Eu, primata
Sexo
Doutores no Kama sutra
Essa espécie singular e altamente bem-sucedida passa boa parte do tempo examinando os seus motivos
mais elevados e um tempo igual desconsiderando os fundamentais. Orgulha-se de possuir o maior
cérebro de todos os primatas, mas tenta esconder o fato de que também tem o maior pênis.
Desmond Morris
Em afinidade com nossos despreocupados, folgazões e iletrados parentes, os adoráveis primos bonobos.
Graças à Vida por eles.
Alice Walker
Um tratador do zoológico acostumado a trabalhar com chimpanzés foi apresentado aos bonobos e aceitou um beijo de um de seus novos amigos primatas. Para os chimpanzés, um beijo é um ato de amizade, e não sexual. Imaginem a surpresa do homem quando sentiu a língua do primata em sua boca!
O beijo de língua é um ato de confiança total: a língua é um dos nossos órgãos mais sensíveis, e a boca é a cavidade corporal que pode danificá-la com a maior rapidez. O ato permite-nos saborear o outro. Mas ao mesmo tempo trocamos saliva, bactérias, vírus e alimento. Sim, alimento. Em nossos dias, podemos pensar em adolescentes trocando chicletes, mas supõe-se que o beijo de língua originou-se da alimentação da cria pela mãe. E as mães primatas realmente passam pedacinhos de alimento mas gado aos filhotes espichando o lábio superior e introduzindo-o na boca aberta do bebê. É aí, evidentemente, que entra a língua.
O beijo de língua é o ato eró co mais reconhecível dos bonobos, e o que mais lembra os humanos. Sempre que mostro a uma classe de estudantes universitários um filme sobre meus bonobos, os alunos ficam muito quietos. Assistem a todo po de relação sexual, mas invariavelmente a mais forte impressão é causada por um clipe de um beijo de língua entre dois machos juvenis. Embora ninguém possa ter certeza do que exatamente está acontecendo, aquilo parece tão ardente, tão profundo, com as bocas muito abertas sobrepostas, que pega os meus alunos de surpresa. Nenhum ator de cinema consegue pôr o mesmo empenho que esses jovens no ato. E o engraçado é que eles passam imediatamente para uma simulação de luta ou irrompem num pega-pega brincalhão. Para os bonobos, o contato eró co mistura-se livremente a tudo o mais que fazem. Podem passar rapidamente da comida ao sexo, do sexo à brincadeira, de uma sessão de grooming a um beijo e assim por diante. De fato, já vi fêmeas con nuarem a coletar alimento enquanto eram cobertas por um macho. Os bonobos levam o sexo a sério, mas não tanto quanto uma sala de aula lotada de universitários. Nós, humanos, separamos o sexo da nossa vida social, ou pelo menos tentamos fazê-lo, mas na sociedade bonobo as duas coisas estão totalmente interligadas. É uma ironia humana que as nossas folhas de parreira só façam despertar uma insaciável curiosidade sexual.