O Meu Irmão
Do que eu me lembro. De subir…
Do que eu me lembro. De subir uma escada em caracol acompanhado pelas vozes das crianças. Era um ATL, embora na altura não lhe chamassem assim, e eu ia buscar o meu irmão ao segundo ou terceiro andar. Ficava numa das casas típicas do Porto, muito altas e estreitas, corredor ao centro, divisões pequenas, frente à Praça de Liège. A escada parecia um precipício virado para cima, só olhá-la metia vertigens. Mas, como era um desafio, o sentimento de que o meu irmão precisava mesmo de mim dominava-me, e eu subia dois a dois sem respirar.
Ele tinha sete anos.
Haviam pendurado ao longo da escadaria desenhos feitos pelas crianças. Folhas brancas com casas geminadas e árvores e riscos que representavam pessoas e sóis, embora aquelas crianças vivessem em apartamentos e as árvores que conheciam se parecessem com arbustos. E também desenharam o pai e a mãe de mãos dadas, apesar de muitos não terem pai ou mãe, ou pai e mãe de mãos dadas. Nos cantos inferiores, as assinaturas. Já sabiam escrever o nome com as vogais muito abertas.
O meu irmão não contribuiu com um desenho. Apenas muitos anos depois, quando a Augusta lhe deu um jogo de pintura, ele começou a desenhar, mas já éramos adolescentes. Desenhava casas geminadas e árvores e riscos que representavam pessoas e sóis, embora não soubesse assinar com as vogais muito abertas nem com as vogais muito fechadas porque não conseguia escrever.
Foi na altura em que andava numa terapeuta da fala. O que sei é que me sentia eloquente ao meu jeito e ele não conseguia falar como gente por causa daquela língua enorme que insistia em trazer ao dependuro, meio morta mas a mexer. Se ao menos lhe arranjassem a língua, nada como cortar aqui e ali para que a coisa ficasse resolvida. E punha-a de fora só para nos provocar. «Miguel, língua para dentro», berrava a nossa mãe.
Sim, era egoísmo, isso de querê-lo fluente. Uma criança precisa tanto de falar, de jogar, de brincar. Embora nos entendêssemos, por algum motivo sentia aquilo como pouco. Por isso isolava-me e preferia deixá-lo no quarto como um objecto que se pousa. Se ao menos ele conseguisse falar, eu tê-lo-ia mais como amigo e menos só como irmão. Porque irmão já ele era e isso não adiantava de nada.
Por outro lado, parecia-me muito mais novo, muito mais do que apenas o ano de diferença que nos separava. Ou seja, mais apatetado. Como o Dumbo. Havia que o proteger e era nisso que eu pensava enquanto subia os degraus dois a dois sem respirar.
Tenho ideia de abrir a porta e encontrar a gorda da terapeuta sentada numa cadeira olhando para o relógio. Ao lado, no chão, o Miguel entretinha-se com Legos sem dizer uma palavra. A terapeuta cruzava as pernas e sobre elas uma revista do género TV Guia. As pernas cruzadas metiam pena por causa da gordura (um alto onde se juntam). O Miguel não conseguia encaixar os Legos e fazia muito barulho a bater as peças. Porém, a terapeuta não tirava os olhos do relógio.
Entrei, encaixei os Legos por ele e dei-lhe a mão, insistindo em que fôssemos embora. Comigo não precisava de falar, o que só agravava as coisas. Eu percebia-o. Deu-me pancadinhas nas costas, o mesmo que dizer olá, e apertou a minha mão com força, o mesmo que dizer que estava chateado e farto daquilo.
– Sim, mas continua. Aprende – aconselhei enquanto descíamos acompanhados pelos berros das crianças.
Quando um adulto passava por nós, colocava a mão no ombro dele, como a incentivá-lo. Eu aconselhava-o a continuar a terapia porque talvez conseguisse por fim desatar a língua ou ordenar os grunhidos e, assim, conversar comigo. Percebê-lo não era o mesmo que conversarmos. No entanto, não entendia o que tinha a TV Guia que ver com a vida do meu irmão, e em que medida aquilo o ajudava.
No fundo, eu só queria uma conversa estruturada em que de repente a língua do Miguel se desatasse e ele se tornasse outro, sendo o mesmo.
Imaginava vezes repetidas essa conversa impossível.
– Olha para mim, meu parvalhão. Como te chamas?
– Miguel.
– E eu?
– Mano.
– Eu sou teu irmão, não me chamo irmão.
– Sei.
– Sabes o quê?
E nisto a língua no discurso como faca na manteiga.
– Sei que tu és meu irmão e que não te chamas assim, estava a brincar. E não quero ir mais àquelas aulas. A mulher está sempre distraída, não aprendo.
Mas nem agora, aos quarenta, consegue manter este nível de discurso, quanto mais naquela época em que deitava a língua de fora por tudo e por nada. Dizíamos como a mãe «Miguel, língua para dentro». O meu pai mantinha-se em silêncio porque ainda não sabia dizer «Miguel, língua para dentro» sem violência por ele ser deficiente. A violência desapareceu pouco a pouco para dar lugar ao amor, principalmente o amor calmo depois da reforma, mas nesse tempo só havia o silêncio que escondia a violência.
