O Meu Irmão
A filha comenta que já partem com…
A filha comenta que já partem com atraso. Pretende chegar ao Algarve o mais cedo possível porque de manhã trabalha em Faro. Guardaram uns quantos pertences do Quim na mala, que persiste aberta apesar dos chamamentos da filha ao volante, insistindo «Vamos lá».
Ainda agora chegou e já parte.
A senhora Olinda sai de casa com uma mala na mão. Atira-a para o banco de trás e senta-se ao lado da filha. Testemunho um acontecimento. Excepto as idas à feira de Arouca, a senhora Olinda e o senhor Aníbal não saem do Tojal há trinta anos. O senhor Aníbal ausentou-se pela última vez para fazer a tropa em Tavira, a senhora Olinda quem sabe.
– Ó mãe, deixe os gatos que eles nem dão conta da sua falta – sugere a filha, dissuadindo-a de os apaparicar.
– As saudades.
– Certo, as saudades, mas temos de partir.
Perto delas, debaixo de um barracão, o tractor Daino 4WD que o Quim guiava descansa sem préstimo. O tractor com o qual tentou atropelar os pais há cerca de uma semana. O tractor que nos resgatou do Paiva há mais de vinte anos. Escondido atrás do reboque, o senhor Aníbal amarrota o boné com as mãos.
A água brota na fonte em impulsos cada vez mais rápidos. A chuva limpou o xisto do largo, excepto a fachada da igreja na qual se colaram algumas flores utilizadas no velório. O Paiva acossa o leito, expulsa troncos que embatem nos amieiros das margens.
– Está bem, filha, segue – manda a senhora Olinda.
Corro em direcção a elas quando o carro começa a movimentar-se.
– Então, senhora Olinda, de viagem?
– Pois é. Foi o que me deu depois de o Quim falecer. A minha filha disse que me fazia bem ir com ela e eu acho que sim, que me faz bem. Fico lá um mês.
– E o senhor Aníbal?
– Esse fica. E você quando vai p’ró Porto?
– Amanhã ou depois. Talvez depois.
– Então estamos conversados.
– Estamos conversados. Boa viagem.
Assim que o carro transpõe a última curva, o senhor Aníbal afasta-se de trás do tractor e aproxima-se de mim. Colocou o boné de lado.
– Fico bem – comenta ele. – Tenho o Camões.
Verificando que não comento, segue caminho para o lado de Meitriz. Vai arrebanhar as ovelhas junto ao rio. Perco-o de vista quando desce no carreiro que dá acesso à Rota das Tormentas, um percurso pedonal encrustado no monte. O Camões corre para o alcançar.
Regresso a casa sentindo que o Tojal chegou ao fim. Até a senhora Olinda, que é o instinto deste lugar, não aguentou mais de três dias depois da morte do Quim. Quanto ao senhor Aníbal, sozinho fundir-se-á com as fragas, as árvores e a própria aldeia. Fará parte da Rota das Tormentas. Quando a mulher regressar, não encontrará o marido, tão-só o Tojal.
E talvez se alegre com essa descoberta.
O vento que percorre o pátio em frente da nossa casa açoita as montanhas no mesmo gesto e o mato produz um fragor de mar seco, principalmente no Vale Encantado, nome atribuído pelo meu pai ao afunilamento das encostas por onde corre o Paiva. As nuvens afastam-se com velocidade.
Apesar de ter anoitecido, o Miguel não ligou as luzes. Mantém-se na penumbra apenas visível por causa do luar que se parece com um néon distante. Estremece quando entro.
– Que é isto, Miguel? Não acendes os candeeiros?
– Melhor assim – resmunga.
– Não digas asneiras.
Quando estendo o braço para carregar no interruptor do candeeiro mais próximo, decido que por agora também prefiro a escuridão. As brasas esfriam na lareira. A obscuridade e a presença do Miguel numa casa assim pequena lembram-me o sucedido naquela noite e nos dias que a antecederam. Passou mais de meio ano. Os acontecimentos não se deterioraram, permanecem iguais, tão vívidos como se decorressem neste momento.
Escusado será referir que os repito em sonhos.
Embora me custe assumi-lo, agora percebo que procurava o Miguel e a Luciana na esperança de os encontrar juntos e promíscuos. Isso justificaria as minhas decisões – poria a razão do meu lado. Isto é, comprovaria que a razão já estava do meu lado. Seria motivo redobrado para os manter afastados.
A Luciana voltaria para a APPACDM, desta feita depois de uma fuga que os alertara para a necessidade de mais segurança. O Miguel perceberia por fim, tendo arriscado viver com ela, que era inútil resistir-me; e amansaria, mesmo que tal demorasse. Sim, amansaria.
Pensando bem, se compararmos estes dias com as semanas que sucederam à saída do colégio, já apaziguou. Conformou-se. A nossa convivência melhorou. Agora consegue lidar comigo sem se lembrar dela. No entanto, nunca permito que fique demasiado à vontade para que não considere que, afinal de contas, é boa ideia voltar para a Luciana. Lembro-lho quando ele menos espera, de modo que a farpa o incomode durante alguns dias.
– Miguel, a Luciana tinha de voltar ao colégio, que é a casa dela – murmuro. – Não podia ficar contigo.
– Pode.
– Não podia. Tu percebes isso. Tinha de voltar ao colégio.
Ele percebe, embora não assuma.
Fora, o piar de um noitibó ou de outra ave nocturna. O Miguel quer subir para o quarto mas eu impeço-o. Preciso de desabafar.
– Apesar de tudo as coisas estão claras – suspiro. – Porque tu sabes, e isso justifica muito. Quer dizer, justifica… Pelo menos ajuda a explicar. E ajuda-me que tu saibas. Enfim, o que eu quero dizer é que apesar de tudo, Miguel, tu sabes que te amo. Que és meu irmão e que te amo como se tu fosses eu próprio, desde que nascemos. Não sabes, Miguel?
– Sei – responde ele no cimo da escada, evitando olhar para mim.