O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 25 de 46

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O Meu Irmão

A partir de Março o sol entrava…

A partir de Março o sol entrava pela janela da sala num feixe que se estendia desde o tapete até ao sofá. Como animais de sangue-frio, deitávamo-nos no tapete de barriga para cima e deixávamos que o sol varresse o desânimo e a letargia que se haviam acumulado em nós. E era bom e animador porque o corpo desaparecia na luz e só os sons e os cheiros contavam. Sons como a respiração e cheiros como a ráfia que protege a varanda, e até o cheiro da terra em processo de secagem. A luz, os sons e o odor anunciavam o fim do Inverno e o início da felicidade.

A minha mãe costumava instalar-se no centro do sol, no centro do tapete. Por vezes quebrava o silêncio ligando a televisão em algum programa de debate político. Estendia os braços para trás, deixava que também nos deitássemos e quase adormecia. Suponho que nesses dias de Março se sentisse feliz porque o sol apagava as imperfeições do Miguel, podendo entregar-se à fantasia de ter dois filhos com o mesmo número de cromossomas. A luz queimava as arestas, arredondava os factos e reduzia a vida ao mais essencial: dois filhos.

O Miguel chegara a adulto mas sentia como criança. Por exemplo, tinha medo de entrar no quarto dos pais. Lembrava-se de algum episódio da infância, de algum berro «Não entres aí!» ou qualquer ânsia de ficar trancado. Talvez por isso, o instinto impedia-o de entrar sem ir de frente contra si próprio.

Como, no escuro, sentir que a qualquer momento bateremos numa parede imaginária.

E agia como criança, embora a barba por fazer disfarçasse mal a idade. Ainda subia as escadas de casa com a mesma ânsia e ao mesmo ritmo, às cinco da tarde depois de a carrinha o deixar. Comportava-se como sempre, inclusive não entrava no quarto dos pais sem autorização.

Eles eram ao mesmo tempo a chave da vida e a chave do quarto e a chave de outras coisas como o almoço e o jantar.

Foi nessa altura que assumi que ele nunca viveria de A a Z, porque habitava num tempo sem evolução e sem objectivos para além dos imediatos. As coisas estavam bem como estavam, ele não sentia aquele impulso típico de quem sonha. De quem pretende evoluir. Ansiava apenas a Luciana e já a conseguira, desejando sem reservas a vida que levava. Ou talvez nem desejasse, porque desejar implica não ter e querer. Era feliz como um bicho satisfeito com a toca e a comida, e essa felicidade plena começou a despertar em mim uma espécie de contraste, um cisma, uma aversão que não conseguia qualificar sequer em sentimentos, quanto mais em palavras. Era difícil admitir menoridade face a um deficiente, sim, porque nessa altura o Miguel passou a ser menos irmão e mais deficiente, como se não houvesse diferença entre ele e os outros mongolóides.

Eu nascera inteligente e perfeito, ele nascera inimputável e incompleto. Sendo irmãos, não podíamos ter nascido em lados mais diferentes da vida e, no entanto, um de nós conquistara o centro da vida e o outro não. O Miguel abdicara de todos os dons antes de nascer e por isso conquistara o paraíso na terra e Deus guiava-o pela mão, aceitando o que ele oferecia. Crescera anjo ferido, na expressão do nosso pai. E eu acrescento: crescera anjo ferido e não sabia disso. Bastava-lhe existir para existir bem, em paz.

Já eu não abdicara de nada, permanecia inteiro e guardara os meus dons, motivo pelo qual talvez sentisse dificuldade em encontrar a mão a que me agarrar. Porque eram meus, oferecer os dons parecia um sacrifício grande de mais, como desperdiçar o melhor de mim. E temia que os meus dons não fossem aceites, mesmo procedendo sempre bem. Temia que alguma voz, fosse de quem fosse – de um amigo, de uma mulher, dos pais e até de um desconhecido –, me perguntasse «Estás zangado porquê?», descobrindo o reverso das minhas qualidades.

