Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 15 de 48

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Eu, primata

Força É Fraqueza

Há outra razão para exis rem menos manobras polí cas entre os bonobos: suas coalizões dependem de parentesco. Como a idade, o parentesco é dado: o filho não pode escolher a mãe. O bonobo macho precisa estar alerta para as oportunidades de ascender na escala social e, nesse sen do, ele não é menos compe vo do que o

chimpanzé. Mas, como tudo depende de sua mãe e da posição que ela ocupa em relação às outras fêmeas, o bonobo macho também precisa ser paciente. Ele tem menos oportunidades de moldar seu futuro do que o chimpanzé macho, que é livre para formar várias associações com outros machos. Alguns destes podem ser irmãos, mas ele também pode aliar-se a indivíduos não aparentados. Graças a essa situação muito mais flexível, a evolução fez dos chimpanzés machos estrategistas oportunistas, por natureza dotados de um temperamento apropriadamente agressivo e de um sico in midante. Têm músculos enormes, parecem brutos e ameaçadores ao lado dos bonobos machos, de silhueta delgada e flexível e expressão mais sensível. Portanto, a vida em uma sociedade matrifocal gerou um tipo de macho diferente. Não há nada de errado com o bonobo macho, embora a maioria dos homens não deseje ser como ele. O que ele não tem é o po de controle sobre seu próprio des no que seus parentes masculinos mais próximos, os humanos e os chimpanzés, consideram direito inato.

 

FORÇA É FRAQUEZA

Quando emergem tensões, os chimpanzés machos mantêmse juntos. Foi por isso que Yeroen, Luit e Nikkie estavam na mesma jaula naquela noite fatal. Os tratadores e eu queríamos que cada macho dormisse sozinho, mas é di cil controlar animais fortes como os chimpanzés. Assim que dois deles entram em uma mesma jaula noturna, o terceiro faz questão absoluta de juntar-se a eles. Não pode se dar ao luxo de ser deixado de fora. Como Luit poderia abortar um eixo hos l se não es vesse ali para impedir os outros dois de se entregarem a sessões de grooming? Na noite anterior à morte de Luit passamos horas tentando separar os três machos, mas em vão. Era como se es vessem grudados: espremiam-se para passar ao mesmo tempo pelas portas, agarrados aos quadris uns dos outros, de modo que nenhum ficasse para trás. Resignamonos a deixá-los na mesma jaula à noite.

