O Meu Irmão
Manhã. Observo o Quim na várzea. Apoia-se…
Manhã. Observo o Quim na várzea. Apoia-se no capot do tractor com a mão esquerda. Talvez devesse prevenir os pais dele, ou dissuadi-lo de tanta amargura. Que olhe para as coisas boas da vida, os livros dizem-me que existem tantas.
Porventura esqueceu-se da nossa conversa. Cá de cima parecem bichinhos a escarafunchar na terra. O tractor sobrepõe-se em tamanho. Não usam as mãos como antigamente, mas afeiçoaram-se tanto à enxada que a mão, tendo segurado tantas vezes no cabo, deixou aí impressa a sua forma e a sua carne. Por isso vai dar ao mesmo, estrumam a terra com as mãos, como antigamente.
Os berros da senhora Olinda saltam por cima do barulho do tractor e ferem os ouvidos do senhor Aníbal.
Mal os conheço e no entanto lembram uma multidão, é como se de súbito na várzea coubesse o mundo inteiro. E assim, também de repente, sinto que as minhas ambições de fraternidade se adequam mais a amar a humanidade, a tornar-me irmão da massa, do que a amar o indivíduo, mesmo que esse indivíduo seja de facto meu irmão. Seja o Miguel. É mais fácil amar o que não existe, ou o que existe apenas em nós (um sonho, uma ambição).
O Quim observa-os e eu sei o que isso significa. Trata-se de ódio, ou algo parecido, e esse ódio lembra-me as confissões de ontem. Assim, a pequena família passa do abstracto para o concreto. Tão subitamente como me interessei por eles enquanto multidão, deixo de me interessar por eles enquanto indivíduos. Se a primeira impressão tivesse durado mais, falaria com eles, com a senhora Olinda e com o senhor Aníbal, para os aconselhar, para os prevenir contra o filho, mesmo não tendo nada com isso. No entanto, agora que sob o olhar do Quim voltaram à categoria de Aníbal e Olinda, não me interessa o que lhes venha a acontecer.
Que importância têm bichinhos-de-conta?
Para mais, o Quim está tão doente que há-de morrer antes de conseguir fazer-lhes mal, se é que alguma vez teria coragem. Só em literatura dizer é fazer, e ele diz muito, porém faz pouco.
Por momentos a senhora Olinda agacha-se e alça o rabo para o ar. Um grande contorno. Os olhos do Quim desviam-se, talvez devido ao pudor. A enxada não alcança por baixo de um tronco raso, mas ela não tem objecção em estrumar de novo com as mãos, como antigamente. Usado desse modo, o estrume não é merda não é nada, só um amassado de terra e água e outros elementos vitais. Ela deita-se e envolve-se na terra como se fizesse um filho. Deitada no solo, preenche todos os cantos por baixo do tronco. Nisto pergunta «Que queres tu, Aníbal?» e bate com a mão na cintura para limpar a terra e o estrume. Aí sim, sobre o vestido, o estrume já é mesmo merda.
O que eu gostava de juntar as minhas mãos às dela. Penetrar na terra e entrar em contacto com o que é vital, mesmo que, no fim, a terra ficasse entranhada por baixo das unhas e a pele impregnada de cheiro. Fazer algo na vida em vez de me dedicar ao estudo do verbete.
O sol bate no campo acendendo a terra. Levanta-se ao nível dos joelhos uma neblina suada. Por hoje é tudo. Preparam-se para subir. A senhora Olinda pergunta
– O que é que tens, ó Quim?
e ele responde
– O mesmo de sempre.
Não falam mais porque o Quim engata a primeira. O manípulo das mudanças é longo e fino como as pernas do Quim, a lembrar um filme do Tim Burton. A senhora Olinda deve pensar que «o mesmo de sempre» é a doença e sente-se constrangida, não quer falar sobre isso. No fundo, arrepende-se de ter parido um doente, e de esse doente ainda por cima ser um triste. Uma mãe que ama, e ama muito, mas que preferia ter abafado o filho à nascença. Regressam pelo caminho de ontem. As pernas do Quim a pedalarem até ao fundo porque o disco da embraiagem gripou.
Leva sempre a bengala presa de lado à caixa do tractor, a mesma caixa onde voltámos do Paiva pelo espinhaço do monte.
Movimento na cozinha. O Miguel dormiu mal. Ouvi-o na casa de banho a ranger os dentes e a beber água da torneira. Reage como as crianças com febre que se levantam constantemente e sentem que os contornos dos móveis são definidos e ásperos, ou que a base da língua precisa de mais humidade.
Não sei porquê, nem se de facto é assim, mas existe um rácio entre a infelicidade dele e a minha felicidade. Não falo de um rácio de progenitor, tampouco de irmão. Chamemos-lhe só rácio. Quanto mais infeliz ele é, mais feliz me torno. Faço-me feliz em ajudá-lo, em tirá-lo da infelicidade e devolvê-lo à condição de anjo ferido, anjo na Terra, embora não saiba em que consiste essa condição.
Costumo adormecer mais reconfortado quando o ouço aflito na casa de banho, sentado na retrete só porque é um sítio como outro qualquer para remoer as mágoas. Sei que no dia seguinte entrarei em acção para resolver os problemas, para o aconselhar se preciso e amparar também, mesmo que isso vá contra a minha natureza, porque francamente penso que por esta altura o Miguel já devia ter superado a ausência da Luciana.
Como é que uma rapariga como ela pôde ser tão importante?
Hoje está melhor, como os doentes pela manhã. Sentou-se no sofá da sala e arranjou um local de trabalho. Folha A5 e um lápis roubado da minha pasta. Rabisca a folha tão fundo, com tal violência, que quebra a ponta mais de uma vez e vê-se obrigado a pedir que lhe apare o lápis. Não escreve, nunca soube escrever. Desenha na medida dos possíveis.
Já referi que um dia a Augusta lhe ofereceu um jogo de pintura. Bastava aplicar a moldura sobre uma folha e seguir os contornos com um lápis de cor. Ofereceu-me o primeiro desenho que fez, um cowboy com o chapéu bem desenhado, mas o olho esquerdo descaído até ao queixo em jeito de AVC.
Aproxima-se e entrega-me um papelinho mal dobrado em dois. Desenhou uma bola com muito cabelo à volta. Dois pontos por olhos e um traço por boca. Diz
– Ves, e a Luciana.
Respondo
– Sim… Bonita.
e ele remata
– Nita.
Coloca a mão sobre o meu ombro num gesto de camaradagem. Afaga-me três vezes o braço, com carinho, e sobe para o quarto. Liga a televisão.
Entretanto o tractor subiu e passou. O senhor Aníbal conseguiu sentar-se no lugar do morto em vez de se alojar na caixa. «Vai-se bem aconchegado, não é, Olinda?» Excepcionalmente, os berros dele soam mais alto do que os berros dela. «É pois», responde a mulher, e conclui «Mas amanhã vou eu». Como tem pouco poder sobre o Quim, a senhora Olinda usa o poder remanescente sobre o senhor Aníbal. Bastava não ter dito «amanhã vou eu» para que ele se sentisse senhor do tractor, da estrada que o tractor sobe, do campo de onde o tractor veio e da mulher que o acompanha no tractor.