O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 37 de 46

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O Meu Irmão

A mulher apoia-se no portão enfiando o…

A mulher apoia-se no portão enfiando o braço entre as grades. Os dedos quase chegam ao trinco. Ela bem os estica, mas falha por milímetros. Não consegue abrir o portão nem recolher o braço, que agora ficou entalado nas grades. Embora desloque o rabo para trás de modo a contrabalançar os ombros e use o outro braço como alavanca, o esforço de nada adianta, aliás prendeu-se ainda mais.

Apoiado na janela do primeiro andar, observo a sua aflição enquanto repete «Ai Jesus» em surdina. É uma das mulheres que rezavam o terço na missa do Quim.

Abro a janela quando o «Ai Jesus» se torna demasiado alto para ignorar. O Miguel, que já se aproximou, dá-lhe palmadas no ombro para a reconfortar. «O meu irmao ajuda.»

– Espere que já aí vou – berro.

Agora que o Quim morreu, o Tojal encheu-se de gente como há muito não acontecia. Gente como as mulheres do terço, o ajudante da matança do porco, o antigo presidente da Junta de Freguesia, os primos da senhora Olinda e os irmãos do senhor Aníbal, os antigos vizinhos que se mudaram para Arouca, uma criança de treze anos que apareceu sozinha, o motorista do táxi que levava o Quim ao hospital e dois ou três turistas de Sintra. Apareceram quais necrófagos em busca de alguma sobra daquela morte, mas não havia nada antes da morte, quanto mais depois. Chegam em grupo, e em grupo se espalham pela aldeia, invadindo os recantos, batendo às portas, forçando as fechaduras, entrando às escondidas. De tanto rebuscarem, o motorista roubou a vuvuzela do Quim, a criança de treze anos foi vista a sair do Tojal com a bengala, que lhe dava pela testa, e os vizinhos de Arouca arrecadaram as duas caixas de livros e revistas. Algum familiar levou o Smart.

Quando perguntei à senhora Olinda de onde surgiram estas pessoas, e porquê, ela respondeu «É sempre assim quando alguém parte. Eu ia deitar tudo fora, não faz mal».

– Então como é que se meteu nessa alhada? – pergunto à mulher já suada de tanto esforço.

– Ó Deus, sabe como é. Uma pessoa vai a passar e então mete-se numa destas.

– Não sei – replico, por enquanto sem a ajudar.

– Então não está a ver? É assim! Olhe como o braço ficou preso.

– Certo, mas quem prendeu o braço?

– Vá-se lá saber – suspira ela. – Tudo isto, senhor, quer dizer, senhor doutor, é um embaraço. E logo no seu portão. Quem diria que o senhor estava em casa? Julgávamos que não vivia cá ninguém.

– Não vivo cá, mas a casa é minha. Trata-se de propriedade privada. Repare nas grades onde enfiou o braço. Assinalam a propriedade como privada.

– Sim, claro. Privada é, mas não tenho culpa de acidentes que acontecem. Eu não o vi na missa?

O Miguel afaga o braço preso enquanto tenta tranquilizá-la ao repetir, de língua para fora, «O meu irmao ajuda, o meu irmao ajuda».

– Muito bem, respire fundo e dispa-se.

– Senhor doutor?

– Dispa a camisola para ficar com menos volume. Eu salto para esse lado e puxo por ela. Talvez o braço saia também.

Adversa à ideia, morde a manga do braço livre puxando pela camisola que sai com dificuldade. Apenas de soutien, repete «Ai Jesus» mas acrescenta «Raios partam a minha vida» com ar de criança desamparada.

Depois de saltar o portão, aviso-a «Prepare-se» e puxo a camisola ao mesmo tempo que ela usa a tracção das pernas, mas só com o contributo do Miguel, que empurra do outro lado, conseguimos desentalar o braço.

– Muito obrigada, senhor doutor. Acidentes destes até aleijam – desculpa-se ela apalpando o braço.

De seguida, veste a camisola e continua o agradecimento num tom de voz mais e mais baixo até que o último obrigada se assemelha a uma conta do terço murmurada no enterro do Quim.

– Não agradece ao meu irmão? – pergunto.

– Ora sim, mas ele percebe? – responde a mulher.

– Ele percebe tudo, agradeça-lhe.

Ela entra a medo no pátio e mostra-se embaraçada a dizer

– Obrigada, menino.

– Denada. A Luciana tambem cabelpreto. Agora nao sei, a Lucianaforaportao.

Perante isto, a mulher pergunta «Que é que ele disse?», ao que respondo «Era uma amiga dele, os pais tiraram-na do colégio».

Não quero que o Miguel fale da Luciana e diga à mulher que não a encontra, que ela se foi embora para sempre.

Felizmente somos interrompidos por um berro de homem «Ó Idalina, andas aí?» seguido de palmas. Ela responde que está no caminho, aconteceu-lhe um azar mas ninguém se magoou.

