O Meu Irmão
Agora, que morreu, sinto falta do Quim…
Agora, que morreu, sinto falta do Quim não tanto por ele mesmo mas pela distracção que me proporcionava. É tempo de organizar a partida. Este sítio esgotou-se num trago como a água que bebemos quando temos sede.
Não imaginava testemunhar os últimos dias do Quim, nem calculava que ficássemos tanto tempo no Tojal. Decorreu mais de uma semana desde que chegámos e, num lugar como este, dias valem meses.
Há minutos o Miguel queixava-se de que queria regressar ao Porto. Neste momento assiste no quarto à reposição dos Morangos com Açúcar. Mando «Põe a televisão mais baixo», ao que ele reage com o «Hum!» habitual, fincando patadas no chão. Apetece-me subir ao quarto, abaná-lo, berrar «Não aprendeste nada com o exemplo do Quim? Viste como ele maltratava as pessoas que cuidavam dele?», mas desisto porque se trata de um esforço inglório.
Em vez disso, saio de casa.
No largo, subo as escadas de terra até às últimas casas do Tojal, numa cota mais alta do monte. Os degraus esfarelam-se sob os meus pés.
As únicas habitações vivas do Tojal, a minha e a do senhor Aníbal, expelem fumo pelas chaminés. O panorama da aldeia revela o mesmo cenário de quando chegámos. Das catorze casas, dez permanecem abandonadas, três pertencem aos únicos residentes, o casal de camponeses agora sem o filho, e a décima quarta – a última depois da igreja, à esquerda – é a nossa.
Impedida de penetrar a mata pelos eucaliptos que se perfilam lado a lado, a neblina rasa que ainda agora escalava a encosta encastela-se na estrada. O carro que ao longe galga as primeiras curvas antes do Tojal dispersa a neblina, e esta retorna ao rio.
Atrás de mim a ruína do casebre no qual dois emigrantes da Suíça passavam as férias de Verão. Desviavam a água do nosso poço porque, pelos vistos, necessitavam de um reservatório de uma tonelada para as duas semanas de Agosto. Eu ainda vivia com os pais. Subimos estas escadas e batemos à porta para os confrontar com o problema. A mulher de fato de treino que nos atendeu informou que devíamos falar com o marido mas de momento ele saíra. Quando regressámos no dia seguinte insistiu que o irmão ainda não chegara.
Sim, primeiro marido, depois irmão.
Recuámos como perante uma infectada e deixámos que os emigras nos roubassem a água porque a dúvida entre marido e irmão, ou marido irmão, causou-nos uma repulsa que justificava perdermos duas semanas de férias. Entretanto, o telhado do casebre, a edificação que se elevava sobre o Tojal, abateu e destruiu o interior.
A senhora Olinda escava uma horta no terreno que encabeça a várzea. O senhor Aníbal volta do cemitério descendo a curva que rodeia o cabeço. O Miguel dirige-se a ele. Encetam gestos de conversa.
O carro que dispersou a neblina estaciona junto à fonte, perto da base das escadas. Ouvindo o grito «Mãe, cheguei!», a senhora Olinda larga de imediato a enxada e sobe até à fonte. Mãe e filha encontram-se num abraço quase resvalado sobre o carro.
– Então estás aqui – saúda a senhora Olinda.
– Sim, mas não cheguei a tempo… – responde a filha, acrescentando sem demora: – Pensou na minha proposta?
– Ainda não.
– Mas tem de decidir até amanhã.
– E decido.
Juntas transpõem a porta de casa. Um gato segue-lhes o exemplo. O senhor Aníbal já percebeu que a filha chegou mas o Miguel impede-o de avançar. Barra-lhe o caminho com os braços abertos. Cá de cima não consigo perceber o que dizem. O Camões saltita indeciso entre cheirar o Miguel e o senhor Aníbal.
Acho prudente ouvir a conversa.
Desço as escadas e aproximo-me pela calada. O Miguel enxota o Camões, que o distrai do que pretende dizer com a insistência em abanar a cauda e lamber as mãos. Tenta expressar-se de modo simples para que o senhor Aníbal o entenda, mas as palavras surgem dispersas, atiradas umas contra as outras. Mistura «hospital» com «Loto» e confunde «Luciana» com «João». O senhor Aníbal mostra-se incomodado. Espreita por cima do ombro do Miguel, tentando evitá-lo.
A filha espera-o.
– Ó homem, é que eu não percebo. Diz lá outra vez – sugere ele.
Embora eu saiba perfeitamente o que o Miguel quer contar, quando os alcanço sugiro ao senhor Aníbal «Vá-se lá embora, não se preocupe com ele. Atrapalha-se». Aliviado pela minha intervenção, dirige-se a casa em passos rápidos enquanto endireita o boné. O Camões estica a pata para mim e para o Miguel, lambe o focinho e segue no encalço do dono.