O Meu Irmão
Assim que o Masturbador ficou cego, passaram…
Assim que o Masturbador ficou cego, passaram a obedecer ao Miguel. Sucedeu com naturalidade. Deixaram de temer o opressor para admirar o libertador, mas era o mesmo sentimento, olhar de baixo para cima, temer e amar, não saber ao certo a quem pertencem as próprias acções, se a nós se a ele, ao que manda. Pelo menos o Miguel era justo, queria saber da Luciana e pouco mais.
Embora passeassem pelos corredores como sempre, os dois formavam um par diferente, um par pelo qual os outros se mediam.
Quando se cruzavam com o Masturbador, aqueles que ainda se lembravam da coça do Miguel olhavam-no com desprezo; cuspir-lhe-iam caso não arriscassem traçar de cuspo a própria cara. Torna-se complicado quando ao cuspir também se quer projectar o ódio acumulado nas paredes do estômago. Muitos continham-se e não faziam nada porque, se por exemplo lhe pregassem um pontapé por trás, seriam tão pouco eficientes que mais valia deixar que os fortes e entendidos tratassem do assunto. Mais eficaz.
O Masturbador já não possuía uma máquina bem engrenada, não desejava as rapariguinhas, nem as conseguia ver nem nada. Tornara-se só o mais puro em si, aquilo que até então os mecanismos da luxúria reprimiam. Tornara-se outra vez menino quando, cego, se vira forçado a olhar para dentro de si próprio.
É impressionante como até o miasma pode ser lavado de nós. Basta deixar que o tempo actue como maré. O Masturbador deixara a maré entrar por ele e agora, renascido, fazia por apalpar os corredores de modo a ir para o canto mais recatado, onde as miudinhas não apareciam.
Quando os outros aproveitavam os intervalos para lhe pregarem rasteiras e ele caía com o nariz no chão e ficava esborratado de sangue entre os olhos brancos, não era no Masturbador que se vingavam. Espancavam um arrependido, muito mais do que aquele que assediara a Luciana no corredor do Snoezelen. Não sabiam que o nariz que espalmavam contra o chão, de certa forma, não era o nariz que fora apanhado a cheirar as mochilas das mulheres à procura de alguma peça de roupa perdida.
O Masturbador ainda possuía um corpo mecânico e fatal, é certo, mas faltava-lhe o volante. Guiava às apalpadelas, devagar, tocando com a palma da mão nas paredes, nos objectos, nas saliências, nas almofadas dos sofás e nos braços dos cadeirões. Irritava-se e dava murros nas paredes para fazer barulho e assinalar onde se encontrava, só que também acertava num quadro, partia o vidro e cortava a palma da mão em dois riscos que não deixavam cicatriz.
Nestas condições tornava-se fácil antepor um pé à perna dele, dar-lhe um encontrão de passagem, colocar um banco caído no meio do corredor, deixá-lo entrar numa sala e fechar a porta – até tinha piada. Era um jogo.
Na manhã da ida ao circo, os passos do dia-a-dia foram alterados. Ninguém estava onde era suposto. O porteiro andava pelo jardim, o contínuo fumava nas traseiras ao pé dos contentores, as educadoras conversavam, o motorista estacionou a carrinha à frente da porta em vez de a estacionar nas traseiras, as mulheres da limpeza varriam juntas um canto do corredor, a directora procurava as pessoas nos sítios onde supunha estarem, e uma mãe esperava à porta da secretaria para ser atendida. A funcionária pediu-lhe «Só um minuto, querida». Isto perturbava os utentes da APPACDM, que precisavam de estabilidade nos espaços e nos procedimentos.
E os objectos também não estavam onde deviam, quer porque a agitação deixara para trás mochilas e casacos, quer porque uma das deficientes que o Masturbador assediara se entretinha a derrubar obstáculos para ele tropeçar. Dispôs um banco no ângulo certo, fechou e abriu as portas, enrolou um tapete e espalhou folhas de jornal e livros infantis como Um Conto para Cada Dia do Ano.
