O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 1 de 46

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O Meu Irmão

Raça de Abel, dorme, come e bebe

Deus sorri complacentemente.

BAUDELAIRE

Isto vai passar-se no Tojal. Ora o Tojal é perto de Arouca e longe de tudo o resto.

Percorremos as montanhas e é bom deslizar com o carro no alcatrão por entre as quedas. Há impunidade nisto. Além do mais, não temos compromissos e vamos a toda a velocidade pela vida e pela estrada nestes poucos dias em que seremos livres só para nós dois.

As montanhas, como deuses, bebem água directamente das nuvens. E molham-se como deuses. Mas nada interessa, ainda que à nossa volta as nuvens entreguem um abraço ao cume dos montes. Nós só temos a estrada, e mesmo assim uma estrada batida nas bermas, gasta pela falta de uso e pelo correr da água.

Não nos lembrarmos do sistema vertiginoso esquerda-direita-esquerda e tudo ser uma surpresa só nos torna imbecis, até porque não passaram assim tantos anos. Quantos anos passaram?

Ao largo de uma curva não há nada excepto precipício. Lembro-me de o meu pai dizer que nem a alma se salvaria, presa aos destroços do carro, e além disso misturada com a lixeira que o povo largou no penhasco. Dá para imaginar o arrepio, a alma estropiada no metal e no electrodoméstico.

Mas é uma paisagem sã. Montes em vários tons de verde e pouco mais. Por vezes cruzamos uma povoação mas não se leva a sério: já ninguém vive por aqui. Está tudo deserto e oco.

Como expressar agora as árvores, ficam só «vários tons de verde e mais nada»? As montanhas assim, de pele lisa e ondulada, parecem uma mulher sem roupa, mas em verde. E ainda por cima não servem para nada. O melhor é esconder ao máximo a minha inaptidão para escrever e prosseguir.

Não estamos muito entusiasmados com esta vinda. Observo-lhe o jeito apreensivo de olhar a paisagem, como um bicho cada vez mais encurralado. O cheiro a eucalipto e o som de galhos a estalar nas rodas, algum azul que se revela quando os montes e as nuvens falham. Coisas assim em volta e nós no meio sem as vermos. É que há o medo de os anos se terem sentado na casa como num banco velho. Está com certeza no mesmo sítio, mas não da mesma forma, tal como as pessoas são as mesmas no tempo, mas nunca iguais.

É melhor pararmos. Travo o carro e pergunto-lhe

– Enjoo?

– Nao nao… – responde com um sorriso.

Arranco e dou-lhe a mão porque sei que também tem os meus medos e talvez pense o que eu penso e quem sabe sinta as mesmas saudades. Com certeza sente as mesmas saudades. Somos parecidos de modos diferentes e, dadas as circunstâncias, esta parecença é surpreendente. Como o sangue nos pode juntar e afastar no mesmo movimento.

Além de Ponte de Telhe, uma ponte da época da D. Maria atravessa o Paivô. Por baixo, o riacho é um olho de gato, de tão transparente. Vem não se sabe de onde pelo meio das falésias e desaparece numa curva quase sem ter existido. Continua em fio até penetrar o Paiva.

Esta zona de Portugal fez-se em xisto e até o barulho dos passos fere. É duro viver aqui agarrado ao pedaço mais pequeno de terra, a ver se aquilo dá qualquer coisa para comer. E as pessoas envolvem-se, dão tudo de si ao campo através da enxada. Assim como assim, a pedra torna-se fértil e volta e meia retribui qualquer coisa – couve, milho, batata. Não surpreende que as pessoas desta zona sejam ainda muito parecidas com os mujiques de Tolstoi, apenas não constroem isbás, mas vai dar ao mesmo.

Depois de Ponte de Telhe só existe uma casa antes do Tojal, a dar para a estrada, e não é bem uma casa. Vivia lá um velho que além de beber passava a vida à janela.

Depois de este ter morrido, diz-se que caiu de podre, o meu pai e eu entrámos na casa e tudo veio para cima de nós como um soco: só havia uma divisão pobre com a tal janela pobre. Tudo disposto ao acaso como ele deixara. Uma bilha de leite a um canto, uma mesa de madeira onde repousava uma faca ainda suja de broa humedecida, terra pelos cantos aos tufos, sacos de plástico ao pé de uma cadeira tombada, uma cama com os cobertores por fazer depois de ele ter acordado morto, e acordado morto sozinho. Um martelo noutra mesa cheia de recortes de revistas e jornais começados pela palavra «Portugal».

P. dá cartas no futebol.

P. desligado no São João.

P. volta aos mercados.

P. faz tremer a Zona Euro.

P. regressa ao clube da bancarrota.

P. em recessão, ps. deprimidos.

P. sai dos mercados.

P. sobe no clube da bancarrota.

No chão, ao lado dos recortes, um barril ferrugento da Alcimar Azeitonas de Conserva. Um guarda-chuva pendurado na viga mestra e ainda um saleiro e um espelho caídos perto da cama. Não nos atrevemos a abrir a arca frigorífica, deixámo-la fechada como uma caixa de surpresas porque a surpresa é a caixa permanecer fechada.

Foi muito pior do que isto, daí eu lembrar-me do velho bêbado quando não vem a propósito. O fedor das coisas que sobraram por comer era inacreditável e por isso não lhe chamaria uma natureza-morta, mas sim uma natureza evidentemente morta. Os recortes de Portugal misturavam-se com a putrefacção. O papel na carne e a carne no papel. Acho que o velho morreu porque não entregou a vida à enxada e à terra, e por isso a enxada e a terra não lha entregaram de volta.

