O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 26 de 46

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O Meu Irmão

Quando chegámos, o Tojal cabia num bolso.…

Quando chegámos, o Tojal cabia num bolso. Agora cabe num porta-moedas dentro do bolso. É que não quero cruzar-me com o Quim e num sítio assim tão pequeno, tão repetido, basta pôr os olhos na rua para o encontrar. Estou sempre à espera de que a bengala surja numa esquina, ou de que o Smart saia da garagem e ele me diga mais qualquer coisa perversa como o «Estão para lá» de ontem.

Ou que use as mãos de corda com outros intuitos que não guiar, comer, agarrar-se à bengala e soprar a vuvuzela. Não consegue repousar as mãos: mesmo agarradas à bengala, não param de estalar os dedos.

Pensando melhor, nem sequer preciso de olhar para a rua, basta permanecer atento que a qualquer segundo o grito da vuvuzela solta-se no Tojal como uma praga, uma peste, algum tipo de miasma que entra pelos ouvidos, pela boca, pelos olhos, tanto faz, mas que se impõe, que nos viola.

Só que, porra, não posso ficar encurralado na minha própria casa. Num sítio como o Tojal, um cerco é qualquer coisa de notável, um feito de malabarista sem corda, sem rede, sem nada. Sem entusiasmo.

Basta abrir a porta, respirar um pouco de ar, esticar as pernas, ir até à fonte e voltar. Aliás, o Miguel sentou-se ao meu lado, em frente da televisão, e agora estala os nós dos dedos como o Quim, mas sem a mesma intensidade. O som dos dedos lembra os estampidos de uma lareira quando as achas amansam. Quase com o braço sobre o meu, murmura frases sem sentido, que é como quem diz «Vai-te embora». À nossa frente, os bailarinos do poster Decca. As mãos dele também dançam.

Numa aflição, ou em qualquer constrangimento, o Miguel reduz-se ao mínimo. Encolhe os ombros, esconde-se num canto, reprime o choro até ser inevitável chorar.

Quero sair. O Quim não importa. Esta agora, chegar ao fim do mundo e não poder aproveitá-lo. Tudo porque o Quim é aquilo que há de pior no ser humano: sendo igual a mim, não é meu irmão. Por isso não percebo as pequenas perversões e as amarguras. Ou melhor, percebo mas não sinto empatia e julgo-as como se lhes faltasse contexto. Julgo-as pelo que valem, não pelo que significam. Interessa-me lá bem que ele tenha nascido fraco no pior sítio para se ser fraco. Situação ainda melhor para se superar, diria. E ainda sinto algum ressentimento, talvez até mais do que em relação ao «Estão para lá», por ele ter dado o assento do tractor à minha namorada daquela vez em que nos foi buscar ao Paiva. Eu bem vi a alegria dele em tê-la ao pé de si, em poder espiá-la no contraste do pôr-do-sol. Por outro lado, o «Estão para lá» espicaçou apenas a minha imaginação, por si só não significou nada. E mesmo que «estivessem para lá», que mal viria a este fim de mundo?

Se de facto fosse meu irmão, talvez o percebesse e tolerasse.

Por fim saio. O Miguel desata às palmas mal fecho a porta. Quer a casa só para si.

Sem mim, é-lhe mais fácil imaginar que a Luciana regressará a qualquer momento.

E quer a casa só para si por outro motivo. Comigo fora, pode aumentar o som da televisão e ver telenovelas como se a voz das actrizes detivesse corpo, tal como fazia antes da Luciana. É assim que a substitui enquanto ela não volta. As actrizes servem de paliativo, amparam-no pela imagem e pela voz, embora não possam entregar-lhe o tal corpo que cresce através do som. Ficam sempre atrás do ecrã.

No Porto proibi-o de ver telenovelas, mas aqui deixo, para que se entretenha.

Cá fora, o primeiro sol quente do Tojal desde que chegámos. Um som de vara a bater na pedra, os berros do senhor Aníbal «Agora sou eu, agora sou eu!» e a resposta da senhora Olinda «Isso é que tu querias. Tira daí!». A voz dele é mais vazia, a dela mais cheia.

A igreja tapa a vista do largo mas eu sei que a vara bate na fonte. Contorno a igreja pelo lado do rio. O Paiva escava a sua cama numa torrente cada vez mais volumosa.

