Eu, primata
Cochichos de Meninas
Isso, em si, não surpreende. O número de incidentes violentos no grupo diminuiu naturalmente depois que os valentões foram dizimados. O fato tornou-se mais interessante quando se descobriu que esse padrão foi man do por uma década, embora àquela altura nenhum dos machos originais do grupo es vesse mais ali. Babuínos machos emigram ao fim da puberdade; portanto, o tempo todo há machos jovens entrando no grupo. Assim, apesar da total renovação dos machos, esse grupo específico manteve o pacifismo e a tolerância, intensificou as sessões de grooming e apresentou níveis excepcionalmente baixos de estresse. Como a tradição foi man da não se sabe. As fêmeas de babuínos permanecem no grupo a vida toda, por isso provavelmente seu comportamento contém a chave para explicar o fato. Talvez tenham se tornado sele vas na aceitação de novos machos, ou conseguido perpetuar a atmosfera tranqüila dos velhos tempos fazendo mais grooming com os machos e, assim, deixando-os mais sossegados. Não temos a resposta, mas duas conclusões principais desse experimento natural são claríssimas: o comportamento observado na natureza pode ser produto da cultura, e até os mais ferozes primatas não precisam ser assim para sempre. Quem sabe isso se aplique também a nós.
COCHICHOS DE MENINAS
“Em quem podemos bater, senão nos amigos?”, disse um espirituoso ator inglês a outro antes de lhe dar um soco no queixo. Achamos graça nesses ingleses, mas na verdade não é raro homens misturarem amizade com rivalidade. O fosso que as separa não é tão grande para os homens quanto para as mulheres. Pelo menos essa é minha opinião depois de uma vida inteira “estudando” pessoas como observador par cipante. Infelizmente, o modo como as pessoas resolvem conflitos não costuma ser tema de pesquisa. As mulheres são melhores nisso? Os homens são guerreiros por definição? Já se disse que homens e mulheres vêm de planetas diferentes, eles de Marte, elas de Vênus, mas é assim tão simples? No mundo todo, o índice de assassinatos come dos por homens é muito maior que o das mulheres, e picamente são homens que lutam nas guerras, por isso parece razoável culpar o cromossomo Y pelos apuros em que nos encontramos. Mas, se as mulheres têm vantagem no quesito pacifismo, talvez não seja porque são habilidosas para consertar o que foi quebrado. Vejo a força das mulheres na prevenção de conflitos e em sua aversão à violência. Mas elas não são necessariamente talentosas para dissipar tensões que já tenham surgido. Essa capacidade, na verdade, é um ponto forte masculino.
Entre as fêmeas de chimpanzé ocorrem muito menos lutas do que entre os machos, provavelmente porque elas se esforçam muito para não brigar. Mas, quando ocorre uma luta, as fêmeas raramente se reconciliam. No Zoológico de Arnhem, os machos reconciliavam-se em quase metade de seus confrontos; as fêmeas, em apenas um a cada cinco. Em estudos de campo observou-se disparidade parecida. Os machos têm ciclos de luta e reunião, enquanto as fêmeas têm uma a tude preven va em relação aos conflitos. Diferentemente dos machos, elas procuram manter boas relações com os indivíduos que têm com elas os vínculos mais estreitos, como crias e melhores amigos, e permitem que a agressão siga seu feio curso quando se trata de rivais. Em visita recente a Arnhem, encontrei Mama e Kuif absortas em uma sessão de grooming, como se o tempo houvesse parado: já eram amigas três décadas antes. Lembro-me de ocasiões em que Mama favorecia um “candidato” polí co entre os machos enquanto Kuif preferia outro, e me admirava do modo como agiam para dar a impressão de que não notavam a escolha uma da outra. Mama passava bem longe do local onde es vessem ocorrendo lutas pelo poder entre os machos, para evitar dar de cara com a amiga, que se aliara às fileiras rivais. Considerando a indisputada dominância de Mama e sua ferocidade contra as fêmeas que lhe desobedeciam, sua leniência para com Kuif era uma exceção assombrosa.
