O Meu Irmão
Ponte de Telhe é uma farpa humana…
Ponte de Telhe é uma farpa humana nas costelas do monte. Quem lá vive frequenta o café. O café fica em frente à estrada, e do outro lado da estrada a terra cai até ao rio. Quem lá vive frequenta a igreja. A igreja fica em frente à estrada, e do outro lado da estrada a terra cai até ao rio. Quem lá vive frequenta o clube cultural. O clube cultural fica em frente à estrada, e do outro lado da estrada a terra cai até ao rio.
Os cinquenta e três habitantes de Ponte de Telhe prestam por isso homenagem à própria estrada. Todos os dias, caso não chova, sentam-se em cadeiras, em geral às três da tarde, e observam os poucos transeuntes como quem possui a estrada. Olhá-los é olhar a estrada, é ver o caminho.
Mas são mensageiros da desgraça. Está tudo velho, nada presta. Este país morreu. Fomos nós que o matámos, nós pomos-lhe as mãos ao pescoço. Apertámos sempre. A estrada não acaba ali, nada acaba ali, somos todos iguais e os políticos também, as mulheres perderam a beleza que nunca tiveram e os homens já não lhes conseguem prestar assistência, se é que alguma vez as assistiram. O café servido no Beira do Rio vem aguado, o filho da senhora do café foi para o Porto e vive com a namorada. Nesta vida só a bilha do gás é renovável e mesmo assim cobram taxa, e além do mais os pássaros já não podem cantar.
Por isso visito Ponte de Telhe como último recurso.
A farpa humana incomoda o monte, enfia-se na pedra como chaga cada vez menos aberta mas cada vez mais dolorosa. A cicatriz ficará suturada quando os velhos morrerem, os novos partirem e as viúvas se fecharem à janela até também elas morrerem na cama que partilharam com os que partiram. Aí, momentos antes, dirão «Meu querido, meu amor», mas ele morreu há muito e só agora, prestes a juntarem-se a ele, sentem a sua falta. Depois o monte e o rio lavarão os vestígios da farpa deixando uma cicatriz muito fina, e não sobrará nada além de ruínas onde nem o toque do homem será perceptível.
Dir-se-á que foi responsabilidade da natureza.
Chegámos há poucos dias ao Tojal e já estou farto disto. Trouxe livros, mas os livros não me interessam depois de vinte anos a lê-los como profissional. Finjo embrenhar-me nas páginas, mas na verdade toco-as mais com os dedos do que com os olhos.
Apesar de farto, só quero sair por uma hora. Descansar do Tojal e do meu irmão. Recuperar a distância entre nós.
Do Tojal a Ponte de Telhe vão sete quilómetros por aquelas curvas que já descrevi, por aquelas curvas que já percorri. As curvas do primeiro capítulo, segundo parágrafo desta espécie de confissão em forma de livro.
Estaciono ao lado das bilhas de gás protegidas por uma gaiola de ferro com o cadeado aberto. Pertencem ao café e a mulher que lá trabalha consegue alçá-las para a caixa de um camião ou para a mala de um jipe. Ela intimida os adoradores da estrada porque tem ombros largos, cabelo curto e talvez até tatuagens. Ninguém sabe aonde as vai fazer.
Os adoradores não a ajudam, deixam-na passar de bilha ao ombro, sorriem e dizem «Valente, força nisso!», mas entre si chamam-lhe «o mulherão». Já preparam as cadeiras perto da armação do gás. Observam-me enquanto saio do carro. Um deles move a placa dentro da boca, fazendo saltar os dentes. Diz «Botarde».
Entro no Beira do Rio. Na parede da esquerda, ao lado de um trofeuzinho de primeiro lugar num concurso de columbofilia, uma fotografia do Desportivo de Ponte de Telhe em 1978 com os jogadores de cabelo comprido.
Por baixo da fotografia, sentado numa mesa redonda que só comporta o copo de aguardente e os braços apoiados, um homem meio corcunda e de cabelo brilhante penteado para trás observa a orla do copo e passa a língua na zona pegajosa que ficou por lamber. Provavelmente foi um dos jogadores. Depois de lambuzar os dedos, disfarça um arroto.
Espero que não me incomode.
A mulher das bilhas de gás serve os cafés. Mantém-se atrás do balcão como um soldado na trincheira. Vê-me encolhido perante ela e tenta sorrir, pôr-me à vontade.
