O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 12 de 46

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O Meu Irmão

Mas ainda não lhe agradeci as torradas…

Mas ainda não lhe agradeci as torradas como devia. As torradas que ele ofereceu a meio da tarde como desculpa para falar da Luciana. Sempre a Luciana. Mal volto a casa depois de levar o Quim, subo ao quarto e sento-me na cama. Já dorme. Faria melhor em não o incomodar e agradecer-lhe depois, embora sinta vontade de o arrancar a qualquer sonho bom.

Coço-lhe a cabeça e destapo o édredon o suficiente para lhe perturbar o sono. Acorda depois de uma emersão lenta de retorno à realidade. Vê-se pelas manchas de baba na almofada que demorou muito tempo a adormecer. Envolve morder os dedos, passar a palma da mão pelo cabelo e fazer das mãos fantoches que lutam uns contra os outros, às vezes com violência.

Provavelmente sentiu-se criança e adormeceu ao som da minha conversa com o Quim, tal como quando adormecíamos ao som dos grandes a jogarem bridge na sala.

Destapo o resto do édredon e abro a janela. O ar da noite depressa preenche o quarto, inclusive o interior das gavetas.

Abro uma delas por curiosidade: um relógio de corda que parou às três horas e dezassete de uma segunda-feira dia vinte e oito, um fio de prata com uma medalha do anjo-da-guarda, gravado à volta «A ver menino tão lindo, passarinhos vinde em bando», uma meia desirmanada, um livro dobrado na página trezentos e um com sublinhados no parágrafo que começa por «Uma daquelas manhãs surpreendeu-se a chafurdar na arca que encerrava os agasalhos de Iluminata», uma fotografia de uma pessoa que não reconheço de imediato e só depois de observar melhor percebo que sou eu mascarado de chimpanzé, um bilhetinho sem data com os dizeres «Só para te lembrar que eu te adoro» assinado pela minha irmã Constança, um punho de enxada que o meu irmão costumava usar como brinquedo, uma tesoura com uma das pontas partida, um pano ainda entranhado de pó, um martelo, a bateria de um telemóvel e, por último, um anel de ouro da minha mãe em forma de cravo com o tamanho do dedo mindinho. Pego nele e penso dá-lo a uma das minhas irmãs. Depois, que se lixe, atiro-o outra vez para a gaveta, fechando-a.

Olho para o Miguel. A idade roubou-lhe a magreza, o corpo parece um conjunto de elementos que encaixam mal.

«Nao é gordo, é belo», costuma dizer quando lhe impinjo uma dieta. Ao que respondo, não porque o queira ferir, mas porque é melhor chamá-lo à realidade, «Não, és mesmo gordo. Um balofo».

Abre os olhos à chinês, aqueles olhos que costumavam rir em meia-lua sempre que acordava para ir para a APPACDM, mas fecha-os de imediato porque não me quer ver. Talvez sinta o cheiro a vinho. Quero dizer-lhe algumas coisas e acho melhor dizê-las já.

Eu de pé e ele deitado tentando cobrir-se com os próprios braços porque atirei o édredon para longe. Procuro reunir as palavras certas, ordená-las antes de as pôr em prática como os jogos de Tetris que mostram a próxima peça. No entanto, tal como nos jogos de Tetris, as peças nem sempre encaixam ou não temos habilidade para as jogar e por isso o Miguel fica à espera de que eu diga qualquer coisa, e espera com certeza que seja «Vá, volta a dormir». Depois penso que a ordem não importa, que o importante é o todo e mais vale falar.

São estes momentos que definem a vida familiar, embora não costumemos prestar-lhes a atenção devida.

Mas, enfim, tusso e começo quando percebo que ele abriu de novo os olhos fixando-me sem se mexer, sem dizer nada. Só olhando-me.

– Miguel, sabes perfeitamente que a Luciana não volta, certo? Ela tem a vida dela e tu estás aqui comigo. E gostas de estar comigo. E ficas aqui comigo.

Nisto, levanta-se, vai buscar o édredon e volta para a cama. Enrola-se de tal forma que a resposta surge como um fio de lã saído do novelo.

– É.

– Então porque insistes? Tu sabes que as pessoas não voltam. A mãe e o pai, por exemplo. A vida é assim, já percebeste isso. E eu não posso fazer nada. Não é?

Quer contrariar-me com os argumentos de que dispõe, os argumentos que porém não consegue tirar do sítio. Do cérebro para a boca e da boca para mim. Tal ultrapassa-o. Por isso submete-se, mesmo pensando que eu não tenho razão.