Ficou a olhar para o campo de obstáculos e então, com calma, chamou o Masturbador. «Ó! Aqui!» Mas nem isso o Masturbador conseguia fazer como lhe pediam. Foi direito à voz e ultrapassou os primeiros obstáculos sem cair. «Não! Ali», corrigiu a rapariga. Ali era onde um banco se atravessava no corredor. Ele seguiu para onde a voz mandava porque ficou contente por alguém falar com ele. Seguiu quase a correr, mas nisto os pés bateram em madeira, ou em algo com a consistência da madeira (ele não via), os joelhos no chão e a cabeça arrastou-se pela parede até esbarrar num caixote do lixo.
Muitos soltaram as gargalhadas mais bonitas.
Depois de cair, o Masturbador foi à casa de banho limpar o sangue que pingara sobre e entre os olhos. Aí mediu as suas misérias, choramingando sentado na retrete. Queria contá-las, a ver se eram tantas ou tão poucas que desse para as apontar pelos dedos de uma mão, mas nunca acertava nas contas.
Levantou-se, enxaguou a cara e os restos de sangue escorreram pelo ralo, acumulando-se nas falhas da porcelana. Assim que a água limpou o último vestígio, já não se lembrava do que sucedera. Acontecia sempre assim, ele esquecer-se. Limitou-se a sair da casa de banho guiando-se pelo corredor até à recepção onde a secretária fingia que não ouvia o telefone. Dirigiu-se à sala de convívio.
A Luciana ocupava um sofá. O Miguel ainda não se sentara. Um paralisado cerebral tentou estender a mão atrofiada em gancho. Quase a tocar no cabelo da Luciana, esta disse «Xô!» e o Miguel disse «Xô!» logo de seguida. O paralisado afastou-se. Os utentes aguardavam a carrinha para irem ao circo. Queriam ver o maior espectáculo do mundo.
O Masturbador passou pelo Miguel e apoiou-se nele. O Miguel ajudou até perceber quem era, depois deixou-o encontrar um lugar sozinho. Demorou muito tempo à procura, pedindo um espaço sem que ninguém lho cedesse.
O Miguel nunca alinhara no linchamento. Arrependia-se um pouco de ter batido no Masturbador, embora soubesse que dadas as circunstâncias fora a única hipótese. Não valia a pena pontapearem-no todos os dias, ou entregarem-no ao Caranguejo para que este se satisfizesse. Era bonito de ver, o Caranguejo a fechar a pinça naquela perna desorientada, o Caranguejo a andar de lado e a voltar para mais uma apertadela.
As educadoras gostavam; quer dizer, fechavam os olhos. Na perspectiva delas, quanto mais ele apanhasse, mais cedo o poriam dali para fora. Queriam-no na rua porque, enfim, de facto não tinham condições para uma pessoa daquelas: deficiente, cego e infeliz, para mais gerando tanto incómodo.
Por essa altura, a vida do meu irmão estava muito cheia. No colégio, lidava com os ciúmes que sentia da Luciana, lutava para manter a Luciana, evitava o Caranguejo e evitava as educadoras. Também evitava o Masturbador. As actividades continuavam iguais a sempre, mesmo estando mais velhos, só que agora nem sequer deixavam o Miguel e a Luciana juntos na mesma sala. Encontravam-se nos corredores e isso sabia a pouco.
Em casa entediava-se porque não queria ver televisão, não fosse sentir atracção por alguma actriz, como dantes. Embirrava com os nossos pais, à vez, e comigo sempre. Perguntava «Vais embra?» e eu respondia «Em breve», mas sabia que ir embora não significava nada para ele, era só a reprodução do que eu conversava com os meus pais, o meu desejo de seguir Literatura. Decerto ele não entendia o que isso implicava, embora escolhesse sempre o contexto mais adequado para o perguntar, por exemplo depois de uma discussão. «Vaite embora», sugeria.
