O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 35 de 46

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O Meu Irmão

Chegara o momento de decidir o futuro…

Chegara o momento de decidir o futuro do Miguel. Eu nem sequer devia ser candidato. Vivia em Lisboa, dirigia o CEP e principalmente já nem o conhecia bem como irmão porque quase não o vira durante vinte anos excepto nas ocasiões regulamentares.

Reunimo-nos na sala de estar logo depois do enterro da nossa mãe. Permanecia tudo vivo, menos os pais. Os quadros chamavam pelas pessoas que os olharam durante décadas, os livros por quem os lera, os sofás por quem se acomodara neles. Tudo relíquias, até nós enquanto filhos.

Pensei, naquele momento, que me livraria de tudo se pudesse, porque assim talvez aliviasse a dor que sentia.

Ninguém queria começar, muito menos eu. Elas tiveram a sensatez de não trazer os maridos e filhos. Uma raridade, só nós. Pelo jeito de me olharem, como se ostentasse alguma marca na testa, reparei que também já não me conheciam. Estranhavam-me, eu repulsava-as e atraía-as no mesmo movimento. É muito difícil discernir as coisas quando perdemos ambos os pais em pouco mais de quatro meses. Provavelmente elas sentiam mágoa pela morte da nossa mãe, uma perda assim tão fresca, confundindo a intensidade dessa mágoa com as muitas culpas que me poderiam inculcar. E por isso observavam-me a medo antes de falarem, a medo e como se estivessem ressentidas.

O Miguel fora almoçar com o sobrinho mais velho.

Talvez elas também se sentissem observadas por mim, conjecturando sobre os meus propósitos. Eu sentia pena, não sei porquê. Decerto por causa da passagem do tempo. Quando morre alguém, morre o tempo de arrasto. E morre uma relação de tempos. Sem a âncora dos meus pais, de súbito as minhas irmãs já não eram novas porque deixavam de ser filhas, ou tornavam-se filhas póstumas. Estavam à sua mercê, à solta, e por isso perderam qualquer máscara. Deixaram de ter escapatória e assim apresentavam-se perante mim tal e qual: as minhas irmãs mais velhas, aliás muito mais velhas do que eu e o Miguel.

A Joana fumava dois e três cigarros quase ao mesmo tempo, raspando as beatas até ao sabugo das unhas. A Matilde apoiava-se nas costas do sofá. A Inês não fazia nada, permanecia quieta ao canto. A Constança andava em volta dos móveis tocando em tudo.

Até agora quase não referi as minhas irmãs porque praticamente não passaram pela minha vida. Saíram de casa quando eu era ainda muito novo e seguiram, como é lógico, os seus percursos. De todas, talvez a Constança, que é a mais nova, tenha partilhado qualquer coisa comigo.

A praia da Amália, um papelinho deixado à mesinha-de-cabeceira antes de eu mudar de cidade, «Só para te lembrar que eu te adoro». O papelinho que acabou numa gaveta do Tojal.

De qualquer forma, agora afiguravam-se estranhas, e eu certamente estranho para elas. Vinte anos afastam inevitavelmente quando não nos esforçamos por encurtar a distância. Mas tínhamos de resolver o único assunto importante. O Miguel.

A Joana foi a primeira a falar depois do último cigarro, os dedos manchados de cinza. Endireitou a camisola e disse

– Eu fico com ele.

E logo as outras, para não perderem o comboio

– Eu fico com ele.

– Eu fico com ele.

– Eu fico com ele.

Assumiam em bloco a responsabilidade, cada uma com a voz mais fina e mais assertiva, só que em bloco perdiam, como aqueles que dizem nos restaurantes «Não, eu insisto» à espera de que o outro mantenha a sua e pague a conta. O outro era eu. Quer dizer, não me conheciam mas exigiam de mim o maior dos empenhamentos. E se eu não tratasse bem do Miguel, se não fosse bom guarda do meu irmão?

– Sim, nós ficamos com ele – repetiram mais baixo.