O zumbido da máquina de café antecede a mulher, que diz «Está avariada». Ao lado, a arca revela sardinhas bem alinhadas de olhos abertos e vidrados. «São espanholas. Este ano as nossas vieram magras», comenta ela apoiando-se na banca. Resta o naco de presunto esfiapado sobre a madeira, porém ela informa que «Está seco», e as batatas ensacadas a um canto, que «São cá da terra, mas estão greladas».
Pergunto
– Então, o que é que a senhora quer que eu leve daqui?
– Daqui? Acho que nada, a não ser aqueles restos de cebola. Está precisado?
Penso «Não estou precisado» sem alterar a expressão, não vá ela perceber.
O homem da mesa redonda levanta-se, coloca-se ao pé de mim e lança o braço sobre o meu ombro. Depois diz, olhando para a empregada
– Ó mulher, deixa lá o homem em paz. O que ele quer é pinga.
O líquido que lhe escorre do braço, algo como suor envolto em álcool, pinga no meu ombro.
– Não quero, obrigado – digo. – Só vim beber um café, mas pelos vistos a máquina está avariada, as sardinhas são espanholas, o presunto seco e as batatas greladas. E sei lá mais o quê. Não levo nada.
Desenlaço-me dele pegando-lhe no braço e colocando-o no balcão, mas ele continua
– Não não não. O que o senhor quer é aguardente da terra. Fazemo-lo do medronho, que nem ginjas. Mas olhe que eu conheço-lhe a cara. O senhor não é filho dos senhores que compraram uma casa no Tojal? Uns advogados?…
– Quais advogados… E o senhor fala como se isso tivesse sido ontem. Foi há mais de vinte anos.
– Pois eu sei. Mas compraram ou não compraram? E é filho ou não é?
– Sim, a casa é minha. Herdei-a dos meus pais, esses grandes advogados.
– Eu não dizia que eram advogados?
– Dizia e bem, uns excelentes advogados.
– Então a modos que está tudo certo.
– Está.
– Mas diga-me outra coisa – continua ele, pousando três copos desalinhados na mesa. – Não vinha cá há muito tempo.
– Não vinha, não.
– Até muito tempo antes dos senhores advogados não voltarem cá mais.
– Sim.
– E agora volta. Veio sozinho.
– Vim com o meu irmão.
– Também é advogado?
– Também sou advogado.
– Não… O seu irmão. Eu perguntava o seu irmão.
– Também é advogado. E eu vou aconselhar-lhe uma coisa. Beba menos.
– Mas se não beber isto não é bom para mim.
– Talvez os outros lidem melhor consigo se não beber.
Aqui a mulher intervém puxando-me pelo braço. «Não me estrague o negócio, senhor doutor.»
Olho pela primeira vez para a cara do homem e digo
– Está bem, então quer beber. Beba lá uma por minha conta. Eu acompanho-o. Diz que a aguardente daqui é boa?
– Pois está claro que é boa, senhor advogado. Tudo o que eu bebo é bom.
– Então bota abaixo – remato.
O ácido entra-me pela garganta e domina as vias respiratórias e espreita por trás dos olhos. Mal consigo respirar.
– É muito bom, pois é – tusso.
Mas o homem insiste.
– Ora agora diga-me uma coisa. O senhor que é de famílias de advogados, irmão e tudo, o que é que acha que eu devo fazer com um terreno que tenho ali do outro lado da estrada?
– Do lado de lá da estrada?
– Sim, do outro lado da estrada.
– Do outro lado da estrada, na queda de trinta e tal metros para o rio?
– Sim.
– Bem, venda-o a um palerma qualquer.
– Mas fui eu que o comprei!
– Ah, bem… Venda-o, seja como for.
– Onde é que eu vou arranjar alguém, agora do pé para a mão?
Já tentei arranjar um comprador e foi como andar de Pôncio para Pilatos.
– O quê?… Enfim, ponha na Internet, sei lá, no OLX, ou vá a
Arouca ou ao Porto falar com alguém. Pesca-os de certeza, com algum jeitinho.
Viro-me para sair. Não compro nada mas pelo menos já paguei
dois copos. Contudo, o homem agarra-me no braço.
– Sim – diz. – Ainda para cima o terreno era da minha falecida
mãe. Coitadinha, só nos deixou aquele bocado de terra.
– Então não o tinha comprado?
– Comprei-o ao meu irmão.
– Menos mal, só gastou metade do valor.
– Metade?
– Sim, o terreno era dos dois.
