O Meu Irmão
Suponho que tinha que ver com pedagogia.
Não me lembro de quantos dias levava, nem quantos tínhamos posto. Não fora a primeira vez. Costumávamos alojar no máximo seis. Acomodavam-se no tubo encostados às ripas, e de manhã e à noite virávamos o mecanismo para o lado oposto de modo a não colarem. Separávamo-los com algodão. O processo repetia-se ao longo de vinte e oito dias.
De dois em dois dias, mudávamos a água do reservatório, só nessa altura abríamos o tubo e aí um cheiro a calor húmido assinalava que tudo corria bem; não corresse, o cheiro seria muito mais intenso.
Falo de ovos numa chocadeira semiautomática Octagon 20 Advance, da Brinsea. «Especialistas internacionais em incubação.»
Quando a data se aproximava, começávamos os preparativos. Mas antes acumulávamos alguma expectativa. «Olha que nem sempre nascem…», a mãe por um lado. «Sim, mas são a coisa mais gira», o pai por outro.
– Mais gira como? – perguntava eu.
Eu sabia como, mas queria ouvi-lo.
– Tão gira que, quando eu tinha a tua idade, o avô deu-me um patinho igual, bico minúsculo, acastanhado às manchas, e só me apetecia comê-lo! Não o largava, punha-o na banheira e ele dava mergulhos até ao fundo. Depois um dia decidi dormir com ele. Foi grave.
Isto enquanto o Miguel e eu preparávamos uma caixa com gravilha no fundo, um bebedouro e um comedouro para a farinha. O «foi grave» parecia um ponto final, só que eu queria ouvir mais.
– Foi grave porquê? – perguntei.
– Porque uma cria de pato é muito pequena.
– E então?
– Quer dizer, no dia seguinte não sobrou muito pato.
– Como?
– Basta uma pessoa virar-se à noite. O patinho também está a dormir, não sai do sítio e vai daí… – sorria.
Por último, a lâmpada de infravermelhos. Os olhos do Miguel abriram-se muito, de surpresa. Ficara tudo avermelhado e mais quente. Ele andava à nossa volta percebendo tudo, só lhe escapara para que servia a lâmpada. Mas enfim, tínhamos o ninho feito e agora era esperar que os ovos eclodissem.
O Miguel sentara-se de cócoras ao lado da caixa e estava à espera de que aparecesse alguma coisa lá dentro. Chupava a língua e esfarelava pão à dentada. Adorava comer pão, mas o nosso pai proibiu-o porque enchia a casa de migalhas.
Os ovos eclodiram. Antes tínhamos aumentado um pouco a temperatura da chocadeira e então começaram a piar, a abanar, a sacudir e a partir a casca. E eram lindos, mesmo molhados. Nem tinham força para se levantarem, saíam do ovo e ficavam deitados. Depois de algumas horas, pusemo-los já secos na caixa. Eram seis.
Peguei num e o Miguel noutro. Eu examinava-o das patas ao bico e o Miguel copiava-me, mas a prestar mais atenção ao gesto de imitar do que ao próprio pato que tinha nas mãos. Depois restituímo-los à caixa.
O Miguel era tão cuidadoso que por momentos me enchi de orgulho e quis imitá-lo. Mas seria descabido: ele a imitar-me e eu a imitá-lo a imitar-me.
Nesse dia adormeci excitado com a ideia de rever os patos na manhã seguinte. Acordava a cada hora, um pouco embrutecido pela noite mas sempre à espera de um piar. Às vezes ouvia, outras nem sei se estava acordado. O Miguel ressonava e de certa forma sentia raiva por ele dormir e eu não, por a vida dele ser tão pacífica e a minha tão nervosa, tão à espera de alguma coisa.
O dia veio e ainda bem. Estava paredes-meias com a obsessão.
Corri para a caixa. No meio deles, como uma flor morta no meio de flores vivas, encontrei um cadáver diminuto, ainda assim com a cabeça apoiada nos irmãos.
– Miguel, anda ver. Morreu um!
Mas ele não apareceu. Ainda estava a dormir. O meu pai saiu do quarto, aquela figura enorme de roupão. Deitámos o pato no lixo e não se falou mais no assunto.