Passamos esta última casa antes do Tojal e deixamos o velho. Será que também se lembra?

– Ha muto tempo… – responde.

E fico sem saber. Pode dar-se o caso de associar a pergunta «Lembras-te?» à ideia de passado e do passado nunca é errado dizer que foi «há muito tempo». Quero pensar que sim, que se lembra. Mas não basta lembrar, o essencial da memória é a relação afectiva que mantemos com ela e isso nem sequer me atrevo a compreender. Nunca conseguimos falar de questões abstractas. Deixei de insistir, mas verdade seja dita que nunca me empenhei muito. Porquê, afinal? Para ficarmos humilhados?

E, além disso, eu também não sei o que é o essencial da memória. Fiquemo-nos pela suspeita de que não se lembra, embora não o assuma em letra maior.

Entretanto, claro que já me largou a mão e agora dormita. A mão é áspera. A boca descai e a língua resvala quase até ao queixo, até quase abaixo do queixo. Uma língua que parece morta mas que se mexe. Dou-lhe um safanão no ombro porque temo que a morda num solavanco do carro, e ele acorda com um ar de coisa mal concluída. Digo-lhe «Estamos a chegar».

Na estrada, ao fundo, um grupo de mulheres vestidas de preto apanha umas bolinhas encarnadas que sobre o preto parecem gotas de sangue. E conversam e cantam e estafam-se a apanhar medronhos. Depois fazem aguardente, metem-na em frascos antigos de vidro grosso com defeitos – bolhas de ar, reflexos verdes – e entregam-na aos maridos.

Os maridos que bebem e as espancam porque elas lhes dão motivos para se embebedarem e as espancarem. Bebem em conformidade com as suas vidas circulares.

Há duas viúvas, uma delas com um pano branco na cabeça e um bastão. Tem ar de curandeira, uma figura estranha nos dias de hoje. Não usa o bastão para se apoiar mas sim para bater nas outras quando não fazem o que ela quer. E bate-lhes a sério, vergando a madeira com prazer, talvez excitando-se com o barulho desta no ar. De certeza que gostaria de lhes vergastar as palmas dos pés à noitinha.

Paro, pergunto

– Estão ao medronho?

É a do bastão que responde. As outras observam o bastão a rolar-lhe nos dedos como uma moeda depois de uma aposta, cara ou coroa – sorte ou azar.

– Ah, pois claro. É a época! Mas isto já não é nada como dantes. Havia bom medronho! Agora…

O povo insiste em desdenhar do que possui como demonstração de modéstia. O medronho é óptimo e há-o em cachos por todo o lado como luzes numa feira, acompanhando a estrada.

Aponta o olho para o lugar do morto, já parou de rolar o bastão, e pergunta

– O que tem?…

Aqueles olhos azuis aqui da zona a vasculhar e a lamber, mortos de curiosidade e aflitos por saber o que se passa ao meu lado, quem me acompanha. Quase sou tentado a confessar tudo ou a lançar-lhe um «Deixe-se lá dessas coisas, o caso não é assim tão grave». E não é de facto assim tão grave, mas dar-lhe confiança para quê?

Não respondo. Percorro o volante com as mãos. Aperto-o. Observo o bastão.

– Não quer dar-me uns medronhos? Só para termos uma sobremesa quando chegarmos a casa.

A mais nova enfia as mãos sujas num balde de plástico e faz pingar as bolinhas para um saco. O cheiro do medronho entra no carro pela janela.

Sem mais, partimos e vejo pelo retrovisor que a mulher do bastão continua no meio da estrada a olhar para nós. Depois cruza os braços muito acima da cabeça, num gesto que não sei explicar, lançando um

– Eia! Eia!

que saiu de um ritual ou dança mas sem abanar a cintura. Não sei o que é, mas encaro aquilo como uma praga. Talvez esteja arrependida, não tinha nada que perguntar «O que tem?…».

As curvas, as pedras, as árvores e as encostas excitam a memória. Surge uma vida que vai além da água a escorrer pelo xisto, uma vida que é uma ansiedade. Como um homem que olha para uma mulher, mas a mulher não se oferece nem nada. Simplesmente deixa-se observar.

Quando vê as últimas curvas, quando reconhece os cabos eléctricos que cruzam de monte a monte, mexe-se no banco e esfrega as mãos e range os dentes. Quer tirar o cinto de segurança. Depois esfrega a cabeça e já sei que, se não fizer com que pare, vai ser uma espiral por ali acima, talvez acabando em choro.

Dou-lhe outra vez a mão. Aperto-a tal como apertei o volante, quero guiar-lhe a saudade.

– Ha muto tempo… Muto! Nao e? – pergunta-me.

– Sim, mas estamos quase a chegar. Calma. Já vai. – Convém usar frases curtas.

O Paiva revela-se depois da última curva, e ao cimo, como uma coroa na cabeça do monte, a aldeia do Tojal. Em suma, uma rua com casas de lado e de permeio. Ainda é possível ver o sulco das carroças na pedra do chão. Musgo cobre a base das portas por onde já ninguém entra. Uma ou duas tábuas atiradas para um canto. Alguns gatos que vivem nas ruínas. Mais nada.

Das catorze casas de xisto, dez estão abandonadas, três pertencem às únicas pessoas que aí vivem, um casal de camponeses e o filho, e a décima quarta – a última depois da igreja, à esquerda – é a nossa.