O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 14 de 46

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O Meu Irmão

No ecrã, os braços, as pernas, o…

No ecrã, os braços, as pernas, o cabelo e o peito, sobretudo o peito, pertenciam a figurinhas virtuais. Figurinhas mesmo: mulherzinhas que se mexiam como se o seduzissem. O Miguel não as conseguia abraçar pela cintura porque o vidro escondia o calor da carne, só o som tomava dimensão na sala, enchendo-a. Por isso, costumava pô-lo o mais alto possível. Apostara consigo mesmo até que ponto a voz conseguia encorpar-se no quarto. Se crescesse, se ficasse sólida, então poderia ter de súbito a voz inteira daquela actriz de telenovela ao seu lado, tê-la a ela mesma junto de si. Raptá-la pela janela da televisão.

As primeiras paixões do Miguel foram através do ecrã.

Salivava, abrutalhava-se perante o ecrã, mas apesar de tudo mantinha algum tipo de suavidade, quer dizer, observava os gestos de mão em mão, a posição da cabeça em relação ao cabelo, o girar dos anéis num dedo mais fino, o respirar dentro do vestido. Um pouco como os aficionados de ballet, ou os que distinguem uma nota no meio de uma sinfonia. Para isso, colava-se à televisão e analisava cada tonalidade da pele das actrizes ou cantoras, principalmente das actrizes. Conhecia-lhes as rugas como um mapa para a terra prometida.

Primeiro afeiçoava-se a todas sem distinção. O grupo atraía-o, desejava-as como um único corpo de muitas cabeças. Depois, com o passar da trama na telenovela, prestava mais atenção a uma em especial, captando-lhe os gestos, o tom de voz e os tiques. Ficava a conhecê-la na medida de quem no fundo desconhece.

À noite adormecia a murmurar o que mais o cativava. Imaginava o cabelo, os ombros, os braços, e os olhos abertos e humedecidos que ela fixara nele ao olhar para a quarta parede.

Enternecia-me ouvi-lo a adormecer deste modo. Tão criança. Mas antes de adormecer evitava desligar a televisão. Isso significava abandonar a actriz, matar as figuras que viviam apenas do lado de lá.

Se o Miguel conseguisse, pararia cada imagem para a decorar, para estabelecer a diferença que vai entre a madeixa que escorrega pela testa e a que se mantém no sítio. Se conseguisse levar para a cama cada uma dessas imagens, se não as esquecesse, seria como plantar imagens que crescem em floresta durante o sono.

Eu gostava de pensar que fazia parte desse mundo, que algures lá nessa floresta seria, se não uma árvore, talvez um ramo. Mas por vezes parecia-me muito claro que um irmão tem pouco espaço na vida de um irmão, quanto mais de um irmão como o meu irmão. Grande merda.

No fundo aquilo era mais do mesmo. O Miguel e as exuberâncias dele, os caprichos e as iras. A realidade suspendia-se para abrir lugar à ficção. Elaborava fantasias, incluía a actriz do momento em cada respirar, em cada gesto e em cada palavra. Incluía outros, o pai e a mãe, a Constança, a Inês, vá, a Matilde. Incluía-me apenas às vezes, e sempre como rival. Eu opunha-me a ele, dominava-o de modo a vencê-lo, porém ele sobrevivia e suplantava-me. Ou seja, conquistava a rapariga. Tudo muito melodramático, ao jeito que ele adquirira ao ver telenovelas.

– Tu nao! Tu nao! – berrava em cada desenlace.

Eu aceitava este estado de coisas a contragosto. Por muito que o tratasse bem, por muito que o amasse, ele encarava-me sempre como rival. Por mim, detestava dar parte de fraco, mas suponho que o contrário, dar parte de forte, era o que eu fazia – alinhar. Sorria aos desmandos dele, fingia-me de mau, participava na fantasia. Era mau? Seria mesmo mau. Berrava «Nunca ficarás com ela» ou «Vocês estão condenados» porque sabia que ele ouvia frases semelhantes gritadas às actrizes. Os olhos do Miguel fixavam-me, surpreendidos: de súbito ele tinha razão e não sabia porquê.

