O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 31 de 46

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O Meu Irmão

Estou farto deste tipo.

A sopa cai na barba e escorre para o peito. Ele recosta-se na almofada e tenta equilibrar a colher na ponta dos dedos, porém deixa-a cair sobre a tigela, que é das antigas em barro, muito redondas, muito quentes e muito rugosas. Tem-na envolta num pano, mas a tigela resvala quando ele respira, entornando a sopa, que fumega na barriga e na cama. Apesar de tudo, consegue ir comendo – em esforço, aos poucos e sem entusiasmo.

Sentado ao pé de mim, o Miguel arrisca aproximar-se.

O Quim mantém-se calado, excepto em alguns comentários engolidos nos intervalos da sopa. Qualquer coisa como «Canalha», ou «A canalha que pr’aqui vem». Isto porque, no fundo, não tem força para mais. A mera necessidade de comida absorve-o, como se cada colherada fosse um acto de sobrevivência. Os braços descaem em arco descrevendo uma ponte quebradiça entre os ombros e a colher. O peito arqueja como em fole para suster os próprios braços, e as pernas movem-se mantendo o torso firme.

A senhora Olinda arrisca segurar no braço que ergue a colher, mas os suspiros e gemidos do filho, que sorve a sopa sem prazer, afastam-na.

O mais estranho é que, apesar do esforço, a sopa apenas lhe serve de alento durante alguns minutos, depois dos quais se queixa de fome e fraqueza.

– Não a fez em condições – diz à mãe.

– Mas é a que nós comemos. Está muito boa, não está? – E virando-se para mim: – Prove, que está boa.

A senhora Olinda segura na colher com gestos de aviãozinho, e insiste «Prove, vamos». Afasto-me cheio de nojo. Num salto, o Miguel ocupa o meu lugar e abre a boca à espera do quente da colher.

Quero dizer «Miguel, fecha a boca», mas permaneço em silêncio para ver o que isto dá. Misto de inércia e expectativa.

A senhora Olinda introdu-la na boca do Miguel murmurando «Pois é, pois é». Ele não se faz de rogado, pede mais, quer a sopa toda. A tigela esvazia-se em quatro colheradas.

– Ah, ele come de tudo – interrompe o Quim. – Vai dar ao mesmo, até pode estar estragada.

– Mas não está, Quim. Vê como ele gostou.

De facto, o Miguel esfrega as mãos de contentamento, como se o calor da sopa, aliás, dos restos da sopa, lhe tivesse aquecido o espírito. Parece que não teme o Quim, já não espera que ele desate aos berros, como da última vez. Encara-o agora como o que ele é, um desgraçado estendido numa cama.

– Até pode estar estragada. Acho que está – continua o Quim.

– Naostá – interrompe o Miguel, sério e fixo. – Muito boa, mesmo.

A senhora Olinda suspira fundo, agitada numa comoção que não consegue ou não quer disfarçar. Por momentos, segura nas mãos do Miguel, reconhecida, e leva-as lentamente à boca, beijando-as. E ele retribui o gesto com espontaneidade, como se a única resposta ao beijo fosse o beijo. O Quim fecha os olhos para não ver a ternura da mãe.

Nisto, um gato branco de terceiro dia (como a neve na cidade) entra no quarto, roçando-se logo na perna direita do Miguel e depois na perna esquerda da senhora Olinda. Ronrona, ensaia um miado que é um choro. Quer comida.

– Xô! – berra o Quim sem que o gato reaja. – Vai-te daqui!

Perante as interjeições dele, o Miguel disfarça um riso semelhante ao que enfureceu o Quim.

– Deixa que eu trato – diz a senhora Olinda com a mão na porta. – Arreda!

O gato esquiva-se, salta do chão para a cama, sobre o peito do Quim, que se engasga, e só então corre para a porta, desaparecendo num esquivar de cauda.

