O Meu Irmão
Para chegar lá era preciso muita força…
Para chegar lá era preciso muita força de vontade e, mais do que isso, força nas pernas. O caminho insinuava-se entre pedras e terra. Do cimo pendia uma corda para apoio que não inspirava confiança. Descíamos conscientes de onde pôr os pés, um de cada vez. Os degraus rasos, muito mal paridos, tornavam difícil acertar onde era seguro.
A minha mãe insistiu em calçar saltos altos ou socas, não me lembro, e dizia a cada tropeço
– Alto! Alto!
como se a culpa fosse nossa.
Quando por fim chegámos ao sopé, o que mais impressionou foi o som do mar que ia de encontro à falésia. A praia era de resto uma coisa de areia aos gorgulhos que só tinha interesse por albergar uma colónia de mosquitos que voavam em forma de vapor. Os insectos tentavam fazer manta em cima de nós quando adormecíamos ao sol. Por vezes conseguiam.
Nada disto importava. O meu pai fazia correr a minha imaginação como ninguém e eu não estava naquele lugar. A imaginação apontava para o mar, tal como o dedo do meu pai.
Os cavalos-marinhos rebelaram-se contra os peixes que os montavam, só que cometeram um erro de palmatória: fugiram com as rédeas, a sela e toda essa parafernália ainda equipada. Com o tempo, o comité revolucionário acabou por encontrar utilidade para o erro, montando os semelhantes. Segundo o meu pai, na altura voltava-se a sentir um clima de revolta sob as ondas. Os que eram montados até consentiam em ajudar a revolução, mas não concordavam de forma alguma que o comité lhes ensinasse dressage.
Claro que isto tinha de ser tudo muito explicadinho e eu não percebia nada, mas a imaginação corria mesmo assim.
Alugáramos umas águas-furtadas naquela zona da costa vicentina, talvez na Zambujeira do Mar, e a ideia de irmos à praia da Amália não nos largou até aterrarmos naquele lugar absurdo. De facto, sentíamos a presença da fadista no topo da falésia, onde esta construíra uma casa escondida por um portão às florzinhas de diversas cores.
Encarnado, verde e azul com bolinhas amarelas ao centro.
A minha mãe incrustara-se nas rochas para tentar que os mosquitos passassem sem a picar, o meu pai mostrava apenas o indispensável da cabeça fora de água, mas queixava-se das algas que lhe lambiam as pernas; e eu confesso que me tinha encostado à minha irmã Constança e perguntava-lhe os nomes dos búzios e dos beijinhos. Isto apenas porque os mosquitos – entre mim e ela – escolheriam com certeza a carne feminina.
Só me ocorria «Coitado do Miguel, se aqui estivesse!».
Não devo ter dito assim. Uma criança não usa o conjuntivo.
Claro que coitado dele onde estava. Foi a primeira e última vez. Jurámos para nunca mais, mas realmente teria sido um estorvo muito grande levá-lo connosco por essas praias do Sul onde a rebentação não é para brincadeiras, veja-se a Zambujeira do Mar. Já era crescido de nove ou dez anos mas tinha uma autonomia muito limitada. Ainda usava fraldas, recusava sentar-se numa retrete.
Por isso decidimos
Aqui o plural é majestático.
que ele ficaria melhor durante essa semana numa residência da APPACDM, quer dizer, a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental, uma daquelas casas onde se acumulam deficientes em beliches, à falta de melhor. Ainda por cima, ficava no alcatroado de drogados e prostitutas que é a Rua Gonçalo Cristóvão. Que eu saiba, os auxiliares dedicavam-se muito aos «meninos», como lhes chamavam em qualquer idade. O Miguel dormia no mesmo quarto do Bernardo, o melhor amigo, que saltava sempre para cima de mim.
– Olhem olhem! O irmão do Migas! Do Guel! Do Miguel! – E exigia apertos de mão sucessivos. Aquilo ia num crescendo até que tentava dar-me beijos nos dedos.
