O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 4 de 46

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O Meu Irmão

Estava-se mesmo a ver: acendo a lareira…

Estava-se mesmo a ver: acendo a lareira e deixo que o estampido das pinhas invada a sala, só que os primeiros fumos sobem e logo descem, consequência das camadas de entupimento na chaminé. A resina pega-se às mãos, aos braços e não sei como à ponta do nariz. Acender uma lareira é complicado. Se ao menos houvesse botão.

Portugal mais competitivo com contenção salarial. Oposição reage… Em directo no estúdio, o comentador… Inadmissível… Na minha opinião pessoal… A saída limpa resultou?… Não pode ser, minha querida, ele não é bom para ti. Mas, pai, se o amo!… The lion, as king of the savannah, observes the wildebeest. He’s ready to take what’s his.

O Miguel anda lá por cima. Sempre foi desenvolto com tecnologia e, pelo que ouço, já pôs a televisão a funcionar.

Lá por cima: dois quartos e uma casa de banho. A subir, as escadas onde o retrato da tia Margarida, que se fez freira em 1822, olha para nós com um sorriso por baixo do buço. O Cristo partido fica mais à frente.

Se o Miguel soubesse como o barulho me incomoda, aqueles sons abafados pela parede, aquele nunca se saber ao certo o que é dito e ao mesmo tempo não ter a certeza de que nos diz respeito. E ainda por cima eu mandei-o milhares de vezes pôr a televisão mais baixo e ele respondeu milhares de vezes «Hum!» depois de eu ter berrado que não se berra «Hum!».

O barulho dos outros nos nossos ouvidos é a derradeira violação da privacidade. Quer dizer, não sei se «a derradeira». A certa altura os vizinhos da minha infância, que viviam no andar de cima, iniciaram o processo de divórcio. Houve muita berraria e troca de argumentos, que costuma ser a primeira engrenagem. Ora, além de esta fase ter durado anos, deu-se a infelicidade de eu ouvir cada argumento. Todas as noites, pelas onze e meia, o casal entrava no quarto por cima do meu e «tu isto» e «tu aquilo» a revolverem-se de um lado para o outro. E eu sentia-me violado pelos ouvidos e impotente para acabar com aquilo. Eles também se sentiriam violados se soubessem que eu ouvia tudo e que decidira quem tinha razão. O marido traía-a, mas pelos vistos a mulher era frígida.

As chamas morrem logo. Sou cem por cento incapaz. Ainda me queimo e saio daqui sujo de borralho. As pinhas estalam mas as chamas não pegam, morrem.

O chinfrim continua. Nada como fugir da cidade para cair no mesmo. Exijo que baixe o volume.

– Hum! – responde ele com uma patada no chão.

Nada cede. A lareira não acende, o Miguel não baixa o som. Para além de sentir uma espécie de urticária em tudo o que mexo,

Deve ser da irritação – isto da lareira e tudo o resto. Também se mede um homem nas coisas do quotidiano e eu estalo à mínima contrariedade (o autocarro que se atrasa, a casa de banho do centro comercial que está fechada, o pneu que rebentou e por acaso não sucedeu nada mais sério).

não posso admitir que me desautorize assim. É constante e mói o juízo. Sei que percebe e que me quer desafiar, nada mais simples do que «Está calado e põe isso mais baixo», mas também ele deve ter amor-próprio ou algo parecido e o magoe ser contrariado. Sei que, para ele, tem muito significado ouvir a televisão aos berros, sei que gosta das vozes das actrizes, mas não o posso permitir.

A luz dos candeeiros parte-se, intermitente, e por vezes deixa entrar a noite por mais de três segundos. Estas quebras de corrente são normais no Tojal. Claro, o ruído da televisão cessa e o Miguel desce. Já lhe cresceu uma barriga de pai.

Podia ter dito «já tem barriga de cerveja», mas esta imagem redonda de pai ficou-me da infância e, além do mais, o Miguel nunca bebeu.

O seu aspecto é infantil e velho. Algumas partes da cara com muitas rugas (à volta dos olhos e da boca) e outras quase sem rugas (as bochechas, a testa). Como sempre, vem com um sorriso de alto que é igual a dizer «Estive no quarto, arrumei a roupa, pus o pijama e vi televisão, portei-me bem». Sim, portou-se bem, mas eu traduzo naquele olhar «e, repara, não diminuí o som».

Penso nisto enquanto ele põe a mesa. Desempenha a tarefa há vinte e tal anos com a mesma perfeição muito típica. Primeiro abre a mesa e calcula o que tem pela frente. Depois pega nos naperons, cada um segundo a ordem das coisas e sempre alinhados à exaustão. Seguem-se os pratos, um aqui e outro ali num tête-à-tête rigoroso. Os talheres também um a um, isto é, primeiro vai buscar um – alinha; depois vai buscar outro – alinha, e assim sempre. Conclui com a sopa a ferver. A sua sopa.

Só que não reparo nesta alegria no trabalho porque a televisão lá em cima voltou a fazer barulho. Não a desligou.

O caso mais grave é ele perceber o que lhe disse e mesmo assim manter a televisão ligada. Quer dizer, além de todos os impeditivos, onde encaixa a personalidade? Deve sobrar espaço, mesmo dentro do colete-de-forças da deficiência. O Miguel não é um anjo ferido que não perceba nada do mundo.

Estas considerações impedem-me de lhe perguntar se a sopa está boa. Trouxemos provisões para duas semanas. De qualquer forma, mesmo que perguntasse

– Miguel, a sopa está boa?

ele responderia

– Hum!

As coisas são assim e não quero encontrar grandes significados neste género de comunicação. Há o amor e talvez isso baste nestes momentos em que o Miguel se enrola numa comiseração fechada e não comunica excepto através destes grunhidos.

Continuo incomodado por não conseguir acender a lareira. Se ao menos tivesse pedido à senhora Olinda que limpasse a chaminé.

Ela e o marido não são nossos caseiros, mas fazem este género de favores se pedirmos com jeitinho, o que envolve um namoro pegado, um fazer a corte que o meu pai desempenhava bem. Eu nem por isso, fiquei-me por um telefonema nas fronteiras da simpatia e pedi «Senhora Olinda, pode dar uma limpeza à casa?».

Levanto a mesa sempre a pensar no barulho, na falta de respeito e noutros que tais. Chego à conclusão de que o Miguel não pode ser deixado à solta. Explico-lho com simplicidade e ele responde

– Hum!

Apetece-me bater-lhe, mas ele não é uma criança a quem possa dar um raspanete e uma palmada. Por momentos, quero que ele ainda seja inepto ao jogo do apanha para lhe dar uma ou duas palmadas na mão, mas depois imagino a cena e acho-a ridícula e primária, até porque poderia ser eu a apanhar. Se alguém tão forte como o Masturbador se vergou perante os golpes dele, quanto mais eu. E nisto acho a cena triste e acho-me triste na cena.

Por outro lado, de facto o Miguel tem toda a desculpa do mundo, que o comprimiu dentro de si mesmo, e depois eu sei que a ausência da Luciana está sempre com ele, não a consegue superar, como a mãe que alimenta a memória de um filho. Isso deve ferir-lhe a vida, limitá-lo tanto como a deficiência. No entanto, sei que um dia há-de esquecer a Luciana, a ausência dela, e então será apenas deficiente em vez de ser deficiente e amargurado. Julgava que por esta altura ele já a teria esquecido. Seria normal que isso acontecesse.

Arrependo-me de imediato deste emaranhado dentro da minha cabeça e desejo-lhe boa noite, dizendo «Volta lá para cima», mas sem acrescentar «Dorme bem».