Fora, um trovão despenha-se sobre o Tojal acompanhado de chuva em vagas regulares, de lado. Gotas entram pela janela do quarto, caindo sobre a mesinha-de-cabeceira e a cama. A madeira da janela incha e estala ao contacto com a chuva. O vento, que cobre os movimentos da chuva, entra aos laivos por entre os cobertores do Quim, que se mantém imóvel, mas já molhado. O Miguel faz «Hi!» e a senhora Olinda, arregaçando as mangas, fecha a janela com fúria. Devia ter previsto que a chuva molharia o filho. «Isto assim já vai», diz.

Entretanto, o Quim limpa a cara com a mão, lento como um infeliz. Seco, olha directo para mim e, num instante, pisca o olho. Mas é um piscar desabituado, frouxo. Não é quase um piscar. Depois sim, vendo que não respondo, pisca-o de novo com mais força e retrai o indicador num gesto de «Vem aqui».

Só me faltava esta.

Aproximo-me dele, quase à distância do bafo. Pergunto baixo «Então, Quim, sente-se melhor?». Ele responde apenas «Melhor» sem abrir a boca. «E já decidiu chamar a ambulância?», continuo. Para minha surpresa, prossegue muito alto – para ser ouvido no quarto e no resto da casa.

– Nunca, é gente má. Não vou nisso… Não pense você chamá-los, que eu não saio daqui.

Levo a mão à cabeça, cansado disto tudo, e digo «Se não há nada a fazer, não o volto a incomodar. Você insiste em ficar no quarto…», ao que ele interrompe com um «Pst, sim, aproxime-se mais».

A conversa continua em surdina, as nossas cabeças coladas, o pouco calor emanado dele.

– Já foi alguma vez ao quarto dos meus pais?

– Não me lembro bem, talvez.

– Se foi, com certeza que se lembra da caçadeira.

– Uma coisa velha? Sim, agora que pergunta.

– Pois.

– E então?

– O problema é a caçadeira, está a ver?

– Não, explique-se.

– A culpa é do meu pai. Ele nunca entra aqui porque anda de ronda. Eu estou muito doente, toda a gente já percebeu, só que eles lá no hospital podem curar-me. – E ainda mais baixo, coçando as têmporas: – O meu pai é que não quer. Não me deixa sair e ameaça com a caçadeira. Por este caminho eu não aguento. Um dia, há alguns anos, eu estava ainda mais doente e tentei sair para ser curado. Para ser curado. Mas ele disparou. O chumbo quase me levou a perna. Quer ver?

E destapa lentamente o lençol à altura da cocha. Dois buracos próximos comeram a carne como um ácido. «Eu não lhe dizia?», acrescenta, convicto de que os buracos roxos, líquidos, foram deixados pelo tiro da caçadeira.

Afasto-me enojado pelas veias que pulsam quase à mostra em volta do carcomido. Mais em baixo, os pés também mostram uma cor arroxeada, escura sobretudo, que se assemelha a qualquer coisa viva, mas mal oxigenada. Os dedos estalam uns nos outros soltando um excedente de psoríase, se é que uma carne tão gasta consegue sequer produzir psoríase.

– É como lhe digo. Não me apanham na ambulância – conclui quase aos berros.

De súbito penso que o quarto, com as vuvuzelas escondidas debaixo da cama, as mochilas velhas dependuradas numa cadeira, as canetas Bic, os porta-chaves atados ao puxador do armário, as bengalas encostadas atrás da porta, os livros por ler, as revistas, a roda de bicicleta, enfim, o próprio quarto, na sua desarrumação e falta de critério, é reflexo da mente confusa e triste do Quim. Da mente doente do Quim. E isto incomoda-me como se também eu, dentro do quarto, integrasse a confusão, a tristeza e a doença.

O pior é que não consigo ter pena dele. Por mais que tente pensar o contrário, encararei sempre este homem como a presença desagradável e impositiva do outro, daquele que deveria ser irmão mas que, de tão doente, obsessivo e egocêntrico, mal consigo classificar como pessoa, quanto mais como irmão – ou como próximo. Sei que a doença é a melhor ocasião para demonstrar fraternidade, e sei até que o tenho feito, mesmo que de forma atabalhoada, mas aquilo que penso, mais do que aquilo que faço, estraga as boas intenções ou os bons sentimentos.

