O Meu Irmão
Acabaram as visitas ao Quim. Ele que…
Acabaram as visitas ao Quim. Ele que fique para lá. Não me interessa que melhore ou piore, desde que não nos incomode mais. Chame ou não a ambulância, o mal dele é o feitio e esse há-de ficar na mesma; até depois de morto pensará que o perseguem, achará que o querem matar.
Chega de Quim, então.
O Miguel aproveitou o sol para se sentar no pátio de pernas cruzadas. Desde que o Quim piorou, parece mais descontraído, menos focado na Luciana, como se a tivesse esquecido por fim. Ensaia sombras com as mãos, nos intervalos das nuvens, e conversa sozinho.
– Miguel, estás a fazer sombras? – pergunto, interrompendo-o.
Eu de pé e ele sentado.
– Sim, nitas.
– Já imitaste um coelho?
– Nao.
Sento-me no chão, reproduzo um coelho combinando os dedos. «Hi!», berra ele, mas logo uma nuvem esconde o bicho, que mastiga a sombra de uma folha abanando as orelhas. O Miguel tenta imitar-me num gesto descoordenado. «Não consegues fazer como eu. Tenta assim.» Pego-lhe nas mãos e coloco-as no sítio. O sol revela a sombra de um coelho de orelhas curtas agarrado por mãos humanas. O animal treme com medo de se desfazer, e acaba por se partir em dois.
Devolvido pelas montanhas, um estardalhaço de vuvuzela interrompe-nos.
– É o Quim? – pergunta o Miguel, afastando-se.
– Acho que sim.
– Maluco.
Enuncia todas as sílabas de «maluco» e mostra-se atento aos passos que vêm do lado da igreja. Passos que se arrastam. De resto olhamos um para o outro sem mais. Ele porque não é capaz de falar, de demonstrar, de transmitir, enfim encontra-se preso na deficiência, e eu porque estou cansado disto, de o guardar, proteger, sem que ele demonstre que me ama verdadeira e fraternalmente.
Aliás, se não fosse a doença do Quim, que nos distrai um do outro, já teria voltado ao Porto, não suportaria confrontar-me com o Miguel neste isolamento porque sei que me recrimina, embora tudo o que fiz depois da morte dos nossos pais, em especial quanto à Luciana, tenha sido para bem dele. Apenas para bem dele. Sim, o Miguel admite a minha presença, mas como quem precisa do sequestrador para sobreviver.
Vá-se lá perceber como chegámos a isto.
Um fio de gente surge ao pé do portão. Em baixo, a ponta saliente de uma bota. Mais do que isto, nada. O Quim acena mas não ousa entrar. Parece saudável e restabelecido, não contando com a mão tumefacta e a ponta da bota, que é muito maior do que o pé que guarda. Quase não usa a bengala, movimenta-se com naturalidade, de súbito as peças todas no sítio.
Depois de acenar, dirige-se ao carro como se estivesse atrasado para um compromisso.
Aproximo-me enquanto ele destapa a lona do Smart, passa os dedos pela borracha do limpa-pára-brisas e afaga o capot. Olha para mim antes de entrar no carro. De início parece que não vai dizer nada, mas depois atira a bengala para o lugar do morto e anuncia, mostrando os dentes escuros
– Aquilo foi brincadeira. Como vê, estou são. Até vou agora à Ponte de Telhe ter com os dos carros.
– Fico contente por vê-lo melhor.
– Não não. Ouça. Eu nunca estive doente. Foi tudo uma brincadeira. A minha mãe até disse hoje de manhã «Vá lá, Quim, chega de brincadeiras» e eu decidi que chegava por agora.
– Quer mesmo que eu acredite que aquilo foi teatro, que nunca esteve mal?
– Quero.
– Por mim é indiferente, mas quanto aos seus pais? Não sofrem com isso? Não é uma humilhação, um desgosto?
– Acho que sim, mas um gajo tem de se divertir com alguma coisa. Como disse no outro dia em sua casa, aqui não há nada, só eles. Compreende.
– Veja televisão, homem, por amor de Deus… Divirta-se com aquelas revistas… Tudo menos isso.
Nisto, ele rebenta numa tosse cheia de pulmões que deixa sangue nas mãos.