A dinâmica de dois contra um é um problema bem conhecido em famílias humanas com trigêmeos: normalmente, um deles é deixado de fora pelos outros dois nas brincadeiras. Povos caçadores costumam dizer que os homens nunca devem par r em um grupo de três, pois apenas dois podem voltar vivos (ou seja, esses dois se voltam contra o outro). Compreendemos com facilidade as configurações triádicas. No xadrez, uma torre e um bispo podem sobrepujar uma rainha, e na vida real, para não estarmos sozinhos, pedimos a um amigo que interceda por nós. Os chimpanzés machos têm grande in midade com essa dinâmica, e parecem perceber a importância de suas coalizões. A luta interna entre parceiros de uma coalizão é tão ameaçadora que eles tentam desesperadamente reconciliar-se, em especial o indivíduo que tem mais a perder — em geral, o que está no topo. Yeroen e Nikkie sempre se apressavam a fazer as pazes depois de uma briga: precisavam preservar uma frente unida. Em um momento estavam correndo e gritando um com o outro, geralmente em compe ção por uma fêmea, e no outro se abraçavam e se reconciliavam com um beijo. Isso mostrava a todos os demais que eles pretendiam manter-se no poder. O dia em que não se reconciliaram foi o dia em que ambos caíram na hierarquia. Esse mesmo fenômeno ocorre entre candidatos rivais dentro de um par do polí co. Assim que um deles emerge como candidato oficial do par do, o perdedor trata logo de apoiá-lo. Ninguém deseja que a oposição pense que o par do está fragmentado. Os dois ex-inimigos dão-se tapinhas nas costas, sorriem juntos para as câmeras. Depois que George W. Bush ganhou a disputadíssima indicação para a candidatura republicana à presidência em 2000, seu rival, John McCain, enfrentou com um sorriso amarelo os repórteres que diziam duvidar de que ele es vesse disposto a perdoar e esquecer. McCain deu uma gargalhada e repe u várias vezes: “Apóio o governador Bush, apóio o governador Bush, apóio o governador Bush”. A polí ca de coalizões ocorre também na arena internacional. Certa ocasião, fui convidado para par cipar de uma equipe de trabalho interdisciplinar em Washington. Nosso grupo era uma mistura interessante de planejadores, antropólogos, psicólogos, gente do Pentágono, cien stas polí cos e um primatólogo (eu!). O encontro aconteceu logo depois da queda do Muro de Berlim. Esse acontecimento histórico significou muito para mim. Eu, que vivi na Holanda com a possibilidade de ter os ocupantes sovié cos da Alemanha Oriental à minha porta em duas horas, me lembrava desse fato toda vez que pesadas viaturas da OTAN passavam rugindo em uma estrada próxima. A suposição básica desse encontro era que passaríamos a viver em um mundo mais seguro, agora que uma das duas maiores potências militares do mundo estava desaparecendo no passado. Nossa tarefa era debater sobre o que esperar: como a nova ordem mundial funcionaria e que po de coisas boas os Estados Unidos poderiam fazer com seu recém-adquirido status de única superpotência. Acontece que eu não estava concordando com a premissa básica, pois o desaparecimento de uma potência não necessariamente dá carta branca a outra. Isso pode valer em um mundo mais simples, mas os americanos às vezes se esquecem de que seu país abriga menos de 4% da população do planeta. Seria fácil desconsiderarem minha avaliação da situação internacional, baseada como era no comportamento animal, se um dos cien stas polí cos não houvesse apresentado os mesmos argumentos, porém fundamentado na história militar. Nossa mensagem poderia ser resumida em três palavras enganosamente simples da teoria das coalizões: “Força é fraqueza”. Essa teoria é ilustrada à perfeição pela escolha de parceiro feita por Yeroen depois que perdeu sua posição. Por um breve período, Luit foi o alfa. Como era fisicamente o macho mais forte, podia lidar sozinho com a maioria dos problemas. Além disso, logo depois de sua ascensão, as fêmeas foram passando uma a uma para o seu lado, inclusive a mais importante: Mama. Na época ela estava prenhe, e é natural que as fêmeas nesse estado façam tudo para estabilizar a hierarquia. Apesar de sua posição confortável, Luit empenhava-se em desbaratar as reuniões dos demais machos, especialmente entre Yeroen e o único outro macho que representava uma ameaça, Nikkie. Às vezes essas cenas descambavam para a luta. Notando que os outros dois queriam sua amizade, Yeroen foi ganhando cada vez mais importância. Àquela altura, Yeroen nha duas escolhas. Podia associar-se ao contendor mais poderoso, Luit, e obter alguns bene cios em troca. Que po de bene cios, Luit decidiria. Ou poderia ajudar Nikkie a desafiar Luit e efe vamente criar um novo macho alfa, que deveria sua posição a ele, Yeroen. Já vimos que ele escolheu esta úl ma alterna va. Isso condiz com o paradoxo da “força é fraqueza”, que ensina que em geral o contendor mais poderoso é o menos atraente aliado polí co. Luit era forte demais, para seu azar. Juntando-se a ele, Yeroen pouco acrescentaria. Como superpotência da colônia, Luit na verdade não precisava mais do que a mera neutralidade do velho macho. Apoiar Nikkie foi uma escolha lógica para Yeroen. Ele seria o manipulador do fantoche e teria muito mais influência do que jamais poderia sonhar com Luit no topo. Sua escolha também se traduzia em crescente pres gio e acesso às fêmeas. Portanto, se Luit demonstrou o princípio “força é fraqueza”, Yeroen ilustrou o princípio correspondente: fraqueza é força. Os contendores menos fortes podem posicionar-se em uma intersecção que oferece grandes vantagens.

O mesmo paradoxo atua na esfera da polí ca internacional. Desde que Tucídides escreveu sobre a Guerra do Peloponeso, há mais de dois milênios, sabe-se que nações procuram aliados contra outras que julgam ser uma ameaça comum. O medo e o ressen mento impelem as partes mais fracas para os braços uma da outra, dando-lhes mais peso no seu lado da balança. O resultado é uma balança de poder na qual todas as nações detêm posições influentes. Às vezes um único país é o principal “equilibrador”, como foi a Grã-Bretanha na Europa antes da Primeira Guerra Mundial. Por ter uma Marinha forte e ser pra camente imune a invasões, a Grã-Bretanha estava em posição ideal para impedir qualquer potência do continente de prevalecer. Resultados contra-intui vos não são incomuns. Consideremos, por exemplo, um sistema parlamentar no qual seja necessário o voto majoritário entre cem membros e existam três par dos, dois com 49 lugares e um com apenas dois. Qual seria o par do mais poderoso? Em tais circunstâncias (que exis ram realmente na Alemanha na década de 1980), quem dá as cartas é o par do com dois votos. As coalizões raramente são maiores do que precisam ser para vencer, já que os dois par dos grandes não desejam governar juntos. Ambos cortejarão o partido menor, dando-lhe um poder desproporcional. A teoria da coalizão também menciona as “coalizões vencedoras mínimas”, nas quais os par cipantes preferem integrar uma coalizão grande o bastante para prevalecer, mas pequena o suficiente para que eles ali sejam importantes. Visto que aliar-se ao par do mais forte dilui as recompensas, essa raramente é a opção preferida. Mesmo se no futuro previsível os Estados Unidos viessem a ser o mais poderoso ator no cenário global tanto na esfera econômica como na militar, isso de modo algum garan ria sua inclusão em coalizões vencedoras. Ao contrário, o ressen mento emergiria automa camente, levando, em contrapeso, à formação de coalizões entre outras potências. Foi sobre a teoria das coalizões que falei no encontro interdisciplinar, supondo ser essa uma idéia amplamente aceita. Mas meus comentários foram recebidos por semblantes visivelmente insa sfeitos. O Pentágono, pelo visto, não estava planejando com base em nenhum cenário de “força é fraqueza”.