Com o homem surgem catorze ou quinze pessoas. Os vizinhos de Arouca, os turistas de Sintra, os familiares da senhora Olinda e do senhor Aníbal, o ajudante da matança e a outra mulher do terço encabeçam o grupo. Levam ramos de flores amarelas e brancas muito frescas, acabadas de colher, ornados desses fetos que crescem a cada sombra. Comentam entre si que basta irem em frente para chegarem ao cemitério, mas parecem relutantes em prosseguir, como se cada passo significasse uma admissão de culpa.

Ao passarem por nós, a mulher desentalada junta-se a eles em passos rápidos mas curtos. «Olha o meu azar, fiquei presa no portão», comenta com o homem, «julgava que não vivia ali ninguém». O homem acena na nossa direcção, escarrando para um fio de água que goteja ininterrupto desde as últimas chuvas, vindo não sei de onde, talvez do próprio interior da terra saturada.

O grupo desaparece na curva que dá para o cemitério, onde um ensopando de lama agarra pinceladas amarelas e brancas que são as flores que caíram com o vento.

Vão pagar o saque.

– Nao acrdito. Nao e verdade – queixava-se o Miguel.

Nessa segunda-feira, voltara do colégio derrotado como depois de uma sova, mas sem ferimentos visíveis excepto um corte de bochecha a bochecha que fendia a base do nariz. Eu sabia que o quotidiano da APPACDM era violento, em parte até por causa dele, que impedia que os colegas demonstrassem qualquer interesse pela Luciana, mas nunca pensara que ainda fosse possível envolverem-se em lutas. Afinal de contas, a idade deles, todos com mais de quarenta anos, já deveria ter acalmado as paixões.

Despi-o em busca de cortes ou nódoas negras. A roupa húmida de suor; o corpo incólume, embora os movimentos indicassem um ombro deslocado ou uma perna partida. Perguntei «Que se passou, Miguel?», e ele encolheu-se na cama repetindo «Nao acrdito».

Como não conseguia perceber o que sucedera, telefonei à APPACDM para falar com os encarregados do Miguel. Passaram a chamada a uma mulher de voz rouca, quase masculina, que disse

– Não houve nada, não se preocupe.

– Como não houve nada? Explique o que se passou. Quem é que lhe bateu?

– Seria melhor falarmos pessoalmente.

– Muito bem, mas para já diga-me por favor o que se passou.

– É o seguinte. O senhor sabe que ele tem um carinho especial por uma rapariga chamada Luciana, não é verdade? Pois eles desentenderam-se, não me pergunte porquê. Ela disse que não queria namorar pelo menos durante uma semana, e ele levou a mal. Exaltou-se, coitadinho.

– Percebo. E o arranhão na cara, foi ela quem lho fez?

– Muito pelo contrário. Com a fúria, ele é que se arranhou, e bem. A educadora Josefa pô-lo de castigo o resto do dia.

Ainda por cima, de acordo com a encarregada, a Luciana anunciara que não seria namorada do Miguel perante toda a APPACDM, no intervalo do almoço, mas não explicara porquê, talvez em retaliação por um momento em que ele não lhe prestara a atenção merecida.

Ter-se-á tratado do momento em que o Miguel referiu que eu existia, porque dias antes ele informara-me «A Lucana nao quer falar deti».

Deixou de o acompanhar à carrinha. Almoçava no outro lado do refeitório. Deu demasiada confiança ao Ricardo, que a beliscava impune à frente da turma, em especial do Miguel. Disse à Josefa «O Miguel é mau», e esta pô-lo novamente de castigo porque a queixa foi acompanhada por um arregaçar de manga que revelou uma nódoa negra acabada de irrigar.

Ele não seria capaz, deve ter sido ela a ferir o próprio pulso.

De início o Miguel pensou que o rompimento era brincadeira, coisa de um dia, mas a meio da semana o desespero tomou conta dele a ponto de, pela primeira vez desde que vivíamos juntos, preferir ficar em casa a ir à APPACDM. Ele antevia outros dois anos de afastamento, e julgava que não seria capaz de suportar nova provação. A Luciana era dele, a Luciana era ele. Pertenciam ao mesmo metro quadrado. Já não viverem juntos custava bastante, quanto mais se ela decidisse que nem sequer falariam. Chorava como um adolescente, melhor, como um marido abandonado.

– Minha mulher fugiu. Nao acredito.

Tratava-a desse modo: minha mulher. E eu pensava, com pavor, se de facto seriam homem e mulher. Com certeza houvera oportunidade, como conseguiriam os funcionários da APPACDM vigiá-los constantemente? A obsessão que ele sentia pela Luciana, e agora o desespero de não ser retribuído, poderiam reflectir a união do espírito e do corpo expressa em «minha mulher». Pensar nisso provocava-me uma irritação, uma raiva que por pouco não controlava.

– Nao vou colegio, Luciananao quer – afirmava o Miguel, cerrando os punhos e rilhando os dentes.

Todavia, por enquanto não precisava de me preocupar com questões de corpo e espírito porque o desgosto do Miguel batera tão fundo que seria preciso muito tempo até que ele estivesse disposto a reaproximar-se da Luciana.