Digo «Miguel, vamos embora» e dirijo-me à porta empurrando-o pelo ombro. Olho para o quarto a despedir-me e a achar que nunca o deveria ter visitado, nem submetido o Miguel a este circo. Antes de sairmos, o Quim pede «Mãe, dê-me um beijo». A senhora Olinda estaca, não sei se assustada, se quê. Olha para mim e para o Miguel como a pedir autorização. «Faça como entender», sugiro num encolher de ombros.

– Agora, Quim? – pergunta.

– Sim – responde ele, inclinando a cabeça.

E ela, tal como fez com o Miguel, segura nas mãos do Quim, dois fios entrelaçados, e beija-as sem pudor. E não resiste, beija também os braços, os ombros.

Ele quieto.

E por fim a cara, nas bochechas, no nariz, na testa, no cabelo, nas orelhas.

O Miguel encostou-se a mim perto da porta. Deixo-o estar, embora me sinta pouco à vontade. Porque é que se junta a mim? Como consegue encostar-se sem recriminação ou asco? Será só por ver ternura?

Na cama, o Quim mantém-se quieto depois dos excessos da mãe, que lhe besuntou os recantos da cara. Antes de ela se afastar, ele diz qualquer coisa inaudível, que ninguém percebe, e vira-se de lado.

Saímos ao mesmo tempo. Senhora Olinda, Miguel e eu. No cimo da escada, ela diz obrigada, acompanhando-nos à porta.

O senhor Aníbal aparece à saída com os braços cruzados. «Então vá…»

Já na rua, o Miguel anuncia, ainda contente

– Canja.

Se por acaso encontramos um amigo que não vemos há décadas e ele nos pergunta «Que tens feito?», respondemos que vamos indo, devagarinho e tal, nada de relevante, trabalho e família, «Sabes como é». Depois do abraço de despedida, que representa um resto de afecto, uma memória de nada, cada um segue caminho por lados opostos da rua. E não nos espantamos que isto aconteça sem um baque, sem remorsos ao assumirmos que os anos deslizaram irrelevantes, enfim, trabalho e família.

Pois assim também comigo. Embora fosse pouco provável encontrar um amigo na rua, de tantos anos em que me isolei, caso tal acontecesse, dir-lhe-ia uma série de lugares-comuns, frases simples de dar e receber, porque, se o informasse sobre o que realmente se passara por exemplo nos últimos vinte anos, com certeza não acreditaria.

Já que a vida digna desse nome reside fora dos lugares-comuns, só essa merece ser contada. Em verdade, se o amigo perguntasse «Que tens feito?», teria de ripostar «Absolutamente nada». Isto custa a admitir, como estar nu em público.

Mas é possível. Descreveria o que fizera para provar que não fizera nada. Mais ou menos como:

Desde que fundei o CEP, dediquei-me ao esforço da rotina. Nos primeiros anos, manter o centro a funcionar constituiu um desafio, principalmente porque contávamos com financiamento insuficiente por parte da FCT (ainda com manias de JNICT), mas também porque os investigadores não compreendiam o meu conceito inovador de verbete. Percebiam os pressupostos, mas não até que ponto os queria levar.

Como desígnio, como explicação da estrutura que rege o próprio investigador, como paz, enfim, como amor ao saber.

Rendi-me à constatação de que só eu trabalhava o verbete de forma satisfatória, pelo que alarguei o âmbito do centro a outras linhas de investigação mais na moda, ou na vanguarda dela, como os estudos da consciência, que nessa época despontavam em diversas publicações pelas mãos de Searle, Nagel, Dennet e António Damásio.

No entanto, não cedi a modas. Dedicava-me em exclusivo ao verbete sem complacência, isolando-me. Desejava acreditar que se tratava de amor ao trabalho, mas cedo percebi que a companhia dos outros não me satisfazia tanto como a rotina a que a solidão obrigava.