Pelo menos, eu sabia que precisava de entregar qualquer coisa em troca, e essa coisa pedia perfeição, por isso ainda não a encontrara. Viver sem retribuir é inútil, mesmo que a retribuição seja insignificante: a senhora que aprende ponto de cruz no YouTube porque ninguém a ensinou, o professor que tenta decifrar um incunábulo, o empregado que aumenta a dosagem e a pressão da máquina para tirar o melhor café da cidade, o revisor de provas que não quer perder uma gralha e para isso cansa os olhos porque elas voam e pousam sempre em palavras diferentes, o motorista de autocarro que faz as curvas com suavidade, o calceteiro que martela a pedra estritamente dentro do desenho, enfim, algum gesto que distinga pela excelência, mesmo em circunstâncias corriqueiras.

O Miguel nunca pensou nesta necessidade de retribuição e apesar disso entregara tudo, trocando a vida pela moeda boa.

E, para mais, ninguém lhe perguntava «Estás zangado porquê?», ninguém esperava nada dele. Qualquer acto ou frase, por não serem esperados, excediam a falta de expectativas. Não ser esperado era nele a causa de ser querido. Se pensarmos bem, a Luciana também não esperava nada dele. Mesmo que o Miguel não lhe desse um anel, não deixaria de o amar, nem o julgaria menos apto a amá-la.

Justamente nesse último Março antes de eu me mudar para Lisboa, há vinte e tal anos, enquanto a luz nos cobria secando a pele da cara, aprendi a dar outro nome ao cisma: a designação correcta encontra-se na página 2156 do Dicionário da Academia, sob a letra «i».

O Miguel não desistira do anel. Abdicara de uma oportunidade pelo Masturbador, mas não desperdiçaria a do quarto dos nossos pais, mesmo tendo de entrar sozinho. Aliás, o Masturbador nunca mais apareceu na APPACDM, pelo que a nota fora mal gasta num idiota que ainda por cima tentara qualquer avanço com a Luciana.

Se ao menos tivesse mantido a braguilha fechada, agora poderia usar a nota do circo para comprar um anel de ouro como os anéis de ouro que as actrizes rodavam nos dedos. Mesmo inevitavelmente mais largo do que o dedo de osso da Luciana, como seria bom deslizar aquele metal na pele dela e em simultâneo observar a reacção, um grunhido, um salto, um «Obrigada!» na voz sumida mas inebriante. Depois ouvir «Gosto de ti», e abraçá-la.

No fundo, a Luciana assemelhava-se a um estado de espírito que insistia em perdurar e que lhe consumia a alma e picava a carne. Ela embrenhara-se tanto nele que se tornara difícil perceber o fim de um e o começo do outro. Nascera como uma coisa pequena dentro dele que fora crescendo para os lados, ratando e fazendo-se notar até que só ela pulsava intensamente. O que era dele era dela; ele era ela. Isto porque a coisa pequena que se insuflara dentro dele se chamava amor.

E assim urgia marcá-la com um anel. Precisava de demonstrar que o amor significava posse.

Com ou sem anel, a Luciana já vivia em cada gesto do Miguel. Se a Augusta olhava para ele com ternura, e olhava-o muitas vezes desse modo, ele chamava-lhe cabra, uma palavra que decorara mais pela expressão de quem a dizia do que pelo significado. Só a Luciana podia olhá-lo com ternura e, se ele percebera a ternura da Augusta, a Luciana também perceberia e sentir-se-ia triste e traída.

Das poucas vezes que eu lhe perguntava «Miguel, gostas de mim?», ele respondia

– Da Luciana, da Luciana.

visto que o único amor é o amor pela Luciana. Não gostava de mais ninguém, nem do irmão.

Nele, a mente de criança dirigia o corpo de adulto. Assim, fixou a ideia no quarto dos pais, onde a nossa mãe guardava cachos de anéis. De ouro, de prata, de pechisbeque. Anéis enfiados em mãos de manequim aparafusadas à parede e anéis em estojos guardados nas gavetas.

Chegou à porta do quarto. Vencera o medo em prol da Luciana. Empurrou a madeira primeiro com uma mão, depois com as duas e prosseguiu com o ombro. Sabia que estávamos deitados na sala a apanhar sol e por isso tomou o seu tempo. Sentou-se no chão e pressionou o rodapé da porta com os pés. Era uma porta antiga e bem trabalhada, cheia de ferros por dentro, quase incrustada na ombreira. Por trás da porta, tantos anéis quantos ele quisesse oferecer à Luciana.