– Tudo brincadeira, a ver se me divertia – continua sem ouvir, limpando as mãos à bainha da camisola.
– Melhor para si – digo.
– Pois, melhor para mim porque ser doente é que não. Concorda?
– Concordo, mas não é bonito fazer brincadeiras dessas.
– Pois, isso é comigo. Isso é comigo – conclui.
Antes de arrancar em direcção a Ponte de Telhe, o Miguel, saindo rápido do portão, lança-se sobre o carro, sobre ele, e estende a mão através da janela. Berra
– Poussoubem.
à espera de que ele retribua o gesto. Aos sacões, de forma tímida, o Quim levanta o braço onde a mão, que parece ela mesma uma sombra de coelho, estica dois dedos que o Miguel aperta devagar com um sorriso em meia-lua. Só depois o Quim arranca ladeando a igreja e metendo-se para os montes. Não se despede de mim.
Observamo-lo enquanto desaparece na última curva.
– Porque é que lhe deste um aperto de mão? Aquele tipo tratou-te muito mal. Foi mau contigo, não foi?
– Foi mas agora esta culpado.
– Queres dizer desculpado?
– Sim, culpado.
Quando se é velho e pai de um deficiente, aprende-se a lidar com o medo. Quando eu for ainda mais velho, que será feito do meu filho? E quando eu morrer? E quando ele se tornar velho e eu já não existir? Este medo será com certeza constituído por muitos outros. E também uma parte física, quer dizer, olhar para as mãos, sabê-las extintas e, tal como as mãos, o resto do corpo, apesar de dentro desse corpo permanecermos iguais, sentirmo-nos novos – sermos afinal eternos.
Não sei descrever a velhice porque a velhice não existe em abstracto.
O que existe?
A minha avó materna que morreu com cento e quatro anos e a minha avó paterna que morreu com oitenta e oito. Não tiveram velhices iguais. Os velhos sós e os velhos acompanhados. As minhas avós foram velhas quase sós. Os meus pais foram velhos acompanhados, e suponho que a velhice acompanhada é mais jovem. Porém, existem várias velhices acompanhadas, as velhices dos lares e a velhice do lar. Os meus pais eram velhos de lar, do seu lar. Os outros, os que contam apenas com enfermeiras, morrem mais depressa e são mais convenientes para quem trata deles. Os que ficam por casa tornam-se mais inconvenientes, mesmo quando, como foi o caso dos meus pais, têm quem trate deles. Mas os velhos sós também não se assemelham. Há aqueles que permanecem no sofá dez anos depois de mortos e os que encontram alguém que os acompanhe até ao alívio que identificam com a morte, talvez uma freira que cataram na igreja ou um sobrinho-bisneto que solicitaram através dos parentes. E, como escreveu o Cícero, acho que foi o Cícero, em velho não se é diferente do resto da vida. Não ocorre uma transformação, é-se apenas um pouco melhor, ou um pouco pior, consoante a vida que se levou.
Os meus pais já haviam ultrapassado os oitenta anos e o medo acompanhava-os no quotidiano, não o medo por si, mas o medo pelo Miguel. O meu pai estava preparado para morrer desde os trinta anos, qual soldado perante as balas da vida. Ter chegado aos oitenta surpreendeu-o. A minha mãe não estava preparada para morrer, mas estava preparada para morrer depois do meu pai «porque tinha mais capacidade de sofrimento», como ela dizia depois de conversas sobre quem, quando e porquê. Mantinham-se tão lúcidos como sempre, apenas um pouco mais cansados.
Como disse, só o Miguel os preocupava.
Pautavam a velhice com uma rotina que a tornava mais tolerável. O meu pai levantava-se às sete da manhã e encaminhava o Miguel para a APPACDM, certificando-se de que ele levava a pasta e saía de bom humor. Desde que se reformara, vinte anos antes, fora um novo pai para o Miguel e agora amavam-se com calma. Mas às sete já o Miguel estava acordado para o ajudar. Ligava o esquentador da casa de banho para o pai não sentir frio nas pernas e abria a água quente de modo a aquecer os canos. Não queria que o pai levasse com aquela primeira água fria. Depois insistia «Estou bem, nao preciso demais nada» e forçava o pai a sair para o pequeno-almoço porque circular o sangue na rua o rejuvenescia.
