Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 11 de 48

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Eu, primata

Machos no Pedestal

nha como escapar, provavelmente não foi acidental. A cena horripilante que os

tratadores encontraram mostrou-nos que Nikkie e Yeroen haviam não só resolvido suas diferenças, mas também agido juntos, de maneira altamente coordenada. Ambos quase não nham ferimentos. Nikkie estava com alguns arranhões e mordidas superficiais, e Yeroen saíra ileso, um indicador de que ele segurara Luit enquanto deixava o macho mais jovem infligir todos os danos. Nunca saberemos com exa dão o que se passou, e infelizmente não havia fêmeas presentes para dar fim à luta. Não raro, elas interrompem cole vamente as altercações entre machos que se descontrolam. Na noite do ataque, porém, as fêmeas estavam em compar mentos noturnos separados na mesma jaula. Devem ter acompanhado toda a comoção, mas nada puderam fazer para intervir. A colônia estava estranhamente silenciosa naquela manhã em que encontrei Luit sentado em sangue. Foi a primeira vez na história do zoológico que nenhum dos primatas comeu o desjejum. Depois que levamos Luit para a cirurgia e soltamos o resto da colônia na ilha arborizada e gramada de quase um hectare, a primeira coisa que aconteceu foi um ataque incomumente feroz a Nikkie por uma fêmea chamada Puist. Sua agressividade persistente forçou o jovem macho, normalmente muito intimidante, a fugir para o alto de uma árvore. Puist, sozinha, manteve-o lá por no mínimo dez minutos, gritando e arremetendo toda vez que ele tentava descer. Das fêmeas, Puist sempre fora a principal aliada de Luit. De seu alojamento noturno avistava-se o dos machos, e parecia claro que ela estava expressando sua opinião a respeito do ataque mortal. Assim, nossos chimpanzés haviam demonstrado todos os elementos da polí ca do dois contra um, desde a necessidade de união até o des no de um líder que se torna arrogante demais. O poder é o principal motor dos chimpanzés machos. Obsessão constante, traz grandes benefícios quando obtido e imenso desgosto se inatingido.

 

MACHOS NO PEDESTAL

O assassinato polí co também não é raro em nossa espécie: John F. Kennedy, Mar n Luther King, Salvador Allende, Yitzhak Rabin, Gandhi. A lista é grande. Até a Holanda, em geral poli camente tranqüila (ou civilizada, diriam os holandeses), horrorizou-se alguns anos atrás com o assassinato de Pim Fortuyn, um candidato polí co. Em tempos mais remotos, meu país foi palco de um dos mais pavorosos assassinatos polí cos. Uma mul dão posta em frenesi pelos adversários de Johan de Wi capturou o estadista e seu irmão, Cornelius. Liquidaram-nos com espadas e mosquetes, penduraram os corpos de cabeça para baixo e os evisceraram como porcos no açougue. Corações e entranhas foram removidos, assados numa grelha e comidos pela turba jubilosa! Esse episódio chocante ocorreu em 1672 e resultou de intensa frustração em uma época na qual o país perdera uma série de guerras. O assassinato foi celebrado em poemas e pinturas, e o Museu Histórico de Haia ainda possui em exposição um dedo do pé e uma língua arrancados das vítimas.

