O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 21 de 46

Páginas do PDF

O Meu Irmão

Intervalo. Na sala de estar os utentes…

Intervalo. Na sala de estar os utentes sentados nos sofás, nas cadeiras de rodas ou no chão sem tapete. Olhavam uns para os outros à espera de qualquer coisa. Também assistiam ao programa da manhã na televisão mas só para distraírem os olhos com uma cara mais bonita ou rirem do apresentador.

O Caranguejo aprendera a não magoar as pernas dos outros, mas, como não conseguia reprimir o desejo de prensar, começara a apertar a própria perna e sentia dores ao mesmo tempo na mão e na perna. Tinha pena de si mesmo, mas era isso que fazia: apertar cada vez mais. Talvez assim aprendesse. Uma X-frágil costumava sorrir-lhe e dar-lhe pancadinhas nas costas. «Mais força», aconselhava ela.

A sua perna continuava com nódoas negras, mais valia que a dele também sofresse, mas não o aconselhava a apertar por maldade, pois não sabia o que era a vingança.

Depois da resignação do Caranguejo, abriu-se um vazio na APPACDM. Deixou de haver quem oprimisse. Permanecia a opressão genética de sempre, a que a natureza esborratou em cada um deles, a que a natureza jogou ao calhas e falhou, mas já ninguém se encolhia quando o Caranguejo dava apertos de mão.

A Luciana e o Miguel passeavam pelos corredores. Amavam-se assim, passeando pelos corredores. Ela pequenina e ele cada vez maior. Ou cada vez mais gordo. Ocasionalmente frequentavam as aulas juntos, excepto as de pintura porque a auxiliar enfurecera-se e agora não os deixava à solta com os pincéis. Mas sobravam muitos exercícios que podiam fazer juntos: terapias criativas, relation play, ténis adaptado, terapia ocupacional, AVD, natação adaptada, reabilitação psicomotora, comunicação táctil, psicomotricidade.

Inevitavelmente, com o tempo proibiram-nos de participar juntos em todas as actividades. Eles levavam as tarefas sempre um furo acima do que era previsto, envolviam-se de mais no que faziam porque se envolviam de mais um com o outro. Tornaram-se inconvenientes.

Andavam pelos corredores numa valsa estranha. Primeiro, o Miguel sempre arrastou os pés com os braços descaídos e a barriga para a frente. Depois, não se acompanhavam lado a lado, ela colocava-se atrás dele e usava-o como escudo. Em fila indiana, ele esticava o braço para trás e agitava os dedos em busca dos dedos agitados dela. Seguiam caminho e, como um fole, aproximavam-se e afastavam-se ao ritmo do andamento.

Pior era quando tinham aulas separados, ou quando a Luciana, enfim, decidia socorrer-se de outro. O Miguel perdia a cabeça, agarrava-a e dizia que só junto de si, só os dois no corredor e por aí fora. Chegava a casa e pronunciava a palavra «ciúme» tal como ouvia nas telenovelas: CIÚME.

Também queriam passear pelos jardins, mas as auxiliares não permitiam porque era mais seguro entre paredes, não fosse um deles fugir, ou fugirem os dois. Punham-se à janela da entrada, a maior, e imaginavam o ar de fora lá dentro. E realmente os jardins não eram mais do que três ou quatro canteiros, uma árvore e o alcatrão do estacionamento, mas eles imaginavam uma floresta encantada, um jardim antes de Deus ter expulsado os homens de todos os jardins.

Entretanto, como o horror ao vazio também ocorria na APPACDM, cedo sobre todos passou a reinar um em substituição do Caranguejo.

O Masturbador era um rapaz desproporcionado. O cabelo caía-lhe para os olhos. Vestia a roupa velha das instituições de caridade.