Mas, do lado nega vo, fêmeas podem ser incrivelmente perversas e calculistas. Um bom exemplo são as ofertas de reconciliação enganosas. A idéia é preparar com fingimentos uma armadilha para a oponente. Puist, uma fêmea pesada e mais velha, persegue e quase apanha uma oponente mais jovem. Após escapar por um triz, a ví ma grita durante algum tempo, depois se senta, arquejante. O incidente parece esquecido, e dez minutos depois Puist faz um gesto amistoso de longe, com a mão aberta estendida. A jovem fêmea hesita a princípio, depois se aproxima de Puist dando sinais clássicos de desconfiança: com um esgar nervoso, pára várias vezes e olha para os outros. Puist persiste, acrescentando arquejos suaves quando a jovem fêmea se aproxima. Esses sons têm um significado par cularmente amistoso; muitos são seguidos de um beijo, o principal gesto conciliatório dos chimpanzés. Mas, de repente, Puist salta, agarra a outra e a morde ferozmente antes que a vítima consiga se safar. As reconciliações entre chimpanzés machos podem ser tensas, às vezes malsucedidas (ou seja, a luta recomeça), mas nunca incluem engodos. As tensões dos machos assomam aos olhos. Entre amigos chegados, como foram Yeroen e Nikkie durante seu reinado conjunto, um macho pode zangar-se quando o colega faz algo que não lhe agrada, como provocar sexualmente uma fêmea atraente. Arrepia os pêlos, começa a balançar o tronco e a emi r sons que lembram pios de coruja: sinal de que não está gostando. Se o outro não fizer caso, irromperá um confronto, que muito provavelmente será seguido de rápida reconciliação. Os chimpanzés machos fazem as pazes facilmente; em contraste, entre as fêmeas as tensões persistem por muito tempo. Não raro vejo duas chimpanzés fêmeas se encontrarem e começarem a berrar uma com a outra, embora eu, o observador, não tenha a menor idéia do que pode ter desencadeado tal explosão. Incidentes assim dão a impressão de que algo veio fervendo em fogo lento sob a super cie, talvez por dias ou semanas, até que o vulcão explode justamente quando estou presente. Isso nunca ocorre entre machos, sobretudo porque eles sinalizam abertamente as hos lidades e discordâncias, e assim as coisas são “resolvidas” de um jeito ou de outro. Isso pode envolver a agressão flagrante, mas pelo menos a atmosfera se desanuvia. As fêmeas bonobos reconciliam-se muito mais prontamente do que as chimpanzés. Impor a dominância cole va e depender de uma vasta rede de alianças induz a necessidade de solidariedade entre as fêmeas. Sem zelar cuidadosamente por seus laços, elas nunca poderiam manter-se no topo. Inversamente, os bonobos machos reconciliam-se menos do que seus congêneres chimpanzés. Aqui de novo a razão é de ordem prá ca: os bonobos machos não têm a intensa cooperação em caçadas, as alianças polí cas e a defesa territorial que forçam os chimpanzés machos a preservar a unidade. Assim, a tendência à reconciliação é um cálculo polí co que varia de acordo com espécie, gênero e sociedade. Paradoxalmente, o nível de agressão nada diz sobre a reconciliação: o gênero mais agressivo pode ser melhor em fazer as pazes, e o mais pacífico, pior. A popular dis nção Marte versus Vênus dá a impressão de que só há uma dimensão a considerar, mas tanto os humanos como os outros grandes primatas são complexos demais para isso. A principal razão para a reconciliação não é a paz em si, mas o propósito comum. Vemos isso após traumas generalizados. Por exemplo, depois do ataque de 11 de setembro ao World Trade Center em Nova York, as tensões raciais na cidade diminuíram. Nove meses após a catástrofe, quando lhes perguntaram como viam as relações raciais, nova-iorquinos de todas as raças responderam que o mais das vezes as achavam boas. Nos anos anteriores, a maioria dissera o contrário. O sen mento de “estamos juntos nisso” gerado pelo ataque favoreceu uma união excepcional e tornou as pessoas muito mais cordatas e conciliadoras que o usual. Os extragrupos étnicos subitamente foram vistos como pertencentes a um intragrupo da cidade. Isso tem sen do da perspec va das teorias sobre as razões de a reconciliação ter evoluído em espécies tão diversas como hienas, babuínos e humanos. A dependência mútua favorece a harmonia. Houve um tempo em que os biólogos só se preocupavam com ganhar e perder: ganhar era bom, perder era ruim. Toda população nha seus “falcões” e “pombas”, e estas davam duro para manter-se vivas. Contudo, quem ganha e quem perde é apenas metade da história. Se a subsistência depende de trabalho conjunto, como ocorre para uma infinidade de animais, os que iniciam lutas se arriscam a perder algo muito mais importante do que o conflito em questão. Às vezes não se pode ganhar uma luta sem perder um amigo. Para serem bem-sucedidos, os animais sociais têm de ser falcões e pombas. Novas teorias salientam a reconciliação, as soluções conciliatórias e a necessidade de boas relações. Em outras palavras, o obje vo de fazer as pazes não é ser gentil, mas manter a cooperação. Em um estudo, macacos foram treinados para trabalhar juntos. Podiam comer pipocas
radas de uma máquina se chegassem em pares. Chegando sozinhos, não ganhavam o
pe sco. Aprenderam a regra com facilidade. Depois desse treinamento, foram induzidas brigas para verificar o tempo que aqueles macacos levavam para se reconciliar. Os pares cujos membros haviam passado a depender um do outro foram muito mais rápidos na reconciliação. Os macacos mutuamente dependentes perceberam a vantagem de ficar de bem.
