O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 11 de 46

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O Meu Irmão

A câmara-de-ar resistia a qualquer embate nas…

A câmara-de-ar resistia a qualquer embate nas pedras do fundo, a qualquer margem mais britada, mas o sol aquecia-a tanto que, uma vez deitados e a flutuar, era melhor não nos mexermos. Por isso tinha dificuldade em ler, porque o mínimo movimento, até o gesto de virar uma página, expunha a pele à superfície quente e as duas fundiam-se num beijo de carne e borracha.

Mesmo assim conseguia, e vivia o sonho de qualquer leitor. Tempo quente, óculos escuros, câmara-de-ar, À Sombra das Raparigas em Flor e o rio Paiva, que não era só feito de rápidos, também escondia piscinas mornas. Permanecia quieto, entregue às águas onde os peixes largavam dentadas à tona.

O Miguel dormitava numa bóia e seguia o movimento da corrente, por vezes batia na margem mas um empurrão com o pé devolvia-o à parte mais funda.

Estava um homem feito. Não um homem feito por dentro, mas um homem feito por fora.

A minha mãe também flutuava por ali, estendida numa prancha com o cabelo apanhado e um copo de vinho na mão. Parecia frágil e menina. Olhava pelo Miguel e, quando a corrente os levava um contra o outro, mergulhava a mão na água e fazia-lhe uma festa na cabeça para o refrescar. O Miguel sorria e, só a brincar, simulava morder-lhe a mão, pelo que a mãe se fingia espantada e dava um gritinho afiado no fim da frase «Ah, malandro!».

Depois voltavam a rir e o mundo só existia para eles, que estavam dentro do riso.

O meu pai peneirava areia no troço de maior corrente. Apanhara a febre do ouro. Construíra uma calha de mineração e agora deitava punhados de areia para a rede e inspeccionava a esponja com um olho muito grande à procura de qualquer reflexo dourado. A ideia de que os romanos prospectaram no Tojal não o largava. De facto, montes de cascalho onde a vegetação não crescia assinalavam a presença dos romanos e da sua máquina imperial. Porém nunca encontrou nenhum tipo de ouro, a não ser raspas de mica.

Na altura rimo-nos todos, até o Miguel. Um tresloucado de Panamá a escarafunchar por entre as rochas. Agora compreendo que não era bem assim. Desde que vi na televisão uma pretendente a soprano rebentar com a garganta nos rios do Alasca à procura de ouro para pagar aulas de canto em Paris, sei que a febre do ouro é real e enganadora.

Dispersávamo-nos pelo rio como uma rede, cada um para o seu lado mas ligados e sem nos conseguirmos desentrelaçar. Comprometidos uns com os outros porque feitos da mesma malha.

Albertine, uma das Raparigas, pede ao narrador para se encontrar com ela no quarto do hotel em Balbec. Ela faz parte do pequeno bando e ele não quer acreditar na sua sorte – ir ter com Albertine ao hotel. Faltam cinquenta páginas para o fim, trinta delas descrevem a porta do quarto, e eu a adorar. Foi por esta ocasião que decidi dedicar a minha vida a ler de forma profissional. Ia inscrever-me num curso de Literatura, provavelmente em Lisboa. Talvez tenha sido também nessa altura que me tornei escritor não praticante, mas isso agora não interessa para nada, até porque Albertine está estendida na cama.

Sobre ela um lençol fino de seda. O narrador quer beijá-la, eu também e vamos de encontro à sua boca. Apoio um pouco mais a imaginação na cama para chegar antes, o narrador fica para trás, mas, quando estou quase a tocar-lhe no canto da boca, Albertine prime «a campainha com todas as suas forças».

No corredor, os passos do criado a chegar. Merda.

Fechei o livro e só a vista do rio e do Miguel meio adormecido me acalmou. Nada mais pacífico. O sol reflectia-se na linha de água e parecia que o Miguel flutuava numa massa de luz. Quanto a nadar, só debaixo de água. Mergulhava, esticava os músculos e subia à tona para respirar. Já deixara de nadar à cão. Percorria assim alguns metros até conseguir levantar-se. As aulas de natação não conseguiram trazê-lo à tona.

Não nos preocupávamos porque em dois segundos chegava a uma zona com pé e a corrente quase não puxava para onde era perigoso.

A prospecção soltava uma nuvem de lodo que se estendia por baixo dos nossos pés. O Panamá ficou pintado de lama e a cara do meu pai coberta de camuflado. Desistiu por um instante e veio ter connosco, mais para se lavar num mergulho do que outra coisa. Empurrou a prancha da minha mãe e sentou-se numa rocha a olhar para mim e para o Miguel com aquela expressão boa e profunda típica dele, a mesma expressão com que dizia «Porco! Cão», ou me dava um abraço.

