O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 8 de 46

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O Meu Irmão

A janela do Quim, no canto superior…

A janela do Quim, no canto superior direito, é ainda mais pequena do que a do velho depois de Ponte de Telhe. Enquadra-lhe a cara e pouco mais. Entre cortinas, ele acena mas sem entusiasmo. Olha, desvia os olhos, simula fechar as cortinas só para as abrir mais. Parece um animal enfezado que passa, como pode, os olhos entre as grades da gaiola onde o fecharam, ou onde se fechou.

Não percebo porque me observa assim, entre temerário e a medo, como se dispusesse de apenas alguns momentos antes de uma sombra passar entre nós. Ouço o berro «Quim, sai-me daí!» e ele recua, mas fica sentado no banco atrás das cortinas.

Consigo vê-lo. Despe a camisola, tira a camisa e nisto some-se metade do seu tamanho. O tronco nu, vazio de carne. Coça as feridas que o sangue coagulado denuncia e alisa a pele roxa do antebraço até às mãos, e ao fazê-lo ganha um pouco mais de humanidade, como se fosse outra mão a consolá-lo, não a sua. A fricção aquece-lhe o braço e amolece o cotovelo.

Sigo pelo lado de Meitriz. Desde que o meu pai morreu, sinto cada vez mais a urgência de me assemelhar a ele, mas, como em outras intenções, fico-me pelo acessório e imito-lhe apenas os gestos exteriores, nunca consigo assimilar a essência. Quero ser ele, preciso de ser ele, mas faltam-me as qualidades. Por isso saí para dar um daqueles passeios ao cimo do monte em que o meu pai aproveitava para reflectir, ou para «estar nas leituras» (dizíamos quando levava um livro como Deus Acredita no Homem debaixo do braço), mas que comigo servem apenas para esticar as pernas, encher os pulmões de ar, e nada mais.

O olhar do Quim é dos que devoram. Não sei o que significa, mas sei que me quer apagar do campo de visão, como se eu o incomodasse ou ferisse.

No alto do cabeço havia uma cruz. Era baixa e quase não se via. O meu pai trepava por ali acima e, mesmo velho, chegava aos pés da cruz socorrendo-se de um bordão. Com o seu exagero de sempre, julgava que subira ao calvário. Na verdade, a cruz era pequena de mais para encabeçar um calvário. Pedras que o povo lá ergueu para sentir uma presença a zelar. Deste lado vejo o cabeço, que fica perto da nossa casa, mas não vejo a cruz. Desapareceu. E agora, se quisesse imitar o meu pai e subir àquele calvário, já não podia, porque deixou de existir uma cruz no topo do monte.

Continuando: no fundo, é um olhar de inveja. Como sei por experiência os danos que a inveja pode causar, afasto-me ainda mais da janela, que é agora um quadrado ao longe, montes em volta, céu, espaço, e no centro de tudo uma cara que ainda me tenta observar enquanto estica a pele da testa e veste a camisola. Uma cara que é um ponto ao longe.

De cima do monte, o Tojal tem o tamanho de uma mão. É um daqueles lugares que Portugal deixou morrer, mas agora, com o descalabro – e de certa forma foi para nos afastarmos dele que fugimos durante uns dias –, talvez as pessoas voltem à toca para lamber as feridas. O descontentamento sobe pelas paredes, rebenta com o betão, mas não sai do sítio. Implodimos mais do que explodimos e tudo fica na mesma, a não ser, claro, as nossas circunferências, que estão desfeitas. Vivemos como sacos de carne podre, muito bem fechados e contidos mas a morrer por dentro. As manifestações não são mais do que uma ruptura nessa morte, como os afogados que ainda tentam respirar antes de a água os engolir.

As nuvens já taparam o sol e faz-se noite. A igreja, a única pedra branca do Tojal, escureceu e quase desaparece de vista. Começo a descer.

Quando isto acabar, quando a crise tiver outro nome, sobreviveremos cada um para o seu canto, cada um mais estropiado do que o outro. Depois, aos poucos, voltará tudo ao normal e certo dia, um belo dia em Lisboa, daqueles que Lisboa tem, como já ninguém se lembra do descalabro e até está uma brisa agradável, alguém arranjará como nos lixar outra vez.