A paz do gabinete assemelhava-se a um constructo no qual habitava com satisfação, embora soubesse no íntimo que não passava disso mesmo, de constructo – de ilusão. Agarrava-me à rotina como redenção de um pecado que sentia ter cometido, ainda que não soubesse quando, porquê ou onde. Algo que herdara, algo que integrava a minha genética. Ou talvez redimisse um pecado por cometer, em potência.

Os dias decorreram iguais sob esse pendor. Posso resumir vinte anos num dia.

Chegava ao gabinete pelas oito da manhã, duas horas antes dos meus pares. Quando os restantes investigadores entravam, já escrevera os primeiros parágrafos de um artigo sobre as consequências da síntese característica do verbete para a forma mentis do Iluminismo, ou sobre como o desregramento do século XX se traduzira num verbete inadmissível, longo, de várias páginas.

Só a Glória, cujo cabelo moreno e competência administrativa eu interpretava como causa do seu sex appeal, ousava interromper-me. Entrava no gabinete sem pedir licença, absorta na lista de pendentes, sempre em busca de uma assinatura.

Almoçava só, sempre só, nalgum restaurante nas imediações da faculdade. Às duas regressava ao gabinete, que se povoava de mais enciclopédias e obras de referência a cada dia. As reuniões, palestras, conferências ou orientações de mestrado ou doutoramento quebravam a rotina, mas geralmente terminava às sete da tarde sem interrupções, já o artigo avançara em parágrafos e ideias.

Publicava com regularidade, embora fosse pouco lido.

De saída, a Glória acompanhava-me ao carro, exigindo ainda a assinatura em algum concurso de bolsa ou entrega de tese. Quedava-se à porta envolvendo a franja com os dedos que depois levava à boca, e alisando com o dorso da mão as folhas por rubricar.

Sempre que possível tirava licença sabática porque nada me repulsava mais do que as aulas, mesmo as poucas que a faculdade me obrigava a leccionar. O ensino, pelo menos como eu o conduzia, parecia-me tão burlesco como aquela cena das bengaladas que o Alex desfere nos drugos ao som de Rossini.

Matava os tempos livres nos alfarrabistas em busca de obras relevantes para a minha investigação. Tornei-me exímio em regatear, e até na Bizantina, famosa pelas pechinchas, conseguia descontos. Aliás, aí comprara o Inocêncio.

Cumprir a rotina com rigor, como se afastasse voluntariamente o prazer para o alcançar com mais intensidade, despertava em mim um bem-estar tântrico. Forçava-me a trabalhar, a estar sozinho, para que o produto da solidão e do trabalho nascesse do meu sangue – constituísse uma oblação.

E verdade seja dita que é mais fácil dedicar tempo ao verbete do que a manter amizades e amores tantas vezes incompreendidos ou não correspondidos.

O convívio com a Glória levou ao inevitável, fruto da inércia. Casámo-nos pelos mesmos motivos de um escritor cujo nome não recordo, quando referia «É verdade, esqueceu-nos de dizer que devíamos unir os nossos destinos».

As deslocações ao estrangeiro para conferências sobre a estética do verbete reforçaram a minha posição de autoridade sobre o tópico, mas nem isso me afastou do curso de isolamento. Ao contrário do que se pensa, a solidão é simplesmente negar o próximo a cada dia; acto de retraimento quando nos tocam. Ora isto, embora não pareça, implica um labor que pode vencer-nos pela exaustão.

Precisamos de repetir «Não estou disponível»; precisamos de insistir «Desaparece»; precisamos de nos esconder na toca com artifício.

Mas conseguimos. Depois de alguns anos desta vida dei comigo só como um albatroz no mar. Acontece que aprendera a desgostar das ondas. O movimento igual e diário cansara-me. O primeiro sinal de que a solidão me afectara deu-se quando as cigarrilhas que a Glória fumava na cama começaram a cheirar a sujidade. A boca cheirava assim. Ela fora o escolho no qual me refugiava do mar sempre que me sentia demasiado isolado, mas agora até em relação a ela nascera uma antipatia difícil de qualificar, não apenas devido às cigarrilhas mas também aos filhos que a Glória não queria ou não me conseguia dar.