A Joana sentou-se e olhou em volta à espera de qualquer determinação da minha parte. As outras imitaram-na porque não conseguiam olhar para mim como a inquirir «E tu?». A Inês estalou os dedos enquanto a Matilde, num impulso, endireitou o quadro sobre o sofá. «Está sempre a cair para este lado.»

Tratariam dele não tomando em consideração o fardo que já suportavam. Cada uma apresentava a sua desculpa, o seu «apesar de». Ou filhos, a Constança tinha cinco, a Matilde quatro e por aí fora; ou novos maridos, a Joana ia no terceiro; ou falta de dinheiro, a Inês andava sempre nas lonas.

Etc.

E depois sim, eu até vivia à vontade, eu até dispunha de tempo, eu até podia conjugar tudo com facilidade, mas sobretudo – a mensagem que queriam transmitir – eu devia-lhes isso. E pronto, bastava eu dever-lhes isso.

A Constança parou de circular os móveis para ajudar as irmãs. Por trás dela batia um sol de fim de tarde, o mesmo sol em feixe no qual nos deitávamos, esquecidos da existência, em Março. O sol que dourava a sala e envolvia o cabelo da minha mãe. O Miguel sentava-se ali rebuscando anéis e provas de carinho. A Constança parecia a minha mãe, quem sabe por causa do sol, já que sempre foram muito diferentes.

À minha frente, quatro mulheres cheias de medo. Era disso que se tratava. Cada uma esperando safar-se mas temendo já as consequências de não assumir a responsabilidade. Mulheres tristes, mulheres cansadas. Atingiram uma idade em que supunham desfrutar da vida sem tantas preocupações.

Como é que tratariam de uma pessoa como o Miguel?

Fui acometido por um remorso sem causa, como se o passado fosse real, palpável naqueles raios de sol e em tudo o que eu pensava delas, de mim e do nosso irmão. Atirei-me à Constança beijando-a na testa. As minhas pernas fraquejavam. As outras irmãs sorriam em sinal de despeito, julgo eu. A Inês quase se interpôs.

Fora vencido mais pela memória do sol naqueles dias de Março do que por elas. Acolher o Miguel seria uma catástrofe, pressentia-o, embora fosse o que me exigiam. Cumpriria.

– Eu fico com o Miguel – murmurei.

Só que agora havia que salvar a face, dizer que não era nada disso que queriam.

– Típico teu, depois do que fizeste. Os pais sofreram muito. Nós é que ficamos com o Miguel, ele quase não se lembra de ti. Ninguém queria que ficasses com ele. Ficamos nós à vez – lançou a Matilde.

E claro que insisti que ele ficaria melhor sempre na mesma casa e sem confusões de espaço e sobrinhos e maridos novos e velhos. Elas poderiam visitá-lo sempre que quisessem, mas comigo contaria com uma base sólida, a rotina que lhe era essencial.

Quanto a não o conhecer, nada como o tempo.

Silêncio. A Matilde voltou a endireitar o quadro num gesto rápido. «Eu não dizia?» As outras tentavam perceber entre si o que se passava, como deveriam reagir. Não foi preciso muito para as convencer, apenas o suficiente para manterem a postura, como num mau jogo de póquer. Depois de outro silêncio, disseram quase em uníssono

– Está bem, fica combinado.

Cravei um cigarro à Joana e dei uma passa no meio de tosse. Os nervos. Já mansa, a Joana tossiu por simpatia. As outras falavam baixo entre si. Num esforço por me agradarem, perderam enfim a face ao dizerem um «Obrigada» solto. Nem sequer se importaram de que ele fosse para Lisboa e que vivesse longe da Luciana, que mudasse de vida. A verdade é que no íntimo eu estava decidido a regressar ao Porto, mas elas não sabiam disso. Pediria transferência para outro centro de investigação. Ninguém poria problemas. Quanto às aulas, já estava farto, a mudança seria bem-vinda.

Despedimo-nos porque não havia mais nada a dizer, ou seja, havia muito mais a dizer mas já não tínhamos forças. Pedi-lhes só umas semanas para despachar os meus assuntos.

À saída, informei

– Agora ele é meu.

para que elas percebessem que não podiam voltar atrás. Estava feito.