Eu era qualquer coisa a mais, como os morcegos na biblioteca do Convento de Mafra.
Dava-me algum gozo pensar que sim, que mais cedo ou mais tarde me punha a andar e então o Miguel perceberia o que representava eu viver em Lisboa, longe dele. Mas também temia que a minha partida não mexesse com ele, ou que mexesse para o lado da felicidade.
O Miguel sentou-se por fim no sofá ao lado da Luciana. Detestava o circo, ainda se lembrava da jibóia que lhe tinham atirado para os ombros da última vez. Não sabia o que o repulsava mais, se a pele fria, se a falta de ânimo daquele animal que parecia uma corda grossa e não lembrava a dúvida entre chapéu ou elefante a ser digerido. O réptil nem levantava a cabeça.
A entrada custava na altura uma nota inteira. No dia anterior, a minha mãe, muito zelosa de lhe explicar o valor de uma nota, segurara-lhe na mão.
– Fecha os olhos. Assim. Toma.
Era suposto que o meu irmão ficasse contente por transaccionar em nota. Até aí transaccionara sempre em moeda, com a minha mãe ao pé da caixa do supermercado à espera de que o Miguel aceitasse o troco sem confusões. Mas não ficara contente. A nota não pesava tanto como a moeda: valia menos.
Com ou sem nota, não gostava do circo e não gostava que o obrigassem a ir. Não queria, não queria e acabou. Não o iam obrigar, não o iam obrigar – e continuava este discurso de criança até que um berro do pai o calava.
Mas já não era criança. Tinha dezassete anos.
Decidira fazer alguma coisa. Não ir ao circo, ficar no colégio.
Na sala de estar, prestes a sair para o circo, levantou-se e escondeu o envelope com a nota e a autorização dentro das calças, através da braguilha. Os utentes seguiram para o estacionamento. Enquanto ele esperava à frente da carrinha, sorria por ter resolvido o problema sozinho, por ter obedecido à sua própria vontade. Saltitava e coçava a nuca de satisfação. A Luciana sorria também, mas sem saber porquê. Sorria porque ele sorria. Sorria porque gostava dele.
Gostava dele muito menos do que ele gostava dela.
À espera, cada um para seu lado, os deficientes abanavam as notas sobre a cabeça, metiam as notas na boca, debaixo dos braços, dentro das mochilas. Queriam brincar e queriam muito ver o circo e portanto não conseguiam ficar sossegados até entregarem a nota ao motorista. O Miguel contrastava com os outros porque não segurava na nota e porque permanecia sossegado, mesmo quando a Luciana se virava para trás e lhe atirava beijos.
O motorista perguntou
– O dinheiro?
e o Miguel respondeu
– Nao ha.
– Muito bem, vá, raspa-te para dentro.
A Luciana já entrara e nem reparou que o Miguel não seguia atrás dela.
Quando regressou à sala, o Miguel só encontrou o Masturbador. A auxiliar dissera-lhe «Tu não sais daqui» e sentara-o num banco ao lado do sofá.
O Masturbador adorava o circo, era a única ocasião em que se sentia apaziguado. Batia palmas como verdadeiro deficiente. Fora apenas uma vez ao Victor Hugo Cardinali mas divertira-se para o resto da vida. Agora seria impossível voltar ao circo. Só iria se os pais lhe dessem dinheiro e os pais tinham-se cansado dele. Gastaram fortunas no aparelho sem resultados. «O gajo nunca se ri», dizia o pai. Naquele corpo, só os dentes ficaram perfeitos e, apesar disso, ele mantinha a boca fechada. Não autorizaram que ele fosse. «É que não abre mesmo.»
O Miguel sentou-se ao pé dele. Gente ainda à frente da carrinha. Carregar as cadeiras de rodas tomava o seu tempo. O elevador elevava o paralisado que tentara tocar no cabelo da Luciana e o seu barulho lembrava uma engrenagem a moer os elos.