Certas partes do corpo sobrepunham-se às outras. Por exemplo, a mão muito maior do que o cérebro. E o pénis ainda maior do que a mão. A sua alma fora engaiolada num corpo de poder e desejo. Nada comandava a máquina, ela comandava-se autonomamente e por isso fora escravizada pelas próprias engrenagens, pela própria pulsão. Tanto em público como em privado, nada do que ele quisesse era deixado por saciar e, assim, o pistão accionado perante as mulheres imperava no sistema da máquina. Babava-se, murmurava «Anda cá, minha panelinha de água quente».

Excitado, escondia-se nos corredores mais obscuros e baixava as calças. O resto passava-se como sempre, com excepção de que aquele monte de carne se abstraía do que o rodeava e, se por acaso o apanhavam em flagrante, prosseguia no vaivém aos urros. As educadoras fugiam também aos urros a chamar o contínuo, e este sabe-se lá quem chamava. Não chamava ninguém. Corria mais perturbado do que elas, dizendo para si «Ó menino, ó menino! Valha-me Deus!».

Depois de apanhado e obrigado a parar, desistiu de ao menos se recolher nos corredores e passou a tratar da excitação em público. Tanto lhe fazia, mesmo que uma ideia de consciência atirada para o fundo do mecanismo (talvez a alma na gaiola) lhe dissesse que estava errado. Tudo desde que o deixassem fazer o que queria. E assim, apesar do «Ó menino, valha-me Deus!», baixava as calças sempre que o pistão era accionado. E era accionado nem que fosse à manivela.

Quando o impediam, arranhava a cara, atingindo os olhos. É que não haviam equipado a máquina com válvula de descompressão e a energia acumulada necessitava de dispersar. Atacava os olhos, o mesmo canal por onde entravam as imagens que o excitavam. Cegou do olho direito. Uma geleia branca alojou-se na cavidade macerada.

Já que precisava de arranhar, as educadoras aconselhavam-no «Faz isso no olho mau», tentando evitar que cegasse por completo.

A máquina queria primeiro as raparigas mais pequenas. Era isto: obliterar o que as tornava femininas, o desejo que ele sentia por elas. Para tal bastava ceder. Só assim a máquina deixava de sentir desejo, porque a presença feminina desaparecia pelo menos durante algum tempo depois de a máquina ter processado a paz dos fluidos.

Nisto, será escusado dizer que a Luciana, uma das rapariguinhas mais pequenas, de mãozinhas diminutas, era a primeira que a máquina desejava.

Ela temia-o e todos os dias desejava que o Caranguejo voltasse ao poder, que tornasse a ser mais forte do que o Masturbador. Que o Caranguejo lhe apertasse a perna. Mas nada feito. Espiava os olhares do Masturbador e temia-lhe as intenções sem no entanto perceber ao certo o que ele pretendia. A mãe avisara-a quanto aos homens, só que ela não compreendera. Queria-o longe e por isso mantinha-se longe, mesmo sabendo que os corredores são rectas que levam as pessoas ao encontro. Inevitavelmente, um dia haveriam de se cruzar.

Era acautelar-se.

O Miguel mantinha-se longe disto, mas sabia que o Masturbador a importunava, tal como importunava os outros, e decidiu pôr cobro àquele reinado. Que surgisse a ocasião. Tinha crescido, acumulara força nos ombros e nas pernas – era baixo mas concentrado na energia.

«O nosso herói», quando lhe pedíamos em casa para abrir latas e arrastar móveis. Ele enchia-se de orgulho e berrava «Eu, eu». A nossa mãe entregava-lhe uma lata de mostarda de Dijon, respondendo «Sim, tu, tu», enquanto ele franzia os olhos por causa do cheiro.

Quase ninguém passava pelo corredor da sala catorze. Dentro da sala, as luzes, os projectores e a parafernália do Snoezelen desactivados por falta de orçamento. Com a sala fechada, aquele fim de corredor tornara-se tão inútil como qualquer beco sem saída.

