Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 35 de 48

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Eu, primata

Bondade

 

Corpo com sentimentos morais

Todo e qualquer animal dotado de instintos sociais bem definidos [...] inevitavelmente adquirirá senso

ou consciência moral assim que suas faculdades intelectuais se tenham tornado tão bem desenvolvidas,

ou quase tão bem desenvolvidas, quanto no homem.

Charles Darwin

Por que nossa perversidade deveria ser a bagagem de um passado simiesco e nossa bondade

unicamente humana? Por que não procurar a continuidade com outros animais também para as nossas

características “nobres”?

Stephen Jay Gould

Fazia onze anos que eu não via Lolita. Fui até sua jaula e assim que a chamei ela se aproximou depressa e me saudou com grunhidos arfantes, um comportamento que os chimpanzés não têm para com estranhos. É claro que nos lembrávamos um do outro. Quando ela ainda vivia na Estação de Campo Yerkes, nos víamos todo dia e nos dávamos muito bem.

Lolita é especial para mim em razão de um ato seu, único e encantador, que me deixou claro o quanto os grandes primatas não humanos são subes mados. É di cil ver bem um grande primata recém-nascido, uma simples bolinha escura grudada na barriga escura da mãe. Mas eu estava ansioso por ver o bebê de Lolita, nascido no dia anterior. Chamei-a para longe do grupo e apontei para seu ventre. Lolita me olhou, sentou-se, pegou a mão direita do filhote com sua mão direita, e a esquerda dele com a sua esquerda. Parece simples, mas, como o bebê estava agarrado a ela, foi preciso cruzar os braços para fazê-lo. O movimento lembrou uma pessoa que ao rar a camiseta cruza os braços para pegá-la pela bainha. Lolita foi erguendo e girando devagar o bebê até que ele ficasse de frente para mim. Suspenso nas mãos da mãe, o bebê agora olhava para mim, e não para ela. Depois de algumas caretas e gemidos —os infantes detestam perder contato com o ventre quentinho —, Lolita pôs depressa o bebê de volta no colo. Com esse pequeno e elegante movimento, Lolita demonstrou perceber que eu acharia o rosto de sua cria mais interessante do que suas costas. Ver-se da perspec va de outro representa um salto colossal na evolução social. Nossa regra de ouro, “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”, pede que nos coloquemos no lugar da outra pessoa. Consideramos unicamente humana essa capacidade, mas Lolita mostrou que não temos a exclusividade. Quantos animais seriam capazes disso? Já descrevi como a bonobo Kuni tratou um passarinho ferido quando o encontrou em sua jaula. Ao tentar fazê-lo voar, Kuni reconheceu as necessidades de um animal totalmente diferente dela própria. Não faltam outros exemplos de bonobos que perceberam as necessidades de outros. Um desses exemplos é o de Kidogo. Doente cardíaco, ele era fraco, não nha a energia e autoconfiança normais em um bonobo macho crescido. Quando foi introduzido na colônia do Zoológico de Milwaukee, Kidogo ficou todo confuso com a mudança de comando dos tratadores naquela jaula desconhecida para ele. Não sabia o que fazer quando as pessoas lhe diziam para ir de uma parte do sistema de túneis a outra. Depois de algum tempo, outros bonobos interferiram. Aproximaram-se de Kidogo, pegaram-no pela mão e o conduziram para o lugar indicado pelos tratadores, mostrando assim que entenderam tanto as intenções dos tratadores como o problema de Kidogo. Este logo passou a depender da ajuda deles. Quando se perdia, gritava aflito e outros apareciam sem demora para acalmá-lo e guiá-lo.

O fato de animais se ajudarem mutuamente está longe de ser uma observação nova, mas ainda assim é intrigante. Se o que importa é só a sobrevivência dos mais aptos, os animais não deveriam abster-se de tudo o que não os beneficia? Por que auxiliar outro a resolver um problema? Há duas teorias principais. Uma, de que tal comportamento evoluiu para ajudar familiares e prole, portanto indivíduos gene camente aparentados. Isso favorece também os genes de quem ajuda. Essa teoria de que “o sangue fala mais alto” explica, por exemplo, o sacri cio das abelhas, que dão a vida pela colméia e pela rainha quando picam um intruso. A segunda teoria segue o princípio de que “uma mão lava a outra”: se os animais ajudarem os que retribuírem o favor, ganham os dois lados. A ajuda mútua pode explicar as alianças polí cas, como entre Nikkie e Yeroen, que se apoiaram reciprocamente e partilharam os ganhos de poder e os privilégios sexuais. Ambas as teorias relacionam-se com a evolução do comportamento, mas nenhuma nos diz muito sobre mo vos reais. A evolução depende do êxito de uma caracterís ca ao longo de milhões de anos; os mo vos originam-se aqui e agora. Por exemplo, o sexo trabalha para a reprodução, mas quando os animais se acasalam não é porque desejam reproduzir-se. Eles desconhecem a ligação; os impulsos sexuais são separados da razão de o sexo exis r. As mo vações têm vida própria, e por isso é que as descrevemos com base em preferências, desejos e intenções, e não no seu valor para a sobrevivência. Consideremos os bonobos do zoológico que ajudaram Kidogo. Claramente nenhum deles era seu parente, nem podia esperar muita ajuda em retribuição daquele indivíduo debilitado. É possível que simplesmente gostassem de Kidogo ou se sensibilizassem com ele. Do mesmo modo, Kuni demonstrou preocupação com uma ave, apesar do fato de que o comportamento de ajuda sem dúvida não evoluiu nos bonobos em bene cio de não-bonobos. Mas, uma vez exis ndo uma tendência, ela pode afastar-se livremente de suas origens. Em 2004, na cidade de Roseville, Califórnia, um labrador preto chamado Jet pulou na frente de seu melhor amigo, um garoto que estava prestes a ser mordido por uma cascavel, e recebeu o veneno. Foi considerado um herói. Não pensou em si mesmo. Era um genuíno altruísta.

Isso mostra os riscos que os animais estão dispostos a correr. A grata família do menino gastou 4 mil dólares em transfusões e honorários de veterinários para salvar seu animal de es mação. Um chimpanzé do zoológico foi menos afortunado quando deu a vida em uma tenta va fracassada de salvar um infante de sua espécie, que caíra na água por descuido da mãe. Como esses primatas não sabem nadar, entrar na água requer inexprimível coragem. O comportamento altruísta é comum em humanos. Uma vez por semana, o jornal de Atlanta no cia “atos de bondade fortuitos”: relatos de pessoas que foram ajudadas por estranhos. Uma idosa contou sobre o dia em que seu marido, de 88 anos, estava voltando para casa quando encontrou um pinheiro enorme tombado na entrada da garagem. Um motorista desconhecido que passava desceu de sua picape, cortou a árvore com a motosserra que trazia no veículo e carregou os pedaços para um canto, limpando o caminho para o carro do casal. Quando a mulher saiu para pagar ao homem pelo trabalho, ele já se fora.