O Miguel percebia que as efabulações eram brincadeira. No entanto, quando eu alinhava, deixavam de ser tão brincadeira e passavam a algo de mais real, algo além do monólogo.

Assim que ele julgava que tinha vencido, eu assumia o palavreado das telenovelas, contrapunha a minha inteligência e facilidade com as palavras à incapacidade e dificuldade dele com as palavras. Dominava-o no próprio jogo, tornava-o pequeno, encolhido, sem perceber se eu falava a sério ou a brincar, e sem perceber se ele próprio falara a sério ou a brincar. Confundia-se.

E temia que eu lhe roubasse a actriz, ou que lhe roubasse o comando da televisão.

Não a ligava comigo no quarto. As figurinhas pertenciam-lhe, só ele as podia ver. Sorte que por essa altura a Constança saiu de casa e o Miguel ficou com o quarto dela, com televisão própria e tudo novo à sua medida. Casacos pendurados na porta, uns axadrezados outros lisos, os armários só com T-shirts brancas e pretas, um poster da Segunda Guerra Mundial «Come into the factories» em que uma mulher acolhia de braços abertos uma fileira de aviões, fotografias dentro e fora de álbuns, um pufe sem uso, brinquedos quebrados pelo pescoço, uma almofada com um coração gravado, e autocolantes da APPACDM nos abat-jours.

Embora o Miguel quisesse privacidade, o som ultrapassava a porta como um cavalo a galope e todos sabíamos a que programa ele assistia.

Aproximava-me da porta para distinguir as palavras e ruídos de fundo. Discussões, copos numa cozinha, pássaros e esplanadas, buzinas de carros, saltos altos na madeira, água a correr. Sons de estúdio.

A forma como o Miguel saltava do chão para a cama e da cama para o chão num jeito de pernas, numa vontade de se exibir, metia pena e tinha graça ao mesmo tempo. É que a emoção acumulada precisava de escape e, assim, ao saltar, era como se dançasse ou fizesse um exorcismo.

Eu perfeitamente quieto à porta a ouvir os urros e a olhar para o meu reflexo distendido na maçaneta. Quando por fim percebia qual seria o próximo momento,

A actriz na casa de banho prestes a tomar um duche.

entrava no quarto, sorria, sorria sempre, e perguntava «Que estás a ver?», sabendo que o Miguel desligaria a televisão. As figurinhas eram só dele. Não saía antes de a telenovela acabar.

Olhava para mim sem fúrias e com inocência de achar que eu estava ali por algum motivo excepto o de levá-lo a desligar a televisão. «Que queres?», perguntava-lhe. Ele não respondia, mas eu sentava-me ao lado dele com o braço à volta dos ombros, já nessa altura era alto e ele baixo. Dava-lhe palmadinhas na barriga e dizia «Estás a ficar gordo». Ele encurvava-se e tentava perceber o tamanho da barriga no reflexo da televisão. «Mas és o meu mano», completava eu.

Antes de sair, o Miguel abraçava-me e dizia «Gosto muito de ti» comendo quase todas as consoantes.

Por fim a fase do ecrã acabou. Depois interessou-se pelas educadoras, secretárias e auxiliares da APPACDM, só que já não sabia olhar de forma natural. Olhava à procura do fotograma, como no ecrã. Fixava-as de modo impressivo, sinistro, não estivessem os olhos prestes a chorar de carinho.

Não fosse ele deficiente.

Claro, as funcionárias não se afeiçoavam como ele queria. De início engraçavam com as investidas. A secretária considerava curioso que ele ajudasse a carimbar os envelopes. A educadora surpreendia-se porque ele era sempre o primeiro a obedecer. A auxiliar do corredor nunca o vira atirar um pacote de sumo para o chão. Todas tinham a sua história com ele. Todas o achavam impecável.