É claro que esse princípio também vale para as pessoas. De fato, ele é a base da União Européia. Após séculos de guerras no con nente, alguns polí cos visionários argumentaram que favorecer laços econômicos entre nações poderia ser a solução: haveria muita coisa em jogo para se con nuar com o mesmo comportamento. Como os macacos treinados para alimentar-se juntos, as economias nacionais da Europa sustentam-se mutuamente. O país que invadir outro prejudicará a própria economia. Esse desincentivo à guerra tem funcionado há mais de meio século. Soluções pragmá cas para o conflito, como a União Européia, são picamente
masculinas. Digo isso sem chauvinismo, pois sei muito bem que os homens também são os responsáveis pelos piores excessos de violência quando falham as tenta vas de paz. Um dos pouquíssimos estudos sobre como cada gênero lida com a discórdia concentrou-se em jogos infan s. Constatou-se que as meninas brincam em grupos menores e com menos compe vidade do que os meninos. Mas o jogo médio das meninas não durava muito tempo, pois elas não eram tão boas quanto os meninos para decidir disputas. Os meninos brigavam o tempo todo, debatendo regras como pequenos advogados, mas isso nunca significava o fim do jogo. Após uma interrupção, eles simplesmente con nuavam. Já com as meninas, uma briga geralmente significava o fim do jogo. Não havia esforços para tornar a unir o me. A natureza dos jogos de meninas e meninos também é diferente. Digamos que o indivíduo A anda até o indivíduo B e este dá as costas como se A não exis sse. Dá para imaginar meninos considerando isso uma briga? Eles simplesmente partem para outra coisa. Já para duas meninas, tal encontro pode ser excruciante e repercur r por horas ou dias. Uma equipe de pesquisadores finlandeses contou as brigas em um pá o escolar e computou muito menos episódios entre meninas do que entre meninos. Isso já era esperado, mas, quando perguntaram a cada criança no fim do dia se par cipara de alguma briga, o cômputo ficou aproximadamente igual para meninos e meninas. A agressão entre meninas em geral é quase invisível ao observador. Em seu romance Olho de gato, Margaret Atwood contrastou os tormentos a que as meninas submetem umas às outras com a competição direta entre os meninos. A personagem principal lamenta:
Pensei em contar ao meu irmão, pedir ajuda. Mas dizer o quê, exatamente? Cordélia não faz nada sico. Se fossem meninos perseguindo ou atormentando, ele saberia o que fazer, mas não sofro com os meninos desse modo. Contra as meninas e suas dissimulações, seus cochichos, ele nada poderia fazer. Esse po de agressão su l não se esvai facilmente, como constataram os pesquisadores finlandeses. Eles descobriram que a discórdia entre as meninas durava mais do que entre os meninos. Quando lhes perguntaram quanto tempo poderiam ficar zangados uns com os outros, os meninos pensaram em horas, alguns em dias, enquanto as meninas acharam que poderiam ficar bravas pelo resto da vida! Guardar rancor gera relacionamentos erosivos, como explicou uma treinadora de natação sobre a razão de ter passado a treinar homens em vez de mulheres. A treinadora achou muito menos estressante trabalhar com o sexo oposto. Contou que, se duas atletas brigassem no início da temporada, haveria pouca chance de fazerem as pazes pelo resto do ano. A briga fermentaria dia após dia, minando a solidariedade da equipe. Os rapazes, por sua vez, brigavam a mais não poder. Mas à noite iam beber cerveja juntos e no dia seguinte mal se lembravam do desentendimento. Para meninos e homens, rivalidade e hos lidade não barram o caminho das boas relações. Em seu livro Você simplesmente não me entende, a lingüista Deborah Tannen relata diálogos hos s seguidos por conversas amistosas entre homens. Os homens usam o conflito para negociar status, e na verdade adoram digladiar-se, mesmo entre amigos. Quando os ânimos esquentam, muitos encontram um jeito de compensar depois com uma piada ou um pedido de desculpa, e assim mantêm os vínculos alternando entre a camaradagem e uma leve hos lidade. Por exemplo, empresários podem gritar e in midar em uma reunião e no intervalo contar piadas e rir enquanto vão ao banheiro. “Nada pessoal” é a pica frase masculina depois de um bate-boca.