Para homem ou animal, a morte é o preço supremo por tentar chegar ao topo. Um chimpanzé chamado Goblin vive no Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia. Depois de ser por muitos anos o valentão do seu grupo, Goblin foi atacado por uma massa de chimpanzés zangados. Primeiro, perdeu a luta contra um desafiante que nha o apoio de quatro machos mais jovens. Como acontece com grande freqüência na natureza, o combate propriamente dito quase não foi visto, pois aconteceu em meio a densa vegetação. Mas Goblin emergiu aos gritos e fugiu, ferido no pulso, pés, mãos e, o mais importante, no escroto. Seus ferimentos eram notavelmente semelhantes aos de Luit. Goblin muito provavelmente teria morrido, pois seu escroto infeccionou e começou a inchar, e a febre o dominou. Passados alguns dias, ele se movia muito devagar, descansava com freqüência e comia pouco. Mas um veterinário alvejou-o com um dardo tranqüilizante e lhe ministrou an bió co. Após um período de convalescença, durante o qual ele ficou fora das vistas de sua comunidade, Goblin tentou encenar um retorno com demonstrações ritualizadas de agressividade contra o novo macho alfa. Foi um tremendo erro de julgamento, pois provocou a perseguição por outros machos do grupo. Novamente com ferimentos graves, ele foi mais uma vez salvo pelo veterinário. Por fim, Goblin foi aceito de volta na comunidade, mas em posição hierárquica inferior. O des no que pode se abater sobre quem ocupa o topo é apenas uma das conseqüências do impulso do poder. Sem contar o risco de ser ferido ou morrer, estar em posição de poder é estressante. Isso pode ser demonstrado medindo-se o nível de cor sol, um hormônio do estresse, no sangue. Não é nada fácil conseguir isso com animais selvagens, mas Robert Sapolsky tem prá ca de anos em alvejar babuínos com dardos tranqüilizantes nas planícies africanas. Entre esses primatas altamente compe vos, os níveis de cor sol dependem da habilidade do indivíduo para lidar com tensões sociais. Como nos humanos, isso é uma questão de personalidade. Alguns machos dominantes têm alto nível de estresse simplesmente porque não conseguem discernir entre um desafio sério vindo de outro macho e um comportamento neutro com o qual não deveriam se preocupar. São nervosos e paranóicos. Afinal de contas, se um rival passa perto, pode ser simplesmente porque precisa ir de A para B, e não porque pretende criar problemas. Quando a hierarquia está em transição, os mal-entendidos acumulam-se, deixando em frangalhos os nervos dos machos próximos do topo. Como o estresse compromete o sistema imunológico, não é incomum os primatas do alto escalão sofrerem de úlceras e ataques cardíacos, males tão familiares aos execu vos das nossas empresas.

As vantagens da posição superior devem ser enormes, pois do contrário a evolução não teria instalado essas ambições temerárias. Elas são onipresentes no reino animal, das rãs e ratos aos galináceos e elefantes. Posição hierárquica elevada geralmente se traduz em alimento para as fêmeas e parceiras sexuais para os machos. Digo “geralmente” porque os machos também competem por alimento, e as fêmeas por parceiros, embora este segundo caso seja restrito principalmente a espécies como a nossa, nas quais os machos ajudam a criar a prole. Tudo na evolução converge para o êxito reprodu vo, por isso as diferentes orientações de machos e fêmeas são perfeitamente compreensíveis. Um macho pode aumentar sua descendência acasalando-se com muitas fêmeas enquanto mantém afastados seus rivais. Para a fêmea, tal estratégia não tem sen do: acasalar-se com numerosos machos em geral não lhe traz benefícios. A fêmea prefere qualidade a quan dade. A maioria das fêmeas no mundo animal não vive com o parceiro; portanto, só precisa escolher o macho mais vigoroso e sadio. Dessa maneira, sua prole será agraciada com bons genes. Mas as fêmeas das espécies cujos machos ajudam a criar a prole estão em situação diferente, o que as leva a preferir machos que sejam delicados, protetores e bons provedores. As fêmeas melhoram a reprodução também com o que comem, especialmente durante a gestação e a lactação, quando a ingestão calórica quintuplica. Como as fêmeas dominantes podem apoderar-se do melhor alimento, criam a prole mais sadia. Em algumas espécies, como o macaco Rhesus, a hierarquia é tão estrita que uma fêmea dominante simplesmente detém uma subordinada que vem passando com as bochechas cheias. Esses animais carregam alimentos nas bochechas para um lugar seguro. A fêmea dominante segura a cabeça da subordinada, abre-lhe a boca e se apodera do que está lá dentro. Tamanha intrusão não encontra resistência, pois para a subordinada a alternativa é levar dentadas. Os bene cios de estar no topo explicam o impulso pela dominância? Quem olha os avantajados caninos de um babuíno macho ou o corpanzil e os músculos de um gorila macho vê máquinas de lutar que evoluíram para derrotar rivais na busca da única moeda reconhecida pela seleção natural: a produção de descendentes. Para os machos, é um jogo de tudo ou nada: a posição na hierarquia determina quem plantará muitas sementes e quem não plantará semente alguma. Conseqüentemente, os machos têm estrutura de lutador e tendência a procurar pontos fracos nos rivais, além de certa cegueira para o perigo. Correr riscos é caracterís ca masculina, assim como esconder as vulnerabilidades. No mundo dos primatas machos, ninguém quer parecer fraco. Por isso, não admira que na sociedade moderna os homens procurem o médico com menor freqüência do que as mulheres e tenham dificuldade para revelar suas emoções apesar de todo um grupo de apoio a incen vá-los. Diz a sabedoria popular que os homens foram socializados para esconder emoções, porém parece mais provável que tais a tudes resultem de eles estarem cercados por outros prontos para aproveitar qualquer oportunidade de derrubálos. Nossos ancestrais sem dúvida notavam a menor coxeadura ou perda de energia nos demais. Para um macho de alta posição hierárquica seria conveniente camuflar quaisquer desvantagens, e essa tendência pode ter se arraigado. Entre os chimpanzés, não é raro um líder ferido redobrar a energia que põe em suas demonstrações ritualizadas de agressividade, criando assim a ilusão de estar em plena forma.