Albertine nas águas era o que eu queria. Qual quarto de hotel. Ali mesmo, na zona mais remota do rio. Albertine fora das páginas, Albertine inteira. Não teria tantos ciúmes como o narrador, esse frustrado, nem me importaria com as inclinações especiais dela, desde que estivesse comigo desinibida na corrente do rio. Albertine no Paiva. Depois, já sem propósito, em vez de adormecer ao meu lado, ela que voltasse às páginas do livro.

Abri os olhos. A corrente conduzia a minha mãe até ao Miguel. Avançava à força de golinhos no copo de vinho. Ia novamente mergulhar a mão na água e molhar-lhe a cabeça, já sorria de antecipação ao esticar o braço. Depois talvez lhe desse um beijo na testa e seguisse caminho.

A marca do beijo confundir-se-ia com a da água, como tantas vezes acontece. O meu irmão abriria os olhos para os fechar de seguida por causa da luz. Quem sabe, o meu pai encontraria ouro.

Não foi isso que aconteceu, e o que aconteceu foi muito rápido, um daqueles momentos instantâneos e eternos como as fotografias. O Miguel soltou a bóia à espera de se pôr de pé, mas deparou-se com aquele momento em que nos falta tamanho e não chegamos ao fundo. «Não consgo! Nao consigo!», e depois de ter engolido água por dentro dos berros não conseguia mesmo. Desesperado, agarrou-se à bóia mais próxima e esta cedeu de imediato. Quanto mais ele se agarrava, mais ela cedia porque era fraca e estava velha e assustou-se. A bóia mais próxima era a mãe.

O meu pai deu um grito saído do topo da garganta

– Vai lá!

O Panamá caiu e rolou pelo cascalho parando junto de uma garrafa de Super Bock bebida até meio.

O que está debaixo de água não existe. A minha mãe estava debaixo de água. Por cima da água só a agitação do Miguel e do pai.

Não sabia o que fazer. Queria mergulhar mas tinha À Sombra das Raparigas em Flor na mão. Quer dizer, não queria estragar o livro. Em nenhum momento me ocorreu que o livro, na verdade, não fazia parte da mão e que bastava largá-lo. Ou melhor, ocorreu-me, mas achei mais prudente deixá-lo na areia ali ao lado para não se molhar. Tinha pé, corri para a margem. Foi num segundo, mas num segundo pensei: no fundo, não se passa nada; três motivos adicionais: estava a gostar do livro, o livro não fora barato e precisava de guardar os óculos escuros. Se ao menos o meu irmão se deixasse de brincadeiras.

– Nao consigo! Não consgo!

O Miguel continuava a agarrar-se, sentia uma necessidade animal de sobreviver e não ligava a mais nada. A minha mãe esperneava, as mãos erguiam-se fora de água e deixavam unhadas na cara do Miguel. Pouco profundas porque não o queria magoar.

Os dedos com anéis de ouro, o único ouro que o meu pai encontraria no fundo do rio.

Mais dois segundos e eu estava junto deles. O meu pai já os separara. Levei o Miguel para a margem pelo pescoço numa espécie de abraço fraternal às avessas. Deixou-se cair exausto e arrependido e olhava para a mãe agarrada ao pai a tossir água e cuspo. Algures a frase na voz rouca e entrecortada da minha mãe «Pensei que ia morrer».

O Miguel não percebia o que fizera, dava por si encurralado dentro do próprio raciocínio. «Estás a olhar para quê, meu idiota?», perguntei, dando-lhe um pontapé nas pernas.

O pontapé teve a força da minha frustração.

À frente, junto da rocha onde os meus pais se refugiaram, formou-se uma mancha que a água não diluía, de tão quieta. Parecia sangue mas era o vinho que a mãe ainda não bebera. O copo perdera-se. De sangue, só mesmo os fiozinhos que escorriam pela cara do Miguel.

O Miguel tossia sem força para chorar. Eu, que tinha vergonha dele e de nós, também não conseguia chorar, embora o choro fosse a demonstração mais evidente dos remorsos. Ele tentava perceber o que se passara, via-se indeciso entre o arrependimento e o medo. As ideias levavam-no para o que era mais importante, os pontos centrais da sua vida, aquilo que poderia ter perdido caso a água o tivesse engolido. Murmurava «A Luciana, a Luciana».

No fundo, se ele deixasse de existir ela também desapareceria, como quando gostava das actrizes e não queria desligar a televisão para que elas não desaparecessem. Essa ideia de ausência, e as saudades que sentiria, não eram suportáveis. Embora a conhecesse há pouco tempo, nunca conseguiria separar-se da Luciana.

A minha mãe chegou por fim à margem retomando o sorriso de antes. Estendeu a mão húmida sobre a cabeça do Miguel, deu-lhe um beijo na testa e subiu devagar até casa.