Ao voltar da APPACDM, esmurrava a parede do quarto até que as mãos, por demais em sangue, o impediam de sofrer por ela, obrigando-o a sofrer por si próprio. Eu intervinha exigindo que parasse, só que ao esmurrar sucediam cabeçadas, e a estas empurrões. Agarrava-o, mas ele prosseguia – até gestos simples como piscar os olhos, quando levados ao extremo, podem infligir dor. Expressava assim as emoções complexas cujo vocabulário nunca aprendera.

Era ridículo e ao mesmo tempo aflitivo, porque o que ele sentia, embora bem real e bem doloroso, não podia ser mitigado com palavras, mesmo que ele as soubesse.

Como não o conseguia acalmar, proibi-o de ir à APPACDM para que a separação da Luciana, certo que por poucos dias, funcionasse como sedativo. Quando lhe disse «Não vais ao colégio durante o resto da semana», ele mostrou-se resignado, pronto a aceitar o bálsamo. E de facto acalmou como a brasa afastada do fogo. Parou de se magoar, serenou as queixas e até, para meu espanto, retomou a rotina de quando os pais eram vivos.

Acordava às oito para ligar o aquecimento do quarto de banho e abrir a água quente de modo a esquentar os canos. Não queria que eu levasse com aquela primeira água fria. Depois insistia «Nao preciso demais nada, fico bem» e forçava-me a sair para o trabalho. Na minha ausência, distraía-se com desenhos animados da Disney e telenovelas portuguesas da TVI.

De regresso, tinha-o à espera qual cachorro abandonado, carente, pronto a receber-me com um abraço. Ao jantar insistia em pôr a mesa sem esquecer o meu copo de vinho. À sua maneira, demonstrava interesse por mim, até pelo meu trabalho. «Muito computador?», perguntava imitando o gesto de teclar.

De súbito eu fazia parte do pequeno paraíso que o Miguel habitava. Fora-me desvendada uma nesga do jardim.

No fim-de-semana, já pacífico, perguntou-me «Gostas de mim?», genuinamente à espera de uma resposta.

– Claro que sim, Miguel. Estás melhor, não estás? Vês como um tempo longe da Luciana te fez bem?

– Estou – disse, e depois acrescentou: – Tambem gosto deti, mano.

Era uma coisa tão maravilhosa como a separação das águas do Mar Vermelho.

Experimentava por fim a doçura de ser correspondido, como se os vinte anos que nos separaram tivessem suturado, fossem cicatriz, e nós de novo jovens que não precisavam de esforço para serem irmãos. Voltáramos ao princípio, poderíamos crescer em conjunto. Ele não estaria só e eu também não. A Luciana continuaria, era certo, mas agora o Miguel conseguiria incluir-me. Aproximava-me do paraíso dele vindo de leste, cada vez mais seguro de que a ausência da Luciana o obrigara a olhar além de si próprio e do seu amor e descobrir que existe mais amor em complemento daquele amor. Sentia-me perdoado; sim, era como retornar ao paraíso vindo de leste.

Domingo anunciei a minha decisão. Disse-lhe «Miguel, amanhã já podes ir ao colégio» e, embora pareça estranho, ele não demonstrou qualquer interesse. Respondeu apenas «Pois» e foi deitar-se.

Nessa segunda dei aulas sem pensar na matéria, que aliás não merecia reflexão, sem pensar sequer no que dizia, porque aguardava com ansiedade as cinco da tarde. Lembro-me vagamente de alguém perguntar «Professor?… Professor?…».

O Miguel chegou a casa transfigurado. O aranhão tornara-se uma curva gerada por um sorriso de orelha a orelha. Se não fosse tão gordo, diria que levitava.

Berrou

– É é! A Luciana outra vez, tudo bem.

e acrescentou o sinal de juntos com os indicadores de cada mão. Ela mudara de ideias, voltara a aceitá-lo, também perante toda a APPACDM, no intervalo do almoço, e também sem explicar porquê, talvez como gratificação por um momento mais efusivo e apaixonado do Miguel.

Conquanto o recuo dela fosse expectável, desiludiu-me como uma invectiva contra mim.

Passou a acompanhá-lo à carrinha. Almoçou na mesma mesa do refeitório, quase ao colo dele. Parou de ligar ao Ricardo, que já não a beliscava impune perante a turma, em especial perante o Miguel, porque este ameaçava bater-lhe. Disse à Josefa «O Ricardo é mau», e voltou tudo ao normal.

No entanto, o Miguel queria acrescentar alguma coisa. Mal guardou a mochila no quarto, veio ter comigo à sala e, solene, disse

– Mas a Luciananao gostati.

e concluiu com a cara séria e fixa, pronunciando bem as palavras ao anunciar

– E eu também nao.

Só eles podiam habitar no jardim. Tivera um vislumbre desse paraíso, mais nada; permaneceria a leste. Agora a normalidade dos dois regressaria, bela mas sem interesse como as aguarelas de bailarinas que as adolescentes pintam quando constatam que têm talento. Algo teria de mudar drasticamente. Era necessário partir as pernas às bailarinas.

– Ai é? Então ela que se foda – respondi.