Quando os nossos pais desistiram da terapeuta, essa mulher de pernas cruzadas que provavelmente olhara para o relógio muito antes de eu chegar, senti que estava tudo perdido.
Melhor, estava tudo perdido à moda ampla e pequena de uma criança. Talvez cinco minutos depois já não pensasse no assunto.
Mas ainda me lembro de mais atrás. A primeira memória do meu irmão vem de antes, do infantário, que ficava no outro lado do rio, quem vai pela Ponte da Arrábida, logo à direita, num complexo sobranceiro à Afurada que já não existe. Por que raio é que o Miguel não podia ir comigo? Afinal, apesar de tudo, tínhamos quase a mesma idade. Ou pelo menos visitar-me.
Deram-me um carrinho de plástico onde me sentava e percorria os corredores do colégio. O banco abria e guardava lá dentro os brinquedos. Um dia até guardei um pombo de asa partida que encontrara a saltar contra a parede. O desejo de ter o Miguel comigo era tal que o deixaria andar pelos corredores no carro como se este lhe pertencesse. E até guardar o que quisesse debaixo do banco.
Todos os dias, depois do infantário, chegava ao pé da minha mãe e
– O Miguel não pode?…
Eu era bastante exaustivo, redobrava aquela frase com um desgosto genuíno e fingido, tal é a falsidade sincera de que as crianças são capazes.
Como vingança, desarrumava os policiais da colecção Vampiro que a minha mãe encadernara dois a dois ou três a três em tecido cor de sangue
Lembro-me de que alguém perguntava «Como é que tu enterras duas pessoas no mesmo caixão?».
e chamava-a de modo a ver os livros acabados de espalhar. Até mandara fazer uma estante própria com as medidas dos in-octavo, e agora a estante estava vazia, violada. Eu dava a entender que desarrumaria os livros até que o Miguel me acompanhasse. Dito isto, sorria porque até gostava daquela brincadeira de baralhar e vasculhar os livros. As facas, as forcas e as pistolas nas capas assustavam-me como se aqueles livros escondessem um submundo de tudo o que eu não conhecia, de tudo o que era verdadeiramente adulto.
Depois de uma semana de vampiros perdidos pela casa, a minha mãe cedeu. Levei o Miguel. Foi só durante umas horas e nunca lhe larguei a mão.
Mentira: larguei, mas por pouco tempo, portanto a consciência não pesou.
Fomos ver os sítios proibidos, o jardim do canto para onde atiravam veneno de rato em pastilhas, os baloiços e afins. O pátio e também as salas, incluindo os corredores dos grandes e a capela. Tenho a certeza de que gostou, até que fomos brincar. Apresentei-o aos meus amigos. Lembro-me especialmente da Lili, cabelo louro e olhos azuis. Tratou-o bem, levou-o pela mão até ao recreio.
Ele brilhava. A Lili também brilhava, mas ele brilhava mais.
Não sei o nome, mas era um jogo em que alguém vai ao meio e os outros andam de roda até que um substituto é apanhado. Claro: o Miguel foi ao meio. Brincávamos no pátio das traseiras, perto do muro de onde o Zé Pedro saltou por se achar o Super-Homem.
Acontece que ele não tinha percebido as regras – isto além de lhe faltar a destreza. De início fiquei surpreso por ele se divertir: ouvia «aqui!» e «ei!» e «então?» de várias direcções e ria-se. Havia muita escolha por onde agarrar. Ele tentava com gestos pronunciados antes mesmo de se mexer, mas os outros percebiam quem ele queria apanhar e fugiam.
Ficou tão excitado que enfiou o dedo na boca, mordendo-o. Muitos risos. Não me lembro se também me ri. Depois cansou-se, sentou-se, voltou a levantar-se e sei lá eu mais o quê. É que não conseguia escolher um daqueles «então?» e «ei!» e «aqui!». Entretanto os berros cessaram, os meus amigos já não queriam brincar.
Quem fica de fora está dividido entre o medo e o desejo de ser apanhado. Todos querem ir ao meio e ninguém quer dar parte de fraco. O meu irmão não prestava porque não tinha capacidade para apanhar ninguém. Fartos, lembraram-se de outro jogo. Rodear o do meio e chamar-lhe coisas.
Coloco em itálico porque de facto não me lembro do que lhe chamaram, suponho que insultos como «Ó mongo!». Coisas pequenas saídas de bocas pequenas que abrem buracos pequenos como balas.
Fizeram um cordão de mãos dadas e, fardados e bonitinhos, amorosos, andavam devagar à volta e cada um disparava à vez. E eu fiquei aterrado como uma criança fechada num quarto escuro: o meu irmão sorria, mais contente do que nunca – não percebia que o insultavam.
Ao fim da tarde, entrei no carro e não disse uma palavra. Queria acusar a minha mãe por ter deixado o Miguel ir comigo mas sabia que de alguma forma isso estava errado. A minha mãe era perfeita, não podia ter cometido tal erro. Era perfeita a ponto de encadernar vampiros em capas da cor do sangue. E, mesmo que me quisesse explicar, eu nunca perceberia o que significava a síndrome de Down.
Ficar calado foi o melhor remédio.