A senhora Olinda coloca as socas na fonte, substituindo as do senhor Aníbal. Este calça as socas, que pingam água escura sem fazerem barulho no chão, embora os passos caiam pesados. Desce para o campo deixando um rasto de água no xisto. Acena-me sem dizer uma palavra ou atrasar o passo, sem murmurar ao menos um «Então vá». Fico a sós com a senhora Olinda mas ela ainda não me viu. Entretém-se a mergulhar as socas bem fundo com a vara.

Imita o gesto de quem afoga o cachorro que nasceu deficiente.

Mergulha a vara uma e outra vez até que, tal como o cachorro, as socas desistem, batendo no fundo com a sola virada para cima e a madeira dilatada. A senhora Olinda observa-as com a mão na cintura, a mesma mão que segura a vara, mas fica imóvel quando uma delas liberta um cacho de bolhas e sobe até meio da fonte, dando duas voltas e tornando a mergulhar para o fundo. Ela sabe como se faz. O bocal da fonte, uma mangueira de borracha cortada na diagonal, expele fios de água aos arremessos.

Como num documentário da vida animal, o ser observado não sabe da existência da câmara, e isso gera uma intimidade de outra forma impossível. Vejo-a como se ela estivesse só. Veste um tecido preto enrolado várias vezes à volta da cintura. Os braços brilham de água e suor à medida que ela desarregaça as mangas. Tem dificuldade em lidar com os botões, não acerta à primeira e larga um «Ai» de irritação consigo mesma e com o botão. Mais com o botão do que consigo mesma.

Continua sem me ver, embora eu esteja a dois metros dela. As mãos permanecem encharcadas e os olhos espiam as socas no interior da fonte. Dali já não saem, mas ela observa-as como pretexto para não fazer nada. Aliás, a esta hora costuma entregar o corpo à terra através da enxada, ou partilhar o mesmo caminho das ovelhas por entre os pinheiros, os eucaliptos e as silvas que ladeiam o Paiva. Caso não tenha nada para fazer, entretém-se a arrancar as ervas daninhas que crescem na parede da casa.

Entretém-se sempre com algum afazer insignificante. Hoje lembrou-se das socas, talvez para provocar o marido. Por norma, só o senhor Aníbal lava as socas na fonte.

Dou-lhe um toque nas costas e ela deixa cair a vara, engasga-se, vira-se e diz, assustada

– Ia agora falar consigo!

O cabelo desprendeu-se com o susto. Não foi o cabelo todo, só uma madeixa deslizou sobre a testa e ela agora consegue enfileirá-la numa mola. A mão até parece outra, mais esguia, mais de mulher.

Demoro algum tempo a responder. A senhora Olinda baixa-se para recuperar a vara, mas contrabalança as costas com o braço. Agora sim está recomposta. E continua

– O meu Quim acordou muito mal. Veio-lhe as tonturas e não sabe o que diz. Não quer a ambulância nem nada. Eu que lhe dê as injecções e assim, mas não resulta. Está pálido, quer dizer, ou isso ou azul. Tosse muito e não sai da cama. Digo-lhe para se virar para o lado mas ele tosse para cima de mim.

E acrescenta depois de uma pausa para verificar se o cabelo permanece agarrado

– Está para lá. O que é que eu faço?

O mais sensato é chamar a ambulância, mas, em vez de a aconselhar nesse sentido, respondo

– Faça a vontade do doente. Deixe-o em paz, que amanhã fica bom. Já ultrapassou crises assim, não?

Outra pausa antes da resposta. Conta as crises pelos dedos, mas depois dobra a conta e perde-se entre o indicador e o anelar.

– Sim, mas o senhor é que é doutor, deve saber. Daí perguntar.

– Não sou esse tipo de doutor. Sou das letras.

A senhora Olinda não percebe a diferença porque no fundo não interessa que tipo de doutor. Só interessa que o Quim está pálido ou azul e lhe tosse para cima e ela não consegue evitar sentir repulsa pelo cuspo do filho sobre o vestido preto e sobre os lençóis emaranhados.

– Mas não faz mal perguntar. Não ofende – conclui ela.

– Suponho que não, senhora Olinda.

Depois volta a mergulhar a vara na fonte. Está muito cansada e o gesto de mexer a água é quase maternal, como se misturasse uma sopa. Ser-se maternal é ser-se cansado e mesmo assim misturar a sopa. A senhora Olinda não parece mulher suficiente para ser mãe, nem no corpo nem na fala. Talvez no caso dela a maternidade seja um segredo bem guardado, uma matriosca bonita dentro de uma matriosca feia.