Caracterís cas gené cas que ajudam os machos a assegurar o direito às fêmeas férteis serão transmi das aos descendentes. Os animais não têm o obje vo consciente da procriação, mas o modo como agem contribui para disseminar seus genes. O macho humano herdou essa mesma tendência. Na sociedade moderna não faltam indicadores da ligação entre poder e sexo. Às vezes, como no escândalo Monica Lewinsky, essa ligação é exposta com grande alarde e hipocrisia, mas a maioria das pessoas mostra-se realista no tocante ao sex appeal dos líderes e não faz caso de suas escapadas. Isso, ressalte-se, quando falamos em líderes do sexo masculino. Como os homens não têm preferência por parceiras poderosas, o status elevado não beneficia as mulheres. Uma eminente polí ca francesa comparou o poder ao macarrão: ela o adora, mas sabe que não lhe faz bem.

Essas diferenças entre os sexos emergem em tenra idade. Em um estudo, pesquisadores canadenses convidaram meninos e meninas de nove e dez anos a par cipar de jogos que mediam sua compe vidade. As meninas relutaram em rar brinquedos umas das

outras a menos que esse fosse o único modo de vencer, mas os meninos quiseram apoderar-se dos brinquedos independentemente de como isso afetava o resultado do jogo. As meninas só compe am se fosse necessário; já os meninos pareciam fazê-lo invariavelmente. Nessa mesma linha, quando homens se encontram pela primeira vez, avaliam uns aos outros escolhendo alguma coisa —qualquer coisa — para disputar, muitas vezes exaltando-se com um assunto que normalmente não lhes interessa. Adotam posturas corporais ameaçadoras. De pernas afastadas e peito aberto, fazem gestos expansivos, falam com voz tonitruante, dizem insultos velados, contam piadas maliciosas, e assim por diante. Procuram desesperadamente descobrir em que posição se encontram em relação ao outro. Desejam impressionar o interlocutor o suficiente para que o resultado seja favorável a si mesmos.

Consideremos um acontecimento previsível no primeiro dia de um encontro acadêmico em que egos dos mais distantes cantos do globo defrontam-se na sala do seminário ou até mesmo no bar. Ao contrário das mulheres, que tendem a não entrar na briga, os homens acabam tão envolvidos na refrega intelectual que chegam a ficar vermelhos ou pálidos. O que os chimpanzés fazem com suas demonstrações ritualizadas de agressividade — eriçando os pêlos, batendo em qualquer coisa que amplifique os sons, arrancando pequenas árvores —, o macho humano faz de um modo mais civilizado, deitando por terra os argumentos de outros ou, mais primi vamente, não lhes dando tempo para abrir a boca. Esclarecer a hierarquia é a prioridade. Invariavelmente, o encontro seguinte entre os mesmos homens será mais calmo, indicando que alguma coisa ficou estabelecida, embora seja di cil saber exatamente o quê. Para os machos o poder é o supremo afrodisíaco, e ainda por cima vicia. A violenta reação de Nikkie e Yeroen à perda de poder condiz perfeitamente com a hipótese da frustração-agressão: quanto maior a amargura, maior a raiva. Os machos guardam ciumentamente seu poder, e perdem toda a inibição se alguém os contestar. Para Yeroen, além de tudo, aquela não fora a derrota de estréia. A ferocidade do ataque a Luit pode ter resultado do fato de ser a segunda vez que ele perdera a liderança.