O segundo indicador ocorreu quando comecei a ter saudades dos que deixara para trás, sobretudo do Miguel. Recebia poucas notícias deles. Aliás, mantivera tal afastamento que as novidades da família se assemelhavam a lendas. Não sabia se correspondiam à verdade e surgiam com o lastro do tempo, ancestrais.

Viviam sem episódios. Contando com o amparo do Miguel, os pais envelheciam a deslizar nos anos. As irmãs cumpriram o ide e multiplicai-vos mas isso roubou-lhes a disponibilidade para tratar do Miguel e dos pais, embora eles não precisassem de auxílio.

Os pais habitavam um éden que se estendia do Porto ao Tojal.

O único dissabor desses vinte anos deu-se quando a APPACDM decidiu transferir a Luciana. Durante dois anos colocaram-na em Vila Nova de Gaia e mantiveram o Miguel em Aldoar, perto da Circunvalação.

Isto desgastou o Miguel como um corroer de dentro para fora. Em dois anos envelheceu uma década, e os pais envelheceram com ele porque percebiam que talvez não resistisse se o afastamento perdurasse.

Quando a mãe insistia junto da direcção em que o afastamento abatia o Miguel, eles respondiam «Questões de reordenamento. A Luciana é interna e Gaia precisava de utentes». A mãe reforçava «Espero que não tenha que ver com o relacionamento deles. É só amizade», ao que a tranquilizavam «De forma alguma. Reordenamento, mais nada».

Ao fim de dois anos, o Miguel ansiava pelas idas ao Tojal porque lá se sentia refugiado das injustiças do mundo. Reagia como uma planta à qual falta água, murchava sem protesto. Embora pretendesse fugir, atravessar o rio para a encontrar, nunca o fez porque o amor aos pais impedia-o de os abandonar. Encontrava-se dividido entre ficar e partir, entre obedecer aos pais e obedecer ao amor pela Luciana. Escolheu os pais, traiu a Luciana.

Contudo, conformara-se, esquecera-a, quando a direcção da APPACDM mudou e, com ela, o ordenamento. A Luciana foi devolvida a Aldoar. E assim o amor reacendeu, ainda que os remorsos por ter desistido dela demorassem a acalmar. Em brasa, a vida retomou o ponto em que a haviam interrompido dois anos antes. O Miguel regressara ao éden.

Em contraste com o amor do Miguel pela Luciana, o meu amor pela Glória mantivera-se rasteiro como no primeiro dia. Não amara mais e mais. Quando soube da felicidade do Miguel ao reencontrar-se com a Luciana, percebi o quão desencontrado era o meu casamento, e sem o impulso do reencontro, sem a necessidade de resolução. Duas solidões acompanhadas. Divorciámo-nos há oito anos. Ela teve a delicadeza de se demitir do CEP, deixando-mo nas partilhas.

No entanto, agora encontrava-me de facto sozinho, ainda que a solidão se tivesse tornado fatalidade em vez de opção. Já não me satisfazia no trabalho, mas deixara de conseguir companhia. Encontrava-me perdido no mar, à deriva sem asas sem fôlego sem nada.

Então surgiu uma ideia que persistiu durante anos. O Miguel como último reduto, como redenção. Assim que pudesse estar com ele, isto é, assim que os pais morressem, entraria no seu éden, redimir-me-ia de uma vida chã ao dar-lhe paz, boas condições, e um amor semelhante ao dos pais.

Desde então vivi em função dele, das memórias que partilháramos e da antecipação do momento em que me tornaria guarda do meu irmão. Sobretudo, lutava afincadamente contra aquele sentimento que, como já referi, vem descrito na página 2156 do Dicionário da Academia, para que não pendesse qualquer ónus sobre nós. Quando pensava que alcançara a pureza interior, a presença desagradável da Luciana retardava a cura. Isto é, aquele amor livre colocar-me-ia em causa, poderia não sobrar espaço para mim. Esforçava-me por retrair tais ideias. Conseguiria, ficaria preparado a tempo. Seria puro.

E assim passaram os últimos dez, quinze, vinte anos. Devagarinho e tal. Nada de relevante, trabalho e família. «Sabes como é.»