A minha mãe acordava às oito e meia e era acolhida pelos beijos do Miguel. Beijos iguais todos os dias, mas beijos bons todos os dias. Tornavam-na nova por instantes. A casa de banho ficara entretanto demasiado quente por causa do banho do pai. O Miguel invertia o processo, desligando o aquecedor e fazendo correr um pouco de água fria. A mãe não podia levar com aquela primeira água demasiado quente.
Às nove horas saía sozinho à espera da carrinha, berrando à mãe ainda na casa de banho «Agora vou ter com a Luciana!».
A minha mãe ia tomar o pequeno-almoço ao mesmo café onde o meu pai estivera meia hora antes. O empregado guardava-lhe o Público que o meu pai lera, não poucas vezes deixando recadinhos à margem como «Lê esta notícia que vais gostar», «É impressionante como este país sobrevive», «Não leias isto porque ficas perturbada», ou «Amo-te mais a cada dia».
Almoçavam sempre juntos e passavam o resto da tarde a ler. Embora não tivessem hábitos de leitura corriqueiros, a minha mãe pendia para os policiais (não só os vampiros da minha infância, mas tudo desde a Ruth Rendell até à Patricia Highsmith) e o meu pai para os romances de aventura (por exemplo, os primeiros escritos do Melville). Ultimamente liam Steinbeck e biografias de pintores publicadas pela Aster.
Como sempre, o Miguel chegava a casa em festa. Também amava a Luciana mais a cada dia mas não conseguia escrevê-lo na margem de um jornal. Geralmente, acompanhava a mãe ao Continente. Compravam sempre os mesmos produtos e percorriam os corredores pela mesma ordem. Quando a mãe se esquecia do arroz ou da farinha, ele escondia-os no fundo do carrinho. À saída, deitando a língua de fora, erguia os sacos para mostrar força.
– Quantos sacos, Miguel? – perguntava a mãe, pedindo que andasse mais devagar.
– Muitos! – respondia ele, abrandando o passo.
Embora não soubesse cozinhar, punha a mesa como um artífice. Demorava pelo menos meia hora e concluía invariavelmente com os castiçais que a Augusta areava dia sim, dia não, mesmo que lhe faltassem as forças para os reavivar como antigamente. Amarelados em vez de prateados.
A Augusta, enfim, afeiçoara-se aos patrões e agora achava-os demasiado velhos. Não percebia que também envelhecera. A vesícula e o rim direito exigiam-lhe a reforma, mas ela não cedeu.
Depois do jantar, o Miguel metia-se no quarto a ver telenovelas ou a pensar nela e os meus pais iam para a sala assistir a debates políticos e filmes. O Miguel interrompia-os para dizer qualquer coisa sobre ela ou para os abraçar à vez e ao mesmo tempo quando calhava encontrá-los sentados lado a lado.
– Vai para dentro, chato! – murmurava a mãe.
E quando esta fraquejava ao voltar para a cama, apoiando-se na parede por um instante, o Miguel segurava-a, envolvendo-a num abraço, e dizia «Mãe, caías» enquanto o pai se inclinava sobre ele e os três juntos eram afinal menos velhos. Porque o Miguel, tal como as pessoas como ele, envelhecera precocemente. Com a cara eivada de rugas, encurvado sobre o peso da barriga, mas tentando manter as costas direitas, costumava rir-se ao espelho. Quem é este? Não seria ele mesmo porque se reconhecia outro menos atarracado. E a Luciana continuava tão nova, tão igual – tão bela –, que lhe parecia inconcebível, estúpido, ter envelhecido.
Ainda a considerava a senhora de todas as flores e de outras baboseiras que ele vociferava sem que o compreendessem.
As minhas irmãs revezavam-se aos fins-de-semana conforme dava mais jeito, mas acontecia faltarem ocasionalmente porque, entenda-se bem, o Miguel fazia um trabalho tão adequado, tão perfeito, que elas se sentiam escusadas. Às tantas perturbariam a ordem e a paz. Não queriam atrapalhar, não se queriam intrometer. E depois eu também deveria intervir, viver em Lisboa não era desculpa, nem sequer a minha carreira reconhecida à qual pelos vistos dedicava todas as horas de todos os dias. Porque é que, para além do Miguel, apenas elas ajudavam? Porque não eu? Isto embora pensassem que ajudar os pais não representava um sacrifício, tratava-se apenas de uma questão de justiça, de equilibrar a balança.