Na primeira vez em que Luit chegou ao topo — assinalando o fim do ancien régime de Yeroen —, fiquei perplexo com a reação do líder destronado. Normalmente majestoso, Yeroen tornou-se irreconhecível. Em meio a um confronto, deixava-se cair da árvore como um fruto podre, deba a-se no chão com gritos de cortar o coração, esperando ser reconfortado pelo resto do grupo. Parecia um filhote arrancado do seio materno. Como uma criança que durante os ataques de birra olha de esguelha para a mãe em busca de sinais de abrandamento, Yeroen sempre reparava em quem se aproximava dele. Se o grupo à sua volta fosse suficientemente numeroso e poderoso, em especial se incluísse a fêmea alfa, ele ganhava coragem instantânea. Tendo seus defensores a reboque, ele reacendia o confronto com o rival. Claramente, os faniquitos de Yeroen eram mais um exemplo de hábil manipulação. Porém o que mais me fascinou foram os paralelos com o apego infan l, magistralmente captados em expressões como “agarrar-se ao poder” e “ser desmamado do poder”. Derrubar um macho do seu pedestal produz a mesma reação despertada quando se arranca a chupeta ou o cobertorzinho favorito de um bebê.

Quando Yeroen finalmente perdeu a liderança, deu de sentarse fitando o vazio após uma luta, com o rosto inexpressivo. Alheio à a vidade social ao seu redor, recusou comida por semanas. Pensamos que es vesse doente, mas o veterinário não encontrou nenhum problema. Ele era uma pálida sombra do chefão imponente que fora. Jamais esqueci essa imagem de Yeroen derrotado e apagado. Ao perder o poder, ele perdeu o alento.

Outra transformação drás ca como essa só presenciei em uma ocasião, desta vez com alguém da minha espécie. Um renomado professor, meu colega no corpo docente da universidade, homem de grande pres gio e ego comensurável, não percebera uma conspiração que se estava formando. Alguns professores jovens discordaram dele em uma questão poli camente delicada, votaram unidos e conseguiram vencê-lo. Creio que até então ninguém jamais vera coragem de enfrentá-lo. O apoio à proposta alterna va fora cul vado secretamente por alguns de seus protegidos. Depois da votação fatal, cujo resultado deve ter sido totalmente inesperado, dada sua expressão de absoluta incredulidade, o professor ficou lívido. Parecendo dez anos mais velho, ele mostrou a mesmíssima expressão vazia e apagada vista em Yeroen depois que este perdeu seu lugar no topo. Para o professor, o que estava em jogo era muito mais do que simplesmente a questão deba da: era quem dava as cartas no departamento. Nas semanas e meses seguintes àquela reunião, toda a sua postura esteve diferente quando ele passava pelos corredores. Em vez de dizer “estou no comando”, sua linguagem corporal agora dizia “me deixem em paz”.

O livro Os úl mos dias, de Bob Woodward e Carl Bernstein, descreve a agonia do presidente Richard Nixon quando ficou óbvio que ele teria de renunciar. “Nixon se lamentava aos soluços. Como um simples furto [...] podia ter feito tudo isso? [...] Ele caiu de joelhos. [...] De quatro, socava o tapete e bradava:’O que foi que eu fiz? O que aconteceu?’.” Consta que Henry Kissinger, seu secretário de Estado, teria consolado o líder caído como a uma criança. Acalentou-o em um abraço, enumerando todas as grandes realizações de Nixon, até que o presidente finalmente se acalmou.