As mãos continuam sujas de ter trabalhado no campo e é assim que as vai levar ao quarto do filho. A terra meteu-se ainda mais por baixo das unhas porque a água enrugou a ponta dos dedos. Imagino o Quim a olhar para as unhas da mãe e perguntar «Que está aqui a fazer com as mãos assim?» e ela fingir que não ouviu, escondendo as mãos. A porcaria dele é que conta, a dela não. Pode suportar restos de vómito na cama, mas não tolera as unhas pretas da mãe. E não sabe em que medida a mãe é mesmo mãe, embora se reconforte todos os dias com uma sopa quente acabada de fazer. Às tantas julga que a mãe faz a sopa por pena, e às tantas é também isso que ela pensa.

Observo os vestígios de terra nas mãos, o vestido envolto na barriga, o cabelo atirado para trás, o embaraço. A senhora Olinda pergunta

– Está a olhar para quê?

Num momento de fraqueza,

No fundo trata-se de uma mulher, e é preciso ter sempre pena e carinho por uma mulher cansada.

digo-lhe para não se preocupar que ainda hoje irei visitá-lo,

Aqui está, basta sair à rua para me cruzar com ele.

que ainda hoje irei chamá-lo à razão, fazê-lo aceitar a ambulância.

Aquele mundo fugia ao entendimento do Miguel com a força de uma enxurrada, deixando-o limpo por dentro, mas vazio. Um mundo localizado no oposto dele. À falta de designação melhor, tratava-se do mundo intelectual, ou coisa parecida.

Corredores apertados por onde pulsava gente em busca das secretarias dos departamentos, dos horários dependurados em pioneses, dos professores, dos papéis por preencher que se afiguravam imprescindíveis ao estudante inscrito, das salas sem identificação, do refeitório onde serviam macro. Gente que chamava pelo amigo perdido no andar de cima enquanto esperava pelo orientador das licenciaturas para o encontro que abre o ano lectivo. Gente que fumava atirando as beatas para as casas de banho. E raparigas que se queriam parecer com mulheres – e homens que se queriam parecer com rapazes. Também rapazes que se pareciam com raparigas – e raparigas que se pareciam com rapazes.

Ouvidos em paralelo, os berros e conversas assemelhavam-se aos da APPACDM.

Grupos de três ou quatro pessoas entravam a medo nas salas. Ao nível da cintura, a cor da parede mudava para branco cada vez mais sujo, marcado por dedadas, por tintas diversas e com teias de aranha eivadas de pó, como se estivéssemos dentro de uma sala ainda em construção, mas à qual embargaram as obras por falta de dinheiro ou competência. Como nos liceus, alguém cravara nos tampos das mesas frases como «Xavier loves Helena» e «Sinto-me triste».

A universidade ainda não fora entregue às mulheres, pelo menos não de forma assumida, embora desconfie de que, segundo a estatística, tal já ocorresse. Hoje sem dúvida que elas dominam as humanidades, as ciências, e o mundo de uma assentada. No entanto, a minha primeira aula foi dada por um professor velho, magro como um cínico, que se sentou e, sem uma palavra, abriu o Palomar do Italo Calvino e assim permaneceu durante dez minutos até que a minha tosse o guiou de novo à realidade, longe dos queijos de cabra que o senhor Palomar não se decidia a escolher.

– Pois então vou apresentar-me. Como sabem, em Barthes o acto de ensinar (leiam a Lição) é um acto de poder, talvez quem sabe uma prepotência. Eu não estou ao vosso nível – e não é que deva estar, mas as nossas realidades cruzam-se neste local e quero que o façam gentilmente, digamos.

A funcionária do departamento entrou de rompante sem bater à porta. O olho esquerdo, em cujas olheiras pontilhavam protuberâncias de gordura, apontou para o professor numa rajada.

– Ó professor, não assinou a folhinha – disse.

– Mas agora, mulher? – perguntou ele.

– Sim, sem folhinha não há aula. Ordens de cima, sabe como é.

– Se tem de ser, passe para cá.

E a mulher estendeu-lhe um maço de papel com diversos formulários que ele assinou um a um, com calma, depois de lidos. Antes de sair, informou a turma «Olhem que este é dos bons», sorriu e fechou a porta com estrondo.

