Eu, primata
Este Mundo Superlotado
Certa ocasião, quando era um jovem cien sta, perguntei a um especialista mundialmente famoso em violência humana o que ele sabia sobre reconciliação. Ele me fez uma preleção argumentando que a ciência devia se concentrar nas causas da agressão, pois nelas está a chave para eliminá-la. Meu interesse na resolução de conflitos indicava-lhe que eu considerava a agressão natural, imutável, o que ele não aprovava. Sua a tude lembrou-me os oponentes da educação sexual: por que perder tempo tentando melhorar um comportamento que nem deveria existir? As ciências naturais são mais diretas que as ciências sociais. Nenhum tema é tabu. Se algo existe e pode ser estudado, merece sêlo. É simples assim. A reconciliação não só existe, mas é extremamente difundida entre os animais sociais. Em gritante contraste com o especialista em violência, acho que nossa única esperança de controlar a agressão está em compreender melhor como somos equipados pela natureza para lidar com ela. Concentrar a atenção exclusivamente no comportamento problemá co é ser um bombeiro que aprende tudo sobre o fogo, mas nada sobre a água. Na verdade, um dos ga lhos da agressão mencionado com grande freqüência pelos cien stas, a aglomeração, não é assim tão importante precisamente porque nossa espécie conta com freios e compensações. Thomas Malthus, demógrafo do século XIX, observou que o crescimento da população humana é automa camente retardado pelo aumento dos vícios e da miséria. Isso inspirou o psicólogo John Calhoun a realizar um experimento medonho. Ele pôs uma crescente população de ratos em uma sala apertada e observou como os animais logo se puseram a matar, atacar sexualmente e devorar uns aos outros. Como predissera Malthus, o aumento da população foi controlado naturalmente. O caos e os desvios de comportamento levaram Calhoun a cunhar a expressão “esgoto comportamental”. O comportamento normal dos ratos descera pelo ralo, poderíamos dizer.
Logo se começou a comparar uma turba em arruaça a um bando de ratos, o centro decadente das grandes cidades a esgotos comportamentais e as áreas urbanas a zoológicos. Fomos alertados de que um mundo ainda mais populoso descambaria para a anarquia ou a ditadura. Se não parássemos de nos reproduzir como coelhos, nosso des no estaria selado. Essas idéias apoderaram-se do pensamento dominante a tal ponto que, se você perguntar, quase todas as pessoas lhe dirão que a superpopulação é uma das principais razões de termos dificuldade para eliminar a violência humana. De início, os estudos sobre primatas corroboraram esse cenário angus ante. Cien stas relataram que, na Índia, os macacos residentes em cidades eram mais agressivos que os das florestas.
Outros afirmaram que primatas em zoológico eram excessivamente violentos, governados por valentões dominadores em uma hierarquia social que era fabricada em ca veiro, pois na natureza prevaleciam a paz e o igualitarismo. Tomando de emprés mo o exagero das publicações de divulgação cien fica, um estudo sobre densidade populacional relatou uma “arruaça de gueto” entre babuínos. Quando eu trabalhava com macacos Rhesus no parque zoológico Henry Vilas,em Madison, Wisconsin, recebemos queixas de que os macacos estavam brigando o tempo todo, portanto a suposição era que estávamos alojando muitos deles juntos. Mas para mim aqueles macacos pareciam perfeitamente normais: eu nunca vira nenhum grupo de macacos Rhesus que não brigasse. Além disso, como cresci em um dos países mais populosos do mundo, sou profundamente cé co a respeito de qualquer relação entre densidade populacional elevada e agressão. Não vejo isso na sociedade humana. Assim, elaborei um estudo em grande escala de macacos Rhesus que, ao longo de muitos anos, às vezes de gerações, viveram em determinadas circunstâncias. Os grupos de maior densidade populacional viviam em gaiolas, e os de menor densidade em uma vasta ilha arborizada. Os macacos da ilha nham seis vezes mais espaço per capita que os das gaiolas.
