Eu, primata
Verniz de Civilização
Às vezes o sexo entre bonobos é su l. Uma jovem fêmea tentou passar por um macho ainda mais jovem que estava bloqueando seu caminho em um galho de árvore. O macho não arredou pé, receando cair, talvez. A fêmea pôs-lhe os dentes na mão que segurava o galho, piorando a situação. Mas, em vez de morder, ela se virou e roçou o clitóris no braço do macho. Eram ambos imaturos, mas esse é o jeito bonobo de resolver conflitos, uma tá ca iniciada cedo na vida. Depois desse contato, a fêmea calmamente passou por cima do macho e seguiu seu caminho pelo tronco. Ao voltar de San Diego para minha cidade, impressionou-me o contraste com os chimpanzés. Trabalho com cerca de quarenta chimpanzés que vivem ao ar livre na Estação de Campo do Centro Nacional de Pesquisa sobre Primatas Yerkes, próximo a Atlanta. Conheço-os há muito tempo, e os vejo como personalidades dis ntas. Eles também me conhecem bem, e a recepção que me deram foi a mais ansiada por todo pesquisador: trataram-me como a uma peça da mobília. Fui até a cerca dizer olá a Tara, de três anos; sua mãe, Rita, estava sentada no alto de um trepa-trepa. Rita limitou-se a relancear os olhos para nós, após o que prosseguiu fazendo grooming em sua própria mãe, avó de Tara. Se fosse um estranho a passar por perto, Rita, que é muito protetora, imediatamente teria descido num salto para pegar a filha. Sen -me honrado com seu desinteresse. Notei um corte profundo recém-aberto no lábio superior de Socko, o segundo macho na hierarquia. Só um outro poderia ter feito isso: Bjorn, o macho alfa. Bjorn é menor do que Socko, mas é muito esperto, irascível e perverso. Mantém os outros sob controle à base de luta suja. Essa é a conclusão a que vemos de chegar ao longo dos anos, observando a técnica de combate de Bjorn e as cicatrizes que ele deixa nas ví mas em locais incomuns, como o ventre ou o escroto. Socko, grandalhão e pesado, não é páreo para Bjorn e, por isso, tem de viver sob o jugo desse ditador nanico. Mas, para sorte de Socko, seu irmão mais novo está na arrancada final de crescimento e não vê a hora de andar em sua companhia. E isso decerto vai criar problemas para Bjorn dentro em breve.
Fervilha no Centro Yerkes a polí ca de poder dos machos, a interminável saga da sociedade dos chimpanzés. Em úl ma análise, essas batalhas são travadas pela posse das fêmeas, o que significa que a diferença fundamental entre nossos dois parentes mais próximos é que um resolve as questões de sexo com poder, e o outro, as questões de poder com sexo.
VERNIZ DE CIVILIZAÇÃO
Quando abri o jornal no avião que me levava de Atlanta para Charleston, na Carolina do Sul, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a manchete “Lili a ngirá Charleston”. Fiquei preocupado. Lili era um furacão dos grandes, e a devastação do Hugo no ano anterior ainda estava bem viva na memória de todos. Mas Lili desviou-se de Charleston, e a tempestade que se abateu foi meramente acadêmica. A conferência de que par cipei nha por tema a paz mundial e as relações humanas pacíficas. Fui convidado para apresentar meu trabalho sobre resolução de conflitos entre primatas. Sempre é diver do especular acerca da razão de as pessoas se dedicarem a certas áreas do conhecimento, e ocorre que as pesquisas sobre a paz atraem uma turma belicosa. Nesse encontro, dois eminentes defensores da paz travaram uma batalha de berros porque o primeiro disse alguma coisa a respeito de estudos sobre esquimós, com o que o outro prontamente o acusou de a tudes colonialistas, ou mesmo racistas, pois o certo é referir-se a esse povo como inuíte. Segundo o livro de Jean L. Briggs Never in anger [Jamais com raiva], os inuítes fazem todo o possível para evitar diálogos que mesmo remotamente dêem a impressão de hos lidade. Quem porventura ergue a voz arrisca-se ao ostracismo, uma punição potencialmente letal no meio em que eles vivem. Alguns dos presentes nesse encontro sem dúvida teriam sido postos no gelo. Sendo ocidentais, porém, evitar confronto não constava do nosso roteiro. Eu já imaginava mais uma manchete nos jornais, talvez assim: “Conferência de paz termina em sopapos”. É o único evento acadêmico em que já vi homens adultos deixarem o recinto batendo a porta como crianças. Em meio a tamanha encenação, houve quem ousasse se perguntar, com profundas rugas de inves gação cien fica na testa, se o comportamento humano realmente é comparável ao dos outros grandes primatas. Por outro lado, par cipei de muitos encontros do Clube da Agressão, um grupo acadêmico holandês no qual sempre reinaram a civilidade e a calma. Embora eu fosse na época apenas um estudante de pós-graduação, permi ram que me juntasse a psiquiatras, criminologistas, psicólogos e etologistas que se reúnem regularmente