Mas lá só tinha o Bernardo. Os outros não lhe interessavam. Não conseguia lidar com alguém que de dois em dois minutos soltava um berro e dizia em simultâneo «Calados, todos!», ou alguém que acordava, roía a perna da cama e voltava a dormir. A Luciana ainda não entrara para a APPACDM, nem era de supor que nessa idade o Miguel se interessasse por ela.
Sim, os auxiliares eram dedicados mas o ambiente deprimia. Chamava-nos muito à realidade. De um lado, o meu irmão. Do outro, os que tinham síndrome de Down. Os dois lados não batiam certo, como se ele não fosse igual aos outros mongolóides.
Naquela penumbra de dormitório, tornava-se evidente que eram todos iguais e a ilusão quebrava-se por força da proximidade.
A praia da Amália foi a cinco dias entrados nas férias, se bem me recordo. Eu começava a pensar que a culpa fora minha. Quer dizer, não minha minha, mas perto. Se nós formávamos um todo, então cada um falhara e a cada um se poderia imputar certo peso naquela traição. O Miguel fora posto de parte, atirado para a residência da APPACDM.
Uma das minhas irmãs, a Inês, namorava na altura um tipo que se tornou depois seu marido. Esteve uns dias connosco – impossível de saudades – mas não aguentou e subiu a Vila do Conde onde os pais dele tinham uma quinta. No comboio, algures Lisboa-Porto, encheu-se de escrúpulos como um afrontamento e foi à APPACDM. Enfim alguém que agia.
Nós ainda não sabíamos de nada.
Saímos da praia e as florzinhas da Amália lá ficaram no topo sem ninguém para as ver. O meu pai levava um saco cheio de percebes que apanhara nos sítios mais perigosos das últimas rochas. Que figura: ao longe na espuma, por entre a espuma e contra a espuma. Por trás da espuma, água. Um perigo. De resto, não se comparavam com os percebes importados. Eram muito piores, uns animais raquíticos e com pouca vida. O meu pai abanava o saco e dizia
– Vêem? – cheio de felicidade.
Talvez aqueles crustáceos péssimos fossem a única coisa boa na praia e o meu pai levava-os cheio de importância escadas acima, enquanto a minha mãe
– Alto! Alto! – por causa das socas ou dos saltos altos.
Eu acho que o meu pai queria impressionar a minha mãe com a apanha. Sem efeito. E tenho a certeza de que se sentiu triste como um rapaz que quer impressionar a namorada e falha. Depois piscou-me o olho.
– E esses cavalos-marinhos, hein?
Entrei no carro enregelado e com tiras de algas pegadas ao cabelo e à pele. Mais uma viagem de uma hora até às águas-furtadas. Adormeci com aquela sensação boa e má de pulmões comprimidos. O balanço do carro fez o resto.
Não havia motivo para ter adormecido em paz. Até era um pouco indecente, eu nisto e o meu irmão na residência, quem sabe sem noção de tempo e a achar que ficaria o resto da vida sem nos ver.
A Inês telefonou-nos à noite. Tínhamos comido os percebes e eu estava com a cara às bolas por causa das alergias.
– Fui buscá-lo e estou na quinta do Pedro. Não aguentei.
A minha mãe sempre teve um jeito feliz de sorrir e disfarçar. Também ela, mais do que qualquer um de nós, sentia remorsos.
– Fez bem – respondeu.
– A quinta é muito bonita, mas sabe que mais?
Eu ouvia a voz da Inês por entre os inchaços e sabia que vinha aí coisa, mas aquelas pústulas ardiam e eu estava desconsolado porque perdera uma oportunidade de assustar o meu irmão. Bastava mostrar-lhe a cara.
Depois rebentou uma frase assim de passagem.
– Hoje o Miguel foi sozinho à casa de banho pela primeira vez.
Só ouvi o clique a desligar. Era um telefone retro, daqueles de roda com números. A minha mãe desligou-o com força.