Perdido, o professor ficou a olhar para nós sem prosseguir.

Então, sim, abriu de novo o livro e voltou ao problema dos queijos. À minha esquerda um colega enfiava o dedo no nariz enquanto uma morena, perto, tirava já apontamentos de tudo o que fora dito. Éramos pouco mais de quinze na sala. Os da fila de trás, ao estilo de quem pertence à associação de estudantes, sacavam de um baralho. E os da frente esforçavam-se em permanecer direitos, até mesmo hirtos perante o professor, que passou mais dez minutos sem despegar os olhos do Palomar, o qual por essa altura já devia ter escolhido o melhor queijo e saído da loja.

– Por isso, quer dizer, para vos mostrar que não estamos ao mesmo nível, mas que no fundo somos do mesmo nível (todos humanos, sabem?), vou arriscar uma confidência – recomeçou enfim, repuxando as peles do pescoço. – E aqui está. A minha vida sexual começou quando sem querer a Rosa tropeçou para cima de mim e fez-se luz.

As cabeças da assistência, que descaíam, levantaram-se num ímpeto. O baralho voltou para a mochila. À frente levaram as mãos à boca em simultâneo e a morena engasgou-se e engoliu em seco depois de limpar a garganta.

– Foi isto em mil e novecentos e qualquer coisa… Não me lembro quando, já lá vai. Sabem, já lá vai. – E depois, insistindo: – Sabem ou não sabem? Tu aí, sabes ou não sabes?

O dedo apontava para mim.

– Não, professor. Quer explicar-nos? – respondi.

– Bah, não vale a pena, só vos digo que hoje estou velho quase jubilado e agora não se faz luz. Não vão por aí dizer, mas a luz é o que é: uma porra. Apaga-se como por nada e chega-se à minha idade e parece que entrámos nas trevas, como se nos tivéssemos extinguido aos poucos.

Eu ouvia-o à espera da viragem (como o barco que bolina), da conclusão para a literatura, ou até para a teoria da literatura. Qual seria o significado daquela impotência no próprio acto de ler, por exemplo, ou em que medida a Rosa era, afinal, uma metáfora enviesada para a musa, para o intelecto?

– Vocês desculpem esta introdução, mas gostava de falar um pouco mais da Rosa. Quando era nova, a Rosa usava saias rendadas e já naquela idade se regava com perfume em todos os cantos. Infelizmente hoje em dia falar da Rosa, como diria a Gertrude Stein, é só falar da Rosa, da Rosa, da Rosa. As saias rendadas deixaram de fazer luz.

De repente, a mulher do departamento surgiu de novo ao lado do professor, de certo modo também ao lado da Rosa, e puxou-lhe pelo ombro, dizendo baixo

– Desculpe, mas faltou um papel. Este aqui. Dão muita importância a este, tem mesmo de assinar.

O professor rabiscou o nome aos suspiros, continuando logo após a secretária sair.

– E a Rosa foi boa comigo toda a vida, estão a ver, a culpa afinal não era dela. Conheci-a não me lembro quando e fomos até ao fim da vida. Só com ela fui ao fim da vida. Houve outras que também me acompanharam, mas a Rosa perdurou. Ela é que era a minha mulher. Porque a Rosa…

E então não conseguiu, engasgou-se, tapou a cara com as mãos e prosseguiu entredentes. Lembrava uma peça de teatro, como se ele figurasse num palco a fingir pudor, mas no fundo comprazido perante o público.

– Deixem estar, deixem estar, não se incomodem. É que a Rosa morreu há duas semanas, estão a ver, e eu pus-lhe os cornos sempre que houve ocasião.

Fora, cabeças de estudantes cortadas pelo pescoço, como luíses XVI e marias antonietas, passavam rente à janela, em procissão.

A morena traçava e destraçava a perna. O escarafunchador do nariz semi-ergueu-se como a interpelar «Desculpe, isto assim não», mas o professor concluiu antes com «Bem, por hoje é tudo. Leiam o capítulo das ondas, no Palomar, e para a semana discutimos a problemática aí implícita».

Decorreu assim a minha primeira aula.

Entretanto, a vida que deixara para trás permanecia inalterada. Ao contrário do Miguel, eu conhecia perfeitamente o mundo do meu irmão, que era bem diferente do meu. Nada mutável, perfeito, diria até florido, se essa palavra não fosse um recurso rebuscado para descrever algo que não cresce, que não evolui, que simplesmente é como é.