para debater sobre agressão e violência. Naquele tempo, as idéias dos evolucionistas invariavelmente giravam em lorno da agressividade, como se nossa espécie não vesse outras tendências comportamentais a serem estudadas. Era como um debate sobre pit bulls no qual o tema principal se resumisse sempre em aquilatar o quanto esses cães são perigosos. Mas o que diferencia os humanos dos pit bulls é o fato de não termos sido sujeitos a reprodução sele va des nada a formar lutadores. A pressão de nossa mandíbula é ínfima, e nosso cérebro certamente não precisaria ser do tamanho que é se a única caracterís ca importante fosse a capacidade de matar. Mas estávamos no pós-guerra, e a agressividade humana era o pivô de todos os debates. Com suas câmaras de gás, execuções em massa e destruição premeditada, a Segunda Guerra Mundial mostrou o pior do comportamento humano. Além disso, quando o mundo ocidental fez o inventário depois que a poeira baixou, foi impossível ignorar a selvageria come da no coração da Europa por pessoas que, não fosse por aquilo, seriam consideradas civilizadas. As comparações com animais foram generalizadas. Os animais não têm inibições, argumentou-se. Não têm cultura, portanto deve ter sido algo animalesco, algo em nossa cons tuição gené ca que rompera o verniz de civilização e atropelara a decência humana. Essa “teoria do verniz”, como a denomino, tornou-se um tema dominante no debate pós-guerra. No fundo, nós, humanos, somos violentos e amorais. Uma série de livros populares explorou essa questão com a hipótese de exis r em nós um incontrolável impulso agressivo que procuramos extravasar na guerra, na violência e até nos esportes. Outra teoria dizia que nossa agressividade é uma novidade, que somos os únicos primatas que matam os de sua própria espécie. Não houve tempo para que as inibições apropriadas evoluíssem nos humanos. Como resultado, não temos nosso ins nto de luta sob controle em um grau equivalente ao dos “predadores profissionais”, como lobos e leões. Somos presas de um temperamento violento e não temos recursos para dominá-lo. Não é difícil ver nisso a semente de uma racionalização da violência humana em geral e do Holocausto em par cular, e decerto não ajudou o fato de a principal voz da época falar alemão. Konrad Lorenz, renomado especialista austríaco em peixes e gansos, foi o grande defensor da idéia de que a agressão está em nossos genes. Matar tornou-se a “marca de Caim” da humanidade. Do outro lado do Atlân co, idéia semelhante foi defendida por Robert Ardrey, jornalista americano inspirado em especulações de que o Australopithecus deve ter sido um carnívoro que engolia vivas suas presas, esquartejando-as membro a membro e matando a sede com seu sangue quente. Essa foi uma conclusão imagina va baseada em um punhado de ossos cranianos, mas Ardrey fundamentou nela o seu mito do primata assassino. Em African genesis [Gênese africana], ele retratou nosso ancestral como um predador mentalmente desequilibrado que perturbava o precário equilíbrio da natureza. Na demagógica prosa de Ardrey: “Nascemos não de anjos caídos, e sim de primatas elevados, e primatas que eram assassinos armados. Assim, o que seria de espantar? Nossos assassinatos, massacres e mísseis? Nossas hostes irreconciliáveis?”.
Por incrível que pareça, a onda seguinte de biologia pop conseguiu ir além. Na mesma época em que Ronald Reagan e Margaret Thatcher pregavam que a ganância era benéfica à sociedade, à economia e certamente àqueles com qualquer razão para serem gananciosos, biólogos publicaram livros que apoiavam tais idéias. O gene egoísta, de Richard Dawkins, ensinava que, como a evolução ajuda quem se ajuda, o egoísmo devia ser visto como uma força indutora de mudança, e não uma falha que nos arrasta ladeira abaixo. Podemos ser primatas perversos, mas isso é explicável e benéfico para o mundo. Um probleminha — levantado em vão por implicantes — era a linguagem enganosa desse gênero de literatura. Genes que produzem caracterís cas bem-sucedidas disseminam-se pela população, portanto promovem a si mesmos. Mas referir-se a eles como “egoístas” não passa de metáfora. Uma bola de neve que rola pela encosta e vai juntando mais neve também promove a si mesma, mas não costumamos chamar as bolas de neve de egoístas. Levada ao extremo, a idéia de que tudo é egoísta faz do mundo um pesadelo. Com excelente faro para a capacidade de chocar, esses autores nos arrastam para uma arena hobbesiana onde é cada um por si e onde as pessoas demonstram generosidade apenas para lograr os outros. Desconhece-se o amor, a solidariedade inexiste e a bondade é mera ilusão. A mais conhecida citação desse período é a do biólogo Michael Ghiselin, e diz tudo: “Arranhe um altruísta e verá um hipócrita sangrar”.