Nossa primeira constatação foi, surpreendentemente, que a densidade não afeta a agressividade dos machos. Na verdade, as taxas mais altas de agressão foram observadas em machos que habitavam grandes espaços, e não nos ca vos. Os machos que vivem em condições apinhadas fazem mais grooming nas fêmeas, e vice-versa. O grooming tem efeito tranqüilizador: os ba mentos cardíacos dos macacos diminuem quando lhes fazem grooming. As fêmeas reagem de modo diferente. As fêmeas Rhesus têm um forte senso de pertencer a um grupo familiar conhecido como matrilínea. Como esses grupos competem entre si, a aglomeração induz ao atrito. Mas não é só a agressão entre as matrilíneas que aumenta. Como seria de esperar, intensifica-se também o grooming. Isso significa que as fêmeas empenham-se muito em prevenir tensões fazendo grooming fora de suas matrilíneas. Em conseqüência, o efeito da aglomeração sobre os macacos é muito menos notável do que se poderia pensar. Falamos em “acomodação”, ou seja, dizemos que os primatas têm modos de contrabalançar os efeitos do espaço reduzido. Talvez devido à sua maior inteligência, os chimpanzés vão além. Ainda me lembro de um inverno na colônia de Arnhem quando Nikkie, o jovem chimpanzé ambicioso, parecia pronto para desafiar Luit, o macho alfa na época. Os chimpanzés estavam alojados em uma jaula fechada, onde um confronto com o líder estabelecido seria suicídio. Afinal, Luit contava com grande apoio das fêmeas, e elas o teriam ajudado a acuar seu adversário se Nikkie tentasse alguma coisa. Mas, assim que a colônia pôde sair ao ar livre, começaram os problemas. Fêmeas são menos velozes que machos, e na grande ilha Nikkie poderia facilmente fugir de quaisquer defesas que fossem organizadas em bene cio de Luit. De fato, todas as lutas pelo poder em Arnhem ocorreram ao ar livre, e não em jaula fechada. Sabemos que os chimpanzés têm um conceito de futuro, portanto não podemos excluir a hipótese de que eles esperam até que as condições sejam favoráveis para agir. Esse po de controle emocional também é visto na evitação de conflito quando chimpanzés estão alojados em lugares apinhados. Em situações assim, eles reduzem a agressão. Lembram um pouco as pessoas em elevadores ou ônibus, que evitam atritos minimizando movimentos amplos do corpo e procurando não fazer contato visual nem falar alto. São ajustes em pequena escala, mas também é possível culturas inteiras se adaptarem à quan dade de espaço disponível. Em países com alta densidade populacional, é comum o povo valorizar a tranqüilidade, a harmonia, a deferência, a modulação no tom de voz e o respeito à privacidade, mesmo se as paredes forem da espessura do papel. Nossa refinada habilidade de adaptação a uma determinada socioecologia, como diriam os biólogos, explica por que o número de pessoas por quilômetro quadrado não tem relação alguma com os índices de homicídio. Alguns países com índices de assassinato estratosféricos, como Rússia e Colômbia, têm densidade populacional baixíssima, e entre os países com os índices mais baixos de assassinatos estão os superlotados Japão e a Holanda. Isso também se aplica às áreas urbanas, onde ocorre a maioria dos crimes. A metrópole mais apinhada do mundo é Tóquio, e uma das que têm população mais dispersa é Los Angeles. No entanto, esta sofre anualmente cerca de quinze assassinatos para cada 100 mil pessoas, em comparação com menos de dois para cada 100 mil em Tóquio. Em 1950, havia no mundo 2,5 bilhões de pessoas. Hoje temos 6,5 bilhões. É um aumento fenomenal desde que começou a contagem, dois milênios atrás, quando as es ma vas para a população humana mundial foram de 200 milhões a 400 milhões. Se realmente a alta densidade populacional conduzir à agressão, estamos no caminho da total combustão. Por sorte, descendemos de uma longa linhagem de animais sociais capazes de ajustar-se a todo po de condição, inclusive as ar ficiais, como penitenciárias lotadas, ruas de grandes cidades e shoppings. O ajuste pode requerer esforço, e as exuberantes celebrações que vemos toda primavera no Zoológico de Arnhem certamente indicam que os chimpanzés preferem viver com menos aglomeração. Mas o ajuste sem dúvida é preferível à apavorante alterna va predita com base no experimento de Calhoun com os ratos.
Devo acrescentar, porém, que os resultados de Calhoun podem não ter sido inteiramente causados pela aglomeração. Como havia poucos comedouros para os ratos, a compe ção provavelmente também teve seu papel. Eis, pois, um alerta para nossa espécie em um mundo cada vez mais populoso. Temos um talento natural e insuficientemente apreciado para lidar com a aglomeração. Mas esta, se combinada à escassez de recursos, é outra história, e pode muito bem conduzir ao vício e à miséria malthusianos. Malthus, no entanto, nha uma postura polí ca incrivelmente insensível. Achava que qualquer assistência aos pobres negava o processo natural por meio do qual supostamente os des tuídos vão sendo eliminados. Se havia um direito que o homem não nha, ele disse, era o direito à subsistência que ele próprio não fosse capaz de comprar. Malthus inspirou um sistema de pensamento, conhecido como darwinismo social, desprovido de compaixão. Assim, o auto-interesse é a força vital da sociedade e se traduz em progresso para os fortes em detrimento dos fracos. Essa jus ficação para a concentração de recursos nas mãos de uma afortunada minoria foi exportada para o Novo Mundo, onde permi u a John D. Rockefeller descrever o crescimento de uma empresa como “mero resultado de uma lei da natureza e de uma lei de Deus”. Dado o uso e abuso da teoria evolucionista por suas versões popularizadas, não admira que o darwinismo e a seleção natural tenham se tornado sinônimos de compe ção desenfreada. Mas o próprio Darwin estava longe de ser um darwinista social. Ao contrário: acreditava haver lugar para a bondade tanto na natureza humana como no mundo natural. Necessitamos com urgência dessa bondade, pois a questão que se apresenta à crescente população mundial não é se podemos ou não lidar com a aglomeração, mas se seremos justos na distribuição dos recursos. Par remos para a compe ção desabrida ou faremos o que é humano? Nossos parentes próximos podem nos ensinar algumas lições importantes nesse campo. Eles nos mostram que a compaixão não é uma fraqueza recente que contraria a natureza, mas um poder formidável, um poder que, assim como as tendências compe vas que a compaixão
procura superar, é parte de quem e do que somos.