Mas, enfim, que sei eu? Não passam de considerações à vista de uma aldeia abandonada. Tanto me faz o destino destas casas, esta não é a minha toca, quando viemos para cá não regressámos à terra. Conquistámo-la, quisemos um local de férias para nos afastarmos do mundo. E depois tanto me faz o destino de Portugal. Sou daquelas pessoas que se preocupam pouco com a casa onde vivem.

No entanto, agora penso que fugir do mundo foi um erro, porque nos colocámos no centro dele. Por exemplo, o meu irmão e eu. Não tenho outro remédio senão olhar para ele, habitar com ele num espaço confinado onde não nos podemos distrair. Isto obriga-me a pensar no que ele representa para mim

Entre outras coisas, a ausência dos meus pais.

e no que eu represento para ele. Sim, moramos juntos no Porto, e aí também sou obrigado a confrontar-me com ele, mas à mínima contrariedade posso sair, ir ao cinema, à biblioteca, à faculdade, a uma exposição. Sítios que ele não entenderia. Aqui, não. Para me entreter, só uma ideia: sou guarda do meu irmão e pergunto-me se estarei a fazer um bom trabalho.

Aqueles que vão a retiros não o fazem para se afastarem do mundo, mas para entrarem nele mais completamente. É isso.

Desço pelo lado de Arouca e passo outra vez à frente da janela. As cortinas foram corridas, o Quim deve estar na cozinha, o único sítio quente daquela casa. Vejo o fumo pela janela entreaberta acompanhado pelo som de carvão a desfazer-se.

Regresso a casa. O Miguel ligou todas as luzes. Ao pé da lareira, dois troncos atirados ao chão e um quase lá dentro. Fósforos em volta, uns pretos, outros não, e uma pinha ainda a fumegar. Queria fazer uma surpresa. Apetece-me abraçá-lo e ao mesmo tempo dar-lhe um berro pelo perigo de brincar com fósforos. Mas não era a brincar, ele concentrou toda a boa intenção na ponta de um fósforo, várias vezes seguidas a riscá-lo durante o tempo em que estive fora. Era eu chegar, a surpresa, a lareira acesa, a mesma lareira que eu não conseguira acender, as luzes ligadas e um sorriso de troça. «Ó aqui o que consegui», diria.

Lembro-me de quando ainda dormíamos no mesmo quarto e eu já estava encasulado na cama e não me apetecia tirar um livro da estante. Pedia-lhe para o ir buscar. A reacção era imediata, saltava da cama como um soldado e estava pronto a ajudar, só que chegava à estante e qual dos livros era, se havia tantos? O da direita; e ele percorria os olhos para a esquerda. O de cima; e ele esticava a mão para baixo. Mesmo à frente; e ele tirava o livro exactamente ao lado. Eu desistia e nos dias em que estava bem-disposto fingia ler o livro errado que ele me dava. Depois pousava-o e desligava a luz. No escuro, o Miguel rilhava os dentes de satisfação porque conseguira acertar no livro.

Na mesa da cozinha estão duas torradas acabadas de fazer, a manteiga ainda a derreter em talhadas, e uma meia de leite. O Miguel barrou a manteiga em dois fios paralelos. Deve ter falhado várias vezes antes de conseguir linhas assim tão paralelas, e surpreende-me que mãos desajeitadas, mãos que não sabiam lidar com animais pequenos, sejam capazes de tanta minúcia. Está sentado à mesa. «Pa ti», e estende-me uma torrada.

Tanto trabalho e a torrada ficou queimada. Ainda bem que me deu a mais pequena.

Ponho-lhe o braço sobre o ombro e apoio o meu peso em cima dele. Esfrego-lhe a cabeça, que é como quem agradece, e ele sabe-o. No entanto, não se deu a tanto trabalho – a lareira, as luzes, as torradas, a meia de leite, e sonegar o «Hum!» – só para me agradar. Se o conheço, daqui a pouco recomeçarão as perguntas intermináveis sobre tudo e especialmente sobre uma coisa, a mesma de todos os dias, aquela presença da qual não se consegue livrar. Perguntas a que eu dou a mesma resposta, mas que ele faz questão de ouvir sempre repetida e sempre mais ríspida.

– Diz lá…

Ele é ingénuo, mas não é inocente, ou o contrário. Não fala logo e incentiva-me a comer a torrada, só depois pergunta

– A Luciana?

– Já te disse que não sei. Está mas é calado. Vai para o teu quarto.

Por hoje a conversa fica por aqui.