Às segundas-feiras de manhã, a APPACDM levava-os aos jardins de Serralves para amanharem uma horta. Ou seja, as educadoras semeavam, regavam e tratavam das plantas; eles limitavam-se a sujar as mãos na terra, atirando punhados uns aos outros. O Miguel só atirava terra à Luciana. Fora-lhes entregue a zona das couves, que ficava ao pé do viveiro dos faisões dourados, porque o Miguel reagira com violência à ideia de partilhar a horta com outros colegas. Apenas admitira partilhá-la com a Luciana.

Costumavam esgueirar-se dos afazeres e fugir para os jardins. O Miguel pegava-lhe na mão, aguardando o momento mais apropriado, e enquanto todos se entretinham com os ancinhos, piscava o olho e sussurrava «Ja!». Então corriam desenfreados por entre as sebes, lagos e teixos de Serralves.

Sempre que paravam para descansar a seguir à corrida, ele arrancava a vegetação que crescia junto ao caminho e entregava-lha num gesto largo, com raízes e tudo. De todas as vezes surpreendida, a Luciana recebia o ramo também com um gesto largo, enfiando-o a custo no bolso das calças como os primeiros movimentos de uma valsa.

Seguiam a passo lento pelas áleas, ouvindo os berros das educadoras, que chamavam por eles em vão. Indiferentes, prosseguiam até ao terreno dos burros mirandeses em busca do cheiro a feno, hortelã e pêlo molhado que aí pairava. Regressavam quando os seguranças de Serralves eram chamados, e apenas porque os uniformes escuros com letras encarnadas da Securitas os intimidavam.

Os outros deficientes, que haviam sido abandonados na horta, impacientavam-se rompendo num gemido colectivo, um gemido em abraço que afugentava os transeuntes. Alguns não se ficavam pelo gemido, fugiam também, largavam a correr mas mantinham-se nas imediações. As educadoras, voltando com a Luciana e o Miguel, precisavam então de os reunir, o que envolvia mais berros, mais procura, mais Securitas, mais reprimendas.

Depois de vários minutos, já agrupados junto à horta, os fugitivos choravam manso, como a chuva miúda que conclui a tempestade.

Davam-lhes sempre o mesmo raspanete. Eles lado a lado perante as educadoras que se dispunham em bloco, afirmando «Isto não volta a acontecer, para a próxima ficam no colégio, assustam toda a gente, que mania!».

Perante a fúria das educadoras, o Miguel e a Luciana davam as mãos atrás das costas e riam por dentro, desinteressados e aptos a repetir a façanha.

Quando ele regressava a casa, o meu pai sentava-o na sala e perguntava

– Então, Miguel?

– Quefoi – retorquia ele.

– Não sabes que, para fugir, o melhor é ser mais discreto?…

A veia romântica do meu pai nunca se extinguira, apesar de a idade o ter desmotivado a ponto de se sentir jovem e forte, mas preso a um corpo que não o acompanhava na força e juventude. Por isso condescendia nas aventuras do Miguel, talvez revendo-se nelas, embora o romantismo do meu pai fosse uma canção de Aznavour, sempre bela mas fora de moda, e não uma fuga por Serralves.

Ele, claro, não reagia à subtileza, era como se o pai conversasse sozinho, obtendo respostas pela expressão do corpo. Qualquer conversa com ele era solitária. Apenas entregava o verbo à Luciana.

Não sei até que ponto a situação da Luciana preocupava os meus pais, se é que alguma vez pensaram nisso. Que consequências teria aquela obsessão? É que a ideia romântica de fuga podia ultrapassar os muros de Serralves. Quem sabe um dia o Miguel decidisse que os pais eram no fundo como as educadoras da APPACDM, sempre aos berros, ou que o amor que sentia pela Luciana impunha ser correspondido com mais intensidade e solidão – só a dois, como os outros casais. E aí não haveria agentes da Securitas em busca dele, só a angústia de ninguém saber para onde fugira, que era feito dele, inclusive se regressaria. Mas estas questões não se colocavam, já que, a par do amor pela Luciana, existia o amor aos pais que o mantinha em casa. Se esse amor acabasse, ou eles morressem, seria provável ele desaparecer nas ruas do Porto, como nos jardins de Serralves, em busca de um ramo para dar à Luciana.