Acontecera alguns nascerem com as patas coladas. Não se mexiam bem ou mal, simplesmente não saíam do sítio. E sabe-se lá que espécie de deformidades teriam por dentro. O certo é que morriam à razão de um por dia: pela manhã eu corria para a caixa, verificava onde estava o cadáver, que era semelhante a um pequeno saco húmido e apodrecido, e atirava-o ao lixo.
Os meus pais diziam
– Estas coisas acontecem, não ligues. Para a próxima…
e explicavam que nem sempre encontravam forças para sobreviver, que nem sempre saíam perfeitinhos e por isso lutavam contra mais dificuldades. Um autêntico bê-á-bá. Parecia-me lógico que criaturas assim tão pequenas e indefesas acabassem por morrer. Pequenas, indefesas e para mais estúpidas. Uma delas nasceu saudável, mas acabou por esturricar a cabeça na lâmpada.
Feitas as contas, sobreviveu um perfeito e isso é que me espantou.
Andava com ele por toda a parte. Usava-o como prolongamento da mão. Queria imitar o meu pai e dormir com ele, mas lembrava-me das consequências e daquele sorriso que dizia tudo de forma espalmada. Por vezes sonhava que dormia com ele, porém não havia perigo nisso.
– Miguel, pega aqui.
Ensinava-lhe a melhor maneira de ser cuidadoso e o patinho saltava da minha mão para a do Miguel, e juntos formávamos uma casa para aquele animal.
– Bonito? – dizia ao passar-lhe o pato.
– Nito – respondia ele ao recebê-lo.
Mas eu gostava mais, o pato era meu e também do meu irmão, mas sobretudo meu. Eu mudava-lhe a água, a palha e a farinha e era eu que o mostrava ao Miguel, não o contrário. E por vezes não mostrava porque o queria só para mim.
No fundo, só possuímos algo verdadeiramente quando emprestamos, ou melhor, quando mostramos de forma clara ao outro que aquilo não lhe pertence porque emprestar implica devolver.
O bicho ainda não era do tamanho de um bolso de camisa quando o Miguel começou a afeiçoar-se mais. Acordava antes de mim e punha-se de cócoras a comer iogurte e a observá-lo. Quando eu chegava, já ele o tinha na mão ou entre as pernas.
Aquilo era perigoso.
– Deita-o na caixa, Miguel!
– Nao.
E depois lutávamos para ver quem mandava. Eu vencia, e sempre que o Miguel se aproximava lá estava eu de vigia a limitar-lhe cada gesto. Acho que ele chorava de raiva, mal necessário para a segurança daquele único patinho. Um de seis.
Era-me indiferente que o meu irmão ficasse ferido a um canto, enrolado numa choraminguice muito própria dele, talvez sentindo-se mais infeliz e limitado por não se conseguir haver contra mim, eu perfeito, livre de deficiência. Por cada gesto ser antecedido por mim, por cada pergunta ter resposta antecipada, por cada raiva ser aplacada pela minha indiferença e talvez até desprezo.
Assim foi até que:
Ninguém estava por perto. O Miguel esgueirou-se aos saltinhos até à caixa e ia contente. Finalmente a sós, brincaria à vontade. Espiava para ver se eu aparecia. Colocou o pato no chão e por pouco fugia, mas conseguiu apanhá-lo sem o pisar.
De facto, tratar de outro ser vivo representava para ele um feito, era como libertar-se das amarras e estender os braços para a vida.
Tê-lo na mão era a maior das alegrias. Apertou-o um pouco e ele não deu de si. Piava na mesma. Deixou-o dar mais uma volta, esticar as patas e lavar o bico. Talvez o pato até tenha adormecido sob o olhar paternal dele. Depois o Miguel voltou a pegar-lhe e apertou com um pouco mais de força. Mas na mesma o pato piava e permanecia pequeno e indefeso.
Ninguém estava ali para ver, mas acho que foi mais ou menos assim.
Nessa altura desistiu de ter cuidado porque era óbvio que o bicho aguentava. Apertou como quem abre uma maçaneta emperrada. Claro, o pato esvaziou-se pela cloaca.
O Miguel limpou a mão às calças e pousou as sobras no caixote, ao lado da água. Mantinha o mesmo ar paternal, mas agora com um sorriso atrapalhado de quem fizera asneira sem perceber porquê. De quem sentia a verdadeira dimensão das suas limitações.
Nessa noite jantámos em silêncio. Não foi por nada, mas não nos apetecia falar. Lembro-me bem do magret e de como a carne brilhava meio crua no centro do prato.