Por falar em Steinbeck, eu sentia-me a leste de qualquer coisa boa que deixara escapar. A leste do paraíso, sim, porque naquela velhice sem histórias, metida na rotina como a pérola na ostra, vivia-se uma paz que eu nunca conhecera. Para mim só contrariedades, só guerra, só impor-me aos outros e, mesmo assim – talvez por isso –, permanecer sozinho. Quando me informavam «Os teus pais vão bem», pensava «E eu, como vou?». Se continuavam «Também vi o Miguel, sabes?», pedia que se calassem, não ouvia, mudava de assunto.
Transtornava-me.
Ultrapassara a fronteira muitos anos antes, não podia voltar atrás. Daí a mágoa. Eles não me acolheriam porque eu passara a ser um estranho e, embora não duvidasse de que continuavam bons pais, nem sequer me reconheceriam se me encontrassem. Tornara-me a terra distante para a qual fora viver. Se voltasse, isto é, se me incluísse outra vez naquela rotina, nem que fosse por telefone, seria como outro e não como filho, porque já não poderia usar esse nome. Não seria digno dele. E, sim, os meus pais eram bons mas não conseguiriam ver-me ao longe mesmo antes de eu chegar. Só assim o regresso poderia ser suportável, se me vissem ao longe e me acolhessem sem eu dizer uma palavra. Como não acreditava que isso acontecesse, deixei-me ficar.
Por outro lado, temia o Miguel. Se eu voltasse, como reagiria ele? Sentir-se-ia afrontado?
Foi melhor permanecer longe e abandoná-los àquela rotina apenas alterada quando iam ao Tojal.
Velhos como estavam, chegar era o diabo. A EN 210 esboroara-se nas bermas à custa do tempo e da falta de uso, principalmente por causa da falta de uso, já que o homem, trabalhando, restaurando, consegue evitar que o tempo mate as coisas. Ninguém a repavimentara. Depois de Arouca, até meio da viagem, ia-se mais ou menos porque ainda se passava por Vilarinho, Alvoroço da Serra e Chieira, onde vivia gente que olhava pela estrada. Mas então sim era o diabo. Claro que Ponte de Telhe dispunha dos adoradores da estrada, mas talvez estes fossem mais ou menos iconoclastas porque deixavam o objecto do seu culto perecer com as gretas de chuva e gelo e outros que tais. Não se preocupavam desde que arranjassem espaço para as cadeiras, e passasse um ou outro carro do qual dizer «Olha-me este, a matrícula é do ano passado», e a vista larga diante deles.
Mas veja-se. Um velho como o meu pai ao volante e a estrada cortando em gancho de queda em queda.
– Nem a alma escapa, se cairmos não sai do amolgado – dizia o pai, apontando para baixo.
O Miguel escondia-se no fundo do banco agarrado ao cinto de segurança para não testemunhar as curvas. A minha mãe tomava dois Xanax antes da viagem e dormia até estacionarem em frente de casa.
A carrinha Peugeot não aguentava além das três mil rotações e o conta-quilómetros rivalizava com o dos táxis. O meu pai não entendia como uma carrinha Peugeot a gasolina aguentara tanta pancada, tanta ida e vinda, tanta serra. Aliás, ninguém percebia. «Olha ali», dizia o meu pai a apontar para o conta-quilómetros, gabando-se de ainda puxar por ela.
Num desses dias, o problema foi voltar, não ir. O senhor Aníbal e a senhora Olinda poderiam ter ajudado, mas estavam no hospital com o Quim havia alguns dias e continuariam por outros tantos até que o Quim começasse a respirar melhor e não precisasse de oxigénio.
Fora um susto no meio da várzea, a descoberto. «Não consigo respirar, não consigo respirar», berrara ele, «Mas engole mais ar, enfia para dentro com mais força», berrara a senhora Olinda. O senhor Aníbal limitara-se a tirar o boné e a observar, calado, enquanto o filho arquejava flectido até ao chão.