As empregadas costumavam manter as persianas a meio e fechar as cortinas. O corredor tornara-se uma extensão de sombra. Várias tonalidades de sombra: sombras de móveis que foram retirados, sombras de pessoas que já não passavam por ali, sombras das esquinas em ângulos de noventa graus. Mesmo com o decorrer do dia e da luz a forçar as cortinas e as persianas, as sombras pareciam dispersar-se apenas um pouco mais no sentido longitudinal, mas continuavam agarradas ao chão, às paredes e ao tecto.

Acontece que todos berravam no recreio e a Luciana queria descansar. Participava sempre na berraria, mas no meio daquela gente era como emprestar a voz a quem não sabia falar com ela. A voz misturava-se com outras mais graves, mais finas, mais neutras. Indignas do que achamos que é a nossa própria voz.

Entrou no corredor às apalpadelas no corrimão porque via mal e esquecera-se dos óculos na residência.

Pouca sorte.

Na última esquina, recuou e tentou não fazer barulho. Vira uma sombra mais branca. O Masturbador tratava de si próprio. Mantinha um olhar triste enquanto o fazia – talvez percebesse que não passava de uma máquina –, mas nisto viu a Luciana e a expressão alterou-se por completo. Agora era de vitória. Apanhara-a sozinha.

Agarrou-a pela camisola cor-de-rosa, puxando-a para si. Abria muito a boca e mostrava os dentes.

– Olé! – berrava.

Usava aparelho, o que significava que alguém se preocupava o suficiente com ele, com aquilo, para o querer bonito quando mostrava os dentes. Provavelmente uma mãe, ou até um pai. Para eles, quem sabe, fosse recompensa suficiente ver os dentes arranjados num sorriso de agradecimento, muito embora ele mostrasse esses mesmos dentes a raparigas como a Luciana.

Juntou-a ao seu peito e ela estrebuchou como um coelho encurralado. Enrolou-lhe o cabelo à volta da mão e abanou-a, arrancando algumas madeixas. A Luciana segurou-se ao corrimão e ele foi descendo para a agarrar pelas pernas. Puxava-a aos poucos para si, tossindo.

A máquina em propulsão geral contra a delicadeza daquelas pernas contorcidas.

Até este ponto, a Luciana não se lembrou de berrar ou de premir as campainhas que pendiam ao longo do corredor. De facto, não conseguia fazer nem uma coisa nem outra. A garganta sufocara com cuspo e a campainha mais próxima encontrava-se fora do alcance da mão. E estava muito agitada para pensar. No momento em que o Masturbador conseguiria por fim atirá-la ao chão, a Luciana engoliu o cuspo e projectou por fim gritos de encontro às paredes.

Correndo aos ziguezagues, o Miguel afastou-o da Luciana e esmurrou-lhe a cara em dois movimentos: movimento de braço muito para trás e movimento de punho muito para a frente. Com gestos desconexos, conseguiu mesmo assim pegar-lhe pelo pescoço e atirá-lo contra o chão, uma e outra vez. Depois aplicou-lhe pontapés onde calhava, nas pernas, entre as pernas e no tórax. Sob os pontapés, a roupa amassava-se no corpo do Masturbador e empapava-se de suor e começos de sangue. Estendido sem se conseguir levantar, o Masturbador arfava de medo enquanto sentia a redução da máquina a peças quebradas. O Miguel mantinha um silêncio de pugilista e saltava de roda dele até que deixou de haver por onde atacar. O inimigo fora reduzido a um corpo inútil.

A Luciana ainda berrava mas já não havia motivo para isso.

Quando os auxiliares chegaram, o Masturbador só conseguia mexer uma das mãos. Não que estivesse muito ferido, mas a humilhação constrangia-lhe os movimentos. O tronco e a cabeça apoiados à parede, o resto do corpo estendido porém em busca de movimento, não interessa qual, para dispersar a dor.

Então, mostrando que ainda era capaz, e que no fundo não lhe haviam retirado o domínio da máquina, perante todos, ergueu a mão até ao olho bom e arranhou o mais fundo que a sua força permitia. Daí escorreu um líquido que pingou no chão.