Ouvi o mesmo som numa rua de Lisboa, pouco depois de me ter mudado para lá. Às nove da manhã, uma carrinha igual ia buscar um paralítico a uma rua estreita. Chegava sempre antes de um homem gordo acompanhado por uma mulher gorda. «Todos os dias esta merda! Despachem lá isso!», berrava, apitando. O barulho da buzina sobrepunha-se ao barulho do elevador.
O Miguel fizera planos. Ia comprar um anel para a Luciana com aquela nota. De preferência um anel como os da mãe, daqueles de ouro que faziam olhar para os dedos. Entregava o dinheiro à nossa irmã Matilde, que comprava o anel às escondidas. Depois o Miguel metia-o na mochila e dava-o à Luciana durante o almoço, a seguir à sopa. Ela gostava imenso de sopa. De certeza que ficaria feliz. Isto é, ficariam os dois ainda mais felizes porque o anel solucionaria os ciúmes. Funcionaria como a assinatura «Miguel» no dedo dela.
E ninguém se atreveria a passar por cima de uma assinatura.
A imagem da Luciana com o anel dissipou-se e sobre ela apareceu de novo a cara do Masturbador. Ninguém o importunava e ele sentia alívio misturado com tristeza, já que entretanto percebera que ninguém o importunava porque iam ao circo. Ele não. Os pais não quiseram mandar o dinheiro. Mas ainda que fosse ao circo, de que lhe adiantaria? «Tu não vais porque não consegues ver», disseram-lhe.
Não estava resignado porque desconhecia o significado da resignação, mas o corpo resignara-se por ele. As mãos estendidas como a mostrar duas chagas, a cabeça recostada e esquecida, as pernas ainda a mexerem, mas a mexerem apenas no movimento de parar. Não pretendia tocar nos olhos, não os queria arranhar, não desejava nada, excepto que o deixassem em paz. Ao menos ficara sozinho sem ninguém para o chatear. Não percebia o que se passava, nem percebia o que sentia. Por isso desistiu como uma pedra que se atira para um charco – desistiu até ao fundo.
O Miguel sorriu àquele gigante sentado. Parecia uma barriga gorda enrolada sobre o próprio eixo, ou um saco fechado num nó estreito. Metia dó, mas não o suficiente para manter os olhos nos olhos dele quando as duas órbitas baças paravam na sua direcção.
Suponho que sentir dó é sentir empatia com o outro, é colocarmo-nos no lugar do outro, e o Miguel começara a fazer isso sem entender.
As educadoras passavam, mas o Miguel não deixava de olhar para o Masturbador. O sacana não se mantinha direito, escorregava pelo banco e levava as mãos à cara para limpar o suor, a baba, o ranho, mas não chorava. Limpava o suor na testa e depois limpava a mão à camisola e às calças. Muito devagar. Mesmo devagar, por preguiça ou inércia. Se dispunha do sofá ao lado, porque é que escolhera o banco? E além disso, ao menos que se sentasse bem. «Costas direitas, língua para dentro», como mandava o nosso pai.
O Miguel levantou-se e deu-lhe um empurrão para o lado do sofá, que foi como quem diz para ele se sentar no sítio mais cómodo. Nisto, ouviu as únicas palavras da boca do Masturbador, dois restos de frase que terminavam em
– O circo? O circo?
Era como se ouvisse uma música com a qual se identificava.
Numa demonstração de ternura, abriu a braguilha, tirou o envelope de dentro das calças e fechou-o na mão do Masturbador. Levou-o pelo pescoço até à carrinha. Só faltavam quatro pessoas.
– Aqui. Espera aqui – murmurou.
Quando a carrinha arrancou, já o Masturbador começava a bater palmas.
Depois disto teriam ficado amigos, mas no dia seguinte o Masturbador não voltou ao colégio.