No dia da volta, de malas já na bagageira, o meu pai tentou ligar a carrinha e um zziit sobrepôs-se ao rodar das chaves. Zziit sempre que dava à chave. E também não arrancou depois do costumeiro deixar cair pela inclinação. A carrinha desistira, extinguira-se, morrera. Ou seja, estavam presos no Tojal sem provisões suficientes.
– Isso vai? – perguntou a minha mãe da janela com o telefone na mão.
– Nada.
Precisavam de chamar um mecânico de Arouca, mas o telefone, também ele zziit, e não podiam usar o telemóvel porque a rede nunca fora lançada sobre o Tojal. Em suma, ficariam presos até que a senhora Olinda e companhia voltassem do hospital ou até que alguém, cenário pouco provável, cruzasse a estrada. Ninguém passava pela estrada senão eles.
– Esta agora! – dizia o meu pai.
– Esta agora… – repetia a minha mãe.
Com certeza que mais tarde ou mais cedo seriam resgatados, mas até lá o transtorno, o sentimento de prisão, de beco sem saída, incomodava tanto que não os deixava dormir. E depois já só dispunham de três refeições congeladas, talvez seis se as racionassem. Portanto, três dias.
O Miguel não percebia o que se passava e tentava comer mais do que lhe era permitido.
Ao fim do segundo dia, o meu pai decidiu pôr-se a caminho de Ponte de Telhe. Ficava a sete quilómetros, sete quilómetros e pouco, no máximo oito; levaria muita água e um banco desdobrável. Talvez demorasse algumas horas por causa dos declives – caramba, era sempre a subir –, mas no dia seguinte conseguiria voltar de carro com o mecânico. Aliás, talvez com sorte encontrasse alguém pelo caminho. O plano era simples se o executor não tivesse mais de oitenta anos. Assim como assim, parecia-lhe a única solução. Iria.
Então repararam. O Miguel não dava sinais de vida havia algumas horas. No quarto, um silêncio pouco característico. De facto, constataram que o quarto estava vazio. E ele em nenhum lado. Não havia muito por onde procurar. Ele em nenhum lado.
– E agora? Onde é que se meteu? – perguntava a minha mãe enquanto os berros do meu pai pelos montes «Miguel!» mal a deixavam ouvir. Repetia «Miguel!» cada vez mais alto.
A única resposta vinha dos montes, que lhe devolviam os berros em duplicado.
Nisto, a única esperança em dois dias. Do lado de Ponte de Telhe, onde a estrada se mostra primeiro, os faróis de um carro que apitava. O pó que o carro levantava e as árvores realçadas pela luz.
– Se chegar depressa ainda o apanho. – E a minha mãe correu para o lado da igreja, da estrada. Já levava os braços no ar para ser notada.
O carro, que antes acelerava, agora percorria a estrada devagar como a seguir indicações. Tratava-se de um Volvo de princípio dos anos oitenta com as linhas rectas típicas de então. Um terço florescente pendia do retrovisor e pouco mais se conseguia distinguir. Talvez um homem de bigode.
Ao menos parava, tinha-a visto.
Sim, um homem de bigode que lhe disse, apontando para o banco de trás, «A senhora é mãe deste senhor?». Nem sequer olhara para trás. O Miguel sorria, calado.
Convidaram o homem a entrar. Ofereceram-lhe vinho, café, o que ele quisesse.
– Eu até ia para o Pisco e estava a virar na estrada ao pé dos contentores antes de Ponte de Telhe. Sabem ond’é? Sabem. E depois quase que batia porque este senhor apareceu no meio da estrada. Tive de travar. Ele entrou para o banco de trás e eu a ver a minha vida em complicações. Era cajaking, mas depois percebi.
O Miguel não interrompia, mas os olhos muito abertos davam a entender que prestava atenção ao homem.
– Claro – continuou engolindo um trago de vinho do Porto –, ele não me ia fazer mal. Percebi isso. Começou com conversas, vai para ali, vai para ali, perigo, ajuda, e coisas assim. Ele insistiu tanto que eu fui. E cá estou, dei com os senhores num aperto.
Penso que foi uma das últimas idas ao Tojal.