– Não não, veja lá. Isso estava muito claro. Eu paguei o terreno
todo, porque era o terreno todo que eu queria. Não queria só metade. E ainda lhe dei mais uns trocos, porque ele ficou muito triste de perder assim o terreno da nossa mãe. Foi uma grande castanhada para nós. Ainda me lembro dela no terreno sentada numa cadeirinha a ver o rio.
– Só pode estar a brincar… O senhor está a gozar comigo?
Reprimo gargalhadas das mais genuínas.
– Não estou. Ela sentava-se ali mesmo na beira a ver o rio. Era uma cadeira pequenina, mas ela conseguia ajeitar-se entre a estrada e onde começa a cair. A minha mãe sempre foi para o gordo, mas aviava-se bem.
– Eu estava a falar do dinheiro que pagou pelo terreno, não da agilidade da sua mãe.
– Paguei até ao último cêntimo, não me venha dizer que não pago as minhas dívidas. Os advogados sempre à procura de…
– Mas o seu irmão aldrabou-o forte e feio. Só tinha de pagar metade do terreno.
– Eu queria o terreno todo!
– Sim, mas metade já o senhor tinha.
– Pois sim. Isso até pode estar muito bem, mas eu tinha a metade que caía, portanto não me servia de nada. Eu queria era a outra, onde a nossa mãe se sentava na cadeirinha a ver o rio.
– Meu Deus, homem, ouça o que está a dizer.
– Eu ouvi muito bem. Ouço sempre com muita atenção o que digo. Vamos lá ver se o senhor percebe. Se entende. – E usa os copos para marcar cada argumento. – Ponto um. Eu queria o terreno todo. Ponto dois. Quem quer o terreno todo, paga o terreno todo. Ponto três. Mesmo que isso da metade é verdade, a metade do meu irmão era onde a nossa mãe se sentava na cadeirinha a ver o rio. Ponto quatro. Como era a metade mais bonita, tive de pagar-lhe um bocado mais porque ele também gostava de ter o sítio onde a nossa mãe se sentava na cadeirinha a ver o rio. Ponto cinco. No fundo, aquilo valia tão pouco que eu acho que ele saiu a perder. Ele podia ter plantado lá alguma coisa, sabe? Para render aquilo.
Fecho os olhos porque quero absorver cada palavra. Pergunto
– O quê, no sítio onde a sua mãe se sentava na cadeira a ver o rio? O espaço que vai entre a estrada e a queda? O lugar onde a sua mãe se equilibrava?
– Sim, mas não está a ver bem. A nossa mãe era muito grande.
– E você, já tentou plantar?
– Já.
– E então, deu alguma coisa?
– Deu.
– O quê?
– Muito trabalho.
– Em termos de colheitas, homem!
– Isso é outra coisa. Está a ver aquelas batatas ali ao canto?
São as batatas do terreno onde a minha mãe se sentava na cadeirinha a ver o rio.
Sim, as batatas greladas.
Interrompo-o olhando para as batatas.
– Pois não interessa. O seu irmão passou-lhe a perna.
– Passou o quê! Ele é honrado. Cachaporra. Todos os irmãos
devem ser assim honrados. E é tão homem de honra que ainda me fica com metade das batatas porque eu não dou vazão àquilo e não tenho onde as pôr.
– Vou dar-lhe outro conselho de advogado. Sente-se numa
cadeirinha como a sua mãe e vá mas é ver o rio.
O homem fica visivelmente desiludido comigo. Bebe uma
garrafa de água num movimento; água a pingar-lhe sobre a camisola, e conclui
– O senhor não deve ser muito bom advogado. Não sabe dar
conselhos. Isso que diz é muito perigoso. Foi de lá que a nossa falecida mãe caiu.
Desisto. Despeço-me do homem, mas antes compro um saco
de batatas para levar como recordação.
Entro no carro, atiro o saco para o banco de trás e arranco na
direcção do Tojal. A meio do caminho, as gargalhadas que reprimi voltam e rebentam umas sobre as outras, duas e três vezes em cada rajada.
O riso afina a estabilidade da alma, mas a gargalhada exalta-a. Se não me controlar, daqui a pouco estou aos saltos e comigo o carro.
Mas de súbito lembro-me do Miguel e de que já é noite e de que não o avisei de que ia sair, nem aonde, e nesta hora e meia ficou sozinho sem saber de mim, talvez sem saber como agir, ou mesmo se eu voltaria. E, quando não está comigo, a memória da Luciana torna-se mais premente, mais incomodativa.