Faltava a chave. Encontrou-a numa estante, mas não tinha altura suficiente. Quase despejou a fúria na colecção Vampiro guardada nas estantes do meio, mas depois pensou que seria mais fácil encontrar um anel noutro sítio. Sabia que não podia pedir as chaves a ninguém, muito menos a mim. Perante uma contrariedade, por regra cedia à fúria, mas desta vez controlou-se porque a importância do que procurava exigia calma.

Ainda insistiu rodando a maçaneta, mas nada feito.

Entrou na sala e perguntou «Estao dormir?». Como não obteve resposta, apenas o ressonar baixo da mãe, sentou-se ao lado dela e pegou-lhe nas mãos à procura de um anel. O cabelo louro e dormente da nossa mãe integrava-se no sol de tal modo que a sala parecia uma cabeleira a toda a volta.

A mão esquerda vazia. Já era uma mão de velha. Pousou-a devagar, afagando-a, dando beijos nas unhas e sorrindo de tanta ousadia. Porém, na mão direita, os dedos vazios excepto um, o segundo depois do mindinho, onde encontrou um anel perfeito, liso, de ouro. Salvo erro, o único anel que a mãe usava sempre.

Eu quieto mas a observá-lo pelo canto do olho.

Não conseguiu retirá-lo porque estava muito justo, prendia-se ao dedo numa ondinha. Parou por alguns segundos com medo de que a mãe acordasse. Depois encontrou a solução. Cuspiu no dedo e rodou o anel sobre si próprio para que o cuspo entrasse. Então, sim, sem ondinha, o anel escorregou. Guardou-o no bolso e refugiou-se no quarto.

Eu devia ter-lhe tirado o anel ou acordado a mãe, mas preferi deixá-lo viver um pouco a fantasia. Enquanto guardasse o anel no bolso sentir-se-ia senhor de si mesmo, senhor da Luciana, senhor do mundo. Como os heróis da literatura fantástica, ele descera ao submundo e regressara com o talismã. E, como esses heróis, o orgulho era sinónimo de descanso e felicidade. Decidi por isso deixá-lo alimentar-se da fantasia até não a conseguir distinguir da realidade.

Quanto mais tempo decorresse, mais a sua vitória pela Luciana seria um facto consumado.

A Augusta tirou o pó à casa terminando na sala. O Miguel tomou banho e a Constança visitou-nos. A Inês apareceu mais tarde com o marido e os filhos. A filha mais nova brincou com o Miguel e levou-o ao pátio. Não interessava que o tio estivesse de pijama, só queria brincar. O sol desapareceu. As minhas irmãs foram-se embora antes do jantar. O Miguel pôs a mesa sem esquecer os castiçais. Durante o jantar o nosso pai descreveu um incêndio numa mata seca. Dava nome a cada chama e atribuía intenções às rajadas de vento. Depois do jantar regressámos à sala.

A cara do Miguel disfarçava mal o desejo de chorar. Sentia-se feliz com a perspectiva de entregar o anel à Luciana, conquanto soubesse que para ele tanto fazia porque já estavam casados, ou algo semelhante. A sua felicidade era apenas perturbada pela dúvida de ser correspondido em pleno, o que o impelia a marcar a Luciana como sua. Assim que lhe desse o anel, todos saberiam o que significava e ninguém ousaria intrometer-se.

Antes de se deitar, escondeu o anel bem fundo na mochila que levava para o colégio. Guardava-a sempre junto à porta da rua para não a esquecer. Adormeceu logo devido à exaustão de pensar coisas felizes e porque queria que o dia seguinte chegasse o mais rápido possível.

Mal adormeceu, remexi na mochila em busca do anel. Encontrei-o embrulhado numa folha do Expresso. Desdobrei o jornal

Página trinta e dois, notícias internacionais.

e coloquei o anel à vista, em cima da mochila.

A minha mãe passou quatro vezes pela porta antes de olhar para a mochila. À quinta, sorriu e disse

– Que disparate, deixei cair a aliança na mochila do Miguel.