. Esses grandes primatas quando brincam abrem a boca com uma expressão que lembra o riso humano. Estávamos par cularmente interessados em jovens primatas com grande diferença de idade, pois nesses casos não é raro a brincadeira tornar-se bruta demais. Assim que isso acontece, a mãe do mais novo interfere, às vezes batendo na cabeça do colega do filho. O mais velho, obviamente, quer evitar a reprimenda. Descobrimos que os jovens que brincavam com infantes riam muito quando a mãe do pequeno estava olhando. Era como se dissessem:

“Veja como estamos nos diver ndo!”. E riam muito menos quando estavam sozinhos com o infante. Portanto, seu comportamento dependia de poderem ou não ser vistos pela mãe do outro. Se ela es vesse olhando, eles fingiam estar alegres para não ser incomodados.

A dissimulação em brincadeiras ou entre rivais polí cos é uma das razões por que não aceito a teoria dos animais como atores cegos. Em vez de serem gene camente programados para a hora de mancar ou de rir, os grandes primatas não humanos têm acentuada percepção de seu meio social. Como os humanos, ponderam as várias opções que têm e decidem o que fazer dependendo das circunstâncias. No laboratório costumamos testar grandes primatas com problemas abstratos, como encontrar recompensas apontadas pelo experimentador ou perceber a diferença entre quatro, cinco ou seis itens (capacidade que chamamos de “numerosidade”). Quando falham, o que às vezes ocorre, em geral se conclui que somos mais espertos do que eles. Mas na esfera social, na qual os primatas lidam com indivíduos que conhecem desde que nasceram, eles dão a impressão de ser tão inteligentes quanto nós. Um modo tosco de testar essa hipótese seria pôr um humano em uma colônia de chimpanzés. Obviamente isso é irreal, pois a força do chimpanzé é muito superior à do homem. Mas imaginemos que conseguíssemos encontrar alguém forte o bastante para fazer frente a chimpanzés adultos. Poderíamos verificar como a pessoa se sairia vivendo em uma comunidade desses grandes primatas. O desafio seria conquistar amigos sem ser demasiado submisso, pois quem não consegue se impor um pouco acaba em úl mo lugar na ordem de bicadas, ou pior. O sucesso exigiria que, como na vida real, esse humano não fosse um valentão nem um capacho. Não adiantaria tentar esconder o medo ou a hos lidade, pois a linguagem corporal humana é um livro aberto para os chimpanzés. Minha previsão é que não seria mais fácil para o humano aprender a conviver numa colônia desses primatas do que em um agrupamento médio de pessoas no trabalho ou na escola.