O Meu Irmão
A nossa infância foi de luta pela…
A nossa infância foi de luta pela beleza no quotidiano. Tínhamos a certeza de que havia algo atrás do que se vê, uma realidade mais profunda, mas não era eu que lutava – os outros faziam-no por mim e eu aceitava.
Mais do que aceitar, por vezes também acreditava.
A minha mãe precisava de muita imaginação para me obrigar a comer a sopa. Todos os dias inventava efeitos diferentes, histórias incríveis. Não sei se recorria a um calendário em laço infinito: sempre que passava tempo suficiente para eu esquecer, contava as mesmas histórias. Mas claro que a minha mãe nem sempre tinha paciência, até porque o Miguel adorava sopa.
No fundo, eu fazia birra porque não gostava de sopa e porque o Miguel a comia mais rápido do que eu, em duas colheradas.
O Miguel sorria, regalado por comer os restos, ou até mais de metade da minha sopa.
Depois de uma dessas birras, o meu pai regressou a casa carregando várias horas de trabalho e com elas um lastro de angústia que costumava desaparecer ao ver-nos. Eu cruzava os braços à espera de que o beicinho resolvesse o problema, mas o meu pai entrou pela porta do pátio à frente de uma lufada de ar frio e apanhou-me em flagrante. «Tu beijas o chão que a tua mãe pisa, esse chão é sagrado. Vá, meu miserável», afirmou ele.
Não pretendia que beijasse o chão para me redimir. Chamava-me miserável com naturalidade e amor, e o exagero era justamente o que escondia a gravidade do assunto. «Meu grande miserável!», e por vezes «Porco! Cão!».
Na manhã depois de «Tu beijas o chão que a tua mãe pisa», ainda estava tudo por mexer. Faltavam passos no chão e dedadas nos copos. Mas os passos e as dedadas chegaram pelas oito e meia. A minha mãe saiu do quarto, claro que esquecida de tudo, mas a pisar o chão, a torná-lo sagrado. Aquilo fazia-me confusão, até porque cada centímetro da casa já fora palmilhado e por isso era como se vivêssemos em cima de um altar e uma Nossa Senhora nos endireitasse as alças da mochila.
Não sei qual era a percepção do Miguel, mas habituei-me a utilizar o plural para preencher a ausência de diálogo entre nós.
Como a casa acordava devagar, percebia-se que de facto a noite varrera o chão e por isso a minha mãe pisava-o pela primeira vez. Eu imaginava pegadas brilhantes como auréolas pequenas, à medida do pé da minha mãe. Do quarto à casa de banho eram só doze ou treze passos. Depois, da casa de banho à cozinha e à sala.
Eu ainda estava de pijama e não me atrevia a segui-la.
Fiquei no hall a ver como corria a vida da casa sem mim porque tencionava encolher-me como se não existisse. A casa mexia-se, eu não era importante. O Miguel passava aos saltinhos, a tropeçar nos cantos; o meu pai entrava e saía para o pátio e a minha mãe enchia cada vez mais de pegadas todos os lugares, até os mais insignificantes. Das quatro irmãs, só a Constança vivia então connosco.
Mas não fazia diferença. Era como se continuassem ali, ou como se nunca tivessem existido. Por exemplo, a Matilde na cozinha a beber Ovomaltine e a ler uma banda desenhada do Tio Patinhas. A Joana acabada de chegar a casa e a ir directa ao quarto para descansar as olheiras. A Inês com ar de desafio e vitória frente a um dia de trabalho. Ou não podermos dizer três frases juntas porque elas estudavam no quarto.
Na cozinha, uma conversa de apaixonados. O meu pai explicava à minha mãe o último projecto de fim-de-semana. Restaurar um modelo de baleeiro. Citava Moby Dick, dizia que a perfeição do modelo deixaria ver Ismael na amurada. O gurupés colocava muitos problemas, o mastaréu estava em condições e o casco requeria nova pintura. Sobretudo, precisava de rebaptizar o barco e já sabia com que nome. A minha mãe sorria ao imaginar o seu nome na amurada do navio.
Entretanto, eu permanecia encolhido a imaginar pegadas no chão, e a pensar se seria mesmo miserável. Sentia falta do meu irmão e não gostava que a vida dele fosse tão simples. Até comer a sopa não representava para ele um desafio. Decidira fazer qualquer coisa.
Entrei no quarto do Miguel e atirei-lhe os lençóis para cima, pondo-me à frente da televisão precisamente quando o desenho animado acabava, para que ele não conseguisse ver o fim da história. Tirei a cassete do vídeo e perguntei-lhe «Queres?». Ele não respondeu e eu ameacei bater-lhe. Em fúria, pegou na cassete e lançou-a contra a parede, cheio de raiva por não a ter visto até ao fim, mas também porque sabia que eu precisava dela para as minhas construções.
Passada uma hora, arrependeu-se. Tentava juntar as peças da cassete mas não conseguia. Pediu-me que a arranjasse ao mesmo tempo que esboçava desculpas por eu o ter importunado. Queria muito ver o fim daquele desenho animado e para isso humilhava-se. Eu enchi-me de paternalismos de irmão mais velho e ajudei-o. «Para a próxima porta-te melhor», aconselhei ao entregar a cassete recomposta mas com a fita desbobinada.
As persianas foram recolhidas, as camas feitas e a loiça tirada da máquina de lavar. O mundo do dia instalado e a minha mãe prestes a sair para o pequeno-almoço. Não havia tempo a perder. Voltei ao quarto do Miguel, que rebobinava a cassete a custo enfiando o dedo no lado errado. Disse que o ajudava e tirei-lha. Fugi. Ele correu atrás de mim a suplicar «Hum! Hum! Cá!» e a berrar o meu nome engolindo quase todas as vogais.
Sempre adorei o meu nome dito por ele. Tornava-se mais irmão ao dizê-lo só em consoantes.
Agarrou-me e tentou morder-me as costas. Eu atirei a cassete para o sofá e segurei-lhe na cabeça para a manter longe de mim. Nessa altura o Miguel já tinha o cabelo à escovinha e por isso não havia muito por onde agarrar, só mesmo as orelhas. Exaustos, escorregámos agarrados um ao outro e ficávamos estendidos no chão a recuperar forças.
Suados depois da luta; irmãos como outros quaisquer que se batem pelos motivos mais obscuros, apenas claros para eles. E era claro, pelo menos para mim: tudo para nesse momento dar um beijo no chão que a minha mãe pisara, e dar esse beijo na companhia dele, que de outra maneira nunca me acompanharia.
O meu pai topou a jogada e disse de passagem para o pátio, para onde levava um pedaço de madeira: «Pois, pois, beija, meu miserável.»