Na idade em que qualquer um necessita de companhia, o Miguel isolava-se nalgum sítio do colégio, quer dizer, fugia logo depois das aulas e em vez de conversar com os amigos

Sempre me questionei sobre o que conversariam.

deambulava perto da cozinha para sentir o cheiro a comida esquecida. A dona não sei quantas, responsável pelas panelas, dava-lhe restos segurando a colher de pau de encontro à sua boca com cuidado para não pingar. Quando aparecia alguém, ela dizia-lhe «Chispa daqui» e o Miguel escondia-se perto da zona administrativa, onde o Diogo – exactamente igual a ele, só que em velho – descrevia o último golo que aplaudira e a última música que ouvira.

O Diogo ajudava a levar papéis da secretaria para o gabinete da directora e vice-versa. Nunca perdeu um papel porque os colocava sempre no mesmo sítio; e, ainda que o sítio tenha mudado ao longo dos anos, ele não mudara de sítio. Continuava a trasfega de papéis da secretaria para o gabinete da directora e vice-versa, só que a secretaria já não era onde ele ia buscar os papéis nem o gabinete da directora onde ele os entregava.

Directora e secretária depositavam os papéis no local onde o Diogo se habituara. A directora atravessava o corredor para o seu antigo gabinete e a secretária incomodava as pessoas na sala de espera ao pousar as folhas junto às revistas.

O Miguel e o Diogo não conversavam apenas de futebol e música. Este dizia-lhe que a mais carinhosa era a menina Júlia e o Miguel perguntava «Mesmo?» como se soubesse perfeitamente quem era a menina Júlia e o «Mesmo?» fosse mais um reconhecimento do facto do que uma pergunta. A menina Júlia seria um monstro mítico, uma devoradora fatal (para encanto do Miguel, um pouco como as actrizes a que estava habituado), e o Diogo descrevia-a à semelhança das histórias de juventude do pai, frequentemente exageradas. Mas enfim, o Diogo era um velho tarado e queria que o Miguel conhecesse a menina Júlia.

Um dia levou-o à sala onde essa potência do carinho trabalhava. «Aqui?», perguntou o Miguel perante uma sala vazia e escura. Sim, claro – ali. Era ao fundo. Mal entrou, o Diogo fechou a porta com destreza, escondendo a chave de imediato.

– É para aprenderes, seu puto. A menina Júlia é minha! – berrou.

O Miguel passou um mau bocado porque entretanto o intervalo acabara e só nas aulas conseguia um pouco de atenção da educadora. E também porque temia que a tal menina Júlia aparecesse meia louca a saltar de um armário.

Minutos depois a directora foi buscar os papéis ao gabinete do lado. No meio deles encontrou a chave. Percebeu o que se passara e libertou o Miguel.

Como castigo, proibiu o Diogo de deixar os papéis no sítio de sempre. Ele que os colocasse no sítio certo, como ela queria. Demorou meses a habituar-se e perdia papéis com frequência. Sofria porque gostava do trabalho bem feito e nunca concordara com aquela trapalhada de alterar procedimentos. Mas quem sofre com um objectivo sofre menos. O objectivo dele era agradar à sua Júlia, e por ela conseguiria colocar os papéis onde eles não pertenciam. Sacrificava os princípios pela menina Júlia; por ela conseguia mudar, mesmo estando velho. Meses depois já desempenhava a função como antigamente, da secretaria para o gabinete da directora e vice-versa, sem perder nenhum papel.

Quanto ao Miguel, nem sequer tinha uma menina Júlia. E necessitava tanto disso. Ele era amor em carne, amor em força bruta. Amor à flor da pele, como se o botão que gere a intensidade desse tipo de sentimento estivesse desregulado muito para lá do on. Seria pois difícil encontrar alguém que correspondesse a essa desregulação, alguém que por fim saísse do ecrã e o abraçasse.

Nunca, até à Luciana, se apaixonara por uma deficiente.