– É, sim. Ja sei. – E então, tentando explicar-se: – Mas a Luciana magoada, muito. Dói.

– Isso não importa. Se sabes, controla-te. É normal não termos o que queremos. O resto não interessa.

Depois uma pausa. Cubro as formas do corpo dele com o édredon. Ele estica-se na cama em sentido, como para receber o impacto do que acabo de dizer, ou para me desafiar.

Perceberá o Miguel que eu tenho sempre razão, pelo menos quanto a ele? Perceberá que é tudo para seu bem?

Quando recomeço a falar, ele interrompe-me, diz que não quer saber da Luciana, que está com frio e precisa de dormir. Isto indu-lo em remorsos. Excita-se e desdiz-se, que afinal não, não quer dormir e ama a Luciana. «Ama» muito bem dito, a palavra redonda como abraçada. Esconde a cara na almofada e abafa um grito.

Eu calado, não sei porquê a achar graça, tal como as pessoas que sorriem nas situações mais inoportunas, num enterro ou numa cerimónia pública. Perante esta tendência que ele mantém há meses, esta fixação descontrolada – este insistir num amor que acabou –, primeiro, achei que era necessário tomar medidas; depois, uma vez que continuava fixado, achei que o melhor era apoiá-lo, dar-lhe a mão até que esquecesse. Agora permaneço indeciso entre o desejo de rir e o impulso de lhe bater.

Quando não há solução, enfrentamos a realidade, fazemo-nos homens. Adaptamo-nos. Sobrevivemos. Vencemos, lutamos, ou pelo menos somos derrotados em grande no combate que é a vida. Com o Miguel não se passa isso, ele mantém-se no mesmo estado de espírito, à semelhança de um pássaro de asa partida que ainda salta para voar. Salta e magoa a asa.

Digo

– Está bem, como queiras, mas está calado e não me voltes a chatear.

Nunca sentirei um amor de pai pelo meu irmão, embora saiba que de certa forma é isso que me constringe. Se conseguir amá-lo mais, reconhecê-lo como meu – fingir que desde sempre o vejo como criança, imaginar que lhe peguei ao colo depois de ele nascer –, talvez ultrapasse a distância entre nós.

Então, não encontro frases boas para o descrever, o Miguel começa a choramingar tal qual as crianças que fazem beicinho. Terá sido o que eu disse, ou até a lembrança mais presente da Luciana, quem sabe do episódio do anel. Quando a memória se excita, torna-se difícil para ele simplesmente acalmá-la e voltar ao estádio anterior. Sobrepõem-se imagens da Luciana na carrinha a caminho da APPACDM, no refeitório, na varanda à frente do jardim, parecia que estava mesmo no jardim (uma menina das flores), na sala a agitar as aguarelas, nas festas quando faziam teatros e ela não passava de figurante. Também por baixo do Masturbador, daquela vez. E sobretudo, mais recente, mais viva, mais dolorosa, a memória da Luciana e da porta do carro fechando-se no meio da estrada de terra batida.

Choramingar como uma criança num corpo de homem, num corpo de muitos quilos. Choramingar assim e não ser uma criança, não ter quem o console, quem lhe diga que tudo ficará bem mesmo que não seja verdade. Alguma mãe que apesar de velha encoste as rugas à cara dele recomeçando uma cantiga de infância como se nunca a tivesse interrompido.

Afasto de novo o édredon mas agora para me deitar ao lado dele. Abraço-o e assim ficamos uns momentos enquanto o choro passa. Um abraço de irmão serve de pouco, mas apesar disso o Miguel acalma-se, enxugando os olhos. Em menos de nada está feliz. Murmura «Bem, bem» provavelmente para me expulsar da cama.

Por muito que sofra, encontra sempre momentos de calma. Invejo-o, ou melhor, invejo esses momentos.

A barba meio crescida, o olhar infantil e já pacífico, os pêlos eriçados no queixo. Vejo-o assim na proximidade, tão próximo como a minha mãe quando ele a agarrou pelo pescoço para a meter debaixo de água.

Levanto-me e fecho a janela. Estou quase a sair quando ouço

– Mano, leite?

Pede uma torrada e um copo de leite quente, quer que lhos leve à cama. Estou demasiado cansado, só me apetece dormir, mas ainda assim desço à cozinha e arranjo o que ele me pede porque no fundo sempre fui bom irmão.